Lição 12
Refutation of Previous Arguments
Que, porém, não se segue, por causa destas coisas, que o prazer não seja um bem nem o melhor bem, ficará manifesto a partir do que segue. [1483]
Primeiro, porque o bem se diz de dois modos, um absolutamente e outro para alguém, e isto se segue tanto quanto às naturezas e aos hábitos, e por conseguinte também quanto aos movimentos e às gerações. E, das que parecem más, algumas são más absolutamente, mas para alguém não são más, e sim preferíveis para ele; outras, porém, nem para ele são preferíveis, mas por vezes e por pouco tempo, embora não preferíveis; e estas nem são prazeres, mas apenas o parecem, todas as que se dão com tristeza e para fins de remédio, como as dos que estão doentes. [1484]
Além disso, porque, do bem, um é operação e outro é hábito, aquelas coisas que por acidente nos constituem no hábito natural são deleitáveis. Ora, há operação nas concupiscências daquele cujo hábito e natureza se acompanham de tristeza. Porque também há prazeres sem tristeza e sem concupiscência, como o de contemplar as operações, quando a natureza não é deficiente. E o sinal disto é que não se alegram do mesmo deleitável a natureza saciada e a que está em seu estado, mas a que está em seu estado se alegra dos deleitáveis absolutamente, ao passo que a saciada se alegra também dos contrários; pois se alegram das coisas acres e amargas, das quais nenhuma é deleitável por natureza nem deleitável absolutamente, donde tampouco são prazeres; pois, assim como os deleitáveis se comportam entre si, assim também os prazeres que deles provêm. [1486]
Ademais, não é necessário que alguma outra coisa seja melhor do que o prazer, como alguns dizem que o fim é melhor do que a geração. Pois nem todos os prazeres são gerações nem se dão com geração, mas são operações e fim. Nem provêm das coisas produzidas, mas dos que usam. E o fim não é, em todos, alguma outra coisa, mas apenas naqueles que conduzem à perfeição da natureza. Por isso, também não é correto dizer que o prazer é uma geração sensível, mas antes deve-se dizer que é a operação daquele que possui o hábito segundo a natureza; e, em vez de sensível, deve-se dizer não impedida. Ora, pareceu a alguns que é uma certa geração, porque diz respeito ao que é principalmente bom; com efeito, julgam que a operação é uma geração, quando, porém, ela é algo posterior. [1490]
Ora, dizer que os prazeres são maus porque certas coisas prazerosas causam doença é o mesmo que dizer que certas coisas saudáveis são más quanto ao dinheiro; assim, portanto, ambos são maus sob esse aspecto, mas não são maus segundo isto, pois também contemplar às vezes prejudica a saúde. [1494]
Ora, o prazer que provém de cada coisa não impede nem a prudência nem o hábito nem coisa alguma, mas o prazer alheio o faz; pois os prazeres que provêm de contemplar e aprender fazem contemplar e aprender mais. [1495]
Que não haja obra da arte nem prazer algum, disso resulta razoavelmente; pois a arte não é de outra operação nem de uma única operação, mas de uma potência. Ainda que também a arte da perfumaria e a da cozinha pareçam ser do prazer. [1496]
Que o temperante fuja e que o prudente busque uma vida sem tristeza, e que as crianças e os animais busquem o prazer, tudo se resolve do mesmo modo. Pois, já que se disse de que maneira todos os prazeres são absolutamente bons e de que maneira não são bons, tais prazeres é que as crianças e os animais buscam, e é a tristeza deles que o prudente foge (isto é, aqueles prazeres que se dão com concupiscência e tristeza e são corporais, pois tais são estes), e é segundo os excessos deles que o intemperante é intemperante. Por isso o temperante foge destes, porque há também prazeres próprios do temperante. [1497]
1483. Como, porém, não sucede etc. Depois que o Filósofo apresentou as razões a favor das opiniões precedentes, aqui pretende resolvê-las.
E primeiro propõe o que pretende, dizendo que, a partir do que se segue, ficará manifesto que, por causa das razões mencionadas, não se segue nem que o prazer não seja bom, nem que não seja o ótimo.
Ora, deixa de lado a opinião intermediária, que sustentava que nem todos os prazeres são bons, porque de algum modo é verdadeira;
estas duas, porém, ele as menciona ao mesmo tempo, porque procedem de razões semelhantes, e por isso também são resolvidas ao mesmo tempo.
1484. Em segundo lugar, em primeiramente etc., resolve as razões mencionadas.
E primeiro faz preceder algumas distinções pelas quais se pode saber de que modo o prazer é bom ou não bom;
em segundo lugar resolve as razões apresentadas, em ademais, não é necessário etc.
Quanto ao primeiro ponto, faz duas distinções, cada uma das quais é tomada segundo a distinção do bem, que é o objeto do prazer.
