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Lição 3

De que partes, isto é, de que pessoas, constem as repúblicas: e quais partes sejam necessárias, quais adjuntas: e quais possam coerir entre si, e quais não.

602. Produzem-se, pois, as sedições não sobre coisas pequenas, mas a partir de coisas pequenas; mas fazem sedições sobre coisas grandes. Sobretudo até as pequenas prevalecem quando se produzem entre os poderosos, como aconteceu em Siracusa nos tempos antigos: pois a política foi transformada por causa de dois jovens que discordavam nos principados a respeito de uma causa amorosa: pois, estando um deles ausente, certo alcoviteiro, sendo amigo dele, seduziu o amado dele. E de novo aquele, indignado com este, persuadiu-lhe a esposa como se ela viesse a ele. Donde, tomando consigo os que estavam no governo, dividiram todos.

603. Por isso é preciso que os súditos temam tais coisas, e dissolvam a facção e as dissensões dos poderosos, pois no princípio se produz o pecado, e diz-se que o princípio é a metade do todo. Pelo que também o pequeno pecado que há no princípio é proporcional àqueles que há nas outras partes.

604. Mas, no todo, as dissensões dos insignes fazem tomar partido também a cidade inteira.

605. Como aconteceu em Hestieia depois das guerras médicas, discordando dois irmãos sobre a herança paterna: pois o mais pobre, como o outro não declarasse a substância nem o tesouro que o pai encontrara, trouxe os populares. O outro, porém, tendo muita substância, os opulentos.

606. E em Delfos, a diferença que se produziu a partir de um cuidado foi o princípio de todas as sedições posteriores. Pois este, tendo augurado certo presságio quando veio à noiva, não a aceitando, retirou-se: mas aqueles, como que tendo padecido injúria, lançaram algo contra o sacrificador das coisas sagradas, e depois o mataram como violador do sagrado.

607. E a respeito de Mitilene, feita dissensão por causa das heranças, foi o princípio de muitos males, e da guerra que houve contra os atenienses, na qual Paques tomou a cidade deles. Pois, deixando certo Timófanes, dos indigentes, duas filhas, Doxandro, rejeitado e não as obtendo, iniciou sedição para os seus filhos, e exasperou os atenienses, sendo hóspede da cidade.

608. E aos fócios, feita sedição a partir de uma herança, a respeito de Mnaseias, pai de Mneson, e a respeito de Eutícrates de Onomarco, esta sedição foi o princípio da guerra sagrada para os fócios.

609. Foi também transformada em Epidamno a política a partir de núpcias. Pois, tendo alguém desposado uma filha, e havendo ofendido a ele, o pai do desposado, feito um dos que governavam, o outro apreendeu os que estavam fora da política, como que iludido.

610. Mas transformam-se também em oligarquia, e em democracia, e em política, pelo fato de algo ser aprovado ou aumentado, seja um magistrado, seja uma parte da cidade.

611. Como em Atenas o conselho do Areópago, tendo agradado bem nas guerras médicas, parecia tornar a política mais forte.

612. E de novo a turba naval, tendo sido causa da vitória junto a Salamina, e por meio dela a supremacia por causa do poder no mar, tornou a democracia mais forte.

613. E em Argos os insignes, tendo ganhado prestígio a respeito do combate em Mantineia contra os lacedemônios, tentaram dissolver a democracia.

614. E em Siracusa, tendo o povo sido causa da vitória da guerra que houve contra os atenienses, fez-se a transformação da política em democracia.

615. E em Cálcis o povo, com os insignes, tendo matado o tirano Fóxis, logo teve a política.

616. E em Ambrácia, de novo de modo semelhante, o povo, tendo expulsado o tirano Periandro juntamente com aqueles que lhes eram hostis, constituiu em si mesmo a política.

617. E universalmente também é preciso que isto não passe despercebido: que aqueles que se tornaram poderosos por causa do poder, tanto os particulares como os magistrados e as tribos, e, em geral, uma parte, e qualquer multidão, movem sedição. Pois ou os que invejam aqueles que são honrados iniciam a sedição, ou estes, por causa do excesso, não querem permanecer entre os iguais.

