Lição 7
Conclusion of the Definition
Ademais, pecar dá-se de muitos modos, pois o mal pertence ao infinito, como julgaram os pitagóricos; mas o bem pertence ao finito, e acertar dá-se de um só modo. Por isso aquilo é fácil, isto porém é difícil: fácil errar o alvo, difícil acertá-lo. E por isso, pois, à malícia pertencem o excesso e o defeito, mas à virtude a medietade; pois se é bom de um modo simples, mas mau de muitas maneiras. [319]
É, pois, a virtude um hábito eletivo que consiste na medietade em relação a nós, determinada pela razão e tal como a determinará o sábio. [322]
Ora, é a medietade de duas malícias, de uma segundo o excesso, de outra segundo o defeito. [324]
E, ademais, isto: que umas destas faltam e outras excedem daquilo que é preciso, tanto nas paixões como nas operações, ao passo que a virtude encontra e escolhe o meio. [325]
Por isso, segundo a substância e a razão que exprime o que ela é, a virtude é uma medietade; mas segundo o ótimo e o bem é um extremo. [326]
Ora, nem toda operação nem toda paixão da alma admite medietade. [328]
Pois algumas, logo pelo próprio nome, estão implicadas com a malícia, por exemplo o gozo do mal e o descaramento e a inveja, e, nas operações, o adultério, o furto, o homicídio; pois todas estas coisas e as que tais se dizem são más por si mesmas, mas não o excesso delas nem o defeito; portanto, jamais se pode acerca destas agir retamente, mas sempre pecar. Nem há bem ou não bem acerca de tais coisas naquilo que é como é preciso e quando e como, por exemplo cometer adultério, mas simplesmente fazer qualquer uma destas coisas é pecado. [329]
Seria, pois, semelhante a quem atribuísse, também acerca do cometer injustiças e do temer e do ser incontinente, uma medietade e um excesso e um defeito. Pois assim haveria uma medietade do excesso e do defeito, e um excesso do excesso e um defeito do defeito. [330]
Mas, assim como na temperança e na fortaleza não há excesso e defeito, por ser o meio, de algum modo, um extremo, assim também não há daquelas coisas nem medietade nem excesso e defeito, mas, seja como for que se opere, é vicioso. Universalmente, pois, nem do excesso nem do defeito há medietade, nem da medietade há excesso e defeito. [331]
319. Ademais, pecar dá-se de muitos modos etc. Postas as duas razões precedentes, aqui o Filósofo põe a terceira, que se toma da razão do bem e do mal. E diz que de muitos modos se pode pecar, porque o mal, que está incluído na razão do pecado, <segundo os pitagóricos> pertence ao infinito; e porque o bem, segundo eles, pertence ao finito, por oposição deve entender-se que agir retamente só se pode dar de um só modo.
320. Ora, a razão disso pode ser tomada daquilo que Dionísio diz no livro Sobre os nomes divinos, a saber, que o bem provém de uma causa una e íntegra, ao passo que o mal provém de defeitos singulares. Como fica claro no bem e no mal corporais; pois a deformidade, que é o mal da forma corporal, ocorre por qualquer dos membros que se comporte de modo indecoroso; mas a beleza só ocorre se todos os membros forem bem proporcionados e de boa cor; e semelhantemente a enfermidade, que é o mal da compleição corporal, provém de uma singular desordem de qualquer humor, mas a saúde não pode existir senão pela devida proporção de todos os humores. E semelhantemente o pecado na ação humana ocorre por qualquer das circunstâncias que se comporte desordenadamente de qualquer modo, seja por superabundância, seja por defeito, mas a retidão dela não pode existir senão estando todas as circunstâncias ordenadas do modo devido. E por isso, assim como a saúde ou a beleza ocorrem de um só modo, mas a enfermidade ou a deformidade de muitos, ou antes de infinitos modos, assim também a retidão da operação ocorre de um só modo, mas o pecado na ação ocorre de infinitos modos. E daí vem que pecar é fácil, porque isto ocorre de múltiplas maneiras, mas agir retamente é difícil, porque só ocorre de um modo;
321. e apresenta um exemplo, pois é fácil desviar-se do contato com o ponto, isto é, do ponto assinalado seja no centro do círculo, seja em qualquer outra superfície determinadamente marcada, porque isto ocorre de infinitos modos, mas tocar o ponto é difícil, porque ocorre de um só modo. Ora, é manifesto que a superabundância e o defeito ocorrem de múltiplas maneiras, mas o meio de um só modo; donde se torna manifesto que a superabundância e o defeito pertencem à malícia, mas o meio à virtude, porque alguns são bons absolutamente, isto é, de um só modo, mas os maus o são de várias formas, isto é, de múltiplas maneiras, como foi dito.
