Lição 2
Mas, ainda que isto seja ótimo, a saber, que a comunidade seja una o mais possível, nem sequer isto parece demonstrar-se pelo discurso, se todos ao mesmo tempo disserem 'meu' e 'não meu': pois Sócrates considera que isto é sinal daquilo que é a cidade ser perfeitamente una. Pois o 'todos' é duplo: se, com efeito, for tomado como cada um, talvez de fato aconteça mais aquilo que Sócrates quer fazer. Pois cada um diz que um mesmo é seu filho, e uma mesma sua mulher, e assim acerca da substância e acerca de cada uma das coisas que ocorrem, de modo semelhante. Ora, não falarão assim os que usam esposas e filhos em comum, mas dirão 'todos', certamente, não porém como cada um deles; e semelhantemente também a substância, não porém como cada um deles. Que, portanto, é um certo paralogismo dizer 'todos', é manifesto. Pois o 'todos', o 'ambos', o 'ímpar' e o 'par', por causa da sua duplicidade, também nos discursos fazem silogismos litigiosos; por isso, dizer que todos dizem o mesmo é, neste sentido, bom, mas não possível; naquele outro sentido, porém, nada é conforme.
Além disso, o que é dito tem outro dano. Pois recebe o mínimo de cuidado aquilo que é comum a muitíssimos. Com efeito, os homens cuidam sobretudo do que é próprio, mas do que é comum cuidam menos do que quanto pertence a cada um: pois, junto de outros, como se outro cuidasse, as coisas são mais negligenciadas, assim como nos serviços domésticos muitos servidores por vezes servem pior do que poucos; ora, a cada um dos cidadãos se fazem mil filhos, e estes não como de cada um, mas o filho de um qualquer é igualmente filho de qualquer outro. Por isso todos igualmente os negligenciarão.
Além disso, assim cada um dirá 'meu' acerca de um cidadão que age bem ou mal, seja qual for, existindo segundo a natureza, por exemplo, 'meu' ou 'filho deste', falando desse modo acerca de cada um dos mil, ou de quantos a cidade tem, e isto com dúvida. Pois é obscuro a quem coube ter gerado um filho, e se o gerado se conservou vivo; e, com efeito, se é melhor dizer 'meu' de cada um deste modo, chamando de mesmo o de dois mil ou de dez mil, ou antes como agora nas cidades dizem 'meu'. Pois um chama a um mesmo de seu filho, outro de seu irmão, outro de sobrinho, ou segundo alguma outra parentela, seja de sangue, seja segundo a familiaridade e o cuidado dele em primeiro lugar, ou dos que a ele pertencem. Além disso, outro o chama de primo ou de membro da mesma tribo. Pois é melhor ser sobrinho próprio do que filho ao modo daquele.
Ademais, nem sequer é possível evitar que alguns suspeitem que outros são seus irmãos, filhos, pais e mães; pois, segundo as semelhanças que se dão entre os filhos e os que os geraram, é necessário tomar uns dos outros conjeturas. E isto dizem alguns dos que descrevem o périplo da terra que acontece: pois há na Líbia superior alguns que têm esposas comuns, mas os filhos nascidos são divididos segundo as semelhanças. Há também certas fêmeas, mesmo de outros animais, por exemplo, as éguas e as vacas, que muito são propensas a dar filhos semelhantes aos pais, como aquela égua em Farsália chamada 'a justa'.
At vero neque si hoc optimum etc. Depois de reprovar a causa que Sócrates atribuía à lei a ser promulgada acerca da comunidade das mulheres e dos filhos, mostrando não ser ótimo para a cidade que seja o mais possível una, aqui começa a mostrar que a cidade não alcança a máxima unidade pela lei antes mencionada; e apresenta para isso quatro razões.
Acerca da primeira delas, diz que, dado que isto fosse o ótimo da cidade, que ela fosse o mais possível una, não parece contudo demonstrar-se que a cidade seja o mais possível una pelo fato de todos dizerem ao mesmo tempo isto é meu e isto não é meu. Pois, se todas as coisas forem comuns, ninguém poderia dizer isto é meu senão daquilo de que também outro diria isto é meu; e Sócrates julgava que isto era sinal de que a cidade é perfeitamente una. Pois via que daí surgem discórdias na cidade, do fato de que um cuida do próprio bem e outro do seu bem; e assim os empenhos dos homens se dirigem a coisas diversas, porque não é o mesmo aquilo de que cada um diz isto é meu. Mas, se todos dissessem de uma e mesma coisa isto é meu, os empenhos de todos se dirigiriam a uma só coisa; e assim, como julgava Sócrates, a cidade seria o mais possível una. Mas esta não é a causa. Porque, quando dizes todos diriam isto é meu, esta proposição é dupla, pelo fato de que o termo 'todos' pode ser tomado distributiva ou coletivamente: se distributivamente, o sentido seria que cada um por si mesmo poderia dizer de tal coisa isto é meu; e então talvez fosse verdade o que Sócrates disse, porque cada um amaria um e o mesmo como filho próprio, e semelhantemente a mulher como sua própria; e assim é também acerca da substância, isto é, da posse. Mas aqueles que usam esposas e filhos em comum não dirão todos, nesse sentido, isto é meu, mas dirão todos, sim, coletivamente, como possuindo uma só coisa comum, de modo, porém, que ninguém por si mesmo dirá isto é meu; e o mesmo se dá também se a posse for comum, pois não será própria de ninguém segundo si mesmo. Assim, portanto, fica claro que é um certo silogismo sofístico aquele segundo o qual procedia Sócrates ao dizer que todos dizerem isto é meu é sinal de perfeita unidade; porque estas palavras omnes e utrumque, por causa da sua duplicidade, mesmo nos discursos, isto é, nas disputas, fazem silogismos litigiosos, ou seja, sofísticos. Por exemplo, se alguém disser, propostos três de uma parte e três de outra, ambos estes são pares: pois isto é verdadeiro se for tomado coletivamente, porque juntos são pares; mas, se for tomado distributivamente, são ímpares. Por isso deve-se dizer que, num sentido, todos dizerem do mesmo que é seu seria bom, a saber, conforme o termo 'todos' é tomado distributivamente; mas não é possível, pois implica contradição: pois, pelo próprio fato de ser próprio deste, não é de outro. Se, porém, não for tomado assim, mas coletivamente, não será conforme, isto é, congruente à cidade.
