Lição 3
O que se deve aprender da música, e de que modo se deve usar dela.
1164. Deve-se ainda considerar, acerca das harmonias e dos ritmos, e quanto à instrução, se se deve usar de todas as harmonias e de todos os ritmos, ou se deve fazer distinção. Em seguida, para aqueles que trabalham em vista da instrução, se estabelecemos a mesma determinação, ou se é preciso alguma outra, uma terceira.
1165. Visto que vemos que a música consiste na feitura das melodias e nos ritmos, não se deve ignorar quanto a cada um destes, que potência tenha para a disciplina, e se se deve escolher antes a música bem melodizada ou a bem ritmizada.
1166. Julgando, portanto, que dizem muitas coisas bem sobre isto alguns dos músicos modernos, e daqueles que, provenientes da filosofia, são de algum modo experimentados na disciplina que se refere à música, deixaremos aquela discussão que procede por cada ponto aos que quiserem indagá-la deles; agora, porém, dividimos os modos de maneira geral, dizendo apenas os tipos deles.
1167. E visto que aceitamos a divisão das melodias, como as dividem alguns dos que se ocupam da filosofia, pondo umas como morais, outras como práticas, outras como produtoras de arrebatamento, e pondo a natureza das harmonias convenientes a cada uma destas como uma parte distinta; dizemos que não se deve usar da música em vista de uma só utilidade, mas em vista de muitas; pois é em vista do divertimento e da purificação. E o que chamamos purificação, agora, na verdade, digamos de modo simples; de novo, naquilo que trata da Poética, o diremos mais manifestamente.
1168. Em terceiro lugar, para o entretenimento e o relaxamento, e para o descanso da tensão, é manifesto que se deve usar, na verdade, de todas as harmonias, mas não se deve usar de todas do mesmo modo. Mas para a disciplina, sobretudo das morais; para o ouvido, porém, dos que trabalham com a mão, também das práticas e das arrebatadoras.
1169. Pois a paixão que ocorre fortemente em torno de certas almas existe em todas, mas difere quanto ao mais e ao menos, como a misericórdia e o temor; e ainda o arrebatamento, pois por este movimento alguns são afetados, e vemos, pelas melodias sagradas, que estes, quando usaram das melodias que enfurecem a alma, são restituídos como que tendo obtido uma medicina e uma purificação. É necessário, porém, que padeçam isto mesmo também os misericordiosos e os tímidos, e em geral os passivos, e os outros na medida em que a cada um cabe de tais paixões; e que em todos se faça uma certa purificação e um alívio com deleite. E semelhantemente também as melodias purificativas oferecem aos homens uma região inócua. Por isso, com tais harmonias e tais melodias, devem os competidores que tratam a música teatral apresentá-la.
1170. E visto que o espectador é de dois tipos, um livre e instruído, outro pesado, composto de artesãos, mercenários e outros tais, devem-se atribuir também a estes certames e espetáculos para o descanso. Ora, assim como as almas deles estão distorcidas em relação ao hábito que é segundo a natureza, assim também há harmonias e melodias transgressoras, rígidas e dilaceradas. E a cada um produz deleite aquilo que lhe é conveniente segundo a natureza. Por isso deve-se dar aos competidores a faculdade de usar, para tal espectador, de algum tal gênero de música.
1171. Mas para o divertimento, como foi dito, deve-se usar das melodias morais e de tais harmonias; e tal é a dórica, como dissemos antes. Convém, porém, acolher também qualquer outra que nos aprovarem os que participam da filosofia, do exercício e da disciplina que se refere à música.
1172. Na República, porém, Sócrates não admite convenientemente só a frígia junto com a dórica; e isto reprovando, entre os instrumentos, a flauta. Pois a harmonia frígia tem a mesma potência que a flauta entre os instrumentos: ambas, com efeito, provocam a ira e são introdutoras de paixão.
1173. E a poesia o manifesta; pois toda petulância e todo movimento tal, sobretudo dos instrumentos, está nas flautas, e entre as harmonias, nas melodias frígias tomam aquilo que é conveniente: por exemplo, o ditirambo, por confissão de todos, parece ser frígio; e disto dizem muitos exemplos, tanto os outros a respeito deste sentido, quanto que Filoxeno, tentando fazer em modo dórico o ditirambo Fábula, não foi capaz, mas pela própria natureza recaiu na harmonia frígia conveniente.