322. Depois, quando diz: a virtude é, pois, um hábito etc., conclui das premissas a definição da virtude.
E primeiro apresenta a própria definição;
segundo, explica-a, ali: e um meio-termo entre dois etc.;
terceiro, exclui um erro, ali: mas nem toda ação admite etc.
Ora, na definição da virtude ele estabelece quatro pontos.
O primeiro deles é o gênero, que ele toca quando diz que a virtude é um hábito, como foi mostrado acima.
O segundo é o ato da virtude moral (pois é preciso que o hábito seja definido pelo ato), e isto ele toca quando diz: eletivo, isto é, que opera segundo a escolha; pois o principal da virtude é a escolha, como se dirá adiante.
E porque é preciso que o ato seja determinado pelo objeto, por isso, em terceiro lugar, estabelece o objeto ou o termo da ação naquilo que diz: existente no meio-termo que é em relação a nós; pois foi mostrado acima que a virtude busca e opera o meio não da coisa, mas quanto a nós. Ora, foi dito acima que a virtude moral está no apetite que participa da razão,
e por isso foi preciso acrescentar a quarta partícula, que toca a causa da bondade na virtude, quando diz: determinado pela razão; pois buscar o meio não é bom senão enquanto é determinado segundo a razão. Todavia, porque acontece que a razão seja tanto reta como errônea, é preciso que a virtude opere segundo a razão reta, como foi suposto acima,
323. e para explicar isto acrescenta: e tal como o sábio o determinaria, isto é, o meio; ora, sábio chama-se aqui não aquele que é sábio absolutamente, como que conhecendo a causa altíssima de todo o universo, mas o prudente, que é sábio nas coisas humanas, como se dirá adiante no livro VI; pois também na arte de edificar se determina o que é bom fazer segundo o juízo do sábio naquela arte, e o mesmo ocorre em todas as demais artes.
324. Depois, quando diz: e um meio-termo entre dois etc., explica a definição precedente quanto àquilo que disse, que a virtude consiste no meio. E acerca disto faz três coisas:
primeiro, mostra de que coisas há o meio;
segundo, em relação a que se considera essa mediação, ali: e ainda etc.;
terceiro, conclui um certo corolário, ali: por isso, segundo a substância etc.
Diz, pois, primeiro que a própria virtude é um certo meio entre duas malícias, isto é, entre dois hábitos viciosos, a saber, o que é segundo a superabundância e o que é segundo o defeito, assim como a liberalidade é o meio entre a prodigalidade, que tende à superabundância, e a avareza, que tende ao defeito.
325. Depois, quando diz: e ainda etc., mostra em relação a que se consideram a superabundância, o defeito e o meio. E diz que se deve ainda considerar que certas malícias, por comparação a algo, ficam aquém, outras porém superabundam, tanto nas paixões como nas operações, a saber, em relação àquilo que é preciso, do qual algumas ficam aquém e algumas superabundam; mas a virtude, enquanto conserva aquilo que é preciso, diz-se meio e o encontrar pela razão e o escolher pela vontade. E assim fica claro que a virtude é ela mesma um meio e, além disso, opera o meio; é meio, com efeito, entre dois hábitos, mas opera o meio nas ações e paixões.
