Lição 1
Moral Virtue is Caused by Habit
Sendo dupla a virtude, uma intelectual e outra moral, a que é intelectual tem, em grande parte, tanto sua geração como seu crescimento a partir do ensino. Por isso necessita de experiência e de tempo. A moral, porém, provém do costume, donde recebeu o nome, desviando-se pouco da palavra costume. [245]
Do que também é manifesto que nenhuma das virtudes morais está em nós por natureza. Pois nada do que existe por natureza se habitua de outro modo; por exemplo, a pedra, que por natureza é levada para baixo, não se habituará a ser levada para cima, ainda que alguém a habitue dez mil vezes lançando-a para cima, nem o fogo para baixo, nem qualquer outra coisa das que por natureza tendem de um modo se habituará a tender de outro. Portanto, as virtudes não estão em nós nem por natureza nem contra a natureza, mas somos por natureza aptos a recebê-las e nos aperfeiçoamos nelas pelo hábito. [248]
Além disso, todas as coisas que nos advêm por natureza, primeiro possuímos suas potências e depois exercemos suas operações. O que é manifesto no caso dos sentidos; pois não adquirimos os sentidos por ver muitas vezes ou por ouvir muitas vezes, mas, ao contrário, tendo-os é que os usamos, não os obtivemos por usá-los. As virtudes, porém, adquirimo-las tendo antes agido, assim como também nas demais artes; pois aquilo que é preciso aprender a fazer, aprendemo-lo fazendo; por exemplo, construindo, tornam-se construtores, e tocando cítara, citaristas; assim também, praticando ações justas, tornamo-nos justos; praticando ações temperadas, temperantes; e praticando ações corajosas, corajosos. [250]
Atesta-o também o que se faz nas cidades. Pois os legisladores, habituando os cidadãos, os tornam bons, e esta é a vontade de todo legislador; e quantos não fazem bem isto, erram; e nisto difere uma boa constituição de uma má. [251]
Além disso, das mesmas coisas e pelas mesmas coisas toda virtude tanto se produz como se corrompe. Do mesmo modo também a arte. Pois tocando cítara é que se tornam bons e maus citaristas, e proporcionalmente. E os construtores e todos os demais; pois de construir bem serão bons construtores, e de construir mal, maus. Com efeito, se não fosse assim, não haveria necessidade alguma de quem ensina, mas todos se tornariam bons ou maus. Assim também se dá com as virtudes; pois, agindo naquilo que diz respeito às transações que há entre os homens, tornamo-nos uns justos e outros injustos; e agindo naquilo que diz respeito aos perigos e habituando-nos a temer ou a confiar, uns tornam-se corajosos e outros medrosos; do mesmo modo também no que se refere às concupiscências e às iras, uns tornam-se temperantes e mansos, outros intemperantes e iracundos, uns por comportar-se assim nessas coisas, outros por comportar-se de outro modo; e, em suma, para dizer numa só palavra, de operações semelhantes nascem os hábitos. [252]
Por isso é preciso realizar operações de tal qualidade, pois segundo as diferenças destas se seguem os hábitos. Portanto, não pouco importa habituar-se desde jovem, imediatamente, de um modo ou de outro, mas muito, ou melhor, importa tudo. [254]
245. Existindo, porém, uma dupla virtude etc. Depois que o Filósofo tratou daquilo que é preâmbulo à virtude, começa aqui a tratar das virtudes.
E divide-se em duas partes:
na primeira, trata das próprias virtudes;
na segunda, de certas coisas que se seguem às virtudes ou as acompanham, no livro VII, ali: depois disto, porém, deve-se dizer, fazendo outro princípio etc.
A primeira parte, por sua vez, divide-se em duas partes:
na primeira, trata das virtudes morais;
na segunda, das intelectuais, no livro VI, ali: mas visto que, dizendo antes etc. E a razão da ordem é que as virtudes morais são mais conhecidas e por meio delas somos dispostos às intelectuais.
A primeira parte, por sua vez, divide-se em duas partes:
na primeira, trata daquilo que pertence às virtudes morais em geral;
na segunda, trata das virtudes morais em particular, e isto, ali: portanto, visto que já se disse que é um meio-termo etc.
A primeira parte, por sua vez, divide-se em duas:
na primeira, trata da virtude moral em geral;
na segunda, trata de certos princípios dos atos morais, no livro III, ali: assim, pois, a virtude, quanto às paixões etc.
