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Lição 12

Segundo modo de conservar a tirania, pela aproximação ao reino.

763. Há, porém, um outro modo, que cuida da tirania a partir do contrário do que foi dito. Ele deve ser tomado a partir da corrupção dos reinos. Pois, assim como um modo de corrupção do reino é tornar o principado mais tirânico, assim a salvação da tirania consiste em torná-la mais real, conservando apenas o poder de um só, de sorte que ele governe não apenas os que querem, mas também os que não querem; pois quem pretende isto pretende também tiranizar. Mas isto deve permanecer como uma suposição; das demais coisas, algumas devem realmente ser feitas, outras porém devem apenas parecer, simulando o que é próprio do bom rei.

764. Primeiro, que ele pareça cuidar das coisas comuns e não gaste com gratuidades tais em que a multidão se sinta molestada, quando dela se recebe, que trabalha e labuta continuamente, e se dá abundantemente a meretrizes, estrangeiros e artífices.

765. E que preste contas do que recebe e do que gasta, coisa que já alguns tiranos fizeram; pois assim parecerá antes ser um administrador que dispensa, e não um tirano.

766. Não é preciso, porém, temer que porventura lhe faltem recursos, sendo ele senhor da cidade; mas isso vale para os tiranos exilados de casa, e isto é mais conveniente do que deixar o tesouro reunido. Pois menos se lançarão sobre os bens os que os guardam. Ora, entre os tiranos, os que guardam o tesouro são mais temíveis para os que saem do meio do povo do que para os cidadãos: pois aqueles peregrinam com ele, ao passo que estes permanecem.

767. Depois, é preciso providenciar que se recolham as entradas em vista da dispensação, e caso alguma vez seja oportuno, para usá-las em necessidades bélicas. E universalmente deve mostrar-se guardião e tesoureiro, como das coisas comuns e não como das próprias.

768. E que pareça não cruel, mas venerável. Além disso, tal que os que o encontram não o temam, mas antes o respeitem; isto, porém, não é fácil de alcançar por quem não é facilmente desprezível. Por isso é preciso que, ainda que não tenha o cuidado das outras virtudes, tenha ao menos o da virtude política; e que produza acerca de si mesmo tal opinião.

769. Ademais, que não só ele mesmo pareça não injuriar nenhum dos súditos, nem jovem nem donzela, mas tampouco nenhum dos que estão ao seu redor.

770. Igualmente, que também suas mulheres sejam familiares às dos outros, já que por causa das injúrias contra as mulheres muitas tiranias pereceram.

771. E, quanto às fruições corporais, fazer o contrário do que fazem agora alguns tiranos; pois estes não só logo de madrugada fazem isto, e continuamente por muitos dias, mas até querem ser vistos pelos outros a fazê-lo, para que os admirem como felizes e venturosos: mas o melhor é ser moderado em tais coisas; e, se não, ao menos parecer aos outros que delas se afasta; pois não é fácil de assaltar nem facilmente desprezível quem é sóbrio, mas sim quem está ébrio; nem quem está vigilante, mas quem dorme.

772. E deve fazer o contrário de quase tudo o que antes se disse: pois é preciso preparar e ornar a cidade, como quem é seu procurador e não seu tirano.

773. Ademais, deve sempre mostrar-se de modo particular empenhado nas coisas que dizem respeito aos deuses: pois menos temem sofrer algo iníquo de tais homens, se julgam que o príncipe é piedoso e cuida das coisas divinas; e menos maquinam contra ele, como se tivessem também os deuses por defensores.

774. É preciso, porém, mostrar-se tal sem insensatez, e honrar os que se tornaram bons em alguma coisa, de sorte que julguem que nunca seriam mais honrados pelos cidadãos que vivem sob a sua própria lei.

775. E tais honras deve distribuí-las ele mesmo. Os suplícios, porém, por meio de outros governantes e tribunais.

776. É guarda comum de toda monarquia não tornar nenhum homem grande; mas, se for preciso, que sejam vários, pois assim se vigiarão mutuamente.

777. Se acaso for preciso tornar alguém grande, de modo algum seja alguém audaz de índole; pois tal índole é a mais dada a assaltar em todas as ações.

