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Lição 4

De que modo o estado popular escorrega para a tirania, e por que menos agora do que antes.

620. Segundo cada espécie de política, dividindo a partir destas, é preciso considerar os acidentes.

621. As democracias, pois, transformam-se sobretudo por causa da imprudência dos demagogos: pois estes, ora caluniando em particular os que possuem bens, reúnem-nos entre si, porque o medo comum congrega até os mais separados; ora, publicamente, incitando a multidão contra eles.

622. E isto alguém poderá ver ter acontecido em muitos lugares. Com efeito, em Cós a democracia foi transformada quando os demagogos se tornaram maus, pois os notáveis se reuniram.

623. E em Rodes os demagogos, administrando os soldos, adquiriram-nos e impediam que se pagasse o que era devido aos trierarcas. Estes, porém, por causa das injustiças sofridas, foram por fim compelidos, reunindo-se, a dissolver a democracia.

624. Dissolveu-se também em Heracleia o povo logo após a migração, por causa dos demagogos. Pois os notáveis, tendo sofrido injustamente da parte deles, retiraram-se. Depois, reunindo-se os que se haviam retirado e sobrevindo, dissolveram a democracia.

625. De modo semelhante também em Mégara se dissolveu a democracia. Pois os demagogos, para obterem dinheiro do povo, expulsaram muitos dos notáveis, até tornarem muitos fugitivos. Estes, porém, descendo e atacando o povo, venceram e instituíram a oligarquia.

626. Aconteceu o mesmo também em relação a Cumas, na democracia que Trasímaco dissolveu.

627. Quase também em outros lugares alguém, ao considerar, poderá ver as transformações comportarem-se deste modo. Pois às vezes, para obterem presentes, cometendo injustiças, reúnem os notáveis, seja tornando os bens igualmente repartidos, seja as rendas destinadas a sacrifícios. Outras vezes, acusando-os, para obterem do povo as posses dos ricos.

628. Nos tempos antigos, quando o mesmo era demagogo e chefe do exército, a transformação dava-se em tirania: pois quase a maior parte dos antigos tiranos se tornaram tiranos a partir de demagogos.

629. A causa por que então isso acontecia, mas agora não, é que os demagogos eram tirados dentre os que combatiam, pois ainda não eram hábeis em falar. Agora, porém, tendo-se ampliado a retórica, os que sabem falar tornam-se demagogos; mas, por causa da inexperiência nas coisas bélicas, não se sobrepõem, a não ser que em algum lugar aconteça algo breve desse tipo.

630. As tiranias formavam-se antes mais do que agora, também porque grandes magistraturas eram confiadas a alguns, como em Mileto a partir do Pritaneu; pois o pritano era senhor de muitas e grandes coisas.

631. Além disso, porque as cidades não eram então grandes, mas o povo habitava nos campos, ocupado com os trabalhos, os melhores do povo, quando eram belicosos, eram postos à frente com poder tirânico. Todos, porém, faziam isto por serem tidos em confiança pelo vulgo. E a persuasão era a inimizade contra os ricos; como em Atenas Pisístrato moveu sedição contra os pediacos, e Teágenes em Mégara, matando o gado dos ricos, apanhando-o a pastar junto ao rio; e Dionísio, acusando Dafneu e os ricos, foi julgado digno da tirania por causa da inimizade, sendo tido como sendo partidário do povo.

632. Transformam-se também da primeira democracia na mais nova: pois onde as magistraturas são elegíveis, mas não segundo os censos, e o povo elege, os demagogos que se empenham em governar insistem nisto: que o povo seja senhor das leis.

633. O remédio para que isto não aconteça ou aconteça menos é que as tribos elejam os magistrados, mas não todo o povo. As transformações das democracias, pois, quase todas se dão por estas causas.

