Lição 3
The Solution of Doubts
Primeiro, pois, é preciso examinar se sabendo ou não sabendo, e de que modo sabendo. Depois, acerca de que tipo de coisas se deve estabelecer o continente e o incontinente, quero dizer, se acerca de todo prazer e tristeza ou acerca de alguns determinados. E se o continente e o perseverante são o mesmo ou outro. E, do mesmo modo, também acerca das outras coisas que são aparentadas com esta investigação. [1328]
Ora, o princípio da investigação é se o continente e o incontinente têm diferença naquilo em torno de que versam ou no modo como se comportam; quero dizer, se em ser incontinente somente acerca destas coisas ou não, ou no como, ou não, mas a partir de ambos. Depois, se a incontinência e a continência dizem respeito a todas as coisas ou não. [1330]
Pois nem acerca de todas as coisas alguém é absolutamente incontinente, mas acerca daquelas em que o intemperante o é. [1335]
Nem por se comportar absolutamente em relação a estas coisas (pois seria então o mesmo que a intemperança), mas por se comportar de tal modo. Com efeito, este é conduzido escolhendo, julgando que sempre se deve buscar o prazer presente; aquele, porém, não julga assim, mas o busca. [1336]
Quanto ao fato de ser uma opinião verdadeira, e não uma ciência, aquilo contra o qual agem incontinentemente, em nada difere para o argumento. Pois alguns dos que agem não duvidam, mas julgam saber com certeza. Se, portanto, por crerem tranquilamente, os que opinam agem mais contra a opinião do que os que sabem, em nada difere a ciência da opinião; pois alguns não creem menos naquilo que opinam do que outros naquilo que sabem; e isto o manifesta Heráclito. [1337]
Mas, porque dizemos saber de dois modos (pois se diz saber tanto aquele que tem, mas não usa a ciência, quanto aquele que a usa), há diferença entre ter a ciência mas não a considerar, e ainda assim fazer o que não se deve fazer, e ter a ciência e considerá-la. Pois este último caso parece difícil, mas não se ele não a considera. [1338]
Além disso, porque há dois modos de proposições, nada impede que aquele que tem ambas atue contra a ciência, usando a universal, mas não aquela que é segundo a parte; pois as coisas operáveis são singulares. Ora, o universal também difere: um é em si mesmo, o outro é na coisa; por exemplo, que as coisas secas são úteis a todo homem, e que este homem é homem, ou que este alimento é seco; mas se ele tem esta proposição de tal tipo, ou não a tem, ou não atua segundo ela. Segundo estes modos, pois, há tanta diferença que não parece nada inconveniente que assim se saiba, mas de outro modo seria admirável. [1339]
Além disso, o ter a ciência de outro modo diferente dos que agora se disseram existe nos homens. Pois no ter, mas não no usar, vemos um hábito diferente; de modo que, de certa maneira, se tem e não se tem, como o que dorme, o que padece de loucura e o embriagado. Ora, é assim que ficam dispostos os que se encontram nas paixões; pois as iras, as concupiscências dos prazeres venéreos e algumas paixões deste gênero manifestamente até transmutam o corpo, e a alguns até provocam loucuras. É manifesto, portanto, que se deve dizer que os incontinentes se comportam de modo semelhante a estes. [1342]
Ora, o dizer os discursos que provêm da ciência não é sinal algum. Pois também os que se encontram nestas paixões pronunciam demonstrações e recitam as palavras de Empédocles. E os que começam a aprender enfileiram os discursos, mas ainda não sabem; pois é preciso que a ciência se torne conatural, e isto requer tempo. Por isso, do mesmo modo que os que fingem, assim se deve julgar que falam também os incontinentes. [1343]
