Lição 18
Happiness, a Good Deserving Honor
Determinadas, porém, estas coisas, examinemos acerca da felicidade se é das coisas louváveis ou antes das mais honoráveis. Pois é manifesto que não é das potências. [213]
Ora, parece que tudo o que é louvável se louva por ser de certa qualidade e por ter certa relação a algo. [215]
Com efeito, louvamos o justo, o valente e, universalmente, o bom e a virtude por causa das obras e dos atos. E o forte e o corredor e cada um dos demais, por serem por natureza de certa qualidade e por se relacionarem de algum modo a algum bem e ao que é digno de estudo. [216]
Isto, porém, é manifesto também a partir daqueles louvores que se referem aos deuses. Pois parecem ridículos quando referidos a nós. Ora, isto acontece porque são louvores por relação, como dissemos. [218]
Se, porém, o louvor é de tais coisas, é manifesto que das melhores não há louvor, mas algo maior e melhor. [219]
Como parece; pois aos deuses chamamos bem-aventurados e felizes, e aos mais divinos dos homens chamamos bem-aventurados. Semelhantemente também quanto aos bens; pois ninguém louva a felicidade como louva o justo, mas, como a algo mais divino e melhor, a proclama bem-aventurada. [220]
Parece, porém, que também Eudoxo bem atribuiu à volúpia as primícias. Pois julga que o fato de ela, sendo um bem, não ser louvada anuncia que é melhor do que as coisas louváveis. E que tal é Deus e o bem por si. Pois a estas coisas se referem também as outras. [221]
Com efeito, o louvor é da virtude, pois é a partir dela que os realizadores dos bens; e o louvor das obras é semelhantemente das corporais e das anímicas. Mas isto talvez seja mais próprio averiguar àqueles que se afadigaram acerca dos louvores. A nós, porém, é manifesto a partir daquilo que foi dito que a felicidade é das coisas honoráveis e perfeitas. [222]
Parece, porém, ser assim também por ser princípio. Pois é por causa dela que todos realizam todas as demais coisas. Ora, o princípio e a causa dos bens pomos como algo honorável e divino. [223]
213. Determinadas, porém, estas coisas etc. Depois de o Filósofo ter mostrado o que é a felicidade, aqui indaga acerca de certa propriedade da felicidade.
E primeiro levanta a questão;
segundo, determina a verdade, ali: ora, parece que tudo o que é louvável etc.
Diz, então, que, depois da determinação das coisas supracitadas, é necessário examinar se a felicidade é do número dos bens louváveis ou antes do número dos bens honoráveis. E que seja necessário a felicidade estar contida sob um ou outro gênero destes bens, ele o prova por isto: que a felicidade não é do gênero das potências; pois ninguém é louvado ou honrado só por ter potência para o bem, mas por estar de algum modo disposto para o bem.
214. Para a evidência desta questão, deve-se considerar que a honra e o louvor diferem de duplo modo.
Primeiramente, da parte daquilo em que consiste a honra ou o louvor; pois assim a honra se estende a mais do que o louvor; com efeito, a honra importa certo testemunho que manifesta a excelência de alguém, seja isto feito por palavras, seja por atos, como quando alguém se ajoelha diante de outro ou se levanta por ele; mas o louvor consiste somente em palavras.
Segundo, diferem quanto àquilo a que se prestam o louvor e a honra; pois ambos se prestam a alguma excelência; ora, há dupla excelência: uma absoluta, e segundo esta lhe é devida a honra; outra, porém, é a excelência em ordem a algum fim, e assim lhe é devido o louvor.
215. Depois, quando diz: ora, parece que tudo o que é louvável etc., determina a questão levantada.
E primeiro mostra que a felicidade é dos bens honoráveis, por ela ser algo perfeito e ótimo;
na segunda parte, por ela ter a razão de princípio, ali: parece, porém, ser assim etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, mostra de que coisas há louvor;
segundo, conclui que das coisas ótimas não há louvor, mas algo melhor.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, propõe o que pretende;
segundo, manifesta o propósito, ali: com efeito, o justo etc.
Diz, então, primeiro que tudo o que é louvado parece ser louvável a partir de duas coisas ao mesmo tempo: a saber, por ter em si alguma disposição, e por ter alguma relação a algo distinto.
216. Depois, quando diz: com efeito, o justo e o valente etc., manifesta o propósito.
E primeiro, a partir dos louvores humanos;
segundo, a partir dos louvores divinos, ali: isto, porém, é manifesto também a partir daqueles etc.
Acerca do primeiro, deve-se considerar que o homem é louvado tanto por causa da virtude do ânimo quanto por causa da virtude do corpo. Ora, segundo a virtude do ânimo é louvado tanto o próprio homem que tem a virtude do ânimo, por exemplo, o justo e o valente e, comumente, o bom segundo qualquer virtude, quanto é louvada a própria virtude; e isto por causa de algo distinto, a saber, por causa das obras e dos atos; pois por isso é louvado o virtuoso e a própria virtude, enquanto se ordena a executar a obra da virtude.
Ora, segundo a virtude do corpo é louvado alguém por ser forte para lutar e ágil para correr, e de outras coisas semelhantes, por o homem se ordenar de algum modo a algo que é bom em si e digno de estudo, como que digno de zelo.
