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Lição 3

An Enumeration of the Intellectual Virtues

Comecemos, pois, novamente pelo que dissemos acima acerca dessas coisas. São, com efeito, cinco em número aqueles pelos quais a alma diz o verdadeiro, afirmando ou negando. Ora, estes são: a arte, a ciência, a prudência, a sabedoria, o intelecto. Pois, pela suspeita e pela opinião, acontece dizer o falso. [1142]

Que coisa seja, pois, a ciência, torna-se manifesto a partir daqui, se é preciso ter certeza e não seguir semelhanças. Pois todos supomos que aquilo que sabemos não pode ser de outro modo. Ora, as coisas que podem ser de outro modo, quando se acham fora da observação, ocultam-se se são ou não. Portanto, o cognoscível é por necessidade. Logo, é eterno; pois os entes que são por necessidade de modo absoluto são todos eternos; ora, os eternos são não gerados e incorruptíveis. [1144]

Além disso, toda ciência parece ser ensinável, e o cognoscível, aprendível. Ora, todo ensino se dá a partir de conhecimentos anteriores, como dissemos nos Analíticos. Pois um se dá pela indução, outro pelo silogismo. A indução é certamente do princípio e do universal, ao passo que o silogismo procede dos universais. Há, portanto, princípios dos quais procede o silogismo, dos quais não há silogismo; logo, dão-se pela indução. A ciência, pois, é um hábito demonstrativo e tudo o mais que determinamos nos Analíticos. Pois, quando de algum modo os princípios lhe são cridos e conhecidos, ele sabe; com efeito, se não os conhece mais que a conclusão, terá a ciência por acidente. Sobre a ciência, pois, fique determinado deste modo. [1147]

Ora, do contingente que pode ser de outro modo, algo é factível e algo agível; e uma coisa é o fazer e outra o agir. E cremos nisso também pelas razões exteriores. Por isso, o hábito ativo com razão é diverso daquele que é hábito factivo com razão. E nem a ação e o fazer se contêm mutuamente; pois nem a ação é o fazer, nem o fazer é a ação. [1150]

Ora, visto que a arte de edificar é uma certa arte e um certo hábito factivo com razão, e nenhuma arte há que não seja hábito factivo com razão, nem tal hábito que não seja arte, a arte será o mesmo que o hábito factivo com razão verdadeira. [1153]

Ora, toda arte é acerca da geração, e o fazer arte é considerar de que modo se faça alguma das coisas contingentes, que podem ser e não ser, e cujo princípio está no que faz, mas não no que é feito. [1154]

Pois não há arte acerca daquelas coisas que são ou se fazem por necessidade, nem acerca daquelas que são segundo a natureza; pois estas têm em si mesmas o princípio. [1156-1157]

Ora, visto que o fazer e o agir são coisas diversas, é necessário que a arte seja do fazer, mas não do agir. [1158]

E, de certo modo, a fortuna e a arte são acerca das mesmas coisas, como também Agatão disse: A arte amou a fortuna, e a fortuna, a arte. [1159]

A arte, pois, como foi dito, é um hábito, um certo hábito factivo com razão verdadeira; a inépcia, ao contrário, é um hábito factivo com razão falsa acerca do contingente que pode ser de outro modo. [1160]

1142. Comecemos, pois, novamente pelo que dissemos acima etc. Depois que o Filósofo investigou a noção segundo a qual se devem entender as virtudes intelectuais, aqui já começa a tratar das próprias virtudes intelectuais.

E primeiro trata das virtudes intelectuais principais;

segundo, de certas virtudes anexas a uma delas, a saber, à prudência, ali: é preciso, porém, assumir etc.

Acerca do primeiro, faz duas coisas:

primeiro, enumera as virtudes intelectuais;

segundo, trata de cada uma delas, ali: que coisa seja, pois, a ciência etc.

Diz, pois, primeiro, que, posta a noção de entender as virtudes intelectuais, devemos novamente começar por aquilo que acima foi determinado, para assim tratarmos das próprias virtudes intelectuais.

