Lição 11
O primeiro modo de conservar a tirania por meio do incremento da administração tirânica.
743. Conservam-se manifestamente, para dizê-lo simplesmente, pelos contrários.
744. Mas, para conduzir cada uma delas conforme aquilo que ela é, os reinos devem ser conduzidos a algo mais moderado: pois quanto de menos forem senhores, tanto por mais longo tempo é necessário que permaneça o principado de todos: com efeito, eles próprios tornam-se menos despóticos, e mais equânimes nos costumes, e são menos invejados pelos súditos.
745. Por estas razões, com efeito, também entre os Molossos o reino permaneceu por muito tempo, e o dos Lacedemônios, porque desde o princípio o principado foi dividido em duas partes, e novamente moderando-o Teopompo, e em outras coisas, e instituindo o principado dos éforos: pois, tirando-lhe do poder, aumentou o reino em duração: de modo que de certo modo o fez não menor, mas maior; o que se diz também que ele respondeu à esposa, que dissera que não se envergonhava de transmitir aos filhos um reino menor do que recebera do pai: não se deve dizer isto: pois transmito-o mais duradouro.
746. As tiranias, porém, conservam-se segundo dois modos completamente contrários: dos quais um é o que foi transmitido, e segundo o qual a maioria dos tiranos administra o principado. Dizem que muitas dessas coisas as instituiu Periandro de Corinto: pois muitas coisas tais se podem tomar também do principado dos Persas. Há também coisas ditas outrora para a conservação, na medida do possível, da tirania: eliminar os que se destacam, e destruir os sábios, e não permitir nem associações, nem confrarias, nem instrução, nem nada de tal, mas precaver-se de tudo donde costumam surgir duas coisas, a sabedoria e a persuasão, e não permitir que se façam nem escolas, nem outras reuniões de lazer.
747. E fazer tudo aquilo pelo qual todos se tornem o mais desconhecidos possível uns dos outros: pois o conhecimento faz mais que se confie mutuamente.
748. E que os prefeitos do povo estejam sempre à vista, permanecendo junto às portas; pois assim de modo nenhum ficará oculto o que fazem.
749. E manter sob vigilância se se habituam a servir sempre com moderação: e todas aquelas coisas semelhantes que são persas e bárbaras são tirânicas: pois todas podem o mesmo.
750. E tentar que não fique oculto o que quer que algum dos súditos tenha dito ou feito, mas estar atento, como entre os Siracusanos os chamados delatores, e os que escutam com os ouvidos, que Hierão enviava onde quer que houvesse alguma congregação e reunião: pois confiam menos temendo tais pessoas; e, se confiarem, menos ficarão ocultos.
751. E fazer com que se acusem uns aos outros e se perturbem, tanto os amigos com os amigos, quanto o povo com os notáveis, e os ricos entre si mesmos.
752. E empobrecer os súditos é tirânico, para que nem se sustente a guarda.
753. E que, ocupados com as coisas cotidianas, não tenham lazer para maquinar. Exemplo disto: as pirâmides que há no Egito, e as oferendas votivas dos Cipsélidas, e a edificação do templo de Zeus Olímpico pelos Pisistrátidas, e as obras dos que foram de Samos, de grande domínio.
754. Pois todas estas coisas podem o mesmo, a saber, a falta de lazer e a penúria dos súditos, e a imposição de tributos, como em Siracusa, pois em cinco anos, sob Dionísio, sucedeu que toda a substância fosse arrecadada.
755. E ainda o tirano é promotor de guerras, para que de todo modo estejam sem lazer e permaneçam na indigência, sendo dependentes de um chefe.
756. O reino, na verdade, conserva-se pelos amigos; mas é próprio do tirânico desconfiar sobretudo dos amigos, como daqueles que, embora todos o queiram, estes sobretudo o podem.
