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Lição 6

Virtue Is a Kind of Habit

Ora, é preciso não apenas dizer assim que é hábito, mas também que espécie de hábito. [306]

Deve-se dizer, portanto, que toda virtude de que quer que ela seja virtude, torna bom aquilo que a possui e faz que a sua obra se realize bem; por exemplo, a virtude do olho torna excelente tanto o olho quanto a sua obra, pois pela virtude do olho vemos bem; do mesmo modo também a virtude do cavalo torna o cavalo excelente e bom para correr, para levar o cavaleiro e para aguardar os combatentes. Se, pois, isto é assim em todas as coisas, então também a virtude do homem será um hábito pelo qual o homem se torna bom e pelo qual realiza bem a sua obra. [307]

Ora, de que modo isto se dará, já o dissemos. [309]

Além disso, isto também ficará manifesto se contemplarmos qual é a natureza dela mesma. Assim, em todo contínuo e divisível pode-se tomar isto que é o mais, isto que é o menos e isto que é o igual, e isto quer segundo a própria coisa quer em relação a nós. Ora, o igual é um certo meio entre a superabundância e o defeito. [310]

Chamo de meio quanto à coisa aquilo que dista igualmente de ambos os extremos, o qual é idêntico e único para todos. Mas meio em relação a nós é aquilo que nem excede nem falta; este, porém, não é único nem idêntico para todos. [311]

Por exemplo, se dez é muito e dois é pouco, seis é tomado como meio segundo a coisa, pois excede e é excedido igualmente. Ora, este meio é segundo a proporção aritmética. [312]

Mas o meio em relação a nós não deve ser tomado assim. Pois, se para alguém comer dez minas é muito e comer duas é pouco, o mestre não prescreverá seis minas. É que talvez isto também seja muito para quem come, ou pouco. Para Milão, com efeito, seria pouco, mas para o campeão dos ginásios seria muito. Semelhantemente também na corrida e na luta. Assim, pois, todo aquele que sabe foge do excesso e do defeito, e busca o meio, e este deseja; meio não quanto à coisa, mas quanto a nós. [313]

Se, pois, toda ciência assim realiza bem a sua obra, olhando para o meio e conduzindo a ela as suas obras. Por isso costumam dizer, das obras bem feitas, que nelas nada há a tirar nem a acrescentar, como se o excesso e o defeito corrompessem o que é bom, e a medietade o conservasse. Ora, os bons artífices, como dissemos, operam olhando para isto. Mas a virtude é mais precisa e melhor que toda arte, assim como também a natureza. Por conseguinte, será conjectora do meio. [315]

Falo da moral. Pois esta versa sobre as paixões e as operações, e nelas há excesso e defeito e meio. Por exemplo, temer e ousar e desejar e afastar-se e irar-se e compadecer-se e, universalmente, deleitar-se e entristecer-se pode ser o mais e o menos, e ambos não bem. Mas quando é preciso e naquilo em que é preciso e para com quem é preciso e por causa daquilo por que é preciso e como é preciso, aí está o meio e o ótimo, que pertence à virtude. Semelhantemente também nas operações há excesso e defeito e meio, e a virtude versa sobre as paixões e as operações, nas quais o excesso é vicioso e o defeito repreensível, ao passo que o meio é louvado e conduzido ao reto; e ambas estas coisas pertencem à virtude. É, pois, a virtude uma certa medietade, sendo conjectora do meio. [317]

306. Deve-se, porém, não só dizer assim, que é hábito, mas também que espécie de hábito etc. Depois de o Filósofo ter mostrado qual é o gênero da virtude, aqui investiga qual seja a diferença própria dela.

E primeiro propõe o que pretende e diz que, para que se saiba o que é a virtude, é preciso não só dizer que é um hábito, pelo que se torna conhecido o seu gênero, mas também que espécie de hábito é, pelo que se manifesta a diferença dele mesmo.

307. Em segundo lugar, em: deve-se, pois, dizer que toda virtude etc., manifesta o proposto. E acerca disto faz duas coisas:

primeiro manifesta em comum uma certa condição da virtude;

em segundo lugar, a partir dessa condição da virtude, manifesta a diferença própria dela, em: de que modo, porém, isto se dará etc.

Diz, pois, primeiro que toda virtude faz que o sujeito de que ela é se comporte bem e torna a sua obra bem realizada, assim como a virtude do olho é aquela pela qual o olho é bom e pela qual vemos bem, o que é a obra própria do olho; semelhantemente também a virtude do cavalo é aquela que torna o cavalo bom e pela qual o cavalo realiza bem a sua obra, que é correr velozmente e carregar suavemente o cavaleiro e esperar audazmente os combatentes.