Diz, pois, primeiro que o bem se diz de dois modos,
de um modo, aquilo que é bom absolutamente,
de outro modo, aquilo que é bom para alguém,
e porque todas as coisas tendem ao bem, consequentemente a isto se relacionam tanto as naturezas como os hábitos, que se ordenam ou ao bem absolutamente ou ao que é bom para alguém; e porque os movimentos e as gerações procedem de certas naturezas e hábitos, é preciso que também, consequentemente, ocorra o mesmo a respeito deles, de modo que alguns deles sejam bons absolutamente e alguns sejam bons para alguém. Assim, portanto, suposto que os prazeres sejam movimentos e gerações, como diz o adversário, devem-se distinguir quatro gêneros de prazeres,
1485. dos quais alguns são bons absolutamente, como os prazeres nas obras das virtudes;
alguns prazeres, porém, parecem absolutamente maus, mas, quanto a um determinado indivíduo, não são maus, e sim elegíveis para ele por causa de alguma necessidade, como para o enfermo tomar remédios;
em terceiro grau, alguns não são para este absolutamente elegíveis e bons, mas às vezes e por breve tempo, contudo não lhe são absolutamente elegíveis, como roubar alimento em situação de extrema necessidade;
em quarto grau, há alguns prazeres que nem sequer são verdadeiramente prazeres, mas assim parecem por causa da disposição corrompida daquele que se deleita em tais coisas, como todos aqueles prazeres que se dão com tristeza ou dor e que são tomados como remédios daquela dor, tal como se vê naquilo em que se deleitam os que padecem, isto é, os enfermos; pois às vezes parece prazeroso ao enfermo revirar-se na cama e tomar coisas amargas ou algo semelhante.
1486. Faz a segunda distinção em ademais, uma vez que etc. E diz que o bem é duplo:
um se comporta ao modo de operação, como a consideração;
outro ao modo de hábito, como a ciência;
ora, destes, a operação é como o bem perfeito, porque é a perfeição segunda, ao passo que o hábito é como o bem imperfeito, porque é a perfeição primeira; por isso também o prazer verdadeiro e perfeito consiste no bem que é a operação. Mas aquelas ações ou movimentos que constituem o homem no hábito natural, isto é, que são constitutivos do hábito natural, são de fato prazerosos, mas por acidente; pois ainda não têm a noção de bem, já que precedem também o próprio hábito, que é a perfeição primeira, mas, segundo a ordem a este bem, têm a noção de bem e de prazeroso.
1487. Ora, é manifesto que a operação prazerosa que está na concupiscência não é operação do hábito perfeito, porque, sendo o hábito perfeito, não permanece algo a ser desejado que pertença a esse hábito; por isso é preciso que tal operação proceda de algum princípio habitual ou natural que se dá com tristeza; pois não é sem tristeza que alguém deseja a perfeição natural que ainda não possui.
1488. Que, porém, nem todas as operações prazerosas sejam tais, é evidente, pois encontram-se alguns prazeres que são sem tristeza e concupiscência, como se vê no prazer que diz respeito às operações da especulação: com efeito, tal prazer não se dá com alguma indigência da natureza, mas antes procede da perfeição da natureza, por exemplo, da razão aperfeiçoada pelo hábito da ciência. Assim, pois, são verdadeira e essencialmente prazeres aqueles que dizem respeito às operações que procedem dos hábitos, ou naturezas e formas já existentes; mas aqueles prazeres que dizem respeito às operações constitutivas dos hábitos e das naturezas não são verdadeira e absolutamente prazeres, mas por acidente.
1489. E sinal disto é que, se tais coisas fossem verdadeiramente prazerosas, seriam prazerosas em todo estado, o que evidentemente é falso, porque não é do mesmo prazeroso que se alegra a natureza saturada, por exemplo, quando o homem come em excesso, e a natureza bem constituída, isto é, bem disposta; pois a natureza bem disposta se alegra com aquelas coisas que são absolutamente prazerosas, ou seja, as que são convenientes à natureza humana, mas a natureza saturada se alegra em certas coisas contrárias àquelas que são absolutamente prazerosas; com efeito, os homens saciados se alegram com certas coisas ácidas e amargas, pelo fato de fazerem digerir o alimento, embora nenhuma delas seja naturalmente prazerosa, porque não é semelhante à natureza humana, mas se comporta em excesso; do que se segue que tampouco são absolutamente prazeres os que por elas são causados, porque, assim como se comportam entre si as coisas prazerosas, assim também se comportam os prazeres que por elas são causados.
1490. Em seguida, quando diz: ademais, não é necessário etc., resolve as razões acima apresentadas.
E primeiro resolve a razão apresentada para a terceira opinião;
em segundo lugar, a razão apresentada para a segunda, em dizer, porém, que são maus etc.;
em terceiro lugar, as razões que são apresentadas para a primeira, em ora, impede etc.
Diz, pois, primeiro que não é necessário que o prazer não seja o ótimo, e sim que alguma outra coisa seja melhor do que o prazer, coisa que alguns dizem por esta razão: porque o fim é melhor do que a geração, e eles põem o prazer como geração.
