Lição 5
Choice
Determinados o voluntário e o involuntário, segue-se passar à escolha. Pois ela parece ser sobretudo própria da virtude, e os costumes julgam-se mais pela escolha do que pelas operações. [432]
A escolha, sem dúvida, parece ser algo voluntário, mas não é o mesmo, e sim o voluntário é mais amplo. [434]
Pois do voluntário participam também as crianças e os outros animais, mas não da escolha. [435]
E às coisas repentinas chamamos, na verdade, voluntárias, mas não segundo a escolha. [436]
Ora, os que dizem que ela mesma é a concupiscência ou a ira ou a vontade ou alguma opinião não parecem falar corretamente. [437]
Pois a escolha não é comum também aos irracionais. Mas a concupiscência e a ira o são. [438]
E o incontinente age, na verdade, desejando, mas não escolhendo; o continente, ao contrário, escolhendo, mas não desejando. [439]
E à escolha, na verdade, contraria-se a concupiscência, mas a concupiscência não se contraria à concupiscência. [440]
E a concupiscência é acompanhada de deleite e de tristeza, ao passo que a escolha não é nem triste nem deleitável. [441]
A ira, porém, ainda menos. Pois de modo algum aquelas coisas que se fazem por causa da ira parecem ser segundo a escolha. [442]
Mas tampouco é a vontade, ainda que pareça ser-lhe próxima. [443]
Pois a escolha não se dirige às coisas impossíveis, e, se alguém disser que as escolhe, parecerá, sem dúvida, insensato. A vontade, ao contrário, dirige-se às coisas impossíveis, como à imortalidade. [444]
E a vontade dirige-se também àquelas coisas que de modo algum poderiam ser realizadas por si mesmo, como a que algum simulador ou atleta vença. Mas ninguém escolhe tais coisas, e sim aquelas que julga poderem ser feitas por si mesmo. [445]
Além disso, a vontade dirige-se mais ao fim, ao passo que a escolha àquelas coisas que são para o fim. Por exemplo, queremos a saúde, mas escolhemos aquilo pelo qual seremos sãos; e queremos ser felizes e o dizemos, mas dizer que escolhemos não é conveniente. [446]
E, em geral, a escolha parece dirigir-se àquelas coisas que estão em nosso poder. [447]
432. Determinados, porém, o voluntário etc. Depois que o Filósofo determinou acerca do voluntário e do involuntário, aqui determina acerca da escolha.
E primeiro determina acerca da própria escolha;
segundo, acerca do conselho, que se põe na definição da escolha, em: ora, deliberam sobre todas as coisas etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, mostra que pertence à presente doutrina considerar a escolha;
segundo, investiga o que é a escolha, em: a escolha, sem dúvida, algo voluntário etc.
Diz, portanto, primeiro que, depois de determinado acerca do voluntário e do involuntário, é consequente que se determine de passagem acerca da escolha, visto que, a saber, propõe brevemente aquelas coisas que são necessárias para considerar a escolha. Ora, que pertença a esta doutrina determinar acerca da escolha, prova-o por isto: que a escolha parece ser sobretudo própria da virtude, de que ao presente principalmente se trata.
433. E a razão disto manifesta-se por isto: que, uma vez que do hábito da virtude procede tanto a escolha interior quanto a operação exterior, os costumes virtuosos ou também viciosos julgam-se mais pela escolha do que pelas operações exteriores; pois todo virtuoso escolhe o bem, mas às vezes não o opera por causa de algum impedimento exterior, e o vicioso às vezes opera uma obra de virtude, não, porém, por escolha virtuosa, mas por temor ou por causa de algum fim inconveniente, como por causa da vanglória ou por causa de algo outro desse gênero. Donde é claro que pertence à presente intenção considerar a escolha.
434. Em seguida, quando diz: a escolha, sem dúvida etc., mostra o que é a escolha.
E primeiro investiga o seu gênero;
segundo, as suas diferenças, em: ora, os que dizem que ela mesma etc.;
terceiro, conclui a sua definição, em: que, pois, ou qual algo etc.
Ora, o gênero da escolha é o voluntário, porque se predica universalmente da escolha e é mais amplo. Donde diz primeiro que toda escolha é algo voluntário, mas a escolha e o voluntário não são totalmente o mesmo, e sim o voluntário é mais amplo. O que prova por dupla razão.
