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Lição 2

Se, portanto, há algum fim das coisas realizáveis que queremos por si mesmo, e as outras por causa dele, e não desejamos todas as coisas por causa de outra (pois assim se procederia ao infinito, e o desejo seria vazio e vão), é manifesto que este será bom e ótimo. [19]

Portanto, o seu conhecimento tem grande importância para a vida. E assim como os arqueiros que têm um alvo, tanto mais alcançaremos o que convém. [23]

Se assim é, deve-se tentar apreender em linhas gerais o que ele é e a qual das ciências ou virtudes pertence. [24]

Ora, parecerá pertencer à ciência mais principal e sumamente arquitetônica. E tal se mostra a ciência civil. [25]

Pois quais ciências devem existir nas cidades, e quais cada um deve aprender e até que ponto, isto ela preordena. E vemos que as mais preciosas das virtudes estão sob ela, por exemplo a militar, a econômica, a retórica. [26]

E, usando ela das demais ciências práticas, e além disso legislando o que se deve fazer e daquilo de que se deve abster, o seu fim abrange os fins das outras; por isso este será o bem humano. [29]

Pois, ainda que o bem seja o mesmo para um só e para a cidade, mostra-se algo maior e mais perfeito procurar e preservar o da cidade. É, com efeito, amável procurá-lo para um só, mas é melhor e mais divino para um povo e para as cidades.

Este método, portanto, busca isto, sendo uma espécie de ciência civil. [30]

19. Se, portanto, há algum fim das coisas realizáveis etc. Depois de premissas as coisas que são necessárias para mostrar o propósito, aqui o Filósofo passa a manifestar o propósito, isto é, a mostrar para o que principalmente olha a intenção desta ciência.

E a respeito disso faz três coisas:

primeiro, mostra a partir das premissas que há algum fim ótimo nas coisas humanas;

segundo, mostra que é necessário ter conhecimento dele, ali: portanto, para a vida etc.;

terceiro, mostra a qual ciência pertence o seu conhecimento, ali: ora, parecerá pertencer à ciência mais principal etc.

A respeito do primeiro, serve-se de tríplice argumento.

O principal deles é este: todo fim que é tal que queremos as outras coisas por causa dele, e a ele queremos por si mesmo e não por causa de outra coisa, esse fim não é apenas bom, mas também ótimo; e isto se mostra pelo fato de que sempre o fim em vista do qual se buscam os outros fins é mais principal, como fica patente pelo que se disse acima; mas é necessário que haja algum fim tal; logo, nas coisas humanas há algum fim bom e ótimo.

20. Prova a menor por um segundo argumento que conduz ao impossível, o qual é este: é manifesto pelas premissas que um fim é desejado por causa de outro; ou, portanto, se chega a algum fim que não é desejado por causa de outro, ou não; se sim, tem-se o propósito; se, porém, não se pode encontrar algum fim tal, segue-se que todo fim seja desejado por causa de outro fim, e assim é preciso proceder ao infinito; mas é impossível proceder ao infinito nos fins; logo, é necessário que haja algum fim que não seja desejado por causa de outro fim.

21. Que seja impossível proceder ao infinito nos fins, prova-o por um terceiro argumento que também conduz ao impossível, deste modo: se se procede ao infinito no desejo dos fins, de modo que sempre um fim seja desejado por causa de outro ao infinito, nunca se chegará a que o homem alcance os fins desejados; mas em vão e inutilmente alguém deseja aquilo que não pode alcançar; logo, o desejo do fim seria em vão e inútil; mas este desejo é natural, pois se disse acima que o bem é aquilo que naturalmente todas as coisas desejam; logo, seguir-se-á que o desejo natural seria vão e vazio; mas isto é impossível, porque o desejo natural nada mais é do que a inclinação inerente às coisas pela ordenação do primeiro motor, a qual não pode ser supérflua; logo, é impossível proceder ao infinito nos fins.