Depois que o Filósofo declarou as causas e os princípios da sedição e da transformação das repúblicas em geral, naquelas em que muitos governam, nesta parte começa a determinar em especial as causas e os princípios da sedição e da transformação delas. E divide-se em três partes. Na primeira determina as causas da sedição e da transformação do estado popular. Na segunda, do estado dos poucos, ali: as oligarquias, porém, etc. Na terceira, do estado dos melhores, ali: nas aristocracias, porém, etc. A primeira em duas. Na primeira propõe o seu intento. Na segunda prossegue, ali: as democracias, pois, etc. Na primeira diz que, depois de se ter determinado acerca das causas e dos princípios da sedição e da transformação das repúblicas em geral, deve-se considerar em especial quais são os acidentes segundo os quais se dá a transformação e a sedição, segundo cada espécie de república que a eles pertencem, e considerando-os segundo cada uma em especial.

Em seguida, quando diz as democracias, pois, prossegue; e divide-se em duas. Na primeira toca a causa por que o estado popular se transforma absolutamente. Na segunda toca a causa ou o modo da transformação, ali: transformam-se da primeira, etc. A primeira em duas. Na primeira faz o que foi dito. Na segunda mostra em que república antigamente se dava mais a transformação, ali: nos antigos, porém, etc. A primeira em três. Na primeira põe a causa da transformação do estado popular. Na segunda manifesta-a por exemplos, ali: e isto em muitos, etc. Na terceira dá a razão de algo, ali: e em Rodes, etc. Na primeira diz que os estados populares sobretudo se transformam e sofrem sedições por causa da malícia dos que são chefes no povo. Pois estes, por causa da malícia ou da impotência, reúnem os ricos. E isto pode dar-se de dois modos. De um modo, caluniando-os. Ora, a calúnia é a imputação de um falso crime. E às vezes chama-se calúnia a usurpação de coisa alheia por causa da imputação de um falso crime. Quando, pois, esses chefes imputam falsos crimes aos ricos, os ricos reúnem-se entre si; e, embora os ricos estivessem separados e talvez fossem inimigos, contudo, por causa da calúnia, reúnem-se, porque o medo comum congrega e une os que estão muito separados. E a razão disto é que o medo é uma tristeza ou perturbação por causa da imaginação de um mal futuro; e por isso aquele que teme busca vias pelas quais possa evitar o mal futuro imaginado: se, pois, julgar que fará isto se se unir com o inimigo, une-se com ele. Deve-se, contudo, entender que, se o movimento do medo for menor que o movimento da inimizade, não se unirá com o inimigo; mas, se for maior, unir-se-á com ele para repeli-lo: pois sempre se segue o movimento maior. Por onde é manifesto que os ricos se unem uns aos outros, e, unidos e conjuntos, insurgem-se contra a multidão e a oprimem e transformam a república. De outro modo, os chefes do povo reúnem os ricos, procurando que a multidão seja onerada pelos ricos, para que a multidão, onerada por eles, induzida pelos chefes, se insurja contra os ricos; e então os ricos, temendo ser oprimidos pela multidão, reúnem-se e insurgem-se contra a multidão e transformam a república.

Em seguida, quando diz e isto em muitos, manifesta-o por exemplos. E divide-se em cinco, conforme manifesta por cinco exemplos. O segundo, ali: e em Rodes, etc. O terceiro, ali: dissolveu-se também em Heracleia, etc. O quarto, ali: não muito diferentemente, etc. O quinto, ali: aconteceu o mesmo também em relação a Cumas, etc. No primeiro diz que, se alguém considerar, verá em muitos lugares que o estado popular se transforma por causa da malícia dos chefes do povo: pois na cidade que se chama Cós o estado popular foi transformado por causa da malícia deles: com efeito, os ricos reuniram-se e insurgiram-se contra a multidão e transformaram a república.

Em seguida, quando diz e em Rodes, põe o segundo exemplo. E diz que na ilha de Rodes os chefes do povo, que estavam encarregados de tratar dos soldos a pagar àqueles a quem eram devidos, tinham impedido que tais soldos fossem pagos aos soldados da frota, embora lhes fossem devidos: eles, porém, unindo-se ao mesmo tempo por causa do medo do julgamento e das injustiças referidas, foram compelidos a dissolver o seu estado popular.