757. E ainda todas as coisas que se fazem em torno da democracia última são tirânicas. E o poder das mulheres em torno das casas, para que denunciem contra os maridos, e a indulgência para com os servos pela mesma causa: pois nem os servos nem as mulheres maquinam contra os tiranos, e, sendo felizes, é necessário que sejam benévolos tanto para com as tiranias quanto para com as democracias.
758. Pois também o povo quer ser monarquia, e por isso o adulador é também honrado junto de ambos: com efeito, o demagogo é adulador do povo: e junto dos tiranos, porque conversam humildemente, o que é próprio da adulação. Pois por isso o tirano é amigo dos maus, isto é, dos malvados: pois alegram-se ao receber a adulação. Ora, isto ninguém o fará tendo um ânimo livre, mas os probos amam quem não os adula. Os maus são adequados às coisas más, pois um cravo se tira com outro cravo, como diz o provérbio.
759. E não se comprazer com nenhum homem venerável nem livre é próprio do tirânico: pois o tirano quer ser o único a sê-lo, ao passo que aquele que ao contrário é venerável e liberal tira-lhe a excelência, e o que há de despótico na tirania. Odeiam-nos, pois, como quem dissolve o principado. E servir-se de banquetes.
760. E conviver mais com estrangeiros do que com concidadãos é tirânico, como se estes fossem adversários, mas aqueles não se opusessem. Estas e tais coisas são, na verdade, tirânicas e conservadoras do principado; nada, porém, lhes falta em maior malignidade.
761. Ora, todas estas coisas, para dizê-lo, estão compreendidas em três espécies. Com efeito, o tirano visa três coisas: uma, que os súditos saibam pouco, pois ninguém pusilânime tramará contra alguém; a segunda, que desconfiem uns dos outros, pois o tirano não é dissolvido antes que alguns confiem em si mesmos: por isso também se opõe aos probos como nocivos ao principado, não só porque não querem ser-lhe submetidos despoticamente, mas também porque são fiéis a si mesmos e aos outros, e porque não traem nem a si mesmos nem aos outros. A terceira é a impossibilidade de agir: pois ninguém põe a mão no que é impossível: de modo que ninguém dissolverá a tirania não existindo poder.
762. Àquilo, pois, a que se reduzem as vontades dos tiranos, existem estes três: pois tudo o que é tirânico alguém reduzirá a estas hipóteses, esta, que não confiem uns nos outros, esta outra, que não possam, esta outra, que saibam pouco. Um modo, pois, pelo qual se realiza a conservação das tiranias, seja tal.
Depois de o Filósofo ter determinado acerca dos princípios que destroem as monarquias, determina acerca dos princípios que as conservam. E primeiro em geral. Segundo em especial, ali, mas para que segundo cada uma etc. Na primeira diz que as monarquias, para dizê-lo simplesmente, se conservam pelos contrários daqueles pelos quais se destroem. Com efeito, os princípios dos contrários são diversos entre si. A destruição e a conservação da república são contrárias; logo, provêm de princípios contrários.
Em seguida, quando diz mas para que, determina em especial acerca dos princípios que as conservam. E primeiro acerca dos que conservam a monarquia régia. Segundo acerca dos que conservam a tirania, ali, mas as tiranias etc. Na primeira deve entender-se que o reino é a melhor república e a mais bem ordenada. E por isso, por sua própria natureza, é o mais suscetível de conservação. Por isso o Filósofo não toca senão em um só modo de conservar o reino. E primeiro toca-o. Segundo manifesta-o, ali, por isso, com efeito etc. Diz, pois, que o reino se conserva por isto: que o principado é conduzido à moderação segundo cada coisa que a ele pertence: de sorte que, se algo pertence ao rei, que é senhor de todos e governa em todas as coisas, no qual os súditos pareçam ser oprimidos de modo que muito lhes desagrade, ele o tempere ou lho remita. Pois quanto de menos for senhor, tanto mais durável será o principado; porque quanto de menos for senhor, tanto menos governará de modo dominativo, e assim julgará sobre menos coisas e mais homens alcançarão o principado, e terão o que lhes compete segundo a dignidade, e então parecerá ser igual aos súditos. Ora, comportando-se assim o rei, menos lhe invejarão os súditos, e, comportando-se assim, governará com os súditos consentindo; ora, isto torna o principado mais durável.
