Lição 6
Comparison of Different Kinds of Incontinence
Investigaremos, porém, por que a incontinência que é da ira é menos torpe do que a que é das concupiscências. [1385]
Com efeito, a ira parece ouvir a razão sob certo aspecto, mas ouvir mal. Assim como os servos apressados, por exemplo, antes de ouvir tudo o que se diz correm a executar, e depois erram na ação; e os cães ficam atentos, se é um amigo, mas latem ao menor ruído que se faça. Assim a ira, por causa do calor e da velocidade de sua natureza, ouve de fato, mas, não ouvindo o preceito, move-se para a punição. Pois a razão ou a imaginação manifestou que há injúria ou desprezo, e ela, como que raciocinando que é preciso combater tal coisa, irrita-se imediatamente; a concupiscência, porém, se apenas a razão ou o sentido diz que algo é deleitável, move-se para o gozo. Por isso a ira segue de algum modo a razão, mas a concupiscência não. [1386-89]
É, portanto, mais torpe; pois o incontinente da ira é de algum modo vencido pela razão, mas o incontinente da concupiscência não o é pela razão. Além disso, os apetites naturais conseguem maior perdão, porque também às concupiscências deste tipo, enquanto comuns a todos e enquanto comuns, dá-se maior perdão. Ora, a ira é mais natural e mais difícil de resistir do que as concupiscências que são de superabundância e não necessárias. Como aquele que, respondendo por ter agredido o pai, disse: Também ele bateu no seu próprio pai, e aquele no de cima, e mostrando o filho: Também este me baterá, disse, quando se tornar homem; pois é congênito à nossa família. E aquele que, arrastado pelo filho, mandou-o parar junto à porta; pois ele mesmo havia arrastado o pai até ali. [1390]
Além disso, os que mais armam ciladas são mais injustos. O iracundo, pois, não arma ciladas, nem a ira, mas é manifesta; a concupiscência, porém, sim. Como dizem de Vênus: Da dolosa Cipriogênita, e: A correia bordada. E Homero: O engano que furtou o intelecto do muito sábio. Por isso, se esta incontinência que diz respeito à concupiscência é mais injusta e mais torpe do que a que diz respeito à ira, ela é também incontinência em sentido absoluto e de algum modo malícia. [1393]
Além disso, ninguém que age comete injustiça estando triste; mas quem age por ira, todos agem tristes; ao passo que o que comete injustiça age com deleite. Se, portanto, aquilo contra o que é máximo justo irritar-se é mais injusto, também a incontinência que é por causa da concupiscência o é; pois na ira não há injúria. Que, pois, a incontinência que diz respeito às concupiscências é mais torpe do que a que diz respeito à ira, e que há continência e incontinência acerca das concupiscências e dos deleites corporais, é manifesto. [1396]
Deve-se, porém, tomar as diferenças destas mesmas. Pois, como se disse segundo os princípios, umas são humanas e naturais tanto em gênero quanto em magnitude, outras são bestiais, e outras existem por causa de mutilações e enfermidades. [1398]
Destas, acerca das primeiras há somente temperança e intemperança. Por isso também não dizemos que as bestas sejam temperantes nem intemperantes, a não ser por metáfora, e se algum gênero de animais difere totalmente de outro na petulância e na estultícia e no ser onívoro; pois não têm escolha nem raciocínio, mas afastaram-se da natureza como os homens insanos. [1399]
A bestialidade é, porém, menos malícia, mas mais terrível; pois nela não está corrompido o que é ótimo, como no homem, mas está corrompido e ela não o tem. É semelhante, portanto, a comparar o inanimado ao animado, qual dos dois é pior; pois é sempre mais inocente a perversidade daquele que não tem princípio, sendo o intelecto o princípio. É semelhante, pois, a comparar a injustiça ao homem injusto; pois um e outro é de certo modo pior, uma vez que o homem mau fará dez mil vezes mais males do que a besta. [1401]
1385. Investigaremos, porém, por que a incontinência que é da ira é menos torpe etc. Depois de o Filósofo ter mostrado como a incontinência se dá de modo diverso acerca de coisas diversas, aqui compara as diversas incontinências entre si.