1143. Pois foi dito antes que as virtudes intelectuais são hábitos pelos quais a alma diz o verdadeiro. Ora, são cinco em número aqueles pelos quais a alma sempre diz o verdadeiro, seja afirmando, seja negando, a saber: a arte, a ciência, a prudência, a sabedoria e o intelecto. Por isso é patente que estes cinco são as virtudes intelectuais. Ora, desse número exclui a suspeita, que se tem por algumas conjecturas acerca de certos fatos particulares, e a opinião, que se tem por razões prováveis acerca de certas coisas universais; pois, embora por esses dois às vezes se diga o verdadeiro, contudo acontece que por eles às vezes se diz o falso, que é o mal do intelecto, assim como o verdadeiro é o seu bem; ora, é contra a noção de virtude ser princípio de um ato mau; e assim é patente que a suspeita e a opinião não podem ser ditas virtudes intelectuais.

1144. A seguir, quando diz: que coisa seja, pois, a ciência etc., trata das virtudes intelectuais enumeradas.

E primeiro trata de cada uma delas;

segundo, mostra qual é a principal entre elas, ali: e assim como o que tem cabeça etc.

Acerca do primeiro, faz duas coisas:

primeiro, trata das virtudes intelectuais que aperfeiçoam o intelecto acerca daquelas coisas que derivam dos princípios;

segundo, trata dos hábitos intelectuais que aperfeiçoam o intelecto acerca dos primeiros princípios, ali: porque a ciência é acerca dos universais etc.

Acerca do primeiro, faz duas coisas:

primeiro, trata da ciência, que aperfeiçoa o intelecto acerca das coisas necessárias;

segundo, dos hábitos que aperfeiçoam o intelecto acerca das coisas contingentes, ali: ora, do contingente que pode ser de outro modo etc.

Acerca do primeiro, faz duas coisas:

primeiro, dá a conhecer a ciência da parte da matéria;

segundo, da parte da causa, ali: além disso, toda ciência é ensinável etc.

1145. Diz, portanto, primeiro que aquilo que é a ciência pode tornar-se manifesto a partir do que será dito, se é preciso conhecer a ciência por certeza e não seguir semelhanças, segundo as quais, isto é, às vezes dizemos por semelhança que sabemos também as coisas sensíveis das quais estamos certos. Mas a noção certa de ciência daqui se toma, a saber, que todos suspeitamos, acerca daquilo que sabemos, que não é possível que se comporte de outro modo; do contrário, não haveria a certeza de quem sabe, mas a dúvida de quem opina. Ora, semelhante certeza, a saber, que não possa ser de outro modo, não pode haver-se acerca das coisas contingentes que podem comportar-se de outro modo; pois então só se pode ter certeza delas quando caem sob o sentido, mas quando passam para fora da observação, isto é, quando deixam de ser vistas ou sentidas, então fica oculto se existem ou não existem, como é manifesto acerca disto: que Sócrates está sentado. Assim, pois, é manifesto que todo o que é cognoscível é por necessidade. Do que conclui que é eterno; porque todas as coisas que são absolutamente por necessidade são eternas; ora, as de tal gênero nem são geradas nem se corrompem. Tais são, portanto, as coisas acerca das quais há ciência.

1146. Pode, porém, haver também alguma ciência acerca das coisas geráveis e corruptíveis, por exemplo a natural; não, contudo, segundo os particulares que estão submetidos à geração e à corrupção, mas segundo as razões universais que são por necessidade e sempre.

1147. Depois, quando diz: além disso, ensinável etc., dá a conhecer a ciência pela causa. E diz que toda ciência parece ser ensinável, isto é, capaz de ser ensinada; por isso, no primeiro livro da Metafísica se diz que o sinal de quem sabe é poder ensinar, pois por aquilo que está em ato outro é reduzido da potência ao ato; e pela mesma razão todo o cognoscível é aprendível, a saber, por aquele que está em potência para saber. Ora, é preciso que todo ensino ou disciplina se faça a partir de algumas coisas previamente conhecidas, como se disse no princípio dos Segundos Analíticos; pois não podemos chegar ao conhecimento de algo ignorado senão por meio de algo conhecido.

