Lição 9
Ora, uma vez que determinamos suficientemente o que pertence à ciência, é preciso percorrer o que pertence ao uso: pois todas as coisas desse gênero têm uma contemplação livre, mas uma experiência necessária.
Ora, há partes úteis da crematística que consistem em ser-se experiente acerca das coisas que se podem possuir: quais são as mais preciosas, e onde, e de que modo, por exemplo, certa posse de cavalos, ou de bois, ou de ovelhas, e de modo semelhante também dos demais animais; pois é preciso ser experiente sobre quais destes, comparados entre si, são os mais preciosos, e de que espécie em que lugares; pois umas coisas abundam numas regiões, outras noutras. Depois, sobre o cultivo da terra e deste tanto já desnuda quanto plantada, e sobre a criação de abelhas e de outros animais aquáticos e voláteis, de quaisquer que se possa obter auxílio: estas são, pois, as partes mais próprias e primeiras da crematística.
Da crematística translativa, porém, a maior é a mercantil, e desta há três partes: a náutica, o transporte de cargas e a assistência. E estas diferem umas das outras, porque umas são mais seguras, ao passo que outras adquirem maior acréscimo de lucro. A segunda é a usura (tokismos), e a terceira o trabalho assalariado (mystarina); e desta última, uma parte é a das artes banáusicas, e outra a dos labores não artificiais e úteis somente ao corpo. Há ainda uma quarta espécie de crematística, intermediária entre esta e a primeira; pois tem algo tanto daquela que é segundo a natureza quanto da translativa, a saber, todas aquelas que provêm da terra e das coisas geradas da terra que, embora infrutíferas, são todavia úteis; por exemplo, o corte de florestas e toda a mineração; e esta já abrange muitos gêneros. Pois há muitas espécies de metais extraídos da terra.
De cada uma destas coisas falou-se em geral, e também agora; mas tratá-las em particular com mais diligência, embora útil para a prática, seria fastidioso demorar-se nisso.
Ora, dentre os trabalhos, os mais artísticos são aqueles em que há o mínimo de sorte; os mais banáusicos, aqueles em que os corpos mais se maculam; os mais servis, aqueles em que há o máximo uso do corpo; e os mais ignóbeis, aqueles em que se requer o mínimo de virtude.
E uma vez que por alguns foram escritas obras sobre estas matérias, por exemplo, por Cáretes de Paros e Apolodoro de Lemnos, sobre o cultivo da terra tanto desnuda quanto plantada, e de modo semelhante também por outros sobre outras matérias, quem quer que se interesse por isso considere-as a partir destes autores.
Além disso, é preciso reunir também as coisas ditas esparsamente pelas quais alguns, dedicados ao dinheiro, o alcançaram; pois tudo isto é proveitoso aos que honram a crematística. Por exemplo, aquilo de Tales de Mileto: pois esta é uma certa consideração crematística. Mas a ele a atribuem por causa da sua sabedoria. Sucede, porém, que ela é algo de universal. Pois, censurando-o por causa da pobreza, como se a filosofia fosse inútil, dizem que ele, pela astrologia, previu que haveria futura abundância de azeitonas e, estando ainda no inverno, tendo pouco dinheiro, deu arras aos cultivadores de oliveiras, aqueles que estavam em Mileto e em Quios, tendo dado a todos um preço módico, visto que ninguém oferecia mais. Mas quando chegou o tempo, buscando muitos ao mesmo tempo e de súbito as prensas, fixando o preço como quis, tendo reunido muito dinheiro, demonstrou que é fácil aos filósofos enriquecer, se quiserem. Mas não é isto aquilo a que se aplicam. Diz-se, portanto, que Tales deu deste modo uma demonstração da sua sabedoria.
Ora, é, como dissemos universalmente, que tal recurso crematístico consiste em, se alguém puder, preparar para si um monopólio; por isso também algumas cidades deste modo obtêm riquezas quando carecem de dinheiro: pois fazem monopólio das mercadorias.
Na Sicília, porém, um certo homem, tendo depositado junto de si o dinheiro, comprou de uma vez todo o ferro das minas de ferro; depois disto, quando chegaram os mercadores dos mercados, vendia sozinho, sem fazer grande aumento do preço. Contudo, sobre cinquenta talentos ganhou mais cem. Percebendo-o, pois, Dionísio ordenou-lhe que levasse o dinheiro, mas que não permanecesse mais em Siracusa, por ter descoberto um modo de enriquecer inconveniente aos seus próprios interesses.