E primeiro compara a incontinência das concupiscências do tato, que é incontinência em sentido absoluto, à incontinência da ira, que é incontinência sob certo aspecto;
segundo, compara a incontinência humana à incontinência bestial ou enfermiça, ali: deve-se, porém, tomar as diferenças destas mesmas etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas.
Primeiro propõe o que pretende. E diz que se deve considerar que a incontinência da ira é menos torpe do que a incontinência das concupiscências do tato, acerca das quais há temperança e intemperança.
1386. Segundo, ali: com efeito, a ira parece etc., prova o proposto com quatro razões.
Acerca da primeira delas, diz que a ira parece de algum modo ouvir a razão, na medida em que o irado de certo modo raciocina que, por causa da injúria a ele feita, deve infligir vingança, mas ouve mal, isto é, ouve imperfeitamente a razão, porque não se preocupa em atender ao juízo da razão acerca da quantidade e do modo da vingança; nos animais que carecem de razão encontra-se, de fato, a ira, assim como outras obras semelhantes à razão, por instinto natural.
1387. Introduz, porém, para a manifestação do proposto, dois exemplos,
o primeiro dos quais é sobre os servos que são muito apressados, os quais, antes de ouvir tudo o que lhes é dito, correm a executar, e assim segue-se que erram na execução da ordem que não ouviram perfeitamente;
o outro exemplo é sobre os cães que, ao primeiro ruído de quem bate à porta, latem, antes de atender se aquele que bate à porta é alguém dos familiares ou amigos. E assim se dá com a ira, que em algo ouve a razão, mas, por causa do calor natural e da velocidade da cólera que move à ira, antes de ouvir todo o preceito da razão move-se a punir.
1388. Como isto se dá, mostra acrescentando: ( pois a razão etc.) Manifesta-se, com efeito, ao homem que lhe foi feita injúria ou desprezo, às vezes pela razão, como quando isto é verdadeiro, e às vezes pela imaginação, por exemplo, quando ao homem assim parece embora não seja, e o homem irado quase raciocina que é preciso combater aquele que comete injúria e determina um modo indevido, e assim imediatamente se irrita movendo-se à vingança antes que lhe seja determinado pela razão o modo da vingança; mas a concupiscência, tão logo lhe é anunciado o deleitável pela razão ou pelo sentido, move-se a fruir aquele deleitável sem nenhum raciocínio da razão.
1389. E a razão desta diferença é que o deleitável tem caráter de fim por si apetecível, o qual é como princípio não raciocinado; ao passo que o dano a ser infligido a outro não é por si apetecível como fim, o qual tem caráter de princípio, mas como útil ao fim, o que tem caráter de conclusão nas coisas agíveis; e por isso a concupiscência não move raciocinando, mas a ira move raciocinando. Daí vem que a ira segue de algum modo a razão, mas a concupiscência não, a qual segue somente o próprio ímpeto. Ora, por isto é algo torpe nas coisas humanas o que está fora da razão. Assim, pois, fica claro que o incontinente da concupiscência é mais torpe do que o incontinente da ira, porque o incontinente da ira é de algum modo vencido pela razão, mas não o incontinente da concupiscência.
1390. Põe a segunda (razão) ali: além disso, os apetites naturais etc. E diz que, se alguém peca acerca daquilo que naturalmente apetece, merece maior perdão, e sinal disto é que às concupiscências comuns, por exemplo, de comida e bebida, dá-se maior perdão, porque são naturais, contanto, porém, que se tomem enquanto são comuns (pois a concupiscência de comida é comum e natural, mas não a concupiscência de comida assim preparada). Ora, a ira é mais natural e resiste-se-lhe com mais dificuldade do que às concupiscências, não às comuns, que são necessárias e naturais, acerca das quais não se peca muito, mas àquelas concupiscências pelas quais se cobiçam certas coisas supérfluas, que não são necessárias, acerca das quais acima, no terceiro livro, disse haver temperança e intemperança.
1391. Com efeito, é natural ao homem ser animal manso, segundo a natureza comum da espécie, na medida em que é animal social; pois todo animal gregário é naturalmente assim; (mas) segundo a natureza de algum indivíduo, que consiste na compleição do corpo, às vezes segue-se grande propensão à ira por causa do calor e da sutileza dos humores facilmente inflamáveis; ao passo que a concupiscência do supérfluo, por exemplo, de comida delicadamente preparada, segue mais a imaginação e é paixão do animal, mais do que segue a compleição natural.