Em seguida, quando diz por estas razões, manifesta o que foi dito por meio de um exemplo. E diz que por essa causa entre os Molossos o reino durou muito. E de modo semelhante também o reino dos Lacedemônios: pois desde o princípio dividiram o principado em duas partes, e assim o moderaram: de modo semelhante Teopompo, que ali reinou depois, consequentemente moderou o principado. Com efeito, sendo senhor de todos, instituiu o principado dos éforos, transmitindo-o a outros, como que retirando-o do seu poder. Com o que tornou o seu reino de algum modo maior e muito mais durável. Por isso se diz que respondeu à sua esposa, quando ela o repreendia dizendo que não se envergonhava de transmitir aos filhos um reino menor do que recebera dos antepassados, disse que não devia dizer isto; porque, ainda que não lhes transmitisse um reino igual segundo o poder, transmitia-o contudo mais duradouro, o que parece ser melhor.
Em seguida, quando diz mas as tiranias, determina acerca dos princípios que conservam a tirania. Pois a tirania, porque por sua própria natureza é desordenada, é facilmente corruptível. E por isso dá muitos elementos pelos quais pode ser conservada. Ora, conserva-se de dois modos. De um modo, intensificando-a. Segundo, atenuando-a. E segundo isto divide-se em duas partes. Na primeira expõe o modo segundo o qual se conserva pela intensificação. Segundo o modo que é pela atenuação, ali, mas o outro etc. A primeira em duas. Na primeira põe um modo segundo o qual se conserva intensificando-a absolutamente. Segundo em comparação com o reino, ali, o reino na verdade etc. A primeira em três, porque a tirania se intensifica de três modos. De um modo, tornando os súditos ignorantes. Segundo, desconhecidos. Terceiro, pobres. E por isso divide-se em três. Na primeira põe os modos segundo os quais se tornam ignorantes. Segundo, os modos pelos quais se tornam desconhecidos, ali, e fazer tudo etc. Terceiro, os modos pelos quais se tornam pobres, ali, e empobrecer etc. Na primeira diz que a tirania se conserva de dois modos muito contrários. Um dos quais é segundo a intensificação, o outro segundo a atenuação. E o outro destes foi dito antes, segundo o qual os tiranos administram, ou comumente regem, o principado tirânico. Ora, Periandro, como se diz, instituiu muitas coisas tais pelas quais se intensifica a tirania, e muitas coisas tais podem tomar-se dos Persas. Houve também algumas coisas dadas na antiguidade para a conservação da tirania. Uma das quais foi eliminar os que se destacam em poder ou em riquezas, porque tais homens, pelo poder que têm, podem insurgir-se contra o tirano. Igualmente matar os sábios: pois tais homens, por sua sabedoria, podem encontrar meios para expulsar a tirania; igualmente, para a conservação da tirania convém não permitir associações, nem confraria ou sociedade, para que não se unam entre si pela amizade. Pois disto mais facilmente poderiam insurgir-se contra o tirano. Igualmente não permitir a instrução, e o que quer que possa induzir à sabedoria; mas evitar tudo, porque tais homens podem encontrar diversos meios para insurgir-se contra ele e expulsá-lo: por isso devem precaver-se todas aquelas coisas pelas quais se tornam sábios, ou de sabedoria ativa, ou especulativa, ou também aquelas pelas quais se produz a persuasão, e os homens persuasivos. E por isso não se deve permitir nem escolas nem outras reuniões pelas quais acontece dedicar-se à sabedoria; pois os sábios inclinam-se para grandes coisas; e por isso são magnânimos, e tais homens facilmente se insurgem.