326. Depois, quando diz: por isso, segundo a substância, infere um certo corolário do que foi dito, a saber, que a virtude, segundo a sua substância e segundo a razão definitiva, é um meio, mas, enquanto tem o caráter do ótimo em tal gênero e do que opera ou dispõe bem, é um extremo. Para a evidência disto deve-se considerar que, como foi dito, toda a bondade da virtude moral depende da retidão da razão, donde o bem convém à virtude moral segundo que ela segue a razão reta, mas o mal convém a ambos os vícios, tanto ao que superabunda como ao que fica aquém, enquanto se afasta da razão reta; e por isso, segundo a razão de bondade e de malícia, ambos os vícios estão num só extremo, a saber, no mal, que se considera segundo o afastamento da razão, mas a virtude está no outro extremo, a saber, no bem, que se considera segundo o seguimento da razão.
327. Todavia, disso não se segue que a virtude e os vícios opostos recebam a espécie que a definição significa, porque a razão reta se relaciona com o apetite reto como o motivo e a regra extrínseca, mas o apetite perverso pelo vício não pretende afastar-se da razão reta, senão que isto lhe acontece à margem da intenção, ao passo que por si pretende aquilo em que superabunda ou fica aquém; ora, o que é à margem da intenção é por acidente; e o que é extrínseco e por acidente não constitui a espécie; mas a espécie do hábito toma-se segundo o objeto para o qual por si tende, e, segundo os objetos, o meio compete à virtude, e os extremos aos vícios. E por isso o Filósofo disse que, segundo a razão de bem, a virtude está no extremo, mas segundo a espécie substancial está no meio.
328. Depois, quando diz: mas nem toda ação admite etc., exclui um certo erro. Pois alguém poderia crer que, como nas operações e paixões a virtude ocupa o meio e os vícios ocupam os extremos, isto ocorreria em todas as operações e paixões. Mas ele exclui isto, dizendo que nem toda operação ou paixão da alma admite um meio que pertença à virtude.
329. E isto ele manifesta ali: pois certas coisas etc. E primeiro pela razão. Porque certas coisas, tanto paixões como ações, no próprio nome implicam malícia, como nas paixões a alegria pelo mal e a impudência e a inveja, e nas operações o adultério, o furto, o homicídio; pois todas estas coisas e semelhantes são por si más, e não apenas a superabundância ou o defeito delas; donde, acerca destas coisas não acontece que alguém se comporte retamente de qualquer modo que as opere, mas, fazendo-as, sempre peca. E para expor isto acrescenta que, em tais coisas, o bem ou o não-bem não acontece pelo fato de alguém fazer alguma delas, por exemplo o adultério, como é preciso ou quando é preciso, de modo que assim se faça bem, e mal quando é feito conforme não é preciso, mas absolutamente, de qualquer modo que alguma dessas coisas se faça, é pecado; pois em si mesma qualquer delas comporta algo que repugna àquilo que é preciso.
330. Segundo, ali: é, pois, semelhante etc., manifesta o mesmo por exemplos nos vícios. E diz que, porque essas coisas comportam por si a malícia, é semelhante buscar nelas o meio e os extremos como se alguém atribuísse meio, superabundância e defeito acerca disto que é fazer coisas injustas, ser tímido e ser incontinente, o que na verdade seria inconveniente. Pois, como essas coisas comportam superabundância e defeito, seguir-se-ia que haveria um meio da superabundância e do defeito, o que é contradição no adjunto, e que se deveria buscar uma superabundância da superabundância e um defeito do defeito, o que iria ao infinito.
331. Terceiro, ali: assim como da temperança etc., manifesta o mesmo por semelhança nas virtudes. Pois é manifesto que, porque a temperança e a fortaleza comportam de si o meio, não há nelas tomar superabundância e defeito, como se alguém fosse temperante ou forte de modo superabundante ou deficiente; pois o meio não pode ser extremo. E semelhantemente, porque aquelas coisas comportam de si os extremos, não pode haver delas um meio nem superabundância e defeito, mas de qualquer modo que cada uma delas seja operada, é vicioso.
332. Por fim, conclui que não pode haver meio de nenhuma superabundância ou defeito, nem superabundância ou defeito de nenhum meio.