778. E se parecer conveniente afastar alguém do poder, faça-o gradualmente, e não retire toda a potestade de uma só vez.

779. Ademais, deve reprimir toda injúria, mas principalmente duas: a saber, a da flagelação no corpo e a que se dá contra a idade. Mas sobretudo deve ter este respeito para com os amantes da honra: pois a injúria que consiste em diminuição das riquezas os amantes das riquezas suportam com dificuldade; a que consiste em desonra, porém, os amantes da honra e os homens honestos. Por isso não se deve usar de tais coisas, ou então parecer que se aplicam suplícios em favor da pátria e não por menosprezo. Quanto às conversações relativas à idade, sejam por causas amorosas e não por causa da potestade: pois, de modo geral, as desonras julgadas como tais devem ser resgatadas com maiores honras.

780. Quanto aos que assaltam contra a integridade do corpo, os mais temíveis, e que necessitam de maior guarda, são todos aqueles que não fazem questão de continuar a viver depois de terem matado. Por isso é preciso guardar-se sobretudo dos que julgam sofrer injúria, seja eles próprios, seja aqueles de quem cuidam; pois não se poupam a si mesmos os que assaltam por furor, como também disse Heráclito, dizendo ser difícil lutar contra o furor; pois se paga com a alma o seu preço.

781. Ora, uma vez que as cidades são constituídas de duas partes, dos homens pobres e dos ricos, é preciso sobretudo que ambos julguem estar salvos por causa do principado, e que nada de injusto sofram uns dos outros. Aqueles, porém, que forem mais fortes, a esses deve o tirano tornar sobretudo próprios do principado; e, se isto se der às coisas, o tirano não precisará fazer a libertação dos escravos nem a supressão das armas; pois basta uma das partes acrescentada ao seu poder para que sejam mais fortes do que os que se insurgem.

782. É supérfluo, porém, dizer cada uma dessas coisas em particular. Pois a intenção é manifesta: é preciso que ele pareça aos súditos não tirânico, mas administrador e real, e que não cuida do seu próprio interesse, mas procurador, e que persiga as medianias da vida, não as excelências.

783. Ademais, deve tratar com afabilidade os insignes, e conquistar os muitos como um demagogo. Pois disto necessariamente resulta que não só o principado seja mais belo e mais digno de ser desejado, por governar sobre os melhores e não ser humilhado, nem odiado, nem perseverar no temor, mas também que o principado seja mais duradouro.

784. Ademais, deve dispor-se ele mesmo segundo os costumes, ou bem para a virtude, ou sendo meio-bom e não maligno, mas meio-maligno.

785. Certamente, de todos os regimes maus, os de menor duração são a oligarquia e a tirania.

786. Pois a que durou mais tempo foi a tirania em torno de Sícion, a dos filhos de Ortágoras, e do próprio Ortágoras; ela permaneceu, com efeito, por cem anos: e a causa disto é que usavam dos súditos com moderação e serviam em muitas coisas às leis; e, porque Clístenes foi belicoso, não era facilmente desprezível, e em muitas coisas conquistava o favor do povo como um demagogo. Diz-se, pois, que Clístenes, respondendo àquele que lhe deu a vitória, o coroou. Alguns, porém, afirmam que a imagem daquele que assim julgou é a estátua que se assenta na praça. Dizem também que Pisístrato certa vez sustentou uma sentença, tendo sido chamado ao Areópago.

787. Em segundo lugar, em torno de Corinto, a dos Cipsélidas; pois esta perseverou por setenta e três anos e seis meses. Cípselo tiranizou por trinta anos, Periandro por quarenta e quatro, e Psamético, filho de Górdias, por três anos. As causas são as mesmas também para esta: pois Cípselo era demagogo e desde o princípio permaneceu sem guarda de armas. Periandro, porém, foi tirânico, mas belicoso.

788. A terceira foi a dos Pisistrátidas em Atenas; não foi, porém, contínua; pois Pisístrato foi tirano por duas vezes, de sorte que, em trinta e três anos, tiranizou por dezessete anos, e seus filhos por dezoito; de modo que todos os anos foram trinta e cinco.

789. Das restantes, a que se deu em torno de Hierão e Gelão, junto a Siracusa; ela não permaneceu por muitos anos, mas ao todo dois menos de vinte. Pois Gelão tiranizou por sete anos e no oitavo terminou a vida, e Hierão por dez. Trasíbulo, porém, foi expulso no décimo primeiro mês. Muitas tiranias, porém, foram de pouco tempo, todas elas absolutamente. Assim, pois, quanto ao que diz respeito aos regimes políticos e quanto ao que diz respeito às monarquias, a partir de que se corrompem e de novo se salvam, quase tudo foi dito acerca de todos.