Além disso, alguém poderá considerar a causa também a partir da natureza. Pois esta é uma opinião universal, a outra é acerca dos singulares, dos quais o sentido já é próprio. Quando, porém, de ambas se faz uma só, é necessário que, quanto ao concluído, a alma o afirme, e, nas coisas operáveis, que atue imediatamente. Por exemplo, se se deve provar tudo o que é doce, e isto é doce, como um dos singulares, é necessário que aquele que pode e não é impedido, ao mesmo tempo também atue isto. [1345]
Quando, pois, existe a universal que proíbe provar, e esta outra, que todo doce é agradável, e este é doce, ela atua. E se, por acaso, está presente a concupiscência, uma diz que se evite isto, mas a concupiscência conduz a ele; pois ela pode mover cada uma das partes. Por isso, acontece que de certo modo se aja incontinentemente contra a razão e a opinião. [1347]
Mas não de modo contrário segundo si mesma, e sim por acidente, pois é a concupiscência que é contrária, e não a opinião, à reta razão. Por isso, e por causa disto, as feras não são incontinentes, porque não têm opinião universal, mas apenas imaginação e memória dos singulares. [1349]
Como, porém, se dissolve a ignorância e o incontinente volta a saber, o argumento é o mesmo que se dá acerca do embriagado e do adormecido, e não é próprio desta paixão, o que se deve ouvir dos fisiólogos. [1351]
Ora, porque a proposição última é tanto uma opinião do sensível quanto o princípio das ações, aquele que está na paixão ou não a tem, ou a tem de tal modo que não estava no ter a ciência, mas no dizer, como o embriagado que recita as palavras de Empédocles; e, porque o termo extremo das coisas operáveis não é universal nem parece ser científico do mesmo modo, parece seguir-se o que Sócrates procurava. Pois não é na presença da ciência tomada em sentido próprio que se dá a paixão, nem é ela mesma arrastada por causa da paixão, mas sim a do sensível. Acerca, pois, do fato de ser sabendo ou não, e de que modo sabendo, pode-se agir incontinentemente, tanto foi dito. [1352]
1328. Primeiro, pois, é preciso examinar etc. Depois de o Filósofo, tendo estabelecido alguns pontos prováveis acerca da continência e da incontinência, ter suscitado dúvidas contra cada um deles, aqui passa a resolvê-las. Deve-se, porém, considerar que ele não introduz as soluções na mesma ordem em que pressupôs os pontos prováveis nem em que introduziu as dúvidas, mas segundo o que exige a ordem do ensino, isto é, conforme a solução de uma dúvida depende de outra.
Primeiro, pois, diz sobre o que versa a intenção;
segundo, executa o proposto, em: ora, o princípio etc.
Diz, portanto, primeiro que, para resolver as dúvidas mencionadas, deve-se antes de tudo considerar se alguns, apesar de saberem, podem ser incontinentes ou não, e, se sim, de que modo saibam;
e esta dúvida se resolve em primeiro lugar, porque sua solução pertence à consideração de se há incontinência ou não (pois foi dito acima que a contenda de Sócrates visava a isto, como que a que não houvesse incontinência),
e de cada coisa é preciso considerar primeiro se ela existe.
1329. Em segundo lugar, deve-se considerar acerca de que tipo de coisas devemos estabelecer que alguém se diga continente ou incontinente, a saber, se acerca de todo prazer e tristeza ou acerca de alguns determinados; e esta dúvida se resolve em segundo lugar, embora tenha sido proposta em sexto lugar, porque o princípio para investigar o que é algum hábito é considerar a sua matéria, como fica evidente pelo modo de proceder de Aristóteles nas coisas precedentes. E, porque o continente e o perseverante diferem segundo a matéria, ao mesmo tempo com isto deve-se considerar se são o mesmo ou diferem. E, do mesmo modo, deve-se considerar acerca de todas as outras coisas que têm conexão e conveniência com esta consideração.