308. E a razão disto é que a virtude de uma coisa se considera segundo o máximo daquilo que ela pode; por exemplo, naquilo que pode carregar cem libras, a sua virtude se determina não pelo fato de carregar cinquenta, mas pelo fato de carregar cem, como se diz no livro I do De caelo; ora, o máximo a que se estende a potência de uma coisa é a boa obra, e por isso pertence à virtude de qualquer coisa que produza boa obra; e porque a operação perfeita não procede senão de um agente perfeito, segue-se que, segundo a virtude própria, cada coisa é boa e opera bem. E se isto é verdadeiro em todas as demais coisas, como já ficou patente pelos exemplos, segue-se que a virtude do homem será um certo hábito, como se disse acima, pelo qual o homem se torna bom, falando formalmente, assim como pela brancura algo se torna branco, e pelo qual alguém opera bem.

309. Em seguida, quando diz: de que modo, porém, isto se dará, já o dissemos, investiga a diferença própria da virtude segundo a condição da virtude anteriormente indicada. E isto de três maneiras:

primeiro segundo a propriedade das operações;

em segundo lugar segundo a natureza da virtude, em: além disso, também isto se tornará manifesto etc.;

em terceiro lugar segundo a razão própria do bem ou do mal, em: ademais, pecar etc.

Diz, pois, primeiro que de que modo o homem se torna bom e de que modo opera bem já se disse acima; pois se disse acima que, pelas operações que estão no meio, nos tornamos bons segundo cada virtude, e, tornados bons, operamos operações semelhantes. Resta, pois, que, se a virtude é aquela que torna o homem bom e operante do bem, ela esteja no meio.

310. Em seguida, quando diz: além disso, também isto se tornará manifesto etc., prova o mesmo pela natureza da virtude. E acerca disto faz três coisas:

primeiro antepõe certas coisas que são necessárias para mostrar o proposto;

em segundo lugar conclui o proposto, em: se, pois, toda ciência etc.;

em terceiro lugar manifesta a conclusão, em: falo da moral etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro propõe as coisas que são necessárias para mostrar o proposto;

em segundo lugar manifesta o que dissera, em: chamo, pois etc.

Diz, pois, primeiro que ainda mais manifesto se tornará de que modo nos tornamos bons e operantes do bem, se considerarmos qual seja a natureza da virtude. Para evidência disto, é preciso admitir de antemão que três coisas, isto é, o mais e o menos e o igual, podem tomar-se tanto nas quantidades contínuas como também em qualquer outro divisível, quer se dividam segundo o número, como todas as coisas discretas, quer por acidente, por exemplo pela intensificação e remissão de uma qualidade no sujeito; ora, estas três coisas comportam-se de tal modo que o igual é o meio entre o mais, que pertence ao excesso, e o menos, que pertence ao defeito. E isto pode tomar-se de dois modos: de um modo segundo a quantidade absoluta da coisa, de outro modo segundo a sua proporção a nós.

311. Em seguida, quando diz: chamo, pois, de meio quanto à coisa etc., manifesta o que dissera acerca da diferença segundo a coisa e quanto a nós.

E primeiro pela razão;

em segundo lugar pelos exemplos, em: por exemplo, se dez etc.

Diz, pois, primeiro que o meio segundo a coisa é aquilo que dista igualmente de ambos os extremos, e, porque se considera segundo a quantidade absoluta da coisa, é o mesmo quanto a todos. Mas o meio quanto a nós é aquilo que nem excede nem falta da devida proporção a nós, e por isso esse meio não é o mesmo quanto a todos. Assim como, se tomarmos no calçado o meio quanto a nós, aquilo que nem excede a medida do pé nem falta; e porque nem todos têm a mesma quantidade de pé, por isso este meio não é o mesmo quanto a todos.

312. Em seguida, quando diz: por exemplo, se dez é muito etc., manifesta o que dissera por meio de exemplos.

E primeiro acerca do meio da coisa, que dista igualmente dos extremos, assim como seis é tomado como meio entre dez, que é muito, e dois, que é pouco, porque seis é excedido por dez e excede dois igualmente, a saber, em quatro. Ora, o meio que assim se toma nos números segundo a equidistância dos dois extremos diz-se ser segundo a proporção aritmética, que considera a própria quantidade do número. Mas o meio que se toma segundo a igualdade de proporção diz-se ser segundo a proporção geométrica, como adiante ficará patente no livro V.

