Lição 5
Kinds of Pleasure
Ora, como há certas coisas deleitáveis por natureza, e destas umas o são absolutamente e outras segundo os gêneros, tanto dos animais quanto dos homens, e há outras que não o são por natureza, mas umas se tornam deleitáveis por causa de defeitos, outras por causa de hábitos e outras por causa de naturezas perniciosas, também a respeito de cada uma destas se podem observar hábitos semelhantes. [1368]
Chamo bestiais, por exemplo, o daquele homem de quem dizem que rasgava as grávidas para devorar as crianças, ou aquilo em que afirmam deleitar-se alguns dos selvagens que habitam em torno do Ponto, dos quais uns comem carnes cruas, outros carnes humanas, e outros emprestam mutuamente os filhos para o banquete; ou aquilo que se conta a respeito de Fálaris. Estes, pois, são bestiais. [1372]
Outros, porém, tornam-se assim por causa de enfermidades e, em alguns, por loucura, como aquele que sacrificou a própria mãe e a comeu, e o que comeu o fígado do companheiro de servidão. [1373]
Outros, ainda, tornam-se assim por enfermidade ou por hábito, como o arrancar os pelos e o roer as unhas, e ainda o comer carvão e terra, e, com estes, o dos prazeres venéreos com os homens. Pois a uns estas coisas sobrevêm por natureza, a outros por hábito, por exemplo aos que a elas se acostumaram desde meninos. [1374]
Àqueles, pois, em que a natureza é a causa, ninguém chamaria incontinentes, assim como tampouco às mulheres, porque não conduzem, mas são conduzidas. E de modo semelhante também aos que se acham em disposição enferma por causa do hábito. [1375]
Ter, portanto, cada uma destas coisas está fora dos limites da malícia, assim como também a bestialidade. [1377]
Mas, quem as tem, superá-las ou ser superado por elas não é incontinência absolutamente, mas aquela que se dá por semelhança, assim como também a respeito das iras se diz que quem tem este modo de paixão é incontinente, mas não se deve chamá-lo incontinente absolutamente. [1378]
Pois todo excesso de malícia, e a insensatez, e a timidez, e a intemperança, e a crueldade, umas são bestiais, outras enfermas. [1379]
Este, com efeito, é por natureza de tal modo disposto que teme todas as coisas, e ainda que um rato faça um ruído, é tímido segundo a timidez bestial; aquele, porém, temeu uma doninha por causa de enfermidade. [1380]
E dos insensatos, uns são bestiais por serem por natureza irracionais e viverem só pelo sentido, como certos gêneros de bárbaros distantes; outros o são por causa de enfermidades, por exemplo por epilepsias ou loucuras enfermas. [1381]
Destes, é possível a alguns ter algumas vezes tais paixões e não ser superado; digo, por exemplo, se Fálaris se conteve desejando comer uma criança ou entregar-se a um deleite venéreo inconveniente. Mas é possível também ser superado, e não apenas ter tais paixões. [1382]
Ora, assim como a malícia que se dá segundo o homem se chama malícia absolutamente, mas a que se dá com um acréscimo, por ser bestial ou enferma, não o é absolutamente, do mesmo modo, evidentemente, também a incontinência: uma é bestial, outra enferma, mas absolutamente só aquela que se dá segundo a temperança humana. [1383]
Que a incontinência e a continência, portanto, se dão somente a respeito daquelas coisas de que tratam a intemperança e a temperança, e que a respeito de outras há outra espécie de incontinência, dita segundo metáfora e não absolutamente, é manifesto. [1384]
1368. Quia autem sunt quaedam etc. Depois que o Filósofo mostrou que de modos diversos alguém se diz continente e incontinente segundo as diversas concupiscências e deleites humanos, aqui mostra que de modos diversos alguém se diz continente e incontinente a respeito das concupiscências e deleites humanos e bestiais.
E a respeito disto faz duas coisas:
primeiro, mostra a diversidade das concupiscências e dos deleites humanos e bestiais;
segundo, mostra como de modos diversos se dizem a respeito deles a continência e a incontinência, em: quantis quidem igitur natura causa etc.
A respeito do primeiro faz duas coisas:
primeiro, propõe a diferença dos deleites;
segundo, manifesta o que dissera, por meio de exemplos, em: dico autem bestiales etc.