1174. De novo, quanto à dórica, todos confessam que ela é a mais estável e que possui máximamente um caráter viril. Ademais, visto que louvamos o meio-termo em relação às coisas superabundantes, e dizemos que se deve buscá-lo, e a dórica tem esta natureza em relação às outras harmonias, é manifesto que os mais jovens devem ser instruídos nas melodias dóricas.
1175. Ora, há duas considerações: o que é possível e o que é decente; pois deve-se tratar mais daquilo que é possível e daquilo que é decente a cada um. E também estas coisas são determinadas pelas idades, como que aos abatidos pelo tempo não é fácil cantar as harmonias rígidas, mas a natureza propôs a tais as frouxas. Por isso bem censuram também a Sócrates, quanto a isto, alguns daqueles que se ocupam da música, por ter ele reprovado as harmonias frouxas para a disciplina, como se fossem petulância de embriaguez (pois a embriaguez torna o homem mais impetuoso), sendo antes próprias dos abatidos. Por isso, quanto à futura idade dos mais velhos, convém tanger tais harmonias e tais melodias.
1176. Ademais, se há alguma das harmonias que seja tal, ou que convém à idade das crianças, por isto que pode ter ao mesmo tempo ornamento e instrução, como se vê que padece máximamente entre as harmonias a lídia. É evidente que se devem tomar estes três termos para a disciplina: o que é meio-termo, o que é possível e o que é decente.
Depois que o filósofo mostrou de quais instrumentos se deve usar e de quais não se deve usar quanto aos costumes, passa agora a considerar de quais e de que natureza melodias e ritmos se deve usar, tanto absolutamente quanto em vista da instrução, isto é, da disciplina. E acerca disto primeiro põe o seu propósito; segundo, quando diz, mas visto que a divisão etc., prossegue. Ademais, na primeira parte, primeiro propõe o seu propósito principal; segundo, quando diz, visto que vemos que a música etc., toca no que se deve considerar para a explicação do propósito principal; terceiro, quando diz, julgando, portanto, muitas coisas etc., toca no que, acerca do referido, deve ser suposto de outros. Diz, portanto, primeiro, que, depois do referido, deve-se considerar acerca da natureza e do uso das harmonias e dos ritmos, tanto absolutamente quanto em ordem à instrução, isto é, à disciplina. Absolutamente, na verdade, se se deve usar de todas as harmonias e ritmos na cidade, ou se é preciso distingui-los e dizer que de alguns se deve usar e de outros não. Em seguida, por comparação com a instrução: a saber, se aqueles que trabalham em vista dela devem usar de todos para ela. Ou também se se deve estabelecer neles a mesma determinação, por comparação com a disciplina, que também absolutamente, ou alguma outra diversa.
Em seguida, quando diz visto que a música, toca no que se deve considerar para a explicação do dito. Dizendo: visto que aos sentidos vemos a música distinguir-se pela melodia, no canto ou nos instrumentos, e pelos ritmos, convém considerar, para a evidência do proposto, que potência e virtude tenha cada uma destas quanto à disciplina e aos costumes. Pois daquelas que têm a virtude conveniente a estes deve-se usar para eles, mas das outras não. Ademais, se se deve escolher antes, para os costumes e a instrução, a música bem melodizada ou aquela que é bem ritmizada.
Em seguida, quando diz julgando, portanto, toca no que sobre isto deve ser suposto de outros. Dizendo que nós, julgando que muitos dos modernos que se ocupam da música, e outros dentre os filósofos antigos que foram perfeitos e bem se comportaram nesta disciplina em parte, isto é, que participaram de uma consideração especial da música acerca de cada um dos referidos pontos, deixaremos de indagar deles ou de seus escritos. Agora, porém, falaremos deles em geral, conforme convém ao propósito, dividindo de maneira geral os modos da própria música, declarando de quais se deve usar quanto aos costumes ou absolutamente para qualquer fim.