Depois que o Filósofo estabeleceu um modo de salvação da tirania, que é pela intensificação, estabelece outro modo, que é pela remissão. E primeiro mostra em geral como pela remissão de tal modo ela se salva. Segundo, em particular, ali: primeiro, etc. Na primeira, diz que há um outro modo de salvar a tirania, contrário aos modos ditos antes; pois os modos ditos antes salvam a tirania intensificando-a, ao passo que este modo o faz pela remissão. E este modo pode ser tomado por semelhança com a corrupção dos reinos: pois, assim como de um modo o reino se corrompe pelo fato de aproximar-se da tirania, afastando-se da retidão da razão, assim a tirania se salva pelo fato de aproximar-se do reino e daquilo que é segundo a razão. Pois de si o reino é salvável; e por isso convém, para salvar a tirania, remiti-la e aproximá-la do reino, conservando e retendo o principado de um só; a saber, que ele sozinho governe, não porém com os súditos querendo, mas não querendo, como muitos fazem, e não pretenda querer governar com o consentimento deles. Pois pretender isto é pretender que ele queira tiranizar. E isto, a saber, que sozinho seja príncipe e tirano, deve ser tomado como suposição das demais coisas. Estas coisas, com efeito, devem ser feitas segundo a verdade para salvar a tirania; outras, porém, devem ser simuladas para que ao menos pareçam reais, ainda que não o sejam.

Em seguida, quando diz primeiro, mostra em particular de que maneira ela se salva pela remissão. E primeiro faz isto. Segundo, recolhe algumas coisas ditas, escusando-se de ulterior consideração, ali: é supérfluo, etc. A primeira divide-se em duas. Na primeira, mostra de que maneira a tirania se salva pela remissão quando a cidade não está dividida. Na segunda, quando está dividida, ali: ora, uma vez que, etc. A primeira divide-se em quatro. Na primeira, declara de que maneira ela se salva pela remissão, etc. Primeiro quanto às riquezas. Segundo, de que maneira quanto às relações, ali: e é preciso, etc. Terceiro, de que maneira quanto às honras, ali: contudo, etc. Quarto, de que maneira quanto à demissão do principado, ali: se, porém, etc. Acerca das riquezas há três coisas a considerar: a saber, o consumo, a prestação de contas e o recebimento; e segundo isto divide-se em três. Na primeira, declara o que se deve observar quanto às despesas razoáveis. Segundo, quanto à prestação de contas, quando diz: que preste contas, etc. Terceiro, mostra o que se refere ao recebimento, ali: depois, é preciso recolher as entradas. Na primeira, diz que, para salvar a república tirânica, é preciso que o tirano se comporte de modo a parecer que tem cuidado do bem comum, e que não gaste aquilo que recebe dos súditos gratuitamente e em coisas supérfluas, tais que contristem os súditos, como quando recebem dos súditos que labutam e trabalham continuamente e depois têm abundância com meretrizes e estrangeiros, e com aqueles que muitas vezes têm por familiares, artífices e histriões: pois, quando o tirano assim faz, é odiado pelos súditos, e mais facilmente se insurgem contra ele; e por isso deve acautelar-se de não gastar os bens que recebe dos súditos naquilo que os molesta.

Em seguida, quando diz que preste contas, mostra o que se deve observar quanto à prestação de contas. E primeiro faz isto. Segundo, remove uma dúvida, ali: não é preciso temer, etc. Na primeira, diz que, para que salve a tirania e pareça ter cuidado do bem comum, é preciso que ele preste contas do que recebeu e das despesas feitas; o que alguns tiranos fizeram, pelo que tornaram mais duradouro o seu principado. E a razão disto é que aquele que assim dispensar e reger a república parecerá ser um administrador, isto é, um dispensador: pois parecerá trabalhar pelo bem comum e não parecerá tirano.