618. Movem-se, porém, as políticas também quando as partes da cidade que parecem ser contrárias se igualam entre si, como os ricos e o povo, e o meio é nenhum, ou muito pequeno: pois, se uma das partes exceder muito, tornando-se manifestamente mais forte, a restante não quer arriscar-se: por isso também os que diferem segundo a virtude não fazem sedição, por assim dizer, pois tornam-se poucos diante de muitos. Universalmente, pois, a respeito de todas as políticas, os princípios e as causas das sedições e das transformações têm este modo.

619. Movem as políticas ora por violência, ora por fraude. Por violência, ou logo desde o princípio, ou depois, coagindo. Pois também a fraude é dupla. Pois os que primeiro obtiveram o poder com o consentimento dos que quiseram transformam a política. Depois, mais tarde, por violência, retêm-nos contra a vontade: como entre os trezentos que enganaram o povo, dizendo que o rei daria dinheiro para a guerra contra os lacedemônios, e, tendo mentido, tentavam reter a política. Às vezes, porém, desde o princípio, tendo persuadido, e depois novamente, persuadidos os próprios voluntariamente, governam. De modo semelhante, pois, a respeito de todas as políticas, pelo que foi dito, acontece produzirem-se transformações.

Depois que o filósofo esclareceu de que modo, comportando-se de certa maneira, fazem sedições, e quais são as coisas que dispõem a elas, esclarece de que modo as sedições iniciadas a partir de coisas pequenas prevalecem muito. E divide-se em duas, conforme toca duas causas disto. A segunda, ali: mas no todo etc. A primeira em duas. Na primeira, toca aquela causa. Na segunda, dá o remédio contra ela, ali: por isso etc. Na primeira diz que as sedições não se produzem sobre coisas pequenas, mas sobre coisas grandes; produzem-se, porém, a partir de coisas pequenas, porque começam a partir de coisas pequenas. Ora, as pequenas sedições e dissensões prevalecem mais rapidamente quando se produzem entre os poderosos que têm poder na cidade, como aconteceu antigamente na cidade dos siracusanos. Pois sucedeu que a república deles foi mudada por causa da dissensão de dois jovens que, governando, discordaram por causa do amor. Pois aconteceu que, estando um fora da cidade, o outro conciliou para si o rapaz que ele amava. Mas, quando o outro voltou, indignou-se e esforçou-se por ter a esposa do outro. Ora, quando aquele soube disso, moveu-se dissensão entre eles, e, associando a si os cidadãos, dividiram todos em duas partes. Assim, pois, é manifesto que uma pequena dissensão prevalece muito quando se produz entre os ricos que têm poder na cidade.

Depois, quando diz por isso, toca o remédio contra isto. E diz que, pelo fato de uma pequena dissensão entre os poderosos prevalecer muito, é preciso que os súditos temam muito tais coisas, e que dissolvam as dissensões entre os ricos e as arrastem à concórdia, porque a dissensão que se dá entre os maiores e os que governam é um pecado no princípio. Ora, o princípio é a metade do todo; porque o princípio contém a si e ao principiado em virtude; e por isso deve-se resistir ao pecado no princípio. Pois o pecado no princípio comporta-se proporcionalmente com aqueles pecados que se produzem nas partes principais dos animais. Vemos, porém, que, feita uma pequena diversidade na parte principal do animal, a saber, no coração, produz-se grande diversidade nas outras partes. De modo semelhante, existindo uma pequena diversidade na semente, produz-se grande diversidade naquilo que se faz da semente; porque de uma pequena diferença de quente e frio se causa a diferença de macho e fêmea. De modo semelhante, feita uma pequena transposição no leme do navio, todo o navio se transforma. Pelo que assim era na república: que um pequeno pecado no princípio e uma pequena dissensão prevalece muito.

Depois, quando diz mas no todo, toca a segunda causa; e esclarece que as dissensões dos insignes prevalecem muito. E primeiro propõe. Segundo, manifesta por exemplos, ali: como em Hestieia etc. Na primeira diz que não somente as dissensões dos que governam prevalecem muito e depressa, mas universalmente as dissensões dos ricos; pois, pelo fato de serem ricos, têm poder. E é manifesto que se indignam se não se lhes faz segundo aquilo em que estimam exceder os outros, e fazem dissensões e põem toda a cidade em dissensão.