Em seguida, quando diz mas visto que, prossegue. E acerca disto faz duas coisas. Pois primeiro põe algumas divisões; segundo, quando diz, em terceiro lugar, para o entretenimento etc., conclui de quais e de que natureza harmonias se deve usar. Primeiro, portanto, diz que aprovamos razoavelmente a divisão das melodias musicais, segundo a qual alguns homens aprovados na filosofia as dividem, dizendo que umas delas são morais, ou que dispõem aos costumes, outras práticas, isto é, produtoras das paixões da ira e da mansidão, outras produtoras de arrebatamento, que tornam o ouvinte como que imóvel e não sensível, atribuindo mais exatamente uma melodia e uma harmonia determinada a cada uma delas: naturalmente dizem que a frígia é produtora de arrebatamento, e a lídia mista disponente ao pranto e à compaixão; e a dórica aos costumes, como se disse antes. Dizemos que a música não deve ser buscada absolutamente em vista de uma única utilidade, nem se deve usar dela por um único fim, mas em vista de muitos. Pois deve-se usar dela em razão do divertimento e da purificação. E o que chamamos purificação, por ora suponha-se de modo simples. Na Poética, porém, dir-se-á dela mais manifestamente. Ora, a purificação parece ser a corrupção de alguma paixão nociva que subsiste. E porque a corrupção de uma coisa se dá pela geração de outra, por isso é a corrupção de uma paixão pela geração da contrária, como a corrupção da ira pela geração da mansidão. E, em terceiro lugar, é útil ao entretenimento, ou ao deleite intelectual e aos costumes, como se disse antes.
Em seguida, quando diz em terceiro lugar, conclui do que foi dito de quais harmonias se deve usar e de que natureza. E primeiro o faz em geral; segundo, quando diz, mas visto que o espectador etc., mostra de quais em especial se deve usar. Quanto ao primeiro, primeiro faz o que foi dito; segundo, quando diz, pois a paixão que em torno de certas almas etc., prova um certo suposto. Diz, portanto, primeiro, que do que foi dito antes é manifesto que, para o relaxamento do trabalho e para o descanso da tensão, isto é, de uma obra tensionada, deve-se usar universalmente de todas as harmonias musicais, quanto aos bem dispostos por natureza. Pois todas as harmonias musicais, que consistem numa certa proporção média quanto ao sentido, o qual semelhantemente consiste numa certa proporção média, parecem induzir deleite nos que têm os sentidos bem dispostos por natureza; o que digo por causa daqueles que estão indispostos segundo o sentido ou a alma, os quais nas harmonias bem proporcionadas se entristecem por causa da contrariedade, e nas não proporcionadas e distorcidas se deleitam por causa da semelhança, como se dirá a seguir. Mas para a disciplina e os costumes deve-se usar sobretudo das morais, isto é, das que dispõem aos costumes, segundo o ouvido daqueles que, com a mão, ou o corpo, ou também a alma, trabalham em alguma paixão; e das práticas e arrebatadoras, isto é, das que conduzem de alguma paixão para a contrária ou para o meio-termo.
Em seguida, quando diz pois a paixão que, prova um certo suposto. Pois supôs que há certas harmonias purificativas de certas paixões nocivas, pela geração das opostas ou das médias. E isto pretende manifestar aqui por aquilo que aparece aos sentidos. E deve-se entender que a paixão da alma, no sentido em que aqui se fala, é o movimento da parte apetitiva da alma sob a imaginação do bem ou do mal. E por isso segue-se à apreensão do bem conveniente ou do mal inconveniente; e, se seguir à apreensão do bem conveniente, é com deleite enquanto tal. Se, porém, à apreensão do mal inconveniente, com tristeza. E porque a parte apetitiva da alma é uma certa potência no corpo e num órgão, por isso segue, em seu ser e em sua operação, a disposição da matéria e do corpo; e por isso tais paixões dela seguem alguma disposição das qualidades primeiras: como a audácia segue a abundância de calor em torno do coração; o temor, um certo resfriamento; a ira, uma inflamação do sangue ou do espírito. E porque tal disposição das qualidades está em todos os homens, enquanto todos são compostos delas como de matéria, mas contudo em maior e menor grau, conforme uns são mais quentes, outros menos, e conforme uns são mais frios, outros menos; por isso todas essas paixões estão em todos por certa aptidão e virtualidade. Mas em alguns mais segundo o ato e intensamente; em outros, porém, mais segundo a potência e frouxamente. E por isso diz que bem se disse que certas harmonias são produtoras de paixões; pois as paixões que se produzem nos animais de alguns segundo certa excelência, conforme alguns são excelentemente audazes, outros excelentemente tímidos, e assim das outras, existem universalmente em todos virtualmente; como o quente e o frio, e o úmido e o seco, que são os princípios destas segundo o mais e o menos, conforme mais ou menos dominam as qualidades que a elas dispõem. Como a misericórdia, o temor e o arrebatamento, que é a imobilidade dos sentidos e das partes exteriores por causa da revocação do calor e do espírito para o interior. Pois há alguns que são retidos por tal paixão. Pois vemos aos sentidos que, quando alguns usaram de certas melodias, das quais os antigos costumavam usar na veneração dos deuses, são restituídos e, de iracundos, tornam-se sobretudo mansos, como que tendo obtido uma certa medicina e uma purificação de uma paixão nociva e fora da natureza. E isto mesmo acontece aos que estão na paixão da misericórdia e da timidez, e universalmente em qualquer outra paixão, na medida em que a cada um cabe, e a todos advém um certo alívio e uma purificação da paixão, por causa do deleite produzido pela melodia que dispõe ao contrário.