313. Em segundo lugar, em: mas o meio em relação a nós etc., exemplifica acerca do meio quanto a nós. E diz que o meio que se toma em comparação a nós não deve ser tomado assim, a saber, segundo a equidistância dos extremos. E isto se torna suficientemente patente no exemplo antes proposto do calçado: pois, se o calçado cujo comprimento é de vinte dedos é excessivo, e aquele que é de quatro é diminuto, nem por isso é preciso que aquele que é de doze dedos se comporte de modo médio, mas talvez seja excessivo em comparação ao pé de alguém e deficiente em comparação ao pé de outro. E isto também ele mesmo exemplifica nos alimentos: pois, se comer dez minas, isto é, dez medidas, é muito e comer duas é pouco, nem por isso o mestre que deve ordenar acerca do alimento de alguém lhe prescreverá que coma seis, porque isto também é muito em comparação a um e pouco em comparação a outro.

314. Pois seria pouco para um certo homem que se chamava Milão, do qual Solino narra que comia um boi por dia; mas isto seria muito para o campeão dos ginásios, isto é, para aquele que deve vencer nos jogos ginásticos, nos quais os homens lutavam nus e era preciso que tomassem pouco alimento para serem mais ágeis. E semelhante é também o caso daqueles que correm no estádio e daqueles que se exercitam na palestra, que era um certo lugar de exercícios entre os gregos. E assim é também segundo toda ciência operativa, que aquele que sabe foge do excesso e do defeito e deseja e busca aquilo que é o meio, não, na verdade, segundo a coisa, mas em comparação a nós.

315. Em seguida, quando diz: se, pois, toda ciência assim a obra etc., argumenta a partir das premissas deste modo. Toda ciência operativa realiza bem a sua obra pelo fato de que, segundo a intenção, olha para o meio e, segundo a execução, conduz as suas obras ao meio. E sinal disto pode tomar-se do fato de que os homens, quando alguma obra se comporta bem, costumam dizer que nada há a acrescentar nem a diminuir, dando com isto a entender que o excesso e o defeito corrompem a bondade da obra, que se conserva na medietade. Por isso também os bons artífices, como se disse, operam olhando para o meio. Mas a virtude é mais precisa que toda arte e também melhor, assim como também a natureza. Pois a virtude moral age inclinando determinadamente para uma só coisa, assim como também a natureza, pois o costume converte-se em natureza; ao passo que a operação da arte é segundo a razão, que se comporta em relação a diversas coisas; por isso a virtude opera mais precisamente que a arte, assim como também a natureza.

316. Semelhantemente também a virtude é melhor que a arte, porque pela arte o homem é capaz de fazer uma boa obra, mas não é da arte que provenha que ele faça a boa obra, pois pode realizar uma obra má, porque a arte não inclina ao bom uso da arte, assim como o gramático pode falar incorretamente; mas pela virtude alguém se torna não só capaz de operar bem, mas também operante do bem, porque a virtude inclina à boa operação, assim como também a natureza, ao passo que a arte produz apenas o conhecimento da boa operação. Por isso resta, com maior razão, que a virtude, que é melhor que a arte, seja conjectora do meio.

317. Em seguida, quando diz: falo da moral etc., expõe a conclusão inferida. E diz que isto que se disse deve entender-se da virtude moral, que versa sobre as paixões e as operações, nas quais se pode tomar excesso e defeito e meio.

E exemplifica primeiro nas paixões. Pois diz que se pode temer e ousar e desejar e afastar-se, isto é, fugir de algo, e irar-se e compadecer-se e, universalmente, deleitar-se e entristecer-se mais e menos do que é preciso, e ambos não se fazem bem. Mas se alguém teme e ousa, e assim das outras paixões, quando é preciso e naquilo em que é preciso e para com quem é preciso e por causa daquilo por que é preciso e do modo por que é preciso, isto será o meio nas paixões e nisto consiste o ótimo da virtude.

E semelhantemente também acerca das operações há excesso e defeito e meio. Ora, a virtude moral versa sobre as paixões e as operações como sobre a sua matéria própria, de tal modo que nelas o excesso é vicioso e o defeito repreensível, mas o meio é louvado e comporta-se retamente. E estas duas coisas pertencem à virtude, a saber, a retidão, que se opõe à perversidade viciosa, e o louvor, que se opõe à repreensão, as quais se seguem das duas primeiras.

318. E assim conclui que a virtude moral, considerada em si mesma, é uma certa medietade, e é também conjectora do meio, na medida em que olha para o meio e opera o meio.