Depois, quando diz como em, esclarece por exemplos. E divide-se em cinco, conforme esclarece por cinco exemplos. O segundo, ali: e em Delfos etc. O terceiro, ali: a respeito de Mitilene etc. O quarto, ali: e aos fócios etc. O quinto, ali: mas foi transformada etc. Na primeira diz; assim foi dito, que as dissensões dos ricos prevalecem muito: como aconteceu na cidade de Hestieia. Pois sucedeu que dois irmãos discordassem sobre a herança paterna: como um não tivesse parte das riquezas e do tesouro que o pai adquirira, tomou consigo os populares, o outro os ricos. E a cidade foi dividida em duas partes, e fez-se grande dissensão.

Depois, quando diz e em Delfos, expõe o segundo exemplo: e diz: de modo semelhante aconteceu em Delfos, que alguém tinha certa donzela sob seu cuidado, e esse cuidado foi o princípio de todas as dissensões que depois sucederam. Pois um a desposou, depois consultou certo sacerdote áugure se lhe conviria tomá-la por esposa: o qual aconselhou que não a tomasse: então este, temendo, por causa do dito do áugure, a saber, algum infortúnio, quando veio à noiva, não a aceitou, mas retirou-se. Os amigos, porém, vendo isso, como aqueles a quem se fizera injúria, quando ele sacrificava, lançaram às escondidas algo sagrado. Depois acusaram-no de haver tratado mal as coisas sagradas: donde o fizeram condenar à morte como sacrílego.

Depois, quando diz a respeito de Mitilene, expõe o terceiro exemplo: e diz que a respeito da cidade de Mitilene se fez dissensão entre alguns por causa da divisão das heranças, que foi o princípio de muitos males que depois sucederam. E foi o princípio da guerra que houve entre eles e os atenienses, no qual combate certo comandante, de nome Paques, tomou a cidade dos próprios atenienses. Pois aconteceu que Timófanes, opulento, tendo morrido, deixou duas filhas sobreviventes. Certo Doxandro, porém, desejou que elas fossem dadas por esposas a seus filhos: e, não tendo podido consegui-lo, persuadiu os atenienses, junto dos quais era hóspede público, a empreenderem guerra contra os mitilenos.

Depois, quando diz e aos fócios, expõe o quarto exemplo: e diz que entre os fócios alguns foram deserdados, do que se fez sedição entre Mnaseias, pai de Mneson, e Eutícrates, pai de Onomarco. Ora, esta dissensão foi o princípio da guerra para os fócios, daquela guerra, digo, que chamaram sagrada.

Depois, quando diz mas foi, expõe o quinto exemplo: e diz que na cidade de Epidamno a república foi transformada por causa de uma dissensão que se fez por causa de certas núpcias. Pois, tendo alguém desposado uma jovem, alguns lhe fizeram injúria, e fez-se dissensão. Depois sucedeu que o pai do desposado se tornou um dos príncipes, e então tomou os outros que estavam fora da república e hostis ao estado, e, unindo-os a si, transformou a república.

Depois, quando diz mas se transformam, tendo esclarecido que as repúblicas se transformam, esclarece em que se transformam. E primeiro propõe. Segundo, manifesta, ali: como junto etc. Na primeira diz que as repúblicas se transformam no estado de poucos e no popular pelo fato de algum colégio ou alguma parte da cidade ter alcançado fama ou aumento de maior monta. Pois por esta causa sucede que, se governava, se intensifique mais e se torne mais forte o seu estado, e assim se muda do mais fraco ao mais forte. Se, porém, não governava, sucede que, por justa fama e poder, comece a governar, e de uma república a outra se faz a transformação.

Depois, quando diz como no Areópago, manifesta por exemplos; e expõe seis, nos quais se esclarece de que modo a república se mudou em outra república, ou na mesma mais ou menos intensa; e diz que bem foi dito que há mudança de república em república, como aconteceu em Atenas. Pois, tendo o conselho dos atenienses que estava no Areópago, que é a parte mais excelente daquela cidade, no tempo da guerra dos persas, alcançado fama, aumentou a forma da república e a república deles tornou-se mais forte.