A primeira parte, por sua vez, divide-se em três partes:
na primeira, investiga a causa da virtude moral;
na segunda, investiga o que seja a virtude moral, ali: depois disto, porém, o que é a virtude etc.;
na terceira parte, mostra como alguém pode tornar-se virtuoso, ali: portanto, visto que já se disse que existe a virtude moral etc.
Quanto ao primeiro ponto, faz três coisas:
primeiro, mostra que a virtude moral é causada em nós a partir das obras;
segundo, mostra a partir de que tipo de obras é causada em nós, ali: portanto, visto que o presente estudo etc.
na terceira parte, suscita certa dúvida a respeito do que foi dito, ali: alguém, porém, poderia perguntar etc.
Quanto ao primeiro ponto, faz duas coisas:
primeiro, mostra qual seja a causa da geração da virtude;
segundo, qual seja a causa da sua corrupção, ali: além disso, a partir das mesmas coisas etc.
Quanto ao primeiro ponto, faz três coisas:
primeiro, propõe que a virtude moral está em nós a partir do costume das obras;
segundo, mostra que ela não está em nós por natureza, ali: a partir disto também é manifesto etc.;
terceiro, torna manifesto por meio de um sinal o que havia dito, ali: atesta-o também aquilo que acontece etc.
246. Diz, portanto, primeiro que, sendo dupla a virtude, a saber, intelectual e moral, a virtude intelectual é, na maior parte, gerada e aumentada a partir do ensino. A razão disto é que a virtude intelectual ordena-se ao conhecimento, o qual, de fato, é adquirido por nós mais a partir do ensino do que a partir da descoberta, pois são mais numerosos os que podem conhecer a verdade aprendendo de outros do que os que a descobrem por si mesmos; e mesmo cada um que descobre muitas coisas aprendeu-as de outrem em maior número do que as que descobre por si mesmo. Mas, como no aprender não se procede ao infinito, é preciso que os homens conheçam muitas coisas descobrindo-as; e como todo o nosso conhecimento tem origem no sentido e do sentir muitas vezes algo faz-se a experiência, é consequente, por isso, que a virtude intelectual necessite da experiência de longo tempo.
247. Mas a virtude moral faz-se a partir do hábito, isto é, a partir do costume. Pois a virtude moral está na parte apetitiva, donde importa certa inclinação a algo apetecível, inclinação que, de fato, ou provém da natureza, que inclina para aquilo que lhe é conveniente, ou provém do costume, que se converte em natureza. E daí vem que o nome de virtude moral é tomado do costume, dele se afastando pouco. Pois, em grego, ethos escrito com e breve significa costume ou virtude moral, ao passo que ythos, escrito com o y grego, que é como um e longo, significa hábito. Assim como também entre nós o nome de costume ora significa hábito, ora significa aquilo que pertence ao vício ou à virtude.
248. Em seguida, quando diz: a partir disto também é manifesto etc., prova a partir das premissas que a virtude moral não provém da natureza, por meio de duas razões.
A primeira delas é a seguinte. Nenhuma das coisas que provêm da natureza se altera por causa do hábito; e isto ele torna manifesto por meio de um exemplo, pois, sendo a pedra naturalmente levada para baixo, por mais que seja lançada para cima, de modo algum se habituará a mover-se para cima, e a mesma razão vale para o fogo e para qualquer daquelas coisas que se movem naturalmente. E a razão disto é que as coisas que agem naturalmente ou apenas agem, ou agem e padecem; se apenas agem, por isso não se alterará nelas o princípio da ação e, por isso, permanecendo a mesma causa, sempre permanece a inclinação para o mesmo efeito; se, porém, agem de tal modo que também padecem, a não ser que seja tal paixão que remova o princípio da ação, não se suprimirá a inclinação natural que nelas havia; se, contudo, for tal paixão que suprima o princípio da ação, já não será da mesma natureza e, assim, não lhe será natural o que fora antes e, por isso, pelo fato de algo agir naturalmente, não se altera quanto à sua ação; e de modo semelhante também se for movido contra a natureza, a não ser que porventura seja tal moção que corrompa a natureza; se, porém, o princípio natural da ação permanecer, sempre haverá a mesma ação; e, por isso, nem nas coisas que são segundo a natureza nem nas que são contra a natureza o hábito faz algo. Mas naquelas coisas que pertencem às virtudes o hábito faz algo.
