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Lição 4

Opinions About Happiness

Digamos, então, retomando, uma vez que todo conhecimento e escolha deseja algum bem, o que é aquilo que dizemos que a ciência civil deseja e qual é o sumo bem de todas as coisas realizáveis. [43]

Quanto ao nome, portanto, quase todos estão de acordo, pois tanto a maioria quanto os mais destacados dizem que é a felicidade. E consideram que viver bem e agir bem é o mesmo que ser feliz. [44]

Mas, quanto ao que seja a felicidade, divergem. E a maioria não a transmitiu do mesmo modo que os sábios, pois estes dizem que ela consiste em algo aparente e manifesto, como o prazer, as riquezas ou a honra. Uns dizem uma coisa, outros dizem outra. E muitas vezes até o mesmo indivíduo diz coisa diversa,

pois o que está doente diz que é a saúde, o mendigo que são as riquezas, e os que têm consciência da própria ignorância admiram aqueles que dizem algo grandioso e acima da sua compreensão.

Alguns, porém, julgaram que, além destes muitos bens, existe um outro bem por si mesmo, que também é para todos a causa de serem bons. [46]

Talvez seja demasiado vão perscrutar todas as opiniões; basta, porém, examinar sobretudo aquelas que superficialmente aparecem ou se julga terem alguma razão. [50]

Não nos escape, porém, que diferem os argumentos que partem dos princípios e os que conduzem aos princípios. Pois também Platão bem discutiu isto e investigou se o caminho vai dos princípios ou para os princípios, tal como nos estádios, dos juízes até a meta ou ao contrário.

Deve-se, pois, começar pelas coisas conhecidas. Ora, estas são de dois modos: umas conhecidas para nós, outras absolutamente. Talvez, então, devamos começar pelas conhecidas para nós. [51]

Por isso, aquele que quiser ouvir de modo suficiente acerca do bem, do justo e, em geral, das coisas civis, deve ter sido bem conduzido pelos hábitos. Pois o princípio é o fato de que algo é assim, e, se isto aparece suficientemente, não haverá necessidade do porquê. Tal pessoa possui ou recebe facilmente os princípios. Aquele, porém, a quem não convém nenhuma dessas coisas, ouça o que diz Hesíodo:

Ótimo é aquele que por si mesmo entende todas as coisas. Bom também é aquele que obedece a quem fala bem. Mas quem nem por si mesmo entende, nem, ouvindo outro, guarda no ânimo, esse é, ao contrário, um homem inútil. [53]

43. Digamos, pois, retomando etc. Feito o proêmio, aqui Aristóteles passa ao tratado desta ciência.

E divide-se em três partes:

na primeira, trata da felicidade, que é o sumo entre os bens humanos, conduzindo a consideração da felicidade a este ponto: que ela é a operação segundo a virtude;

na segunda parte, trata das virtudes, em: se, porém, a felicidade é uma certa operação segundo a virtude etc;

na terceira, completa o seu tratado sobre a felicidade, mostrando qual e que operação da virtude é a felicidade, e isto no livro X, em: depois disto, porém, acerca do prazer etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, diz sobre o que é a sua intenção;

segundo, executa o proposto, em: quanto ao nome, pois etc.

Diz, pois, primeiro, retomando o que foi dito acima, que, uma vez que todo conhecimento e toda escolha desejam algum bem, isto é, ordenam-se a algum bem desejado como a um fim, deve-se dizer qual é aquele bem ao qual se ordena a ciência civil, o qual é o sumo de todas as coisas realizadas, isto é, entre todas aquelas às quais se pode chegar pela ação humana. Pois foi dito acima que estas duas coisas devem ser consideradas acerca do último fim dos bens humanos: a saber, o que ele é, o que aqui se propõe para consideração, e a que ciência pertence, o que foi tratado acima no proêmio.

44. Em seguida, quando diz: quanto ao nome, pois etc., trata da felicidade. E quanto a isto faz duas coisas:

primeiro, examina as opiniões dos outros sobre a felicidade;

segundo, trata dela segundo a própria sentença, em: voltemos, porém, novamente ao bem que buscamos etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, expõe as opiniões dos outros sobre a felicidade;

segundo, investiga-as, em: digamos, porém, de onde partimos etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, expõe as opiniões sobre o último fim das coisas humanas;

segundo, determina como se deve investigar tais opiniões, em: perscrutar, pois, todas etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, mostra em que todos concordam;

segundo, em que diferem, em: quanto à felicidade, porém, o que ela é etc.

45. Expõe, pois, primeiro dois pontos em que todos concordam quanto ao último fim.

Primeiro, quanto ao nome, pois tanto os muitos, isto é, o povo, quanto os excelentes, isto é, os sábios, chamam de felicidade o sumo dos bens humanos.

Segundo, quanto a uma certa noção comum do nome, pois todos julgam que viver bem e agir bem <é o mesmo> que ser feliz.

46. Em seguida, quando diz: quanto à felicidade, porém etc., mostra em que diferem as opiniões dos homens acerca da felicidade. E diz que, quanto ao que a felicidade seja em especial, os homens se alteram, isto é, divergem, e isto com uma tríplice diferença.

A primeira delas se toma conforme a multidão do povo não sente nisto do mesmo modo que os sábios; pois o povo julga que a felicidade é algo daquilo que está patente e manifesto, como são as coisas que se consideram no âmbito sensível, as quais são as únicas manifestas à multidão e tão patentes que não necessitam de exposição que as desvele, como são o prazer, as riquezas, a honra e outras coisas semelhantes; o que, porém, os sábios sentem sobre isto, ele o exporá por último.