435. A primeira delas põe em: pois do voluntário etc. Ela é a seguinte. As crianças e os outros animais participam do próprio voluntário, enquanto, a saber, operam algo espontaneamente por movimento próprio, como acima se disse. Não participam, porém, da escolha, porque não operam por deliberação, o que se requer para a escolha. Portanto, o voluntário é mais amplo do que a escolha.
436. Põe a segunda razão em: e as coisas repentinas etc. Ela é a seguinte. Aquelas coisas que fazemos repentinamente dizemos serem voluntárias, porque, a saber, o seu princípio está em nós; não se dizem, porém, ser segundo a escolha, porque, a saber, não se fazem por deliberação. Portanto, o voluntário é mais amplo do que a escolha.
437. Em seguida, quando diz: ora, os que dizem que ela mesma etc., investiga as diferenças da escolha, provando, a saber, que ela difere daquelas coisas com as quais parece convir. E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, propõe o que pretende;
segundo, prova o proposto, em: pois não é comum etc.
Diz, portanto, primeiro que alguns disseram ser a escolha a concupiscência, porque, a saber, ambas importam um movimento do apetite para o bem. Alguns, porém, sustentaram ser a escolha a ira, talvez por isto: que em ambas há um certo uso da razão; pois o irado usa a razão enquanto julga que a injúria infligida é digna de vingança. Outros, na verdade, considerando que a escolha é sem paixão, atribuíram a escolha à parte racional, ou quanto ao apetite, dizendo ser ela a vontade, ou quanto à apreensão, dizendo ser ela uma certa opinião. E, simplesmente, nestes quatro compreendem-se todos os princípios dos atos humanos, que são: a razão, à qual pertence a opinião; o apetite racional, que é a vontade; o apetite sensitivo, que se divide no irascível, ao qual pertence a ira, e no concupiscível, ao qual pertence a concupiscência. Ora, o Filósofo diz que não parecem falar corretamente os que dizem ser a escolha alguma destas coisas.
438. Em seguida, quando diz: pois não é comum etc., prova o proposto.
E primeiro mostra que a escolha não é a concupiscência;
segundo, que não é a ira, em: a ira, porém etc.;
terceiro, que não é a vontade, em: mas tampouco é a vontade etc.;
quarto, que não é a opinião, em: nem, tampouco, a opinião etc.
Acerca do primeiro põe quatro razões.
A primeira delas é comum à concupiscência e à ira e é a seguinte. A concupiscência e a ira encontram-se comumente nos homens e nos animais irracionais. Mas nos irracionais não se encontra a escolha, como se disse. Portanto, a escolha não é nem a concupiscência nem a ira.
439. Põe a segunda razão em: e o incontinente etc. Ela é a seguinte. Se a escolha fosse a concupiscência, todo aquele que opera escolhendo operaria desejando, e ao contrário. Ora, isto é falso, porque o incontinente opera segundo a concupiscência, mas não segundo a escolha, porque não permanece propriamente na escolha por causa da concupiscência; o continente, ao contrário, opera por escolha, mas não por concupiscência, à qual resiste pela escolha, como abaixo, no livro VII, se tornará claro. Portanto, a escolha não é o mesmo que a concupiscência.
440. Põe a terceira razão em: e à escolha, na verdade etc. Ela é a seguinte. A concupiscência contraria-se à escolha, a saber, naquele que é continente ou incontinente; pois um e outro escolhem, segundo a razão, o contrário daquilo que desejam segundo o apetite sensitivo. Em nenhum dos dois, porém, a concupiscência se contraria à concupiscência, porque toda a concupiscência de um e de outro tende ao mesmo, a saber, ao deleitável do sentido; não se deve, porém, entender que nenhuma concupiscência se contrarie a outra concupiscência, pois encontram-se concupiscências de contrários, como quando um deseja mover-se e outro repousar. Portanto, é claro que a escolha não é o mesmo que a concupiscência.