217. E deve-se atender à diferença entre as virtudes do ânimo e as do corpo, pois para o louvor da virtude da alma basta que alguém se comporte bem quanto ao próprio ato da virtude, porque o bem do homem consiste no próprio ato da virtude; mas nas virtudes corporais não basta que alguém se comporte bem quanto ao ato daquela virtude, por exemplo, quanto a correr ou lutar, pois nestas coisas não consiste o bem do homem; com efeito, alguém pode correr ou lutar ou pugnar tanto por um bem quanto por um mal. E por isso, falando do louvor das virtudes da alma, disse que são louvadas por causa das obras e dos atos; mas, falando das virtudes corporais, determinou que são louvadas em ordem a algum bem e digno de estudo.
218. A seguir, quando diz: e isto é manifesto etc., torna manifesto o que havia dito por meio dos louvores divinos. Pois, se algo fosse louvável absolutamente e não segundo a relação a alguma outra coisa, seguir-se-ia que a mesma coisa seria louvável em todos. Ora, isto aparece manifestamente falso se alguém considerar os louvores com que louvamos as substâncias separadas, que ele chama deuses. Pois, se alguém referisse os louvores delas àquelas coisas que se louvam nos homens, pareceria ridículo, como se, por exemplo, alguém louvasse Deus por não ser vencido pela concupiscência ou pelo temor. E isto ocorre porque os louvores se dão por relação a algo, como foi dito.
219. A seguir, quando diz: se, porém, há louvor de tais coisas etc., a partir das premissas conclui o que havia proposto.
E primeiro estabelece a conclusão deste modo: o louvor é daquelas coisas cuja bondade se considera em ordem a alguma outra coisa; mas as coisas ótimas não se ordenam a nenhuma outra coisa, antes, pelo contrário, as outras se ordenam a elas; logo, das coisas ótimas não há louvor, mas algo melhor que o louvor. Assim como também, nas coisas especulativas, dos princípios não há ciência, mas algo mais elevado que a ciência, a saber, o intelecto, ao passo que a ciência é das conclusões, que são conhecidas por causa dos princípios; e semelhantemente o louvor é daquelas coisas cuja bondade é por causa de outras, ao passo que a honra, como algo melhor que o louvor, é daquelas coisas às quais as outras se ordenam.
220. Em segundo lugar, ali: como parece etc., torna manifesta a conclusão precedente por meio daquilo que comumente se diz.
E primeiro quanto àquelas coisas de que há algo melhor que o louvor;
em segundo lugar quanto àquelas coisas de que há louvor, ali: pois o louvor etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, para tornar manifesto o que propõe, apresenta aquilo que comumente parece;
em segundo lugar, aquilo que pareceu a Eudoxo, ali: parece também a Eudoxo etc.
Diz, pois, primeiro que parece comumente a todos que das coisas ótimas há algo melhor que o louvor; o que é manifesto pelo fato de que, atribuindo aos deuses como que algo melhor que o louvor, os dizemos bem-aventurados e felizes, e semelhantemente aos melhores dos homens, nos quais aparece certa semelhança divina por causa de sua excelência. E, assim como às melhores pessoas atribuímos algo melhor que o louvor, assim também aos melhores dentre os bens, como à felicidade; pois ninguém louva a felicidade do modo como louva um homem justo ou virtuoso, mas atribui-lhe algo maior, ao dizer que ela é a bem-aventurança.
221. A seguir, quando diz: parece também a Eudoxo etc., conduz ao mesmo o dito de Eudoxo, que colocava no prazer as primícias dos bens, isto é, sustentando que o prazer é o sumo bem. E julga que isto se depreende do fato de que, embora esteja entre os bens, todavia ninguém é louvado por causa do prazer, porque é algo melhor que as coisas louváveis. E tal é Deus e qualquer outra coisa que seja por si um bem, pois a coisas deste tipo, que são bens por si, também outras se referem, cuja bondade, a saber, é louvada por se relacionarem de algum modo com aquelas que são bens por si.
222. A seguir, quando diz: pois o louvor etc., torna manifesto o que havia dito quanto àquelas coisas de que há louvor. E diz que o louvor é da virtude, pela qual somos operadores de bens. Pois alguém é louvado por causa dos atos do corpo ou da alma, como foi dito acima. Mas considerar aquelas coisas pelas quais os homens costumam ser louvados pertence mais propriamente aos retóricos, cujo estudo se esforça em torno dos louvores; pois isto pertence ao gênero demonstrativo de causas, que é um dos três que caem sob a consideração da retórica, como fica claro pelo Filósofo no I livro da Retórica e por Túlio em sua Retórica. Mas, quanto a nós, aparece manifestamente pelo que foi dito que a felicidade está entre as coisas honoráveis, pelo fato de ser certo bem perfeito.
223. A seguir, quando diz: parece também ser assim etc., prova o que propõe pela razão do princípio. Pois aquilo que é princípio e causa dos bens colocamos como honorável, como sendo algo divino, pois Deus é o primeiro princípio de todo bem. Mas a felicidade é o princípio de todos os bens humanos, porque por causa dela todos os homens operam tudo o que fazem; ora, o fim, nas coisas operáveis e apetecíveis, tem razão de princípio, porque do fim se toma a razão daquelas coisas que são para o fim. Donde se segue que a felicidade é certo bem honorável.