Em seguida, quando diz e fazer tudo, toca nos modos pelos quais se tornam desconhecidos. E divide-se em cinco, conforme toca em cinco coisas. A segunda, ali, e os prefeitos etc. A terceira, ali, e manter sob vigilância etc. A quarta, ali, e que não fique oculto etc. A quinta, ali, e fazer com que se acusem uns aos outros etc. Na primeira diz que, para conservar a tirania, é preciso dispor e fazer aquilo pelo qual os súditos sejam ao máximo desconhecidos entre si, porque o conhecimento faz que confiem mais uns nos outros. Ora, disto, que confiam uns nos outros, mais facilmente se unem e mais poderosamente se insurgem. E por isso devem dispor-se tais coisas pelas quais sejam ao máximo desconhecidos.
Em seguida, quando diz e os prefeitos, põe o segundo modo. E diz que, em segundo lugar, para a conservação da tirania convém fazer que os encarregados e os servidores estejam à vista nos lugares em que os súditos devem congregar-se, e junto às portas da cidade ou dos súditos, para que vejam e percebam o que os súditos dizem ou fazem. Pois assim ficará mais manifesto o que fazem, e menos poderão maquinar contra o tirano, confiando menos uns nos outros.
Em seguida, quando diz e manter sob vigilância, põe o terceiro modo. E diz que é preciso, para a conservação da tirania, dispor que, se os súditos fizerem algum malefício, ou em algo se insolentarem e se desviarem daquilo que é ordenado pelo tirano, ainda que pouco, sejam surpreendidos pelos servidores dispostos para isto, e do mesmo modo dispor todas as outras coisas que são bárbaras e persas e tirânicas. Pois todas essas coisas podem o mesmo, a saber, conservar a tirania. Com efeito, disto, que os súditos estarão ocupados em algumas coisas, temendo mais, menos poderão insurgir-se.
Em seguida, quando diz e tentar, põe o quarto modo. E diz que se deve tentar que não fique oculto o que quer que os súditos digam e façam; mas atender diligentemente a tudo, e assim fazer como fizeram os tiranos em torno dos Siracusanos. Com efeito, dispuseram alguns que se chamavam delatores, que Hierão enviava, para que ouvissem o que os súditos diziam e faziam: assim, de modo semelhante, devem dispor-se alguns que, onde quer que houvesse alguma congregação, ouçam o que ali se diz e se faz. Pois assim aqueles que se congregarem, por causa do temor, menos confiarão em si mesmos e, por consequência, nada maquinarão, ou, se confiarem em si, menos poderão ficar ocultos, e além disso poder-se-á precaver mais.
Em seguida, quando diz e fazer com que se acusem, põe o quinto modo. E diz que, para conservar a tirania, é preciso que o tirano procure que os súditos imputem crimes uns aos outros e se perturbem mutuamente, como o amigo ao amigo, e o povo contra os ricos, e os ricos dissintam entre si: pois assim menos poderão insurgir-se por causa da sua divisão. Com efeito, toda força dividida é menor.
Em seguida, quando diz e empobrecer, põe os modos pelos quais se tornam pobres. E divide-se em quatro, conforme põe quatro modos. O segundo, ali, e ocupados etc. O terceiro, ali, pois todas estas coisas etc. O quarto, ali, e ainda etc. No primeiro diz que, para a conservação da tirania, é preciso tornar os súditos pobres; pois assim menos poderão insurgir-se contra o tirano. Ora, tornar pobres os súditos, ainda que aconteça de muitos modos, acontece contudo, no presente, de quatro modos. Primeiro, não dando despesas aos guardas da cidade dos bens comuns, mas obrigando-os a pagar do próprio por completo.
