Lição 10
Opposition among the Virtues and Vices
Havendo três disposições, duas delas vícios, uma segundo o excesso, outra segundo o defeito, e uma virtude que é o meio-termo, cada uma se opõe de algum modo a todas as demais, pois os extremos são contrários tanto entre si quanto ao meio, e o meio é contrário aos extremos. [358]
Pois assim como o igual é maior em relação ao menor, mas menor em relação ao maior, assim também os hábitos intermediários excedem em relação aos defeitos, mas são deficientes em relação ao excesso, tanto nas paixões quanto nas operações. Pois o corajoso, em relação ao tímido, parece audaz, mas em relação ao audaz parece tímido. Do mesmo modo, também o temperante, em relação ao insensível, parece intemperante, mas em relação ao intemperante parece insensível; e o liberal, em relação ao avarento, parece pródigo, mas em relação ao pródigo parece avarento. [359]
Por isso também os extremos lançam o meio um contra o outro e chamam o corajoso: o tímido chama-o audaz, e o audaz chama-o tímido; e proporcionalmente ocorre o mesmo nos demais casos. [362]
Estando assim opostos entre si, é maior a contrariedade dos extremos entre si do que em relação ao meio, pois estes distam mais entre si do que do meio, assim como o grande dista mais do pequeno e o pequeno do grande do que ambos distam do igual. [363]
Além disso, entre o meio e alguns extremos parece haver certa semelhança, como entre a audácia e a coragem, e entre a prodigalidade e a liberalidade; mas entre os extremos, um em relação ao outro, há a máxima dessemelhança; ora, aquilo que mais dista entre si determina-se como contrário; portanto, são mais contrárias as coisas que mais distam. [364]
Ao meio, porém, em alguns casos opõe-se mais o defeito, em outros o excesso. Por exemplo, à coragem não se opõe mais a audácia, que é excesso, mas a timidez, que é defeito; à temperança, por sua vez, não se opõe mais a insensibilidade, que é indigência, mas a intemperança, que é excesso. [365]
Isto acontece por duas causas, uma das quais decorre da própria coisa. Pois, sendo um dos extremos mais próximo e mais semelhante ao meio no seu modo de ser, não a este, mas ao contrário opomos mais fortemente; por exemplo, porque a audácia parece ser mais semelhante e mais próxima da coragem, e a timidez mais dessemelhante, opomos mais fortemente esta última, pois as coisas que mais distam do meio parecem ser-lhe mais contrárias. Esta, pois, é uma das causas, decorrente da própria coisa. A outra decorre de nós mesmos.
Pois aquilo para o que nós mesmos estamos de algum modo mais inclinados por natureza parece ser mais contrário ao meio; por exemplo, nós mesmos estamos mais inclinados por natureza aos prazeres, e por isso somos mais facilmente movidos à intemperança do que à temperança. Dizemos, portanto, ser mais contrárias aquelas coisas para as quais mais facilmente tende o crescimento. E por isso a intemperança, que é excesso, é mais contrária à temperança.
358. Havendo três disposições etc. Depois que o Filósofo mostrou em geral o que é a virtude e aplicou a definição comum às virtudes particulares, aqui determina a respeito da oposição entre as virtudes e os vícios.
E acerca disto faz três coisas:
primeiro, mostra que nestes há uma dupla contrariedade, uma dos vícios entre si, outra dos vícios em relação à virtude;
segundo, mostra que é maior a contrariedade dos vícios entre si do que em relação à virtude, ali: estando assim opostos entre si etc.;
terceiro, mostra como um dos vícios se opõe mais à virtude do que o outro, ali: ao meio, porém etc.
Acerca do primeiro ponto, faz três coisas:
primeiro, propõe o que pretende;
segundo, prova o proposto, ali: pois assim como o igual etc.;
terceiro, infere um corolário do que foi dito, ali: por isso também lançam etc.
Diz, pois, primeiro que, havendo três disposições, das quais duas são viciosas, uma a saber segundo o excesso, outra segundo o defeito, e uma segundo a virtude, que está no meio, cada uma delas se opõe de algum modo a qualquer outra, porque as disposições extremas são contrárias tanto entre si quanto à disposição intermediária, e também a disposição intermediária lhes é contrária.
359. Em seguida, quando diz: pois assim como o igual etc., prova o que havia dito. Não foi, porém, necessário provar que os dois vícios que se comportam segundo o excesso e o defeito são contrários, uma vez que distam ao máximo; mas parecia duvidoso o que se disse, a saber, que a virtude é contrária aos vícios, porque, estando a virtude no meio dos vícios, não dista ao máximo de nenhum deles, ao passo que a contrariedade é a máxima distância, como se diz no livro X da Metafísica; e por isso o Filósofo mostra aqui especialmente que a virtude é contrária a ambos os vícios.
360. Acerca do que se deve considerar que, participando o meio de algum modo de ambos os extremos, na medida em que participa de um deles, é contrário ao outro; assim como o igual, que é o meio entre o grande e o pequeno, é pequeno em comparação com o grande e é grande em comparação com o pequeno, e por isso o igual se opõe ao grande sob a razão de pequeno e ao pequeno sob a razão de grande; e por causa disto há movimento do contrário para o meio como também para o contrário, conforme se diz no livro V da Física.