Depois, quando diz e de novo, expõe o segundo exemplo; dizendo que a multidão naval de Atenas, tendo sido causa de certa vitória junto a Salamina, combatendo valentemente, e tendo sido causa da salvação do principado, e, por causa daquela vitória, tendo adquirido para a cidade o poder do mar, tornou o estado do povo mais forte.

Depois, quando diz e em Argos, expõe o terceiro exemplo, no qual se esclarece que a república se muda em república: e diz que em Argos sucedeu que os insignes e poderosos, tendo sido escolhidos para o combate contra os lacedemônios, travado o combate junto à cidade de Mantineia, alcançaram grande fama, e por esta causa tentaram destruir o estado popular e convertê-lo no poder de poucos, e assim a república se mudava em outra república.

Depois, quando diz e em Siracusa, expõe o quarto exemplo, no qual se prova o mesmo; e diz que na cidade dos siracusanos, tendo sido travado combate entre eles e os atenienses e tendo eles vencido, e sendo o povo a causa dessa vitória, mudou a república no estado popular.

Depois, quando diz e em Cálcis, expõe o quinto exemplo; e diz que, tendo na cidade de Cálcis o povo, juntamente com os ricos, matado certo tirano, logo aderiu à república, abandonando a república anterior.

Depois, quando diz e em Ambrácia, expõe o sexto exemplo; e diz que em Ambrácia, tendo o povo expulsado Periandro, que tiranizava entre eles, juntamente com os outros ricos que lhe eram contrários no povo, instituiu a república conveniente a si, a saber, o estado popular, abandonando a anterior.

Depois, quando diz e universalmente, conclui uma regra universal; dizendo que universalmente isto deve ser manifesto e não deve passar despercebido: que quaisquer que, por causa do poder, tenham feito algo ilustre, sejam particulares, sejam príncipes, sejam algumas tribos, seja toda uma parte, seja qualquer multidão, move sedição. Pois ou os que invejam aqueles que são honrados na cidade movem e fazem sedição; ou aqueles que excedem e fizeram algo grande, por causa do poder, não querem permanecer com os iguais e conformar-se a eles. Pois, pelo fato de haverem feito algo grande, inclinam-se a coisas grandes, das quais se reputam dignos. Por isso não querem permanecer com os iguais. Donde, se têm poder, fazem sedição.

Depois, quando diz mas se movem, esclarece quando sobretudo se movem as repúblicas; e diz que então sobretudo se transformam as repúblicas quando duas partes que parecem ser contrárias, como os ricos e o povo, se igualam em poder ou quase, e não há nenhum meio, ou muito poucos: porque então cada parte se reputa mais forte do que a outra e se esforça por repelir a outra. E, se sucede uma parte superar a outra, institui a república que lhe parece. Se, porém, uma parte, qualquer que seja, exceder a outra em muito, manifestamente aquela parte que é excedida, não querendo perecer, submete-se à parte que é mais forte, nem move sedição contra ela. E por isso é manifesto que aqueles que excedem os outros em virtude não movem sedição, porque são poucos em relação à multidão. E então conclui que universalmente os princípios e as causas das sedições das repúblicas se produzem segundo este modo.

Depois, quando diz mas movem, esclarece como e de que modo os dissidentes movem as repúblicas; e diz que às vezes movem e transformam as repúblicas por violência, às vezes por fraude e astúcia. Por violência, de dois modos. De um modo, no princípio, a saber, exercendo violência para que mantenham a república que instituem. De outro modo, coagindo depois, não no princípio: pois às vezes no princípio persuadem por astúcia tal ou tal república, e, enganando os cidadãos, transformam a república contra a vontade deles. E também, no fim, se não querem retroceder, exercem violência sobre eles e os coagem a manter a república já instituída, como aconteceu entre os quatrocentos que enganaram o povo, dizendo-lhe que o rei daria dinheiro para combater contra os lacedemônios, e o povo, ouvido isso, não quis, e instituiu a república que estes instituíram. Depois, vendo que haviam mentido, e querendo contradizê-los, esforçaram-se por mantê-la e observá-la, exercendo violência sobre o povo. Às vezes, porém, sucede que no princípio persuadem e recebem a república, e depois a observam e persuadem, e, persuadidos aqueles, governam-nos de boa vontade destes. E então recapitula que absolutamente, isto é, universalmente, segundo o que foi dito, acontece produzirem-se as mudanças de todas as repúblicas.