Em seguida, quando diz e ocupados, põe o segundo modo. E diz que se deve dispor que os súditos estejam ocupados com as obras cotidianas, para que, assim ocupados, não possam maquinar, ou não tenham lazer para maquinar algo contra o tirano. Como temos o exemplo das tiranias que houve em torno do Egito, onde os súditos eram obrigados a ocupar-se com as obras cotidianas. Como se vê dos filhos de Israel, que eram ocupados com o barro e os tijolos. De modo semelhante as oferendas dos Cipsélidas, de modo semelhante a edificação do templo de Zeus Olímpico, que foi feita pelo Pisistrátida, de modo semelhante as obras dos que eram da ilha de Samos, que eram magníficas. Pois todas essas coisas podem fazer o mesmo; a saber, que os súditos não podem ter lazer para maquinar algo contra o tirano. Com efeito, dado que estão ocupados com tais obras, não podem tratar de como expulsar o tirano. Igualmente podem produzir a penúria e a pobreza dos súditos: com efeito, dado que são obrigados a contribuir para os edifícios a serem feitos e a ocupar-se com tais coisas, é preciso que se empobreçam.
Em seguida, quando diz pois todas estas coisas, põe o terceiro modo. E diz que se devem procurar os tributos, isto é, exações muitas e grandes: pois assim rapidamente poderão empobrecer-se os súditos, como se fez em Siracusa. Com efeito, ali Dionísio, que governava, procurou tantas exações que todas as riquezas dos súditos vieram a ele em cinco anos.
Em seguida, quando diz e ainda, põe o quarto modo. E diz que, para a conservação da tirania, o tirano deve procurar guerras entre os súditos, ou também contra os estrangeiros, de sorte que não possam ter lazer para tratar de algo contra o tirano, e temam mais. Assim também serão dependentes de um chefe, e então poderá exigir mais deles mesmos.
Em seguida, quando diz o reino na verdade, põe outro modo pelo qual se conserva em comparação com as outras repúblicas e com algumas outras coisas. E divide-se em quatro. Na primeira põe o modo pelo qual se conserva em comparação com o reino. Na segunda põe o modo pelo qual se conserva em comparação com o regime popular, ali, e ainda as coisas que se fazem etc. Na terceira põe outro modo em comparação com o homem livre e venerável, ali, e não se comprazer etc. Na quarta põe outro modo em comparação com os concidadãos e os estrangeiros, ali, e conviver etc. Na primeira diz que o reino se conserva pelos amigos. Com efeito, os súditos amam o rei e querem que ele governe; ora, isto conserva o reino. E por isso o reino conserva-se pelos amigos: mas o tirano, para conservar a tirania, não deve confiar nos amigos. E a razão disto é que os amigos são poderosos: com efeito, disto, que alguns são amigos do príncipe, são poderosos. Igualmente inclinam-se e querem governar a todos. E por isso não deve confiar neles, se deve conservar a tirania.
Em seguida, quando diz e ainda, põe outro modo em comparação com o regime popular. E primeiro põe-no. Segundo atribui a razão de um certo dito, ali, pois também o povo quer etc. Na primeira diz que, para conservar a tirania, o tirano deve dispor aquelas coisas que dizem respeito ao regime popular último, que é o pior de todos. Pois todas aquelas coisas são tirânicas, como o poder das mulheres diante do povo, diante do qual lhe é permitido propor contra os maridos o que quiserem. E a alforria dos servos contra os cidadãos. Com efeito, as mulheres são como que a metade da cidade. Ora, elas próprias e os servos não maquinam algo contra o tirano. Pois os servos alegram-se com a alforria, e as mulheres com a liberdade referida. Com efeito, é preciso que sejam benévolos tanto para com as tiranias quanto para com os regimes populares. E por isso não se insurgem facilmente.