361. Assim, portanto, os hábitos intermediários, constituídos tanto nas paixões quanto nas operações, comportam-se como excessivos em relação àquele que está no defeito e comportam-se como deficientes em relação àquele que excede. Assim, o corajoso, em comparação com o tímido, é audaz, mas em comparação com o audaz é tímido. E do mesmo modo o temperante, em comparação com o insensível, é intemperante, mas em comparação com o intemperante é insensível. Assim também ocorre com o liberal, que é pródigo em comparação com o avarento, mas avarento em comparação com o pródigo. E assim fica evidente que a virtude é contrária a ambos os extremos.
362. Em seguida, quando diz: por isso também lançam etc., infere um corolário do que foi dito. Pois, comportando-se o hábito intermediário em comparação com um extremo sob a razão do outro, daí vem que os extremos lançam o meio um contra o outro, isto é, cada um dos que estão no extremo julga o meio como se fosse o outro extremo a ele oposto, assim como o tímido chama o corajoso de audaz e o audaz o chama de tímido. O que também é sinal daquilo que se disse, a saber, que a virtude é contrária a ambos os extremos.
363. Em seguida, quando diz: estando assim opostos etc., mostra que é maior a contrariedade dos vícios entre si do que em relação à virtude, e isto por duas razões.
A primeira delas é que, quanto mais as coisas distam entre si, tanto mais são contrárias, porque a contrariedade é uma certa distância; ora, os extremos distam mais entre si do que do meio, assim como o grande e o pequeno distam mais entre si do que do igual, que é o meio entre eles; logo, os vícios se opõem mais entre si do que em relação à virtude. Deve-se, porém, aqui considerar que ele fala aqui da oposição da virtude aos vícios não segundo a razão de bem e de mal, porque, segundo isto, ambos os vícios estariam contidos sob um único extremo, mas fala enquanto a virtude, segundo a sua própria espécie, está no meio de dois vícios.
364. Apresenta a segunda razão ali: além disso, entre o meio etc. E é esta: entre a virtude e um dos extremos há alguma semelhança, como entre a coragem e a audácia e entre a prodigalidade e a liberalidade; mas entre os dois vícios extremos há total dessemelhança; logo, opõem-se ao máximo entre si, porque a contrariedade implica a máxima distância, como se disse.
365. Em seguida, quando diz: ao meio, porém etc., mostra que um dos extremos se opõe mais à virtude do que o outro.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, propõe o que pretende;
segundo, atribui a razão, ali: por duas causas, porém etc.
Diz, pois, primeiro que em alguns casos se opõe mais ao meio da virtude o vício que está no defeito, mas em outros mais o vício que está no excesso. Assim, à coragem não se opõe ao máximo a audácia, que pertence ao excesso, mas a timidez, que pertence ao defeito; ao contrário, porém, à temperança não se opõe ao máximo a insensibilidade, à qual pertence a indigência e o defeito, mas a intemperança, à qual pertence o excesso.
366. Em seguida, quando diz: por duas causas, porém etc., atribui duas razões para o que havia dito. Uma delas se toma da parte da própria coisa, isto é, da própria natureza das virtudes e dos vícios. Pois foi dito acima que há certa semelhança de um dos extremos com o meio da virtude, e pelo próprio fato de um dos extremos ser mais próximo e mais semelhante ao meio da virtude do que o outro, segue-se que não aquilo que é mais semelhante é mais contrário à virtude, mas aquilo que a ela se opõe; assim, se a audácia é mais semelhante à coragem e mais próxima, segue-se que a timidez é mais dessemelhante e, por consequência, mais contrária, porque as coisas que mais distam do meio parecem ser-lhe mais contrárias. A razão destas coisas, porém, deve ser tomada da própria natureza das paixões,
367. pois isto que aqui se diz acontece nas virtudes morais que dizem respeito às paixões, às quais pertence conservar o bem da razão contra os movimentos das paixões. Ora, a paixão pode corromper o bem da razão de dois modos.
De um modo, pela veemência do seu movimento, impelindo a fazer mais do que a razão dita, o que ocorre principalmente nas concupiscências dos prazeres e nas outras paixões que pertencem à busca do apetite; por isso a virtude que diz respeito a paixões deste gênero visa sobretudo reprimir tais paixões, e por causa disto o vício que está no defeito assemelha-se mais a ela, e o que está no excesso lhe é mais contrário, como fica claro no caso da temperança.
Algumas paixões, porém, corrompem o bem da razão retraindo para menos daquilo que é segundo a razão, como fica claro no caso do temor e das outras paixões que pertencem à fuga; por isso a virtude que diz respeito a paixões deste gênero visa sobretudo firmar o ânimo no bem da razão contra o defeito, e por causa disto o vício que está no defeito lhe é mais contrário, como fica claro no caso da coragem.
368. Atribui, porém, outra razão da nossa parte. Pois, uma vez que à virtude pertence repelir os vícios, a intenção da virtude visa antes repelir aqueles vícios para os quais temos maior inclinação, e por isso aqueles vícios para os quais estamos de algum modo mais inclinados por natureza são mais contrários à virtude, assim como estamos mais inclinados por natureza a buscar os prazeres do que a fugir deles, e por causa disto somos facilíssimamente movidos à intemperança, que implica o excesso dos prazeres. Assim, portanto, dizemos serem mais contrários à virtude aqueles vícios que mais naturalmente tendem a crescer em nós, por causa de estarmos naturalmente inclinados a eles. E por isso a intemperança, à qual pertence o excesso dos prazeres, é mais contrária à temperança do que a insensibilidade, como se disse acima.