1491. No que supõem algo falso, porque, como se vê pelo que precede, nem todos os prazeres são gerações ou se dão com geração, pois tais são somente aqueles que, com tristeza e concupiscência, são constitutivos dos hábitos, mas alguns são operações e por isso têm a noção de fim, porque a operação é a perfeição segunda, como se disse. E prazeres desse tipo não provêm das coisas produzidas, isto é, daquilo que se faz, mas dos que usam, isto é, dos que fazem uso; como que dizendo: tais prazeres não consistem no próprio vir-a-ser dos hábitos, mas no uso dos que já existem. E, segundo isto, é evidente que não é preciso que o fim de todos os prazeres seja alguma outra coisa, mas somente daqueles prazeres que se seguem às operações que conduzem à perfeição da natureza, os quais se dão com concupiscência.
1492. E disto também se elimina a definição de prazer que era apresentada na primeira razão da primeira opinião; pois não está bem dizer que o prazer é uma geração sensível, o que convém aos prazeres imperfeitos, mas antes deve-se dizer, segundo o que convém aos prazeres perfeitos, que o prazer é a operação de um hábito conatural já existente,
1493. e, em lugar daquilo que puseram (sensível), ponhamos nós (não impedida), de modo que esta seja a definição de prazer: o prazer é a operação não impedida do hábito que é segundo a natureza, isto é, que convém à natureza daquele que o possui; ora, o impedimento da operação causa dificuldade no operar, a qual exclui o prazer. Por isso pareceu a alguns que o prazer era uma certa geração, porque o prazer diz respeito ao que é principalmente bom, isto é, à operação, que julgam ser o mesmo que a geração, quando, porém, não é o mesmo, mas algo posterior; pois a geração é o caminho para a natureza, ao passo que a operação é o uso da forma ou do hábito natural.
1494. Em seguida, quando diz: dizer, porém, que são maus etc., resolve a razão apresentada para a segunda opinião. E diz que aquilo que se provava, isto é, que certos prazeres são maus porque há certas coisas prazerosas que induzem à doença, é o mesmo que se concluíssemos que certas coisas saudáveis são más porque prejudicam o dinheiro que nelas se gasta; deve-se, portanto, dizer que ambos, a saber, as coisas prazerosas e as saudáveis, são maus por um lado, isto é, enquanto as coisas prazerosas prejudicam a saúde e as saudáveis o dinheiro, mas não são maus segundo isto, isto é, enquanto são saudáveis ou prazerosas, pois, pela mesma razão, poder-se-ia concluir que a especulação da verdade seria má porque às vezes prejudica a saúde.
1495. Em seguida, quando diz: ora, impede etc., resolve as razões apresentadas para a primeira opinião. Das quais a primeira já foi resolvida.
Por isso, primeiro resolve a quarta;
em segundo lugar a quinta, em que não haja obra da arte etc.;
em terceiro lugar, ao mesmo tempo a segunda, a terceira e a sexta, em que o temperante fuja etc.
Diz, pois, primeiro que o prazer próprio, que provém de cada coisa, não oferece impedimento nem à prudência nem a qualquer outro hábito, mas os prazeres alheios oferecem impedimento a cada um; ao contrário, os prazeres próprios coadjuvam cada coisa, tal como o prazer com que alguém se deleita em especular e aprender faz o homem especular e aprender mais. E assim não se segue que o prazer seja um mal absolutamente, mas que algum prazer seja mau para alguém.
1496. Em seguida, quando diz: que não haja obra da arte etc., resolve a quinta razão. E diz que razoavelmente resulta que prazer algum seja obra da arte; pois aquilo que é verdadeira e propriamente prazer segue-se à operação, e não à geração; ora, a arte é produtora de geração, porque é a reta razão das coisas que se podem fazer, como se disse no livro sexto, mas a arte não é produtora da operação, e sim de alguma potência da qual procede a operação. Ainda que se pudesse resolver por refutação, porque a arte da perfumaria e a da cozinha parecem ordenar-se ao prazer; contudo, não são produtoras do próprio prazer, mas das coisas prazerosas.
1497. Em seguida, quando diz: que o temperante, porém etc., resolve ao mesmo tempo a segunda, a terceira e a sexta razão. E diz que o fato de o temperante fugir dos prazeres (o que era a segunda razão), o fato de o prudente buscar uma vida sem tristeza (o que era a terceira razão) e o fato de as crianças e os animais buscarem os prazeres (o que era a sexta razão), tudo tem a mesma solução. Pois se disse que alguns prazeres são bons absolutamente e como nem todos são tais, e prazeres desse tipo, isto é, os que não são bons absolutamente, é que as crianças e os animais buscam, e é a tristeza deles que o prudente foge (falamos dos prazeres corporais, que se dão com concupiscência e tristeza, e tais são os prazeres desse tipo, a saber, os não bons absolutamente), e é segundo os excessos deles que alguém se diz intemperante. Por isso, também estes são aqueles prazeres de que o temperante foge; há, porém, alguns prazeres próprios do temperante, enquanto ele se deleita na operação própria, e destes não foge, mas os busca.