Ora, o que ocorreu a Tales e a este é o mesmo: pois ambos se empenharam em criar para si um monopólio. E é útil dar a conhecer estas coisas aos que governam; pois muitas cidades necessitam da aquisição de dinheiro e de tais riquezas, assim como as casas, e ainda mais; por isso também alguns dos que se ocupam da vida pública se ocupam dela unicamente com este fim.
Quoniam autem quae ad scientiam etc. Depois que o Filósofo ensinou a conhecer a origem da crematística e as suas propriedades e partes, aqui, por consequência, determina aquilo que pertence ao uso dela.
E primeiro diz qual é a intenção;
segundo, executa o proposto, em sunt autem pecuniativae etc.
Diz, portanto, primeiro que, porque determinamos suficientemente sobre a crematística naquilo que pertence ao conhecimento da sua natureza, é preciso expor breve e sumariamente aquilo que pertence ao seu uso, a saber, de que modo se deve usá-la. Pois todas as coisas desse gênero que pertencem às operações humanas têm uma contemplação livre, isto é, expedita, porque é fácil considerá-las no universal; mas, contudo, é necessário que se tenha experiência a respeito delas para que o homem possa ter delas um uso perfeito.
Em seguida, quando diz sunt autem pecuniativae etc., determina aquilo que pertence ao uso da crematística. E a respeito disto faz duas coisas:
primeiro, distingue as partes dela;
segundo, expõe alguns ensinamentos úteis à crematística, em quoniam autem a quibusdam etc.
A respeito do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, indica as partes da crematística que é necessária à vida humana;
segundo, as partes da crematística não necessária, em translativae autem etc.
Disse acima que é necessária a crematística pela qual o homem adquire dinheiro a partir das coisas que a natureza fornece para a necessidade da vida; e desta expõe duas partes,
a primeira das quais é aquela segundo a qual o homem pode adquirir dinheiro pela compra e venda de tais coisas. E a respeito desta parte diz que estas são partes úteis da crematística, isto é, certos ensinamentos úteis, para que o homem seja experiente acerca dos bens desse gênero que são possuídos pelos homens: quais deles são do maior preço, e onde se vendem pelo maior preço, e de que modo, por exemplo, em que tempo, ou segundo outras condições. E explica de que bens possuíveis fala: pois há uma certa posse de cavalos, e de bois, e de ovelhas e de outros animais; e é preciso que aquele que quer lucrar dinheiro a partir destes seja experiente sobre quais deles são mais caros e em que lugares, porque uns deles abundam numas regiões e outros noutras, de modo a comprar no lugar onde abundam e vender no lugar onde são caros.
A segunda parte desta crematística possessiva é que o homem adquira abundância destas coisas vendáveis. O que se dá pelo cultivo da terra, seja desnuda, isto é, sem árvores, como são os campos em que se semeia o trigo, seja plantada, como são as vinhas e as hortas e os olivais: pois por tal cultivo o homem adquire abundância de trigo e de vinho e de outras coisas desse gênero. E é preciso também que o homem seja experiente sobre a criação de abelhas e de outros animais, tanto aquáticos, a saber, os peixes, quanto voláteis, a saber, as aves, de quaisquer dos quais se possa adquirir auxílio para a vida humana; porque pela abundância destes pode-se fazer a aquisição de dinheiro. Assim, portanto, é evidente que estas são as primeiras e mais próprias partes da crematística; e chamam-se primeiras e mais próprias porque assim se adquire o dinheiro a partir de coisas naturais, por causa das quais o dinheiro foi primeiramente inventado.
Em seguida, quando diz translativae autem etc., distingue as partes da crematística translativa.
Disse acima que a crematística translativa é aquela pela qual se adquire dinheiro não a partir de coisas necessárias à vida, mas a partir de certas outras coisas;
e chama-se translativa porque a crematística foi transferida das coisas naturais para coisas desse gênero.
A respeito do primeiro, faz três coisas:
primeiro, distingue as partes desta crematística;
segundo, escusa-se de uma consideração mais diligente destas partes, em de unaquaque autem etc.;
terceiro, esclarece algumas coisas que havia dito, em sunt autem maxime etc.
A respeito do primeiro, expõe quatro partes desta crematística,
a primeira e maior das quais é a mercantil: pois os mercadores são os que mais adquirem dinheiro.