1330. Em seguida, quando diz: ora, o princípio etc., começa a resolver as dúvidas antes suscitadas.
E, primeiro, determina se há continência e incontinência, resolvendo a primeira dúvida, que se movia contra o terceiro ponto provável;
segundo, determina a matéria da continência e da incontinência, resolvendo a sexta dúvida, que se movia contra o sexto ponto provável; e, porque a temperança e a continência convêm na matéria, ao mesmo tempo nesta parte mostra a diferença entre a temperança e a continência, resolvendo a terceira dúvida, que se movia contra o quarto ponto provável; mostra também quem é o pior, se o intemperante ou o incontinente, resolvendo a quinta dúvida, que se movia contra o primeiro ponto provável; e esta segunda parte começa em: se, porém, há algum incontinente etc.;
1331. terceiro, mostra o que é a continência e a incontinência, resolvendo a quarta dúvida, que se movia contra o segundo ponto provável, e com isto resolve a segunda questão, que se movia contra o quinto ponto provável, mostrando que o prudente não pode ser incontinente; e esta terceira parte começa em: se, pois, o continente é etc.
Acerca do primeiro ponto, faz três coisas:
primeiro, apresenta antes algumas noções, que são necessárias para resolver;
segundo, exclui uma solução falsa, em: quanto ao fato, pois etc.;
terceiro, apresenta a verdadeira, em: mas, porque de dois modos etc.
Acerca do primeiro ponto, faz duas coisas:
primeiro, diz sobre o que versa a intenção;
segundo, executa, em: pois nem etc.
1332. Diz, portanto, primeiro que, para determinar as coisas mencionadas, é preciso antes de tudo empenhar-se em saber estes dois pontos.
O primeiro deles é se o continente e o incontinente têm uma diferença, a saber, específica, pela qual se distingam de todos os outros, naquilo em torno de que versam, isto é, pelo fato de terem uma matéria determinada acerca da qual versam, assim como a diferença da mansidão provém de versar acerca das iras, ou no como, isto é, no modo de se comportar acerca de qualquer matéria, assim como a prudência versa acerca de toda matéria moral, não, porém, do mesmo modo que as virtudes morais;
1333. e, para expor o que dissera, acrescenta que se deve considerar se alguém se diz incontinente somente pelo fato de versar acerca de alguma matéria, ou somente no como, isto é, somente pelo fato de se comportar de algum modo indiferentemente acerca de toda matéria, ou se alguém se diz continente ou incontinente não somente por isto ou por aquilo, mas a partir de ambos, isto é, tanto pelo modo determinado quanto pela matéria determinada.
1334. O segundo ponto que é preciso considerar previamente é se a continência e a incontinência dizem respeito a todas as coisas ou não, mas a uma matéria determinada.
1335. Em seguida, quando diz: pois nem etc., determina o que dissera.
E, primeiro, o segundo ponto, dizendo que alguém não se diz continente e incontinente absolutamente acerca de todas as coisas, mas acerca daquela matéria determinada acerca da qual alguém se diz temperante ou intemperante, a saber, acerca das concupiscências e dos prazeres do tato.
1336. Em segundo lugar, em: nem em relação a estas coisas etc., determina o primeiro ponto. E diz que alguém não se diz continente e incontinente somente em relação a estas coisas, isto é, a respeito de alguma matéria determinada (pois assim seria o mesmo que o intemperante, já que versam acerca da mesma matéria), mas alguém se diz incontinente no comportar-se de tal modo, isto é, pelo fato de se comportar de algum modo acerca da matéria determinada. Porque este, a saber, o intemperante, é conduzido ao pecado por escolha, como que julgando que sempre se deve buscar, isto é, aceitar, o prazer que se lhe oferece no momento presente; mas o incontinente não julga isto, e, no entanto, busca o prazer quando lhe está presente.
