Lição 12
Limitation of the Number of Friends
Deve-se, então, fazer o maior número possível de amigos, ou, assim como parece ter sido prudentemente dito acerca da peregrinação: Que eu não seja chamado nem muito peregrino nem não peregrino, também na amizade convirá não ser sem amigo nem, por outro lado, ser amigo de muitos por superabundância? [1913]
Para aqueles, com efeito, que são para a oportunidade e de modo geral, parecerá convir o que foi dito; pois retribuir a muitos é laborioso e a vida não é suficiente a alguém para fazer isso. Mais amigos, na verdade, do que os que bastam para a própria vida, são demasiadamente distrativos e impeditivos do bem viver. Portanto, não há necessidade deles. [1914]
Mas também para aqueles que são para o deleite, bastam poucos, assim como o tempero no alimento. [1916]
Ora, quanto aos virtuosos, deve-se ter maior número, ou há certa medida também da multidão de amigos, assim como da cidade? Pois nem de dez homens se faz uma cidade, nem de dez miríades já é uma cidade. Ora, o quanto talvez não seja algo único, mas todo o intermediário determinado entre certos limites. [1917]
E dos amigos, certamente, há também certa multidão determinada. E talvez sejam tantos quantos aqueles com os quais alguém poderá conviver; pois isto parecia ser mais próprio da amizade. Que não seja possível conviver com muitos e distribuir-se a si mesmo, não é obscuro. [1918]
Além disso, é preciso também que aqueles sejam amigos uns dos outros, se todos devem passar o tempo juntos; ora, isto é trabalhoso de existir entre muitos. [1919]
Ora, torna-se difícil também alegrar-se e condoer-se familiarmente com muitos, pois é verossímil que coincida ao mesmo tempo deleitar-se com este e entristecer-se com aquele. [1920]
Talvez, portanto, seja bom não procurar ser sumamente amigo de muitos, mas de tantos quantos bastam para o conviver; pois nem parecerá possível ser amigo muito íntimo de muitos (por isso tampouco amar a muitos). Pois a amizade quer ser certa superabundância, e isto se dirige a um só e, na verdade, a muito poucos. [1921]
Assim, porém, parece dar-se também nas coisas; pois não se fazem muitos amigos segundo a amizade de camaradagem. Diz-se que cantam em dois. Ora, os que amam a muitos e a todos tratam com familiaridade não parecem ser amigos de ninguém, exceto de modo político, aos quais também chamam obsequiosos. [1922]
De modo político, portanto, é possível ser amigo de muitos e não sendo obsequioso, mas sendo verdadeiramente honesto. Por causa da virtude, porém, e por si mesmos, não é possível a muitos; e é amável encontrar mesmo poucos tais amigos. [1924]
1913. Deve-se, então, fazer o maior número possível de amigos etc. Depois que o Filósofo tratou de certas dúvidas acerca da amizade da parte dos que amam, aqui trata das dúvidas da parte daqueles que são amados.
Ora, coloca a este respeito três dúvidas,
das quais a primeira é sobre o número de amigos;
a segunda, sobre a necessidade deles, ali: ora, se nas boas fortunas etc.;
a terceira, sobre o convívio deles, ali: deve-se, então, assim como etc.
Acerca do primeiro ponto, faz duas coisas.
Primeiro propõe a dúvida, a saber, se alguém deve fazer para si o maior número possível de amigos ou não, mas como parece ter sido prudentemente dito acerca da peregrinação no provérbio de alguém que diz: que eu não seja chamado muito peregrino, nem não peregrino, isto é, que não se diga de mim que eu percorro demasiadamente diversas terras inutilmente, nem tampouco que nunca saio de casa por causa da peregrinação, assim também convém que seja acerca da amizade, a saber, que alguém não seja amigo de ninguém nem tampouco seja amigo de muitos por superabundância.
1914. Segundo, ali: para aqueles, portanto etc., resolve a mencionada questão.
E primeiro quanto à amizade do útil. E diz que aquilo que foi dito acerca de evitar a multidão supérflua de amigos parece convir totalmente aos amigos que são para a oportunidade, isto é, para a utilidade, porque, se o homem tem muitos amigos tais, dos quais recebe favores, é preciso também que, inversamente, preste favores a muitos, e isto é muito laborioso, de modo que não basta o tempo da vida aos que querem fazer isso.
1915. Se, portanto, houver mais amigos úteis do que são necessários à própria vida, distraem demasiadamente o homem e o impedem da boa vida, que consiste na operação da virtude, porque, enquanto o homem se ocupa em excesso dos negócios dos outros, segue-se que não pode ter o devido cuidado de si mesmo. E assim é evidente que não há necessidade de o homem ter muitíssimos amigos úteis.
1916. Segundo, mostra o mesmo na amizade do deleitável. E diz que também para o deleite bastam poucos amigos. Pois o deleite exterior, que é proporcionado por tais amigos, é buscado na vida humana como o tempero no alimento, o qual, ainda que seja pouco, basta; por isso também poucos amigos bastam ao homem para o deleite, para que com eles se recreie por algum tempo.