E do mesmo modo tais melodias purificativas tornam a região inócua aos homens, enquanto reprimem as paixões pelas quais uns aos outros se injuriavam. E deve-se entender que todas essas paixões consistem, dispositiva e materialmente, em alguma proporção do quente e do frio e das outras qualidades primeiras, ainda que alguma destas domine, e que todas existem com um certo deleite ou tristeza, ou com ambos, ainda que mais com um deles. Pois as que são causadas pela imaginação do bem conveniente, enquanto tais, são com deleite; e as que provêm da imaginação do mal inconveniente, com tristeza. Ora, as harmonias musicais semelhantemente existem numa certa proporção média dos sons, as quais são às vezes semelhantes à proporção em que consiste alguma paixão, e às vezes dessemelhantes. Ora, cada um se deleita naquilo que lhe é conveniente e proporcional segundo a natureza, e se entristece pelo contrário. Por isso quem está em alguma paixão, seja com deleite seja ao contrário, ao ouvir uma melodia em proporção semelhante, intensifica-se mais na mesma paixão; mas, ao ouvir uma melodia que está em proporção contrária, relaxa-se como que pelo contrário; assim como, se alguém estiver na paixão da ira, que é com tristeza e uma certa inflamação, ouvir uma melodia em proporção contrária que causa deleite e relaxa o quente, será acalmado da ira. E semelhantemente se dá também nas outras paixões. E por isso os que tratam a música devem usar de tais melodias e harmonias contrárias para acalmar os excessos das paixões.
Em seguida, quando diz mas visto que, declara em especial de quais e de que natureza melodias se deve usar. E primeiro de quais e de que natureza se deve usar para o descanso dos indisciplinados e dos vis; segundo, quando diz, mas para o divertimento, de quais se deve usar para a disciplina dos homens livres e mais dos disciplinados. Na primeira parte diz que o espectador, isto é, o ouvinte da harmonia musical, é de dois tipos. Um é livre, isto é, bem disposto para as obras do intelecto e bem disciplinado. O outro é servo e pesado, composto de homens vis, mercenários e outros tais. Aos ignorantes, pesados e servis, devem-se atribuir certames e espetáculos convenientes a eles para o descanso e o deleite. Pois, trabalhando, precisam disso às vezes. E, assim como eles estão mal dispostos segundo a alma e distorcidos daquele hábito que é segundo a natureza, assim há certas harmonias muito rígidas e distorcidas da proporção média. Ora, a todos é deleitável aquilo que lhes é conveniente segundo a sua inclinação natural, porque o deleite é a operação não impedida de um hábito conatural, como se diz no sétimo livro da Ética. E por isso aos que competem e atuam nas coisas musicais deve-se conceder que possam usar de algum tal gênero de música, a saber, rígido e distorcido, para tal espectador vil e indisposto, a fim de que este, deleitado com ele, descanse; conforme dizemos comumente que mais vale a flauta rural do que algum instrumento mais nobre. Deve-se entender que a alma pode ser considerada em si mesma, enquanto é uma certa forma específica do homem, ou segundo a disposição da matéria neste ou naquele indivíduo. Se for considerada segundo a natureza própria, assim nenhuma inclinação à imperfeição, nem tampouco imperfeição, se encontra nela; antes, quanto está em si, é perfeita naturalmente, quanto é por sua inclinação; pois cada coisa é, segundo a natureza, tal como é quando perfeita na geração, como se diz no primeiro livro desta obra. E assim a alma de qualquer homem não se encontra distorcida do hábito natural; e, enquanto tal, qualquer um é livre. Se, porém, for considerada segundo a disposição da matéria neste ou naquele indivíduo, porque se encontram certas disposições que não a dispõem àquilo para o que nos inclinamos segundo a sua natureza, mas algumas antes para o contrário, assim a alma, ou o homem segundo ela, está distorcido da perfeição para a qual se inclina segundo a natureza.