249. A razão disto é que a virtude moral pertence ao apetite, que opera na medida em que é movido pelo bem apreendido, e por isso, juntamente com o fato de operar muitas vezes, é preciso que muitas vezes seja movido pelo seu objeto, e disto resulta certa inclinação ao modo da natureza, assim como também muitas gotas que caem escavam a pedra. Assim, portanto, é patente que as virtudes morais nem estão em nós por natureza nem estão em nós contra a natureza, mas há em nós uma aptidão natural para recebê-las, a saber, na medida em que a potência apetitiva em nós é apta por natureza a obedecer à razão; aperfeiçoam-se, porém, em nós pelo hábito, a saber, na medida em que, pelo fato de agirmos muitas vezes segundo a razão, imprime-se a forma da razão na potência apetitiva, impressão que, de fato, nada mais é do que a virtude moral.
250. Apresenta a segunda razão ali: além disso, tudo o que a natureza etc. Ela é a seguinte. Em todas aquelas coisas que estão em nós por natureza, primeiro está em nós a potência do que a operação. E isto é patente nos sentidos; pois não foi pelo fato de termos visto ou ouvido muitas vezes que recebemos o sentido da visão e da audição, mas, ao contrário, pelo fato de termos estes sentidos começamos a usá-los, e não pelo fato de os termos usado aconteceu que os tivéssemos. Mas foi operando segundo a virtude que recebemos as virtudes, assim como também acontece nas artes operativas, nas quais os homens, fazendo, aprendem aquilo que devem fazer depois de terem aprendido, assim como edificando tornam-se edificadores e tocando cítara tornam-se citaristas; e de modo semelhante, praticando ações justas ou temperadas ou corajosas, os homens tornam-se justos ou temperados ou corajosos. Logo, virtudes deste tipo não estão em nós por natureza.
251. Em seguida, quando diz: atesta-o também etc., torna manifesto por meio de um sinal o que havia dito. E diz que aquilo que foi dito, que operando nos tornamos virtuosos, é atestado por aquilo que acontece nas cidades. Pois os legisladores, habituando os homens por meio de preceitos, prêmios e penas às obras das virtudes, tornam-nos virtuosos; e para isto deve dirigir-se a intenção de todo legislador; os que, porém, não fazem bem isto, pecam na legislação, e a organização civil destes difere da reta organização civil segundo a diferença entre o bem e o mal.
252. Em seguida, quando diz: além disso, a partir das mesmas coisas etc., mostra que a virtude é corrompida a partir das obras.
E primeiro mostra a proposição;
segundo, infere certo corolário a partir do que foi dito, ali: por isso é preciso etc.
Diz, portanto, primeiro que os princípios a partir dos quais, tomados de modos diversos, a virtude se faz e se corrompe são os mesmos. E de modo semelhante ocorre com toda arte. E torna isto manifesto primeiro nas artes, pois é pelo fato de tocarem cítara de um certo modo que os homens se tornam bons ou maus citaristas, se se tomar proporcionalmente. E a mesma razão vale para os edificadores e para todos os outros artífices, pois é pelo fato de edificarem bem com frequência que se tornam bons edificadores, e por edificarem mal, maus. E se isto não fosse verdade, os homens não necessitariam, para aprender artes deste tipo, de algum mestre que dirigisse as suas ações, mas todos, de qualquer modo que operassem, tornar-se-iam bons ou maus artífices. E assim como se dá nas artes, assim se dá nas virtudes;
253. pois os que operam bem nas trocas que se fazem com os homens tornam-se justos, e os que operam mal, injustos; e de modo semelhante, os que operam em meio aos perigos e se acostumam a temer ou a confiar, se o fazem bem, tornam-se corajosos, se, porém, mal, medrosos; e assim é também quanto à temperança e à mansidão a respeito das concupiscências e das iras, e, universalmente, para dizê-lo numa só palavra, a partir de operações semelhantes fazem-se hábitos semelhantes.
254. Em seguida, quando diz: por isso é preciso etc., conclui a partir das premissas que é preciso aplicar cuidado a que tipo de operações alguém faça, pois segundo a diferença destas seguem-se as diferenças dos hábitos. E por isso conclui ainda que não pouco difere que alguém, logo desde a juventude, se acostume a operar bem ou mal, mas difere muito, ou antes, tudo depende disto; pois as coisas que nos são impressas desde a infância retemo-las mais firmemente.