Em seguida, quando diz dissolveu-se, põe o terceiro exemplo. E diz que na cidade que se chama Heracleia o estado popular foi corrompido após a retirada dos próprios ricos, por causa dos próprios chefes do povo, pois os ricos, por causa das injustiças infligidas, retiraram-se da cidade, depois reuniram-se, e, reunidos, sobrevindo, destruíram o estado popular e instituíram outra república.

Em seguida, quando diz de modo semelhante, porém, põe o quarto exemplo. E diz que na cidade dos megarenses o estado popular foi corrompido por causa da malícia dos chefes do povo: pois os chefes, querendo ter dinheiro dos ricos por meio do confisco dos bens, expulsaram muitos ricos, e isto até que se tornaram muitos os exilados. Os ricos, porém, depois reuniram-se e, vindo contra a cidade, atacaram-na e venceram-na, e então, corrompendo o estado popular, instituíram o estado dos poucos.

Em seguida, quando diz aconteceu, porém, põe o quinto exemplo. E diz que isto mesmo aconteceu em Cumas. Pois daquela cidade foi expulso um certo homem de nome Trasímaco pelos chefes do povo; depois este insurgiu-se contra a multidão, e venceu e mudou a república.

Em seguida, quando diz quase, porém, atribui a causa de algo dito. Pois disse que os chefes do povo movem a multidão contra os ricos: declara por que causa fazem isto. E diz que quase em todos os outros lugares aparecerá, se alguém considerar, que o estado popular se transforma deste modo, isto é, por causa da malícia dos chefes do povo: pois estes movem a multidão contra os ricos, seja para obterem presentes dos ricos por causa da injustiça, isto é, para que os ricos, por causa da injustiça, sejam movidos a resgatar a sua vexação, seja da multidão que odeia os próprios ricos; e então acontece que os ricos se reúnem por causa dessa injustiça. Outras vezes, porém, fazem isto para que as posses sejam iguais, para que por meio disto possam ter algo das posses dos ricos, ou para que as rendas deles sejam sujeitas aos encargos públicos. Outras vezes, porém, imputam crimes aos ricos, para que por meio disto sejam banidos da cidade, e pelo povo sejam confiscadas as suas posses. Pois, como foi dito acima, esses chefes do povo são aduladores, e por isso fazem as coisas que agradam à multidão, pelas quais trazem muito lucro.

Em seguida, quando diz nos antigos, declara em que república antigamente se dava mais a transformação do estado popular, a saber, em tirania. E primeiro propõe. Segundo prova, quando diz: a causa, porém, etc. No primeiro diz que nos tempos antigos, quando o chefe do povo era chefe do exército, o estado popular transformava-se em tirania, o mais das vezes; pois quase a maior parte dos antigos que foram tiranos tornaram-se tiranos a partir dos chefes do povo.

Em seguida, quando diz a causa, porém, atribui três razões daquilo que foi proposto. E segundo isto divide-se em três. A segunda, ali: formavam-se, porém, as tiranias, etc. A terceira, ali: além disso, porém, etc. Na primeira diz que a causa por que antigamente se transformavam em tirania e agora não, é que antigamente os chefes do povo eram tomados dentre os que combatiam; pois estes eram mais hábeis e eloquentes que os outros, porque exercitados e porque possuíam a retórica. Os homens, porém, não eram comumente capazes de falar, porque nem comumente se possuía a retórica. E por isso elegiam por príncipe aquele que era mais eloquente e hábil e exercitado na guerra. Aquele, porém, governando sozinho, depois tiranizava; e assim o estado popular mudava-se em tirania. Mas agora não é assim; pois a retórica foi ampliada, e muitos a conheceram, e por isso quaisquer que possam falar e sejam hábeis tornam-se chefes do povo; mas, porque não são exercitados nas coisas bélicas, não ousam invadir o principado, de modo que alguém governe sozinho; a não ser que aconteça haver alguém eloquente e hábil mais que os outros e exercitado nas coisas bélicas.