1392. Por isso a propensão à ira propaga-se facilmente do pai para o filho, como algo que segue a compleição natural, como fica claro no exemplo que acrescenta: pois um certo, tendo sido repreendido por agredir o pai, respondeu que este, isto é, seu pai, havia também agredido o próprio pai, e aquele havia também agredido o pai anterior, e, mostrando o próprio filho, disse: (Também este, quando chegar à idade viril, me agredirá; pois isto é conatural à nossa família). Põe também outro exemplo sobre aquele que, sendo arrastado pelo próprio filho, mandou-o parar quando tivesse chegado à porta, porque ele mesmo havia arrastado o próprio pai até aquele lugar. Assim, pois, porque a ira é mais natural, é menos torpe o incontinente da ira.
1393. Põe a terceira razão ali: além disso, os que mais armam ciladas etc. E diz que aqueles que mais pecam por ciladas são mais injustos, porque, além de ferirem, também enganam. Ora, o iracundo não age como quem arma ciladas, mas quer manifestamente infligir vingança (pois não ficaria contente se aquele que é ferido por ele não soubesse que era ferido por isso, porque o havia ofendido), nem tampouco a ira surge oculta e insidiosamente, mas com certo ímpeto; ao passo que a concupiscência dos deleitáveis surge oculta e quase insidiosamente, porque, sendo o deleitável por si nato a mover o apetite, tão logo é apreendido arrasta a si o apetite, a não ser que a razão seja diligente em proibi-lo.
1394. Por isso alguns dizem, falando de Vênus: (Da dolosa Cipriogênita); pois Vênus foi rainha de Chipre, donde é chamada Cipriogênita, como que nascida em Chipre, e atribuem-lhe algo como que de dolosa; e dizem que sua correia é bordada, pela qual se entende a concupiscência que liga as mentes, e diz-se ser bordada porque tende para algo que aparece como bom na medida em que é deleitável e todavia é mau em sentido absoluto. E Homero diz que o engano de Vênus furtou o intelecto densamente, isto é, muito, do sábio, porque também às vezes a concupiscência entra ocultamente nos corações daqueles que são muito sábios e liga neles o juízo da razão no particular.
1395. Por isso esta incontinência que diz respeito às concupiscências é mais injusta e mais torpe do que aquela que diz respeito à ira e, se isto é verdadeiro, segue-se que seja incontinência em sentido absoluto a incontinência que diz respeito às concupiscências, como acima se disse, e que seja de algum modo malícia, na medida em que é insidiosa, não porque aja pela razão, mas porque entra ocultamente.
1396. Põe a quarta razão ali: além disso, ninguém etc. E diz que ninguém que age com tristeza comete injúria (pois foi mostrado acima, no quinto livro, que aquele que faz algo involuntariamente, falando por si, não faz o injusto senão por acidente, na medida em que acontece que aquilo que faz é injusto; ora, aquilo que fazemos com tristeza parecemos fazê-lo involuntariamente); mas todo aquele que faz algo por ira faz isto entristecido (não porque se entristeça da vingança que inflige, mas antes com ela se alegra, entristece-se porém da injúria a ele feita e disto é movido à ira; e assim não é simplesmente involuntário, porque de nenhum modo lhe seria imputado o que faz, mas tem o voluntário misturado com o involuntário, donde menos lhe é imputado o que faz, na medida em que faz provocado); ao passo que aquele que comete injúria, como quem faz o injusto por si, opera voluntário e com deleite.
Se, portanto, parecem ser mais injustas aquelas coisas contra as quais mais justamente nos irritamos, segue-se que a incontinência que é por causa da concupiscência é mais injusta, porque contra ela mais justamente nos irritamos, como contra quem age mal totalmente de modo voluntário e com deleite; ao passo que na ira não há primariamente injúria, mas antes naquele que provocou à ira, donde menos justamente nos irritamos contra o irado que, provocado, peca com tristeza, e assim é menos injusto.
1397. Assim, pois, epilogando, conclui ser manifesto que a incontinência que diz respeito às concupiscências é mais torpe do que a que diz respeito à ira e que a incontinência e a continência em sentido absoluto dizem respeito às concupiscências e aos deleites corporais.