441. A quarta razão ele a apresenta ali: e o desejo concupiscível, na verdade etc. E é esta. O desejo concupiscível está sempre acompanhado de deleite, a saber, por causa da presença da coisa desejada, ou de tristeza, por causa de sua ausência; pois a toda paixão segue-se deleite e tristeza, como se estabeleceu no livro II. Mas a escolha não está necessariamente acompanhada de deleite ou de tristeza, pois pode ocorrer sem paixão alguma, pelo só juízo da razão. Logo, a escolha não é desejo concupiscível.
442. Em seguida, quando diz: a ira, porém etc., mostra que a escolha não é o mesmo que a ira. E diz que a escolha é ainda menos ira do que desejo concupiscível, porque, mesmo segundo a aparência, aquilo que é feito por causa da ira não parece ser feito segundo escolha, visto que, pela rapidez do movimento da ira, aquilo que se faz por ira é sumamente repentino; pois, ainda que na ira haja algum uso da razão, enquanto o irado começa a ouvir a razão que julga que a injúria deve ser vingada, todavia não a ouve perfeitamente determinar o modo e a ordem da vingança; por isso a ira exclui ao máximo a deliberação, que se requer para a escolha. Já o desejo concupiscível não opera tão repentinamente, e por isso aquilo que se faz segundo o desejo concupiscível não parece estar tão afastado da escolha quanto aquilo que se faz por ira.
443. Em seguida, quando diz: mas tampouco é vontade etc., mostra a diferença entre a escolha e a vontade.
E primeiro propõe aquilo que pretende;
segundo, prova o proposto, ali: pois a escolha, na verdade etc.;
terceiro, conclui a raiz da diferença entre a vontade e a escolha, ali: universalmente, porém etc.
Diz, portanto, primeiro que também a escolha não é vontade, embora pareça ser próxima da vontade; pois ambas pertencem a uma só potência, a saber, ao apetite racional, que se chama vontade, mas a vontade nomeia o ato desta potência enquanto ela se dirige ao bem absolutamente, ao passo que a escolha nomeia o ato da mesma potência referido ao bem enquanto pertence à nossa operação, pela qual somos ordenados a algum bem.
444. Em seguida, quando diz: pois a escolha, na verdade etc., prova o proposto por três razões, das quais a primeira é esta. A escolha, porque se refere à nossa operação, não se diz que seja de coisas impossíveis, e, se alguém disser que escolhe algo impossível, parecerá tolo. Mas a vontade, porque considera o bem absolutamente, pode ser de qualquer bem, ainda que seja impossível, assim como alguém pode querer ser imortal, o que é impossível segundo o estado desta vida corruptível. Logo, a escolha e a vontade não são o mesmo.
445. A segunda razão ele a apresenta ali: e a vontade, na verdade, é etc. E é esta. A vontade de alguém pode versar sobre aquilo que não é feito por ele mesmo; assim, aquele que assiste a um duelo pode querer que vença algum hipócrita, isto é, alguém que representa um papel fingido, por exemplo, o que entra no campo como se fosse pugilista sem o ser, ou também que vença aquele que verdadeiramente é atleta. Mas ninguém escolhe tais coisas que são feitas por outrem, mas somente aquelas que julga poderem ser feitas por ele mesmo. Logo, a escolha difere da vontade.
446. A terceira razão ele a apresenta ali: além disso, a vontade etc. E diz que a vontade é antes do fim do que daquilo que é para o fim, porque aquilo que é para o fim queremos por causa do fim, e aquilo por causa do qual cada coisa é, isso é mais; mas a escolha é somente daquilo que é para o fim, e não do próprio fim, porque o fim é pressuposto como já predeterminado, ao passo que aquilo que é para o fim é buscado por nós como algo a ser disposto por nós em vista do fim. Assim como a saúde, que é o fim da medicação, queremos principalmente, mas escolhemos os remédios pelos quais somos curados; e igualmente queremos ser felizes, o que é o último fim, e dizemos que isto queremos, mas não convém dizer que escolhemos ser felizes. Logo, a escolha não é o mesmo que a vontade.
447. Em seguida, quando diz: universalmente, porém etc., apresenta a raiz de toda a diferença, à qual universalmente se referem todas as diferenças mencionadas. E diz que a escolha parece versar sobre aquilo que está em nosso poder. E esta é a causa por que ela não é das coisas impossíveis, nem daquilo que é feito por outros, nem do fim, que na maior parte das vezes nos é prefixado pela natureza.