22. E assim é necessário que haja algum último fim por causa do qual todas as outras coisas são desejadas, e ele próprio não é desejado por causa de outras. E, deste modo, é necessário que haja algum fim ótimo das coisas humanas.

23. Em seguida, quando diz: portanto, para a vida etc., mostra que o conhecimento deste fim é necessário ao homem. E a respeito disso faz duas coisas:

primeiro, mostra que é necessário ao homem conhecer tal fim;

segundo, mostra o que dele se deve conhecer, ali: se assim é, deve-se tentar etc.

Conclui, então, primeiro do que foi dito que, uma vez que há algum fim ótimo das coisas humanas, o seu conhecimento tem grande importância para a vida, isto é, presta muito auxílio a toda a vida humana. Isto, com efeito, mostra-se por tal argumento: nada que se dirige a outra coisa pode o homem alcançar retamente sem conhecer aquilo para o que deve ser dirigido, e isto se mostra pelo exemplo do arqueiro que dispara diretamente a flecha atendendo ao alvo para o qual a dirige; mas é preciso que toda a vida humana se ordene ao último e ótimo fim da vida humana; logo, para a retidão da vida humana é necessário ter conhecimento do último e ótimo fim da vida humana. E a razão disto é que sempre a razão daquilo que se ordena ao fim deve ser tomada do próprio fim, como também se prova no livro II da Física.

24. Em seguida, quando diz: se assim é etc., mostra o que se deve conhecer a respeito deste fim. E diz que, uma vez que assim é que o conhecimento do fim ótimo é necessário à vida humana, é preciso apreender qual seja este fim ótimo e a qual ciência especulativa ou prática pertence a sua consideração; pois por disciplinas entende as ciências especulativas, e por virtudes as ciências práticas, porque são princípios de algumas operações. Diz, porém, que se deve tentar determinar essas coisas para insinuar a dificuldade que há em apreender o último fim na vida humana, assim como em considerar todas as causas altíssimas. E diz que é preciso apreendê-lo em linhas gerais, isto é, de modo verossímil, porque tal modo de apreender convém às coisas humanas, como se dirá adiante. Destas duas coisas, a primeira pertence ao tratado desta ciência, porque tal consideração é acerca da coisa que esta ciência considera, mas a segunda pertence ao proêmio, no qual se manifesta a intenção desta doutrina.

25. E por isso, imediatamente a seguir, quando diz: ora, parecerá etc., mostra a qual ciência pertence a consideração deste fim. E a respeito disso faz duas coisas:

primeiro, apresenta um argumento para mostrar o propósito;

segundo, prova algo que havia suposto, ali: pois quais devem existir etc.

Primeiro, então, apresenta o argumento para o propósito, que é este: o fim ótimo pertence à ciência mais principal e sumamente arquitetônica, e isto fica patente pelas coisas premissas acima, pois se disse que sob a ciência ou arte que trata do fim se contêm aquelas que versam sobre o que se ordena ao fim, e assim é preciso que o último fim pertença à ciência mais principal, por ser acerca do fim mais principal, e sumamente arquitetônica, por prescrever às outras o que se deve fazer; mas a ciência civil parece ser tal, a saber, mais principal, e sumamente arquitetônica; logo, a ela pertence considerar o fim ótimo.

26. Em seguida, quando diz: pois quais devem existir etc., prova o que havia suposto, a saber, que a ciência civil seja tal.

E primeiro prova que é sumamente arquitetônica;

segundo, que é mais principal, ali: pois, ainda que o mesmo seja para um só etc.

A respeito do primeiro, faz duas coisas:

primeiro, atribui à política ou à ciência civil aquilo que pertence à ciência arquitetônica;

em segundo lugar, a partir disso conclui o que se propôs, em: utilizando-se, porém, desta etc.

Ora, duas coisas pertencem à ciência arquitetônica,

das quais uma é que ela ordena à ciência ou arte que lhe está subordinada o que deve fazer, assim como a arte equestre ordena à arte de fabricar freios;

e a outra é que se serve dela para o seu próprio fim.