Em seguida, quando diz mas para o divertimento, declara de quais melodias morais se deve usar para a disciplina. E primeiro faz isto; segundo, quando diz, mas há duas considerações, declara que todos não devem usar delas de todo modo, mas com determinação. Quanto ao primeiro, primeiro faz o que foi dito; segundo, quando diz, mas na República, Sócrates, reprova a opinião de Platão acerca de um certo dito; terceiro, quando diz, de novo, quanto à dórica, retorna a explicar um certo suposto. Na primeira parte diz que, para a disciplina, que é deleitável como um divertimento, deve-se usar das melodias morais e das harmonias que dispõem a ela. E tal é aquela que se chama dórica, como dissemos antes e aparecerá a seguir; logo, para a disciplina deve-se usar dela, e deve-se acrescentar-lhe algumas, se algumas aprovarem como convenientes a isto aqueles que se exercitaram no exercício filosófico e na disciplina musical.
Em seguida, quando diz mas na República, reprova a opinião de Platão acerca do referido. E primeiro faz isto; segundo, quando diz, mas a poesia o manifesta, declara um certo suposto. Na primeira parte diz que Sócrates, em sua República, isto é, Platão introduzindo Sócrates a falar, não diz convenientemente que só a melodia frígia, junto com aquela que chamamos dórica, deva ser recebida na cidade para a disciplina e os costumes dos jovens, reprovando ao mesmo tempo a flauta entre os instrumentos como não conveniente a eles; pois aquela mesma natureza e virtude que a flauta tem entre os instrumentos, a melodia frígia a tem entre as harmonias, já que ambas provocam a ira e são introdutoras da paixão para a qual dispõe o quente, por causa da força do movimento e da percussão, em razão dos quais têm o poder de excitar o calor nos espíritos. Se, portanto, a flauta deve ser reprovada como inapta para a disciplina e os costumes, pela mesma razão também a melodia frígia; e, se esta é útil, pela mesma razão também aquela.
A seguir, quando diz mas manifesta, esclarece um certo pressuposto, a saber, que a mesma natureza tem a Frígia nas melodias e a flauta nos instrumentos; dizendo que possuírem elas a mesma natureza o manifesta a poesia, que diz que toda bacanal, isto é, toda impetuosidade, e todo movimento semelhante a uma paixão violenta, é causado sobretudo pelo movimento da flauta nos instrumentos, e nas harmonias musicais pela melodia frígia. Tomam, porém, para tal esclarecimento aquilo que parece conveniente e verdadeiro, a saber, que o ditirambo manifestamente parece ser um certo modo da melodia frígia. E para isso muitos exemplos aduzem aqueles que se ocupam do objeto deste sentido, isto é, do ouvido, e de outras coisas. E porque o músico Filóxeno, ao compor uma fábula, tendo em certa ocasião parecido fazer ditirambos na melodia dórica, isto é, do primeiro tom, não pôde contudo fazê-lo, porque não lhe convinha, mas pela própria inclinação de sua natureza recaiu na frígia, com a qual mais se harmonizava; ora, isso não seria assim se não fosse ditirambo. Acerca do qual é manifesto que convém com a flauta ou a trombeta por causa da força do movimento, e é produtivo da ira e da paixão forte. E é um certo modo de canto que se chama frígio, isto é, do terceiro tom entre nós; e, por conseguinte, a Frígia conviria com a flauta.
A seguir, quando diz de novo acerca da dórica, retorna a provar a menor da razão anteriormente exposta, a saber, que a melodia dórica é sobretudo moral; dizendo que todos os que dela falam universalmente confessam que, entre todas as melodias, a dórica é a mais estável; por isso convém com a virtude, para a qual se requer a constância da mente naquilo que é segundo a razão, e possui sobretudo o caráter viril, isto é, virtuoso. O que, de fato, pela razão se torna manifesto: pois louvamos e aprovamos mais o meio entre as duas superabundâncias do excesso e do defeito, tanto naquilo que é segundo a natureza — por exemplo, louvamos mais uma compleição temperadamente quente do que aquela que é excessivamente fria — quanto naquilo que é segundo a arte e segundo a razão; pois louvamos a virtude, que consiste no meio, ao passo que censuramos a superabundância e o defeito, que têm o caráter dos extremos. Dizemos ainda que o meio em todas as coisas deve ser mais buscado, por ser bom. Ora, a melodia dórica tem o caráter de meio em relação às demais; pois não é tão excessivamente aguda como aquela que se chama lídia mista, que é do sétimo tom; nem tão rebaixada na gravidade como a hipodórica ou a hipofrígia, que é do segundo ou do quarto tom. E por isso é manifesto que é a mais digna de louvor e de ser buscada, como disposição para a virtude; razão pela qual os jovens devem ser mais exercitados nela.