47. A segunda diferença é entre os próprios homens do povo, dos quais uns julgam que a felicidade é um bem sensível, outros outro: como os avaros, as riquezas; os intemperantes, os prazeres; os ambiciosos, as honras.

48. A terceira diferença é a do mesmo homem em relação a si próprio; pois é condição do último fim que seja o mais desejado; donde aquilo que o homem mais deseja ele julga ser a felicidade, e a carência de algum bem aumenta o seu desejo; por isso o enfermo, que carece de saúde, julga que ela é o sumo bem, e, por igual razão, o mendigo julga sê-lo as riquezas; e, de modo semelhante, aqueles que reconhecem a própria ignorância admiram como felizes os que podem dizer algo grande e que excede o seu intelecto. E tudo isto pertence às opiniões da multidão.

49. Mas alguns sábios, a saber, os platônicos, além destes diversos bens sensíveis, julgaram existir um bem que é por si mesmo, isto é, que é a própria essência separada da bondade, assim como também chamavam de homem por si à forma separada do homem, e que é a causa de todos os bens serem bons, enquanto participam daquele sumo bem.

50. Em seguida, quando diz: perscrutar, pois, todas etc., mostra como se deve investigar as sobreditas opiniões.

E quanto a isto faz três coisas:

primeiro, mostra quais destas opiniões se deve investigar;

segundo, em que ordem, em: não nos escape, porém etc.;

terceiro, como deve estar disposto o ouvinte para que apreenda bem o que será dito, em: por isso é preciso pelos hábitos etc.

Diz, pois, primeiro que perscrutar todas as opiniões que alguns têm sobre a felicidade seria algo mais vão do que conviria a um filósofo, pois algumas são de todo irracionais; basta, porém, perscrutar sobretudo aquelas opiniões que na superfície têm alguma razão, quer por causa de alguma aparência, quer ao menos por causa da opinião de muitos que assim julgam.

51. Em seguida, quando diz: não nos escape, porém etc., mostra em que ordem se deve raciocinar sobre tais opiniões e, em geral, em toda a matéria moral. E assinala uma diferença no processo de raciocinar, pois há certos argumentos que procedem dos princípios, isto é, das causas, para os efeitos, como as demonstrações do porquê; outros, ao contrário, dos efeitos para as causas ou princípios, os quais não demonstram o porquê, mas somente que assim é. E isto também Platão distinguiu antes, investigando se se deve proceder dos princípios ou para os princípios. E dá o exemplo da corrida nos estádios; havia, com efeito, certos árbitros, isto é, os designados para os atletas que corriam no estádio, os quais árbitros ficavam no princípio dos estádios; ora, às vezes os atletas começavam a correr a partir dos árbitros e avançavam até a meta, às vezes ao contrário; e assim também há dupla ordem no processo da razão, como se disse.

52. E, para que se compreenda em que ordem se deve proceder em qualquer matéria, deve-se considerar que sempre é preciso começar pelas coisas mais conhecidas, pois pelas mais notórias chegamos às ignoradas. Ora, algumas coisas são mais notórias de dois modos,

algumas quanto a nós, como as compostas e sensíveis,

outras absolutamente e quanto à natureza, a saber, as simples e inteligíveis.

E porque nós adquirimos o conhecimento raciocinando, é preciso que procedamos daquilo que nos é mais conhecido; e se, de fato, as mesmas coisas nos são mais conhecidas e também absolutamente, então a razão procede dos princípios, como nas matemáticas; se, porém, umas são mais conhecidas absolutamente e outras quanto a nós, então é preciso proceder ao contrário, como nas ciências naturais e morais.

53. Em seguida, quando diz: por isso é preciso etc., mostra como deve estar disposto o ouvinte de tais matérias. E diz que, porque nas coisas morais é preciso começar por aquelas que nos são mais conhecidas, isto é, por certos efeitos considerados acerca dos atos humanos, é preciso que aquele que quer ser ouvinte suficiente da ciência moral esteja bem conduzido e exercitado nos hábitos da vida humana, isto é, acerca dos bens exteriores, e do justo, isto é, acerca das obras das virtudes, e, em geral, acerca de todas as coisas civis, como são as leis e as ordens dos regimes políticos e outras coisas semelhantes. Porque nas coisas morais é preciso tomar como princípio o fato de que assim é, o que se toma pela experiência e pelo hábito, por exemplo, que as concupiscências se vencem pela abstinência.

54. E se isto for manifesto a alguém, não lhe é muito necessário, para agir, conhecer o porquê, assim como ao médico basta, para curar, saber que esta erva cura tal doença; conhecer o porquê, porém, requer-se para o saber científico, que é o que principalmente se pretende nas ciências especulativas. Ora, tal pessoa, isto é, aquela que é experimentada nas coisas humanas, ou possui por si mesma os princípios das coisas operáveis, como que considerando-os por si, ou os recebe facilmente de outrem. Aquele, porém, a quem não convém nenhuma dessas coisas, ouça a sentença do poeta Hesíodo, que disse que ótimo é aquele que pode entender por si mesmo, e também é bom aquele que recebe bem o que é dito por outro, mas aquele que nem por si mesmo pode entender nem, ouvindo outro, pode guardar no ânimo, é inútil, isto é, quanto à aquisição da ciência.