Em seguida, quando diz pois também o povo, dá a razão de um certo dito. Pois dissera que, na tirania, se devem dispor aquelas coisas que se fazem no regime popular último. Disto dá a razão. E diz que por isso o tirano deve dispor as coisas que há no regime popular último, porque o regime popular último é como uma monarquia, pois todo o povo domina como um único monarca. Donde os aduladores encontram-se tanto no regime popular último quanto junto dos tiranos, e são honrados por eles. No regime popular, na verdade, os condutores populares do povo. Pois o condutor é adulador no regime popular, porque diz o que agrada ao povo. Mas junto dos tiranos são honrados, porque falam humildemente. Ora, isto pertence aos aduladores: pois, falando humildemente e rebaixando-se, creem agradar. Por isso também o tirano é amigo dos maus, porque acolhe os aduladores e com eles se compraz: ora, tais homens em si mesmos são maus. Mas ninguém que tenha um sentir livre, isto é, que tenha inclinação para a virtude, fará isto: mas ama os virtuosos, e aqueles que não adulam, os quais, sendo em si mesmos bons, têm uma certa oportunidade para reprimir a malignidade do adulador, que, enquanto tal, é maligno; porque, como se diz no provérbio, um cravo se tira com outro cravo. Amam, pois, os bons, odiando os aduladores, para por meio deles reprimir a malícia dos aduladores.
Em seguida, quando diz e com nenhum, põe outro modo em comparação com o homem livre e venerável. E diz que o tirano não deve comprazer-se com o homem livre e venerável ou virtuoso, porque o tirano quer ser o único senhor. Com efeito, o venerável e o livre são contrários a ele, e não podem suportar a excelência que ele tem à margem da razão, nem a tirania que exerce governando de modo dominativo. Por isso os tiranos odeiam os homens livres e veneráveis, como quem dissolve o seu principado.
Em seguida, quando diz e conviver, põe outro modo em comparação com os concidadãos e os estrangeiros. E diz que o tirano deve antes conviver e acostumar-se a banquetes prolongados com os estrangeiros do que com os concidadãos, como se os concidadãos fossem adversários, mas os estrangeiros não. Estas, pois, e coisas semelhantes são tirânicas, e conservam o principado. Nem falta neles nenhuma malignidade; mas contêm toda malignidade e iniquidade, como coisas más em si mesmas, boas contudo para a conservação da tirania. No que dá a entender que não devem fazer-se absolutamente ao homem, mas àquele que queira conservar a tirania, que em si mesma é má.
Em seguida, quando diz ora, todas estas coisas, reduz todos esses modos a três. E primeiro faz isto. Segundo recolhe-os, ali, àquilo etc. Na primeira diz que todas essas coisas se compreendem, para dizê-lo, sob três espécies: porque o tirano considera três coisas para conservar o seu principado. A primeira é que os súditos sejam ignorantes e saibam pouco. Cuja razão é que nenhum pusilânime trama contra alguém. E por isso, para que os súditos não tramem contra ele, considera de que modo os súditos sejam ignorantes. Pois a ignorância torna os homens pusilânimes. Com efeito, é preciso que o magnânimo tenha o conhecimento das coisas grandes e árduas: pois é a virtude pela qual alguém se inclina para as coisas grandes e árduas que absolutamente lhe convêm. A segunda é que os súditos sejam desconhecidos uns dos outros. E a razão disto é que a tirania não é dissolvida antes que confiem uns nos outros. E por isso o tirano é contrário aos virtuosos, porque são nocivos ao principado tirânico, não só porque não querem ser submetidos ao tirano de modo dominativo, mas porque são fiéis a si mesmos e aos outros concidadãos, nem manifestam aquilo que querem fazer, quer eles próprios quer os outros seus concidadãos, contra os tiranos. A terceira é que os torne impotentes, tornando-os pobres. E a razão disto é que ninguém põe a mão naquilo que crê ser impossível; e por isso é manifesto que a tirania não se dissolverá se os súditos não tiverem poder.
Em seguida, quando diz àquilo, recolhe esses modos. E diz que estes são os três modos aos quais se reduzem todas as coisas que agradam aos tiranos e que eles querem. Com efeito, se alguém considerar, reduzirá todas as coisas tirânicas a estas três hipóteses. Uma das quais é que não confiem uns nos outros; outra, que sejam impotentes; outra, que os súditos saibam pouco. Um modo, pois, pelo qual se conserva a tirania é este, que é intensificando a tirania.