A seguir, quando diz há, porém, esclarece que não de qualquer modo nem para quaisquer pessoas convém, mas segundo diversas determinações conforme a diversidade das idades. E acerca disso, primeiro esclarece a quem e com que determinação convém que se sirvam os velhos. Em segundo lugar, quando diz e ainda, se algumas, quem e quais, aos jovens, concluindo universalmente as condições que se requerem na melodia conveniente a cada idade. Diz, pois, primeiro que não convém que todos se sirvam de todas as melodias, tanto morais quanto médias, de qualquer maneira, mas com determinação. Ora, há duas coisas pelas quais se determina, a saber, o que é possível e o que é decente: pois entre as coisas boas realizáveis é preciso agir ou operar mais aquelas que são possíveis ao agente. Pois ninguém põe a mão naquilo que reputa impossível, seja absolutamente, seja para si, ainda que seja bom em si mesmo. E aquelas que são decentes ao próprio agente. Pois há coisas boas e possíveis ao agente que, contudo, não lhe são decentes; assim como é bom dar um pequeno presente, e isso é possível a um rei, mas contudo não lhe é decente, visto que ele é magnífico; e por isso aquelas coisas que são boas e possíveis ao agente e decentes a ele devem ser mais feitas. Ora, a possibilidade e a decência se distinguem segundo a diversidade das idades: pois há coisas possíveis ao homem perfeito e decentes a ele que não são possíveis ao jovem e decentes a ele; e por isso há algumas harmonias úteis aos costumes em si mesmas que, contudo, não convêm a alguns, porque não lhes são bem possíveis; assim como aos que são debilitados, isto é, que declinam pelo tempo ou pela velhice da igualdade, não podem facilmente cantar harmonias rígidas e agudas por causa da fraqueza da força e do fôlego, mas antes as mais brandas segundo a natureza.
Por isso, alguns dos músicos posteriores reprovaram convenientemente a Sócrates, que reprovou como inúteis aos costumes e à disciplina todas as harmonias brandas utilmente empregáveis, dizendo que elas eram como embriagantes dos homens. Mas, como a embriaguez produz duas coisas no homem, a saber, a impetuosidade do movimento e o declínio da sobriedade e da disposição natural, disse ele que elas eram embriagantes não segundo a potência da embriaguez, isto é, segundo a impetuosidade. Pois é verdade que a embriaguez torna o homem impetuoso: ora, tais melodias brandas não induzem tal impetuosidade; mas disse que elas eram embriagantes enquanto debilitantes, isto é, que declinam da igualdade e do meio. E por isso inclinam os homens àquilo que declina da igualdade e da retidão. Ora, isso Platão dizia como se todos os homens estivessem sempre no estado e na igualdade do meio segundo a natureza, e ninguém dela declinasse. Pois, se assim fosse, a ninguém conviria servir-se das harmonias brandas. Mas, porque alguns estão no estado e na igualdade, ao passo que outros dela declinam pela velhice ou de outro modo, e cada um se deleita naquilo que lhe é conveniente segundo a natureza, como foi dito antes; por isso não convém que todos se sirvam das melodias médias, mas a alguns convém servir-se das brandas médias; e por isso, para a idade futura dos velhos, que declinam da referida igualdade e são de fraca força, convém servir-se das melodias e harmonias brandas.
A seguir, quando diz e ainda, mostra o que convém aos jovens, concluindo as condições que se exigem na música ordenada utilmente aos costumes; dizendo que, ainda mais, se há uma harmonia tal, média não branda, que convém à idade das crianças, por ter certo ornato em razão da consonância pela qual deleita, e semelhantemente também a doutrina, isto é, que dispõe à disciplina — ora, tal força parece possuir sobretudo a harmonia que se chama lídia, que é a cantilena do quinto tom, como foi dito antes —, é manifesto que, na música que dispõe à disciplina, é preciso que três coisas preexistam: a saber, que tenha o caráter de meio entre as agudas e as graves, que seja possível a quem dela se serve, e decente à condição dele. Pois, se for tal, é manifesto que os que dela se servem serão mais inclinados à virtude e aos costumes, e, uma vez inclinados, operarão mais segundo a razão, e, operando segundo a razão, facilmente atingem a felicidade, que consiste na operação mais perfeita do homem segundo a sua suprema virtude a respeito do seu objeto mais perfeito. Bendito seja Deus pelos séculos dos séculos.