Em seguida, quando diz formavam-se, porém, põe a segunda razão. E diz que antigamente havia mais tiranias do que agora. E a razão era que grandes magistraturas eram confiadas a um só; este, porém, atraía para si o domínio e governava sozinho, tiranizando; como aconteceu na cidade de Mileto, que a um certo homem foi confiado o principado que tinha o domínio de muitas e grandes coisas, e depois, governando sozinho, tiranizou. Porque, pois, antigamente havia mais tiranias do que agora, e a república se transformava naquela em que também mais vezes acontecia, por isso também o estado popular se transformava em tirania.

Em seguida, quando diz além disso, porém, põe a terceira razão. E diz que outra vez é manifesto que antigamente o estado popular se transformava em tirania, porque as cidades não eram muito grandes, antes o povo habitava nos campos ocupado com a agricultura; e por isso pouco se importava com o bem comum. Donde àqueles que eram mais sagazes e melhores no povo, porque eram belicosos, o povo os punha à frente, e governavam tiranicamente. E tiranizavam porque o vulgo neles confiava; e a causa disto era que persuadiam os pobres contra os ricos. E a persuasão eficaz era a inimizade que ostentavam contra os próprios ricos. Pois odiar o inimigo de alguém torna-o bem digno de fé para esse alguém; como aconteceu em Atenas, que um certo homem de nome Pisístrato fez sedições contra os pediacos. E em Mégara, Teágenes, assim chamado por sua linhagem, que matou junto a certo rio o gado dos ricos megarenses, e capturou os que apascentavam aquele gado, e por isto tornou-se benquisto do povo. De modo semelhante Dionísio acusou um certo homem de nome Dafneu, e igualmente os ricos; e por isto foi tido por digno de governar com principado tirânico, tornando-se digno de fé para o povo e tido por fiel, tanto porque era partidário do povo, quanto porque parecia ter inimizade contra os ricos.

Em seguida, quando diz transformam-se, porém, declara como de uma espécie de estado popular se dá a transformação para outra. E primeiro toca o modo. Segundo o remédio, ali: o remédio, porém, etc. Na primeira diz que do primeiro estado popular, em que governam os antigos homens livres, se dá a transformação para o estado popular novo, no qual toda a multidão domina segundo o seu parecer, não segundo as leis, e ninguém governa segundo alguma dignidade. E dá-se a transformação deste modo. Com efeito, tendo o povo em tal república poder na eleição, os chefes do povo que pretendem governar propõem os seus decretos: que a multidão deve governar, porque é melhor do que alguns dentre a multidão; e por isso é melhor governar toda a multidão do que alguns. O povo, porém, de bom grado ouve essa alegação; e por isso institui que toda a multidão governe segundo a lei; e chama-se a este o estado popular novo.

Em seguida, quando diz o remédio, porém, toca o remédio contra esse modo de transformar o estado popular; porque essa espécie na qual se dá tal transformação é péssima. E diz que o remédio para que não se forme tal estado popular ou para que se forme menos, é sustentar e procurar que uma tribo eleja, de modo que uma tribo eleja por vez, depois outra, e assim sucessivamente, e não toda a multidão. Pois uma tribo é menor do que toda a multidão; e por isso é melhor eleger tribos do que toda a multidão. Pois o Filósofo dizia acima que toda a multidão eleger pode dar-se de dois modos. De um modo, dividamente, de sorte que ora uma tribo, depois outra, de modo que todas as partes obtenham a eleição dividamente. De outro modo, conjuntamente: e, porque o primeiro pode obter-se, deve-se preferi-lo mais. E conclui que por estas causas se dão quase todas as transformações do estado popular.