Diz, pois, primeiro que, dentre as coisas deleitáveis, algumas são deleitáveis segundo a natureza, outras porém não segundo a natureza, e cada uma destas se subdivide:
1369. com efeito, das coisas que são deleitáveis segundo a natureza, algumas são deleitáveis para todo aquele que tem sentido, por exemplo o doce é naturalmente deleitável para todo aquele que tem gosto; outras, porém, são naturalmente deleitáveis para certas diferenças tanto de animais quanto de homens, pois outros são os alimentos naturalmente deleitáveis para os animais que comem carnes e para os animais que comem frutos; do mesmo modo também, entre os homens, para os coléricos são naturalmente deleitáveis as coisas frias, que temperam sua compleição, e para os fleumáticos as quentes;
1370. daquelas, porém, que são deleitáveis não naturalmente, algumas se tornam assim por causa de defeitos, isto é, por causa de algumas enfermidades corporais sobrevindas, ou também tristezas anímicas, pelas quais a natureza é transmutada para outra disposição; outras, porém, tornam-se deleitáveis por causa do mau hábito, que se torna como que uma certa natureza; e outras tornam-se deleitáveis por causa de naturezas perniciosas, por exemplo quando alguns homens têm compleições do corpo corrompidas e pervertidas, e segundo isto se segue que neles são pervertidíssimas tanto as apreensões da imaginação quanto também as afeições do apetite sensível, potências estas que, sendo atos de órgãos corporais, é necessário que sejam proporcionadas à compleição corporal.
1371. E porque, segundo a diversidade dos objetos, se diversificam os hábitos, é necessário que a cada uma das sobreditas coisas deleitáveis correspondam hábitos semelhantes, por exemplo, que haja certos hábitos naturais e certos não naturais.
1372. A seguir, quando diz: dico autem bestiales etc., manifesta por meio de exemplos cada uma das diferenças das coisas deleitáveis não naturais.
E primeiro a respeito daquelas que se tornam deleitáveis por causa da natureza perniciosa dos homens que são como que bestiais, pois, por causa da corrupção da compleição, se assemelham às bestas. Assim como se dizia de um certo homem que rasgava os ventres das mulheres grávidas para devorar as crianças concebidas no útero; e semelhante é se alguém se deleita em tais coisas quais dizem deleitarem-se alguns homens selvagens nas florestas, a saber, os citas que habitam em torno do mar Pôntico, dos quais uns comem carnes cruas, outros carnes humanas, e outros emprestam mutuamente os próprios filhos para celebrar banquetes; e semelhantes são as coisas que se dizem a respeito de um certo Fálaris, a saber, o cruelíssimo tirano que se deleitava nos próprios tormentos dos homens. Estes, pois, que se deleitam em tais coisas, são como que semelhantes às bestas.
1373. Segundo, em: hi autem propter aegritudines etc., exemplifica a respeito daquelas coisas que se tornam deleitáveis de modo não natural por causa de defeitos. E diz que a alguns se tornam deleitáveis as coisas que são contra a natureza por causa de algumas enfermidades, por exemplo por causa de mania ou fúria ou algo deste gênero, como se lê de um certo homem que, tornado maníaco, sacrificou a mãe e a comeu, e também matou o companheiro de servidão e comeu o seu fígado.
1374. Terceiro, em: hi autem aegritudinales etc., exemplifica a respeito daquelas coisas que se tornam deleitáveis contra a natureza por causa do hábito. E diz que a alguns sobrevêm deleites não naturais por causa de uma enfermidade interior ou corrupção proveniente do hábito, como alguns que, por causa do hábito, se deleitam em arrancar-se os pelos e roer as unhas e comer carvões e terra, e ainda em usar do coito com os homens. Ora, todas as sobreditas coisas que são deleitáveis contra a natureza podem reduzir-se a duas: pois a alguns sobrevêm pela natureza da compleição corporal que receberam desde o princípio, e a outros sobrevêm por causa do hábito, por exemplo por se acostumarem a coisas deste gênero desde a meninice. E semelhante é o caso daqueles que caem nisto por causa de enfermidade corporal, pois o mau hábito é como que uma certa enfermidade anímica.
1375. A seguir, quando diz: quantis quidem igitur etc., mostra que a respeito das sobreditas coisas deleitáveis não naturais não há incontinência absolutamente, mas sob certo aspecto.
E isto de dois modos:
primeiro, por uma razão tomada da condição daqueles que se deleitam;
segundo, por uma razão tomada da condição das coisas deleitáveis, em: habere quidem igitur etc.
Diz, pois, primeiro que ninguém pode racionalmente dizer serem absolutamente incontinentes aqueles em que a natureza bestial é a causa de tais deleites. Foi dito, com efeito, acima que não chamamos as bestas continentes ou incontinentes, porque não têm opinião universal, mas fantasia e memória dos singulares. Ora, os homens deste gênero, que por causa da natureza perniciosa são semelhantes às bestas, têm de fato algo de apreensão universal, mas muitíssimo pouco, por isto que neles a razão está oprimida pela malícia da compleição, assim como manifestamente está oprimida nos enfermos por causa da indisposição corporal; e aquilo que é pouco parece ser como que nada, nem acontece facilmente que uma pequena força da razão repila fortes concupiscências. E por isso tais homens não se dizem nem continentes absolutamente nem incontinentes, mas somente sob certo aspecto, enquanto permanece neles algo do juízo da razão.