1148. Há, porém, um duplo ensino a partir de coisas previamente conhecidas: um por indução, e outro por silogismo. Ora, a indução conduz a conhecer algum princípio e algo universal, ao qual chegamos por meio das experiências dos singulares, como se diz no princípio da Metafísica; mas dos princípios universais, previamente conhecidos do modo mencionado, procede o silogismo. Assim, pois, é manifesto que há certos princípios dos quais procede o silogismo, os quais não são dados a conhecer por silogismo, do contrário se procederia ao infinito nos princípios dos silogismos, o que é impossível, como se prova no primeiro dos Segundos Analíticos; assim, pois, resta que o princípio do silogismo é a indução. Ora, nem todo silogismo é disciplinar, como que fazendo saber, mas apenas o demonstrativo, que conclui coisas necessárias a partir de necessárias.

1149. Assim, portanto, é manifesto que a ciência é um hábito demonstrativo, isto é, causado por demonstração, observadas todas aquelas coisas que, acerca da ciência demonstrativa, foram determinadas nos Segundos Analíticos. Pois é preciso, para que alguém saiba, que os princípios pelos quais sabe sejam de algum modo cridos e conhecidos ainda mais do que as conclusões que são sabidas; do contrário, não terá a ciência por si, mas por acidente, na medida em que, a saber, pode acontecer que ele saiba esta conclusão por meio de alguns outros princípios e não por meio destes que não conhece mais do que a conclusão; pois é preciso que a causa seja mais poderosa do que o efeito; por isso, aquilo que é causa de conhecer deve ser mais conhecido. E assim, deste modo, foi determinado acerca da ciência.

1150. Depois, quando diz do contingente, porém etc., determina acerca dos hábitos que aperfeiçoam o intelecto acerca das coisas contingentes.

E acerca disto faz três coisas:

primeiro, mostra que há dois hábitos acerca das coisas contingentes;

segundo, determina acerca de um deles, a saber, acerca da arte, ali: ora, uma vez que a arte de edificar etc.;

terceiro, determina acerca do outro, a saber, acerca da prudência, ali: acerca da prudência, porém, deste modo etc.

Diz, portanto, primeiro que o contingente que pode comportar-se de outro modo divide-se em dois, porque algo dele é agível e algo é factível, o que se conhece por isto: que uma é a feitura e outra é a ação.

1151. E a estas coisas podemos assentir por razões exteriores, isto é, por aquilo que foi determinado fora desta ciência, a saber, no nono livro da Metafísica; pois ali se mostrou a diferença entre a ação e a feitura; pois ação se diz a operação que permanece no próprio agente, como ver, entender e querer, ao passo que feitura se diz a operação que passa para a matéria exterior a fim de formar algo dela, como edificar, queimar e serrar. Porque, portanto, os hábitos se distinguem segundo os objetos, é consequente que o hábito que é ativo com razão, a saber, a prudência, seja outro do que o hábito factivo que é com razão, o qual é a arte, e que um deles não esteja contido sob o outro, assim como nem a ação nem a feitura estão contidas uma sob a outra, porque nem a ação é feitura nem a feitura é ação; pois distinguem-se por diferenças opostas, como é manifesto pelo que se disse.

1152. Deve-se, porém, considerar que, uma vez que o conhecimento das coisas contingentes não pode ter a certeza da verdade que repele a falsidade, por isso, quanto ao que pertence somente ao conhecimento, as coisas contingentes são deixadas de lado pelo intelecto, que é aperfeiçoado pelo conhecimento da verdade; é, porém, útil o conhecimento das coisas contingentes na medida em que é diretivo da operação humana, que é acerca das coisas contingentes. E por isso dividiu as coisas contingentes, tratando das virtudes intelectuais, somente na medida em que estão submetidas à operação humana. Por isso também só as ciências práticas são acerca das coisas contingentes enquanto são contingentes, a saber, no particular; ao passo que as ciências especulativas não são acerca das coisas contingentes senão segundo as razões universais, como acima se disse.