1337. Em seguida, quando diz: quanto ao fato, pois etc., exclui uma solução falsa, que já tocou acima. E diz que em nada difere para o presente argumento se se disser que aquele conhecimento contra o qual alguns agem incontinentemente é opinião verdadeira, mas não é ciência. Pois, pela evidência do fato, é claro que alguns dos que agem incontinentemente não têm uma adesão débil, como que duvidando, mas julgam saber com certeza aquilo contra o que agem. Se, portanto, alguém quiser dizer que, por isso, os que opinam agem mais contra a opinião do que os que sabem, porque tranquilamente, isto é, debilmente, aderem ao que opinam, deve-se considerar que nisto em nada difere a ciência da opinião; pois alguns não aderem menos às opiniões, mesmo falsas, do que outros à verdadeira ciência: e isto se pode ver por Heráclito, que tão firmemente sustentava que todas as coisas sempre se movem e que não há verdade alguma que permaneça por muito tempo nas coisas, que, no fim de sua vida, não queria falar, para que a verdade não se transmutasse entrementes, mas apenas movia o dedo para enunciar algo, como se diz no quarto livro da Metafísica.
1338. Em seguida, quando diz: mas, porque de dois modos etc., apresenta a verdadeira solução.
E, primeiro, resolve a dúvida por meio de algumas distinções;
em segundo lugar, pela natureza da própria ciência prática operativa, ali: além disso, e se naturalmente etc.
Quanto ao primeiro ponto, ele estabelece três distinções.
A primeira delas é que dizemos de dois modos que alguém sabe:
com efeito, num modo diz-se que sabe aquele que tem o hábito, mas não o usa, como o geômetra quando não considera as questões geométricas;
de outro modo, diz-se que sabe aquele que usa a sua ciência, isto é, considerando as coisas que pertencem àquela ciência;
ora, faz grande diferença se alguém faz aquilo que não deve tendo o hábito da ciência mas não o usando, ou se alguém tem o hábito e o usa especulando. Pois isto parece ser difícil, a saber, que alguém aja contra aquilo que em ato especula; mas não parece ser difícil se alguém age contra aquilo que sabe habitualmente, mas não considera.
1339. Estabelece a segunda distinção ali: além disso, porque há dois modos etc. E diz que há dois modos de proposições que a razão prática usa, a saber, a proposição universal e a singular; ora, nada parece impedir que alguém opere à margem da ciência, aquele que por hábito conhece uma e outra proposição, mas em ato considera apenas a universal, e não a particular; e isto porque as operações versam sobre os singulares, de onde, se alguém não considera o singular, não é de admirar que aja de outro modo.
1340. Deve-se saber, contudo, que o universal pode ser tomado de dois modos:
num modo, enquanto está em si mesmo, por exemplo, se dizemos que as coisas secas fazem bem a todo homem;
de outro modo, segundo está na coisa singular, por exemplo, se dizemos que este é homem ou que tal alimento é seco;
pode, portanto, acontecer que alguém saiba tanto em hábito como em ato o universal considerado em si mesmo, mas o universal considerado neste singular ou não o tem, isto é, não o conhece em hábito, ou não o opera, isto é, não o conhece em ato.
1341. Portanto, segundo estes modos diferentes de saber, aquilo que parecia impossível a Sócrates difere de tal maneira que não parece haver nenhum inconveniente em que aquele que age incontinentemente saiba de um modo, a saber, apenas no universal, ou também no singular por hábito, mas não em ato; se, porém, aquele que age incontinentemente soubesse de outro modo, pareceria haver inconveniente, a saber, se soubesse o singular em ato.
1342. Estabelece a terceira distinção ali: além disso, ter etc.
E primeiro estabelece a distinção;
em segundo lugar, refuta uma objeção, ali: mas proferir as palavras etc.