A segunda razão apresenta em ad haec autem etc., pela qual mostra que o que foi dito por Sócrates não só não é útil à cidade, mas até acarreta o máximo dano. Pois vemos que se cuida muito pouco daquilo que é comum a muitos: porque todos cuidam sobretudo do que é próprio; mas do que é comum os homens cuidam menos ainda do que quanto pertence a cada um; de modo que por todos em conjunto se cuida menos do que se cuidaria se fosse de um só. Pois, enquanto um crê que outro o fará, todos negligenciam: assim como acontece nos serviços dos servidores, que muitos servidores por vezes servem pior, enquanto um espera que outro o faça. Ora, segundo a lei de Sócrates, segue-se que cada cidadão teria mil filhos ou mais; e assim cuidará menos de cada um do que se tivesse um só. E, se acrescentarmos que esses mil filhos não são próprios de cada um dos cidadãos, mas é o filho incerto de um pai incerto, cuidarão muito menos. Por isso se seguirá que todos os cidadãos igualmente negligenciarão o cuidado dos filhos, e isto será o máximo dano na cidade.
A terceira razão apresenta em adhuc sic unusquisque etc. Dizendo que assim, isto é, segundo a posição de Sócrates, cada um dos cidadãos dirá acerca de cada um dos cidadãos que age bem ou mal, por mais numerosos que sejam, dirá, digo, 'este é meu', algo que existe segundo a natureza, por exemplo, 'este é meu filho' ou 'de tal outro'. E desse modo falará acerca de cada um dos mil, ou de quantos houver na cidade: e dirá isto não como se soubesse com certeza que este é seu filho, ou de outro, mas com dúvida; porque, se as mulheres forem comuns, aproximando-se muitos de uma só, não pode ser manifesto de que pai o filho foi gerado, pois há muitos que não geram; e também é obscuro de quem seja o filho que se conservou vivo, morrendo muitos. Deve-se, portanto, considerar se é melhor que, desse modo, alguém chame de mesmo algo, isto é, de seu filho ou sobrinho qualquer um do número de dois mil ou de dez mil, ou antes que alguém chame algum jovem de seu próprio, como agora fazem nas cidades. Pois vemos que um e o mesmo jovem alguns dos cidadãos chamam de seu filho, outros de sobrinho, ou segundo alguma outra proximidade, seja considerada a proximidade por causa da consanguinidade, seja por causa de alguma familiaridade, seja porque alguém desde o princípio teve cuidado dele, por exemplo, porque foi seu tutor ou instrutor, ou também das coisas que a ele pertencem; e, enquanto um o chama de filho ou sobrinho, outro dirá que é primo ou membro da mesma tribo. Chamam-se primos os que nasceram de dois irmãos. E membros da mesma tribo os que são de uma só tribo, por exemplo, de uma só associação na cidade. Assim, portanto, fica claro que não só segundo a lei de Sócrates muitos cidadãos dizem de um e o mesmo 'este é meu', mas também segundo o costume que agora se observa nas cidades. Mas nisto parece haver preeminência segundo a lei de Sócrates: que muitos dirão que este é seu filho. Por outro lado, porém, há preeminência nisto: que diversos dirão que um e o mesmo é seu, não como comum, mas como próprio, seja sobrinho, seja filho, seja irmão, ou algo desse gênero. Ora, é muito melhor e mais eficaz para dedicar amizade e cuidado que alguém estime que alguém é seu próprio sobrinho do que estime que ele é filho comum ao modo que Sócrates estabeleceu; porque, como foi dito, os homens amam e cuidam mais das coisas próprias do que das comuns. Por isso fica claro que a lei de Sócrates traz à cidade mais detrimento do que utilidade.
A quarta razão apresenta em quinimo, sed neque diffugere etc. E diz que, embora Sócrates julgasse evitar, pela comunidade dos filhos e das mulheres, que ninguém dissesse ser seu próprio filho ou irmão, mas opinassem isso comumente, contudo não pode evitar que alguns suspeitem de outros que são seus irmãos, ou filhos, ou pais, ou mães: e isto por causa da semelhança que frequentemente se encontra entre os filhos e os pais ou as mães. Por isso, alguns dos que descrevem os périplos da terra, isto é, de que modo a circularidade do mundo é habitada, narram que na Líbia superior alguns têm esposas comuns, mas dividem os filhos segundo as semelhanças, de modo que cada um dos homens toma para si como filho aquele que se lhe assemelha. E isto também vemos acontecer nas fêmeas de outros animais, como as éguas e as vacas, que naturalmente têm que geram filhos semelhantes aos pais. Assim como se diz de uma certa égua, que na terra da Farsália por isso se chamava 'a justa', porque dava filhos semelhantes aos pais. Por isso é manifesto que Sócrates, pela lei que diz dever ser promulgada acerca da comunidade das esposas e dos filhos, não pode conseguir isto: que não haja afetos privados entre os homens.