E esta primeira parte, em segundo lugar, distingue em três partes,
a primeira das quais é a náutica, a saber, aquela que exerce o comércio pelo mar;
a outra chama-se phortigia, isto é, de carga, pois fortion em grego significa peso ou carga, a saber, aquela que exerce o comércio em terra pelo transporte de cargas em carros ou em bestas de carga;
a terceira chama-se parastasis, isto é, assistência, por exemplo, quando alguém não transporta mercadorias nem por mar nem por terra, mas assiste os mercadores pela partilha de dinheiro ou de bens. E estas partes diferem entre si, porque algumas delas são mais seguras, como o comércio por terra, ao passo que outras fazem crescer mais o lucro, como o comércio por mar, que todavia é mais perigoso.
A segunda parte principal desta crematística translativa é o toquismos, isto é, a usurária, a saber, aquela que adquire dinheiro por meio de juros.
A terceira parte é a mystarina, isto é, a assalariada, como a daqueles que alugam os seus trabalhos por um salário em dinheiro. Nesta há uma certa diferença: porque uma parte do trabalho assalariado se faz por meio das artes banáusicas, isto é, que maculam o corpo, como é a arte dos cozinheiros e de tais serviços; outra, porém, se faz por meio de labores não artificiais, e que são úteis somente ao corpo e nos quais também só o corpo é útil, como aqueles que são contratados por um salário para cavar no campo ou para alguma outra coisa desse gênero.
A quarta parte é intermediária entre a translativa e a primeira, que é necessária, tendo algo de ambas, a saber, aquela que adquire lucro pelo corte de pedras ou de metais da terra; pois tem isto em comum com a primeira crematística, porque provém da terra e daquilo que é gerado da terra, assim como a agricultura versa sobre aquilo que é gerado da terra. Com a translativa, porém, concorda nisto: que tais metais não produzem nenhum fruto pertencente à necessidade da vida, como o produzem os campos e os animais; são, contudo, úteis para outras coisas, por exemplo, para edificar casas ou para construir alguns instrumentos. E esta quarta parte abrange sob si diversos gêneros segundo as diversas espécies de metais, que são o ouro, a prata, o ferro e outros desse gênero.
Em seguida, quando diz de unaquaque autem etc., escusa-se de uma determinação perfeita destas coisas. E diz que agora se falou universalmente destas partes; seria, porém, útil para a prática daqueles que querem adquirir dinheiro que se determinasse mais diligentemente cada uma em particular, mas, contudo, é fastidioso demorar-se longamente sobre tais coisas para quem tende a assuntos maiores.
Em seguida, quando diz sunt autem maxime, expõe algumas coisas que havia dito sobre os trabalhos banáusicos e não artificiais; e diz que são mais artísticos aqueles trabalhos nos quais a sorte menos atua. Pois dizemos que se faz por sorte aquilo que se dá à margem da previsão da razão, na qual consiste a arte: donde aqueles trabalhos cujo resultado está muito sujeito à sorte são pouco artísticos, como o daqueles que pescam com anzol e outros desse gênero; e, ao contrário, os trabalhos cujos efeitos pouco estão sujeitos à sorte são os mais artísticos, como os dos artesãos e de outros artífices. Ora, são mais banáusicos, isto é, abjetos e vis, aqueles trabalhos pelos quais os corpos mais se maculam, como os dos tintureiros e dos que limpam as ruas e outros desse gênero. São mais servis aqueles trabalhos em que a maior parte do emprego está do lado do corpo e pouco do lado da razão, como os daqueles que transportam cargas, e dos mensageiros e desse gênero. São os mais ignóbeis de todos aqueles para os quais se requer o mínimo de virtude, seja da alma, seja do corpo, como aparece em alguns dos mencionados.
A seguir, quando diz quoniam autem a quibusdam etc., propõe ensinamentos úteis às partes da crematística anteriormente apresentadas.
E primeiro ensina a considerar tais ensinamentos a partir dos escritos;
segundo, a partir dos exemplos, ali onde diz adhuc autem et dicta etc.
Diz, portanto, primeiro que, visto que alguns sábios escreveram sobre o que foi apresentado, como certo homem de nome Cáretes, de origem de Paros, e Apolodoro de Lemnos, que escreveram sobre o cultivo da terra, tanto a desnuda quanto a plantada, assim como entre os latinos Paládio, e por outros foi escrito acerca de outras das partes apresentadas, quem quer que tenha o cuidado de conhecer mais plenamente o que foi apresentado, considere-o a partir dos livros deles.