1398. Em seguida, quando diz: deve-se, porém, tomar as diferenças destas mesmas etc., compara a incontinência humana à incontinência bestial.
E acerca disto faz três coisas:
primeiro, retoma a diferença das concupiscências e dos deleites;
segundo, mostra acerca de quais delas há temperança e intemperança e, por consequência, continência e incontinência, ali: destas, acerca das primeiras etc.;
terceiro, compara a malícia ou incontinência humana à bestial, ali: a bestialidade é, porém, menos malícia etc.
Diz, pois, primeiro que, porque a continência e a incontinência dizem respeito aos deleites corporais, é preciso tomar as diferenças destes. Pois há algumas delas, como antes se disse, humanas e naturais, isto é, consoantes à natureza humana, tanto quanto ao gênero, que se considera segundo aquilo que se apetece, quanto quanto à magnitude, que se atende segundo o modo de apetecer, ou intenso ou remisso; outras, porém, não são naturais, mas bestiais, por causa da natureza perniciosa; ou sobrevêm por causa de mutilações e enfermidades, entre as quais se computam também os maus costumes.
1399. Em seguida, quando diz: destas, porém etc., mostra acerca de quais destas concupiscências há temperança. E diz que a temperança e a intemperança são somente acerca das primeiras concupiscências, isto é, as humanas e naturais. E daí vem que não dizemos das bestas, falando propriamente, que sejam temperantes nem intemperantes, mas talvez falando metaforicamente de um animal por comparação a outro, na medida em que um gênero de animais difere de outro na petulância, isto é, no fato de um ser mais petulante, isto é, mais torpe e de vida mais imunda, do que outro, como o porco do que a ovelha, e na estultícia, isto é, na tolice de todo tipo, no fato de um ser mais tolo do que outro, como o asno do que o cavalo; e no fato de um ser voraz em todas as coisas, como o lobo;
1400. donde, por comparação destes animais que exorbitam em tais coisas, outros gêneros de animais dizem-se por semelhança temperantes ou prudentes, mas não propriamente, porque nenhum deles tem escolha nem pode raciocinar, mas está separado da natureza racional, assim como também os homens insanos (que) perderam o uso da razão. Disse-se, porém, acima que o temperante e o intemperante agem com escolha, e por isso a temperança e a intemperança não estão nas bestas nem nos homens bestiais, nem tampouco acerca das concupiscências bestiais.
1401. Em seguida, quando diz: a bestialidade é, porém, menos malícia etc., compara a malícia ou incontinência bestial à humana. E diz que a bestialidade tem menos de caráter de malícia, se se considera a condição da besta ou do homem bestial, mas a bestialidade é mais terrível, porque faz maiores males. E que a bestialidade tenha menos de malícia, prova-o por isto: que na besta aquilo que é ótimo, isto é, o intelecto, não permanece como corrompido e depravado, tal como permanece no homem mau, mas está totalmente tão corrompido que nada tem daquilo.
1402. Por isso comparar a besta ao homem mau, qual seja pior, é semelhante a comparar o inanimado ao animado; os inanimados, com efeito, podem ferir mais, como quando o fogo queima ou a pedra esmaga, mas afastam-se mais do caráter de culpa; pois é sempre mais inocente a perversidade daquele que não tem princípio das ações, porque menos se lhe pode imputar algo à culpa, a qual por isto se imputa ao homem, porque tem o princípio pelo qual é senhor de seus atos, princípio este que é o intelecto, o qual nas bestas não existe. Assim, pois, como se compara a besta ao homem, assim se compara a injustiça ao homem injusto;
1403. pois o hábito da injustiça, segundo a própria natureza, tem inclinação ao mal, mas o homem injusto tem em seu poder inclinar-se para o bem ou para o mal; pois é de certo modo um e outro pior, isto é, tanto o injusto do que a injustiça quanto o homem mau do que a besta, porque um homem mau pode fazer dez mil vezes mais males do que a besta, por causa da razão que tem para excogitar males diversos. Assim, pois, como a besta tem menos de culpa do que o homem mau, mas é mais terrível, assim também a malícia ou incontinência bestial é, de fato, mais terrível, mas de menor culpa e mais inocente do que a incontinência ou malícia humana; donde, se alguns dementes ou naturalmente bestiais pecam, menos são punidos.