1917. Terceiro, ali: ora, quanto aos virtuosos etc., resolve a questão quanto aos amigos segundo a virtude.
E primeiro mostra o proposto por meio de uma razão;
segundo, por meio da experiência, ali: assim, porém, parece dar-se etc.
Acerca do primeiro ponto, faz três coisas.
Primeiro retoma a questão. E diz que resta considerar se alguém deve fazer para si amigos virtuosos em maior número, de modo que quanto mais tiver melhor seja, ou se é preciso aplicar certa medida acerca da multidão de amigos, como se vê a respeito da multidão da cidade, que nem consta de apenas dez homens e, se consta de dez miríades, isto é, cem mil (pois miríade é o mesmo que dez mil), já pela multidão não será cidade, mas certa região. Mas quão grande multidão é necessária para a cidade não está determinado segundo algo único, porque a cidade pode ser maior e menor, mas podem tomar-se dois extremos entre os quais tudo o que é intermediário pode ser determinado como conveniente à multidão da cidade.
1918. Segundo, ali: e dos amigos etc., resolve a questão dizendo que também não é preciso que haja uma multidão imensa de amigos, mas deve haver certa multidão determinada deles.
E prova isto por três razões.
A primeira das quais é que os amigos podem ser tantos quantos aqueles com os quais, contudo, o homem pode conviver; pois isto, entre as demais coisas, parece ser mais próprio da amizade, isto é, conveniente à amizade que é segundo a virtude. Ora, é manifesto que não é possível que o homem conviva com uma multidão imoderada de homens e que de certo modo se distribua entre muitos. E assim é evidente que não podem ser muitos os amigos segundo a virtude.
1919. A segunda razão coloca ali: além disso etc. Pois é manifesto que os amigos devem conviver uns com os outros e, assim, se alguém tem muitos amigos, é preciso que também todos aqueles sejam amigos uns dos outros, pois de outro modo não podem passar o tempo juntos e, por consequência, tampouco conviver com o amigo; ora, isto é difícil de se conservar entre muitos, a saber, que sejam amigos uns dos outros; e assim não parece possível que um só homem tenha muitos amigos.
1920. A terceira razão coloca ali: ora, é difícil etc. Pois foi dito acima que o amigo se alegra com o amigo; ora, é difícil que alguém familiarmente se alegre e se condoa com muitos, pois é verossímil que coincida ao mesmo tempo que seja preciso deleitar-se com um e entristecer-se com outro, o que é impossível; e assim não é possível ter muitos amigos.
1921. Terceiro, ali: talvez, portanto, seja bom etc., conclui o proposto a partir do que foi dito: a saber, que não é bom que o homem procure tornar-se sumamente amigo de muitos, mas de tantos quantos podem bastar para o convívio: porque também isto não parece ser possível, que o homem seja muito amigo de muitos (por isso também, segundo o amor libidinoso, um só homem não ama muitas mulheres com amor intenso). Por isso a amizade perfeita consiste em certa superabundância de amor, que não pode observar-se senão em relação a um só ou a muito poucos; pois sempre aquilo que é abundante compete a poucos, porque não pode acontecer em muitos que se chegue à suma perfeição, por causa dos múltiplos defeitos e impedimentos.
1922. Em seguida, quando diz: assim, porém, parece etc., mostra o proposto por meio da experiência. Pois assim vemos acontecer nas coisas, que um só tem amizade em relação a poucos. Pois não se encontram muitos amigos de um só segundo a amizade de camaradagem, isto é, de companheiros ou de criados juntos. O que prova por certo provérbio pelo qual se diz que alguns cantam em dois;
1923. pois é costume, na maior parte das vezes, que os jovens avancem socialmente de dois em dois cantando. Mas os que amam a muitos, isto é, os amantes de muitos, que a todos tratam com familiaridade, não parecem ser verdadeiramente amigos de ninguém, porque com ninguém convivem por muito tempo, mas de passagem se comportam familiarmente com cada um; contudo, tais são chamados amigos de modo político, isto é, segundo o que é costume nas cidades, nas quais a amizade se julga por tais aplausos e familiaridades. Ora, a estes que assim são amigos de muitos os homens chamam obsequiosos, o que redunda no vício da superabundância no deleitar, como foi dito acima no quarto livro.
1924. Em seguida, quando diz: de modo político, portanto etc., mostra segundo qual amizade se diz que alguns são amigos de muitos. E diz que isto acontece segundo a amizade política, não só do modo pelo qual alguém obsequioso é amigo de muitos, mas também isto pode competir a alguém verdadeiramente virtuoso; pois foi dito acima que a amizade política parece ser o mesmo que a concórdia, e o virtuoso concorda com muitos naquilo que pertence à vida política. Não acontece, contudo, que o virtuoso tenha amizade com muitos por causa da virtude, de modo que os ame por si mesmos e não só pelo útil ou deleitável; antes, pelo contrário, deve ser muito amável e caro ao homem se puder encontrar poucos tais amigos, a saber, por causa da virtude e por si mesmos.