Diz, pois, primeiro que, além dos modos mencionados, ainda se encontra nos homens outro modo de saber. Pois o fato de alguém saber por hábito e não em ato parece ter uma certa diferença: às vezes, com efeito, o hábito está livre, de modo que possa imediatamente passar ao ato quando o homem quiser; outras vezes, porém, o hábito está atado de tal modo que não pode passar ao ato, de onde, de certo modo, parece ter o hábito e, de certo modo, não o ter, como se vê no que dorme, no maníaco ou também no ébrio. E deste modo estão dispostos os homens enquanto estão nas paixões; pois vemos que a ira, as concupiscências dos prazeres venéreos e certas paixões deste gênero manifestamente transformam também o corpo exteriormente, e não apenas os movimentos animais, por exemplo, quando por elas o corpo se aquece; e às vezes tanto crescem tais paixões que levam alguns à insânia. E assim é manifesto que os incontinentes se dispõem de modo semelhante aos que dormem, aos maníacos ou aos ébrios, a saber, que têm atado o hábito da ciência prática nos singulares.
1343. Depois, quando diz: mas proferir as palavras etc., refuta uma objeção. Pois alguém poderia objetar contra o que foi dito que os incontinentes às vezes dizem palavras científicas mesmo no singular, e assim parece que não têm o hábito atado. Mas ele mesmo remove isto, dizendo que o fato de dizerem palavras da ciência não é sinal de que tenham o hábito livre, e prova isto por dois exemplos.
1344. O primeiro deles é que também aqueles que estão nas paixões mencionadas, por exemplo, os ébrios e os maníacos, proferem com a voz demonstrações, por exemplo, geométricas, e dizem as palavras de Empédocles, que eram difíceis de entender porque escreveu a filosofia em versos.
O segundo exemplo é o das crianças quando aprendem pela primeira vez, as quais combinam as palavras que proferem com a boca, mas ainda não as sabem, isto é, de modo que as entendam com a mente; pois para isto requer-se que aquilo que o homem ouve se lhe torne como que conatural, por causa da perfeita impressão delas no intelecto, para o que o homem precisa de tempo, no qual o intelecto, por múltiplas meditações, se firme naquilo que recebeu. E assim é também com o incontinente; pois ainda que diga: (não me é bom agora buscar tal deleitável), contudo não sente assim no coração; de onde deve-se pensar que os incontinentes dizem tais palavras como que fingindo, a saber, porque sentem uma coisa no coração e proferem outra com a boca.
1345. Depois, quando diz: além disso, e se naturalmente etc., resolve a dúvida proposta segundo o processo natural da ciência prática, aplicando as distinções mencionadas ao que se propõe.
E primeiro determina a verdade da questão;
em segundo lugar, responde à objeção de Sócrates.
Quanto ao primeiro ponto, faz duas coisas:
primeiro, propõe o processo natural da ciência prática nas ações;
em segundo lugar, mostra o impedimento que ocorre no incontinente, ali: quando, pois etc.
Diz, pois, primeiro que, se alguém quiser considerar a causa pela qual os incontinentes agem à margem da ciência segundo o processo natural da ciência prática, é preciso saber que no seu processo há dupla opinião:
uma, na verdade, universal, por exemplo: (tudo o que é desonesto deve ser evitado);
outra, porém, é singular, acerca daquilo que propriamente é conhecido pelo sentido, por exemplo: (este ato é desonesto).
Ora, como destas duas opiniões se forma uma só razão, é necessário que se siga a conclusão,
1346. mas nas coisas especulativas a alma apenas enuncia a conclusão, nas operativas, porém, imediatamente a executa. Assim, se a opinião universal for que se deve provar toda coisa doce, e a opinião particular for que (isto), mostrado algum particular, é doce, é necessário que aquele que pode provar imediatamente prove, a não ser que haja algo que o impeça. E isto, com efeito, ocorre no silogismo do temperante, que não tem concupiscência que repugne à razão que propõe que tudo o que é desonesto deve ser evitado, e de modo semelhante no silogismo do intemperante, cuja razão não repugna à concupiscência que inclina a isto, que todo deleitável deve ser tomado.