1376. E põe o exemplo das mulheres, nas quais, na maior parte dos casos, pouco vigora a razão por causa da imperfeição da natureza corporal, e por isso, na maior parte dos casos, não conduzem seus afetos segundo a razão, mas antes são conduzidas por seus afetos, pelo que raramente se encontram mulheres sábias e fortes; e por isso não podem dizer-se absolutamente continentes ou incontinentes. E a mesma razão parece haver a respeito daqueles que se acham em disposição enferma, isto é, que têm uma disposição corrompida por causa do mau hábito, o qual também oprime o juízo da razão à maneira de uma natureza pervertida.
1377. A seguir, quando diz: habere quidem igitur etc., mostra que a respeito das coisas deleitáveis não naturais não há incontinência absolutamente, mas sob certo aspecto, a partir da condição das próprias coisas deleitáveis.
E primeiro propõe o que pretende;
segundo, manifesta o proposto, em: omnis enim superabundans etc.
Primeiro, porém, propõe duas coisas.
A primeira delas é que ter cada uma destas coisas, isto é, padecer as concupiscências das sobreditas coisas deleitáveis, excede os limites da malícia humana, assim como também se disse acima a respeito da bestialidade.
1378. A segunda põe em: habentem autem etc. E diz que, se alguém tem tais concupiscências e as supera, não se dirá continente absolutamente, mas por semelhança; ou, se for superado por elas, não se dirá incontinente absolutamente, mas por semelhança, assim como também acima se disse a respeito da incontinência da ira.
1379. A seguir, quando diz: omnis enim superabundans etc., manifesta o que dissera.
E primeiro quanto à malícia;
segundo, quanto à continência e à incontinência, em: horum autem etc.
A respeito do primeiro, deve-se considerar que este superexcesso de malícia pode dar-se a respeito dos vícios opostos a todas as virtudes, como a respeito da insensatez, que se opõe à prudência, a respeito da timidez, que se opõe à fortaleza, a respeito da intemperança, que se opõe à temperança, e a respeito da crueldade, que se opõe à mansidão; e a respeito de cada um deles há certas disposições bestiais por causa da natureza perniciosa, e certas enfermas, que se dão por causa da enfermidade corporal, ou anímica que provém do mau hábito. E porque acima pôs exemplos a respeito da intemperança e da crueldade, aqui exemplifica primeiro a respeito da timidez,
1380. em: hic quidem enim etc. E diz que alguém está naturalmente disposto de tal modo que teme todas as coisas, até o ruído de um rato, e tal homem é tímido de modo bestial; um outro, porém, por causa de enfermidade caiu em tal timidez que temia uma doninha.
1381. Segundo, em: et insipientium etc., exemplifica a respeito da insensatez. E diz que alguns são naturalmente irracionais, não porque nada tenham de razão, mas muitíssimo pouco e a respeito dos singulares que apreendem pelo sentido, de tal modo que vivem só segundo o sentido, e tais homens são como que bestiais segundo a natureza, o que sobretudo acontece a respeito de certos bárbaros que habitam nos confins do mundo, onde, por causa da intempérie do ar, também os corpos são de má disposição, pela qual se impede neles o uso da razão; outros, porém, tornam-se irracionais por causa de algumas enfermidades, por exemplo a epilepsia ou a mania, e estes são insensatos de modo enfermo.
1382. A seguir, quando diz: horum autem etc., manifesta o que dissera quanto à incontinência,
e primeiro como a respeito das sobreditas coisas há uma certa semelhança de continência e incontinência. E diz que acontece por vezes que um homem tenha algumas das sobreditas paixões não naturais e não seja superado por elas, o que é semelhante à continência; por exemplo, se o tirano Fálaris tem uma criança e a deseja ou para uso de comida ou para um deleite venéreo inconveniente, e todavia não usa dela para nenhum dos dois. Por vezes, porém, acontece que o homem não só tenha concupiscências deste gênero, mas também seja superado por elas, e isto é semelhante à incontinência.
1383. Segundo, em: quemadmodum autem etc., mostra que em tais coisas não há continência ou incontinência absolutamente. E diz que, assim como a malícia que se dá segundo o modo humano se chama absolutamente malícia, mas a que é não natural ao homem se chama, com um acréscimo, malícia bestial ou enferma, e não malícia absolutamente, do mesmo modo também a incontinência não natural se diz com um acréscimo, por exemplo bestial ou enferma, mas absolutamente incontinência se diz somente aquela que se dá segundo a temperança humana.
1384. Por último, a modo de epílogo, conclui ser manifesto, pelo que foi dito, que a continência e a incontinência absolutamente se dão somente a respeito daquelas coisas de que tratam a temperança e a intemperança, ao passo que a respeito de outras coisas há uma certa espécie de incontinência que se diz de modo metafórico e não absolutamente.