1153. Depois, quando diz: ora, uma vez que a arte de edificar etc., determina acerca da arte.

E primeiro acerca da própria arte segundo si mesma;

segundo, acerca da arte por comparação com o seu oposto, ali: a arte, portanto etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro, mostra o que é a arte;

segundo, qual é a matéria da arte, ali: ora, toda arte é etc.

Manifesta o primeiro por indução. Pois vemos que a arte de edificar é uma certa arte e, novamente, que é um certo hábito para fazer algo com razão, e não se encontra nenhuma arte à qual isto não convenha, a saber, que seja hábito factivo com razão, nem se encontra tal, isto é, hábito factivo com razão, que não seja arte; por isso é manifesto que o mesmo é a arte e o hábito factivo com razão verdadeira.

1154. Depois, quando diz: ora, toda arte etc., determina a matéria da arte.

E acerca disto faz três coisas:

primeiro, põe a matéria da arte;

segundo, mostra daquilo de que difere segundo a sua matéria, ali: pois nem acerca destas coisas etc.;

terceiro, mostra com o que convém na matéria, ali: e segundo certo modo etc.

Ora, acerca da matéria da arte há duas coisas a considerar,

a saber, a própria ação do artífice que é dirigida pela arte,

e a obra que é feita pela arte.

Há, porém, uma tríplice operação da arte:

a primeira é considerar de que modo algo deve ser feito,

a segunda é operar acerca da matéria exterior,

a terceira é constituir a própria obra.

E por isso diz que toda arte é acerca da geração, isto é, acerca da constituição e do acabamento da obra, o que primeiro põe como fim da arte, e é também acerca do artificiar, isto é, acerca da operação da arte pela qual dispõe a matéria, e é também acerca do especular de que modo algo se faz pela arte.

1155. Da parte, porém, da própria obra há duas coisas a considerar.

Das quais a primeira é que aquelas coisas que se fazem pela arte humana são contingentes, podendo ser e não ser, o que é manifesto por isto: que, quando se fazem, começam a ser de novo.

A segunda é que o princípio da geração das obras artificiais está apenas no que faz, como que extrínseco a elas, mas não no que é feito, como que intrínseco.

1156. Depois, quando diz pois nem acerca destas coisas etc., manifesta o que foi dito, mostrando a diferença da arte em relação a três coisas.

Primeiro, em relação às ciências divinas e matemáticas, que são acerca daquelas coisas que são ou se fazem por necessidade, acerca das quais não há arte.

1157. Segundo, ali: nem acerca destas etc., mostra a diferença em relação à ciência natural, que é acerca daquelas coisas que são segundo a natureza, acerca das quais não há arte; pois aquelas coisas que são segundo a natureza têm em si mesmas o princípio do movimento, como se diz no segundo livro da Física, o que não convém às obras da arte, como se disse.

1158. Terceiro, ali: uma vez que, porém etc., mostra a diferença da arte em relação à prudência. E diz que, porque a ação e a feitura são diversas entre si, é necessário que a arte seja diretiva da feitura e não da ação, da qual é diretiva a prudência.

1159. Depois, quando diz: e segundo certo modo etc., mostra com o que a arte convém na matéria. E diz que a fortuna e a arte são acerca das mesmas coisas segundo algum modo; pois ambas são acerca daquelas coisas que se fazem pelo intelecto, mas a arte com razão, a fortuna sem razão. E esta convergência Agatão designou, dizendo que a arte amou a fortuna e a fortuna a arte, na medida, a saber, em que convêm na matéria.

1160. Depois, quando diz: a arte, portanto etc., determina acerca da arte por comparação com o seu oposto. E diz que, assim como a arte, como se disse antes, é um certo hábito factivo com razão verdadeira, assim a atecnia, isto é, a inépcia, ao contrário, é um hábito factivo com razão falsa acerca do contingente que pode comportar-se de outro modo.