1347. Depois, quando diz: quando, pois etc., mostra como ocorre a falha no incontinente.
E primeiro mostra que há nele algo que impede;
em segundo lugar, mostra a causa do impedimento, ali: não contrariamente, porém etc.;
em terceiro lugar, mostra como esse impedimento cessa, ali: como, porém etc.
Quanto ao primeiro, deve-se considerar que no incontinente a razão não é totalmente esmagada pela concupiscência, de modo que no universal tenha a sentença verdadeira; suponha-se, pois, que da parte da razão se proponha uma universal que proíbe provar o doce desordenadamente, por exemplo, se se diz: (nenhum doce se deve provar fora de hora), mas da parte da concupiscência se propõe que todo doce é deleitável, o que é buscado por si pela concupiscência, e porque no particular a concupiscência ata a razão, não se assume sob o universal da razão, de modo que se diga que isto é fora de hora, mas assume-se sob o universal da concupiscência, de modo que se diga que isto é doce, e assim se segue a conclusão da obra; e há neste silogismo do incontinente quatro proposições, como já foi dito.
1348. E que o processo da razão prática às vezes se comporte deste modo, fica claro por isto: que, surgindo talvez a concupiscência, a razão diz que este concupiscível deve ser evitado segundo a sentença universal, como foi dito, mas a concupiscência conduz a isto propondo e assumindo livremente sem a proibição da razão, que está atada; porque a concupiscência, quando é veemente, pode mover qualquer parte da alma, mesmo a razão, se esta não estiver solícita em resistir; e assim ocorre a conclusão da obra, a saber, que alguém aja incontinentemente contra a razão e a opinião universal.
1349. Depois, quando diz: não contrariamente, porém etc., mostra a causa da referida repugnância. E diz que ali não há contrariedade da parte da razão por si, como acontece nos que duvidam, mas apenas por acidente, na medida em que a concupiscência se contraria à reta razão universal; não é, porém, alguma opinião que por si se contraria à reta razão, como alguns diziam.
1350. E disto infere um certo corolário, a saber, que as bestas não se dizem continentes ou incontinentes, porque não têm a opinião universal movente à qual se contraria a concupiscência, mas movem-se apenas pela fantasia e memória dos singulares.
1351. Depois, quando diz: como, porém, se resolve etc., mostra como cessa tal repugnância. E diz que, quanto a como se resolve a ignorância que o incontinente tem acerca do particular e novamente retorna à reta ciência, a razão é a mesma que a respeito do vinolento e do que dorme; paixões estas que, na verdade, se resolvem feita alguma transmutação no corpo, e de modo semelhante, porque pelas paixões da alma, por exemplo, pela concupiscência ou pela ira, o corpo se transmuta, é preciso que cesse esta transmutação corporal para que o homem retorne à mente sã; e por isso esta questão não é própria desta consideração, mas antes convém ouvi-la dos fisiologistas, isto é, dos naturais.
1352. Depois, quando diz: mas porque a última etc., segundo o que foi premisso resolve esta razão de Sócrates. E diz que a proposição e opinião última, a saber, a singular, se toma pelo sentido e domina nas ações que versam sobre os singulares; ora, tal proposição ou opinião aquele que está na paixão ou de modo algum a tem em hábito, ou tem o hábito atado, de modo que não possa saber em ato, mas fala destas coisas do modo como o ébrio diz as palavras de Empédocles; porque, portanto, estas coisas são verdadeiras e porque o universal que é compreendido pela ciência não é o termo extremo das coisas operáveis, parece seguir-se aquilo que Sócrates indagava. Pois fica claro pelo que foi dito que a paixão não se dá na presença da ciência principal que versa sobre o universal, visto que a paixão está apenas no particular, nem a ciência universal é arrastada pela paixão, mas apenas a estimativa sensível, que não é de tanta dignidade.
1353. Por último, epiloga que foi dito o bastante sobre isto: que o sábio age incontinentemente, ou aquele que não é sábio, e de que modo o incontinente é sábio.