A seguir, quando diz adhuc autem et dicta etc., propõe um ensinamento sobre os exemplos a serem considerados.
E primeiro propõe o que pretende;
segundo, acrescenta exemplos, ali onde diz puta quod et Thaleo etc.
Diz, portanto, primeiro que não só é preciso considerar os livros daqueles que construíram artes acerca das partes mencionadas, mas também, se são referidos exemplos dispersos em diversas narrativas por meio dos quais alguns adquiriram muito dinheiro, é preciso considerar tais coisas; pois estas serão úteis àqueles que pretendem adquirir dinheiro.
A seguir, quando diz puta quod et Thaleo etc., acrescenta dois exemplos,
o segundo dos quais começa ali onde diz in Sicilia autem etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro propõe o exemplo;
segundo mostra para que é útil, ali onde diz est autem quemadmodum diximus etc.
Deve-se, portanto, saber acerca do primeiro que Tales de Mileto foi um dos sete sábios, o que primeiro começou a dedicar-se à filosofia natural, estando os outros seis sábios ocupados com as coisas humanas. Seu feito comporta certa consideração útil para adquirir dinheiro, ainda que se atribua não à cobiça de dinheiro, mas à sabedoria; pode-se, contudo, extrair de seu feito certo ensinamento universal para adquirir dinheiro. Pois, quando lhe era censurado por alguns que era pobre e que assim sua filosofia lhe era inútil, considerou por meio da astrologia, na qual era perito, que no ano seguinte haveria uma abundância de azeitonas fora do costume, pois no ano precedente também havia ocorrido abundância de azeitonas; ora, na maioria das vezes as azeitonas escasseiam após a abundância. Como, portanto, ainda no inverno havia abundância de azeitonas, deu aos cultivadores de azeitonas em duas cidades, a saber, Mileto e Quios, pouco dinheiro como sinal pelo fruto do ano seguinte, que se acreditava crescer pouco. Quando, então, chegou o tempo das azeitonas, buscando muitos ao mesmo tempo e de súbito comprar azeitonas, fixou o preço como quis; e assim, ajuntando muito dinheiro, mostrou que aos filósofos é fácil enriquecer, se o quiserem, mas seu empenho não é para isso. E deste modo Tales mostrou sua sabedoria.
A seguir, quando diz est autem quemadmodum diximus etc., mostra para que é útil à crematística um exemplo deste tipo. E diz que isto é muito útil para adquirir dinheiro, se alguém puder preparar um monopólio, isto é, uma única e singular venda, de modo que ele sozinho venda certas coisas na cidade. Pois polis, em grego, escrito com o pequeno e i breve, significa cidade; escrito, porém, com o pequeno e y grego, significa multidão; mas escrito com o grande, significa venda; donde se diz o verso est polis urbs, sed multa polis, est vendere polis: do que se diz monopolia, isto é, venda singular. E porque isto muito contribui para adquirir dinheiro, por isso certas cidades, quando necessitam de dinheiro, instituem um monopólio, de modo que a comunidade venda singularmente o sal ou algo deste tipo.
A seguir, quando diz in Sicilia autem etc., apresenta o segundo exemplo:
e primeiro narra o feito,
segundo mostra que ele retorna ao mesmo que o primeiro.
Diz, portanto, primeiro que, tendo certo homem na Sicília dinheiro guardado consigo, comprou de uma vez todo o ferro das minas nas quais era extraído; donde, tendo chegado os mercadores, ele sozinho vendia, e contudo não fazia grande aumento de preço para vender mais depressa: no entanto, lucrou cem talentos a partir de cinquenta. Ora, Dionísio, tirano dos siracusanos, percebendo que este se enriquecera muito, ordenou-lhe que dali em diante não habitasse em Siracusa, permitindo-lhe, porém, levar consigo seu dinheiro; pois que alguns cidadãos se enriqueçam muito, os tiranos reputam inconveniente para si, como se dirá adiante.
A seguir, quando diz quod vero visum fuit etc., mostra que aquilo retorna ao mesmo que o primeiro, porque tanto a este siciliano quanto a Tales, o filósofo, pareceu o mesmo, a saber, que exercesse um monopólio. E também é útil que os políticos o considerem, porque muitas cidades precisam adquirir dinheiro, assim como as casas, e tanto mais quanto a cidade necessita de mais coisas; e por isso alguns que se dedicam ao governo das cidades parecem visar principalmente a isto, a multiplicar o dinheiro no erário público.