Lição 8
Happiness Not Sought in the Separated Good
Mas talvez estas coisas se devam deixar agora. Pois determiná-las com certeza será mais próprio de outra filosofia. E do mesmo modo também acerca da ideia.
Pois, mesmo que haja algo uno predicado em comum como bem, ou algo separável que seja ele mesmo por si mesmo, é manifesto que não será algo operado nem possuído pelo homem. Ora, é algo desse tipo que se busca. [97]
Mas talvez a alguém pareça ser melhor conhecê-lo em vista dos bens possuídos e operados. Pois, tendo-o como que por exemplar, saberemos melhor também quais coisas são bens para nós e, se as soubermos, alcançá-las-emos. [99]
Este discurso, na verdade, tem certa probabilidade, mas parece dissoar das ciências. Pois todas, apetecendo algum bem e buscando aquilo de que carecem, deixam de lado o conhecimento dele, ainda que não seja bem razoável que todos os artífices ignorem e nem sequer busquem tal auxílio. [100]
But it is not reasonable to suppose that all artists and scientists would be ignorant of and would fail to seek a thing so advantageous to themselves. [100]
Mas é inútil. E em que se ajudará o tecelão ou o ferreiro em sua arte por conhecer o bem em si? Ou de que modo será mais médico ou mais soldado quem contemplou a própria ideia? Pois parece que nem mesmo assim o médico visa a saúde, mas aquela do homem, e antes, talvez, aquela deste; pois é a cada um que ele medica. E acerca destas coisas, portanto, quanto baste já foi dito. [101]
97. Mas talvez estas coisas etc. Depois que o Filósofo mostrou que não há uma única ideia comum do bem, agora mostra que, mesmo que houvesse, não pertenceria ao propósito, isto é, que segundo ela se devesse buscar a felicidade.
E acerca disto faz três coisas:
primeiro prova o propósito;
segundo apresenta uma certa resposta, ali: mas talvez a alguém pareça etc.;
terceiro exclui-a, ali: na verdade tem certa probabilidade etc.
Diz, portanto, primeiro que estas coisas, a saber, de que modo o bem se diz dos bens segundo uma única noção ou noções diversas, é preciso deixar agora, porque determinar isto com certeza pertence antes a outra filosofia, a saber, à metafísica. E do mesmo modo também a consideração acerca da ideia do bem não é própria da presente intenção. E disto atribui a razão, porque, se houvesse um único bem predicado univocamente de todas as coisas, ou mesmo se houvesse algo por si mesmo existente separado, é manifesto que não será algo desse tipo que seja operado ou possuído pelo homem. Ora, é algo desse tipo que agora buscamos.
98. Pois buscamos a felicidade, que é o fim dos atos humanos; ora, o fim do homem ou é a própria operação dele ou é alguma coisa exterior, que na verdade pode ser fim do homem ou porque é operada por ele, assim como a casa é o fim da construção, ou porque é possuída, assim como o campo é o fim da compra. Ora, é manifesto que aquele bem comum ou separado não pode ser a própria operação do homem nem tampouco é algo feito pelo homem nem parece ser algo possuído pelo homem, como se possuem as coisas que vêm ao uso desta vida. Donde é manifesto que aquele bem comum ou separado não é o bem humano que agora buscamos.
99. Em seguida, quando diz: mas talvez pareça a alguém etc., apresenta certa resposta. Poderia, com efeito, alguém dizer que aquele bem separado, embora não seja realizado nem possuído pelo homem, é contudo o modelo de todos os bens realizados e possuídos; ora, convém contemplar o modelo àquele que quer chegar às cópias, e por isso parece conveniente que alguém conheça o próprio bem separado por causa dos bens possuídos e realizados, pois, tendo aquele bem separado como um certo modelo, poderemos conhecer melhor e, por consequência, alcançar melhor as coisas que nos são boas, assim como os que olham para um homem podem retratar mais fielmente a sua imagem.
100. Em seguida, quando diz: essa verossimilhança, pois etc., refuta a resposta apresentada por duas razões.
A primeira delas toma-se daquilo que comumente se observa. E diz que o discurso da resposta apresentada parece ser provável, mas todavia parece dissoar daquilo que se observa em todas as ciências. Pois todas as ciências e artes buscam certo bem, como se estabeleceu acima, e cada uma investiga aquilo que lhe é necessário para alcançar o fim pretendido; nenhuma, porém, faz uso do conhecimento daquele bem separado, o que não seria razoável se disso lhes proviesse algum auxílio; portanto, o conhecimento daquele bem separado em nada contribui para os bens realizados e possuídos.
101. A segunda razão apresenta-a ali: ademais, seria inútil etc. Esta toma-se da própria natureza da coisa. E diz que aquele bem separado é totalmente inútil para as ciências e as artes, tanto quanto ao seu exercício, pois o tecelão ou o ferreiro em nada é ajudado na operação da sua arte pelo conhecimento daquele bem separado, quanto também quanto à aquisição da ciência ou da arte, pois ninguém se torna mais médico ou mais soldado pelo fato de contemplar a ideia separada do bem. Atribui disso a razão de que é preciso que o modelo, para o qual é necessário olhar, seja conforme ao que se realiza; ora, a arte não realiza algum bem comum ou abstrato, mas concreto e no singular, pois o médico não visa a saúde no abstrato, mas no concreto, isto é, aquela que é do homem, e no singular, isto é, aquela que é deste homem, porque não medica o homem universal, mas o singular; donde se conclui que o conhecimento do bem universal e separado não é necessário nem para a aquisição das ciências nem para o seu exercício.
102. Por fim, conclui, resumindo, que já se disse o suficiente acerca das opiniões sobre a felicidade.