Ora, o primeiro destes convém à política ou ciência civil tanto no que se refere às ciências especulativas quanto às práticas, porém de modo diverso num caso e noutro. Pois a política ordena à ciência prática tanto quanto ao seu uso, isto é, que atue ou não atue, quanto à determinação do ato: com efeito, ordena ao ferreiro não somente que use da sua arte, mas também que a use deste modo, fazendo tais facas; pois ambas as coisas estão ordenadas ao fim da vida humana.

27. Mas a ciência civil ordena à ciência especulativa somente quanto ao uso, e não quanto à determinação da obra; pois a política determina que alguns ensinem ou aprendam a geometria, uma vez que atos deste gênero, enquanto voluntários, pertencem à matéria moral e são ordenáveis ao fim da vida humana; porém o político não ordena ao geômetra o que deve concluir a respeito do triângulo, pois isso não está sujeito à vontade humana nem é ordenável à vida humana, mas depende da própria natureza das coisas. E por isso diz que a política preordena quais das disciplinas devem existir nas cidades, isto é, tanto as práticas quanto as especulativas, e quem deve aprender cada uma e até que tempo.

28. Ora, a outra propriedade da ciência arquitetônica, a saber, servir-se das ciências inferiores, pertence à política somente no que se refere às ciências práticas; por isso acrescenta que as mais preciosas, isto é, as mais nobres, das virtudes, isto é, das artes operativas, vemos estarem sob a política, a saber, a militar, a econômica e a retórica, das quais todas a política se serve para o seu fim, a saber, para o bem comum da cidade.

29. Em seguida, quando diz: utilizando-se, porém, desta etc., conclui o que se propôs a partir das duas premissas anteriores. E diz que, uma vez que a política, que é prática, se serve das demais disciplinas práticas, como foi dito em segundo lugar, e uma vez que ela mesma estabelece por lei o que se deve fazer e do que se deve abster, como foi dito em primeiro lugar, segue-se que o fim desta, enquanto arquitetônica, abarca, isto é, contém sob si, os fins das demais ciências práticas; por isso conclui que este, a saber, o fim da política, é o bem humano, isto é, o ótimo nas coisas humanas.

30. Em seguida, quando diz: pois, se também é o mesmo etc., mostra que a política é a mais principal pela própria natureza do seu fim próprio. Com efeito, é manifesto que cada causa é tanto mais poderosa quanto a mais efeitos se estende. Por isso também o bem, que tem a natureza de causa final, é tanto mais poderoso quanto a mais se estende. E por isso, se o bem é o mesmo para um só homem e para toda a cidade, parece muito maior e mais perfeito alcançar, isto é, procurar, e salvar, isto é, conservar, aquilo que é o bem de toda a cidade do que aquilo que é o bem de um só homem. Com efeito, pertence ao amor que deve existir entre os homens que o homem busque e conserve o bem ainda que de um só homem, mas é muito melhor e mais divino que isto se proporcione a todo um povo e às cidades. Ou de outro modo: é amável que isto se proporcione a uma só cidade, mas é muito mais divino que isto se proporcione a todo um povo, no qual se contêm muitas cidades. E diz que isto é mais divino porque pertence mais à semelhança de Deus, que é a causa universal de todos os bens. Ora, este bem, a saber, o que é comum a um só ou a várias cidades, é o que visa um certo método , isto é, uma arte, que se chama civil; por isso a ela pertence sumamente considerar o fim último da vida humana, como à mais principal.

31. Deve-se saber, porém, que ele diz ser a política a mais principal não absolutamente, mas no gênero das ciências ativas, que versam sobre as coisas humanas, cujo fim último a política considera. Pois o fim último de todo o universo é considerado pela ciência divina, que é a mais principal em relação a todas. E diz que à política pertence a consideração do fim último da vida humana, do qual, todavia, trata neste livro, porque a doutrina deste livro contém os primeiros elementos da ciência política.