Em seguida, quando diz não é preciso, remove uma dúvida, ou responde a uma objeção. Pois alguém diria que, se o tirano prestar contas das despesas, faltar-lhe-á o dinheiro. Ele remove isto; e diz que não é preciso que o tirano tema que lhe faltem dinheiro e riquezas; pois todas as coisas que estão na cidade, para os usos e as utilidades comuns, são dele, uma vez que é senhor da cidade. E a razão disto é que os bens exteriores são em vista dos bens da alma e do corpo, e os bens do corpo em vista dos bens da alma, e todos estes são em vista do bem comum da cidade: e por isso os bens dos súditos são de certo modo daquele a quem cabe ordenar tudo para o fim da cidade; ora, cabe àquele que é senhor da cidade ordenar os bens exteriores para o fim da cidade; por isso todas as coisas são dele. E por isso o tirano não deve temer que lhe falte dinheiro, porque poderá recebê-lo dos súditos, contudo na medida em que deva ser ordenado para o fim da cidade; mas deve temer mais aquele que recebe das casas dos súditos além da razão. Pois por isso é odiado pelos súditos; e por isso deve temer que se insurjam contra ele. Donde é mais conveniente para eles, a saber, deixar as riquezas nas casas dos súditos e usá-las para o bem comum quando for necessário, do que perdê-las totalmente, reunidas na própria casa, o que acontecerá se se insurgirem contra ele. Pois, estando o dinheiro em poder dos cidadãos, e não o tendo o tirano extorquido, menos se lançarão então contra ele: os tiranos também, porque recebem dos súditos e o guardam consigo, são mais temidos por aqueles que saem com eles e com eles militam, como próximos deles, do que pelos cidadãos, porque os primeiros peregrinam com ele fora da cidade, ao passo que os cidadãos mais residem nela; e por isso mais podem insurgir-se e saquear o tesouro.

Consequentemente, quando diz depois, é preciso recolher as entradas, toca no que se deve observar acerca do recebimento das riquezas. E diz que o tirano deve recolher fielmente as rendas e as oferendas feitas gratuitamente, a fim de dispensá-las; e, se alguma vez for oportuno, gastá-las nas guerras: e universalmente deve mostrar-se como guardião e tesoureiro da cidade e dos bens comuns, não como dos próprios: pois assim será menos odiado, e estarão mais contentes.

Em seguida, quando diz e que pareça, mostra de que maneira a tirania se salva na relação. E primeiro na relação com os cidadãos. Segundo, quando diz deve fazer o contrário, na relação com toda a cidade e com as coisas divinas. Ademais, acerca do primeiro faz duas coisas. Primeiro, mostra de que maneira se salva pela relação, comportando-se bem quanto aos atos exteriores. Segundo, quando diz e quanto aos prazeres, de que maneira quanto às delícias. Acerca do primeiro faz ainda duas coisas. Primeiro, faz o que se disse quanto à pessoa própria. Segundo, quando diz e do mesmo modo, quanto à pessoa conjunta. Ademais, primeiro mostra o que se deve observar para a salvação da tirania quanto aos gestos exteriores. Segundo, quando diz além disso, que não, quanto aos atos exteriores nos quais há justiça ou injustiça. Na primeira parte toca em duas coisas. A primeira é que convém ao tirano, para salvar a tirania, que não pareça aos súditos cruel ou feroz: e a razão disto é que, do fato de parecer cruel aos súditos, torna-se odioso a eles, e por isso mais facilmente se insurgem contra ele; mas deve tornar-se venerável por causa da excelência de algum bem excelente; pois a veneração é devida ao bem excelente: e, se não possui aquele bem excelente, deve simular que o possui. A segunda coisa em que toca, e que se segue da primeira, é que deve tornar-se tal que, se os súditos o encontrarem, não o temam com temor servil, mas antes o respeitem. Que não o temam, com efeito: porque, se o temessem, o teriam em ódio; que o respeitem, porém: pois o respeito é uma tristeza por causa de uma aparente falta de glória; pois, do fato de alguém encontrar outro que possui um bem de que ele carece, o respeita, porque não o possui, ou não daquele modo. E por isso o tirano deve tornar-se tal que pareça aos súditos superá-los em algum bem excelente, do qual eles carecem, pelo que seja respeitado. Contudo, tornar-se assim tal não é fácil sem que se siga o desprezo, se de fato não se torna temível. Pois facilmente é desprezado quem não é temido; e por isso, se quiser não parecer terrível e, com isso, não ser desprezado, deve empenhar-se nas virtudes e nas próprias obras que tornam o homem não desprezível por causa de sua excelência; e, se não pode ter todas as virtudes e seus atos, ao menos empenhe-se na virtude civil, que parece a principal; e, se não a tiver segundo a verdade, faça com que julguem que ele a possui: pois, ainda que isto não seja em si um bem, é contudo um bem para isto: para que não seja facilmente desprezível.

Em seguida, quando diz além disso, mostra o que se deve observar quanto aos atos exteriores nos quais há justiça e injustiça; e diz que o tirano deve comportar-se de modo a não parecer inferir injúria a ninguém, nem a um jovem nem a uma donzela; e que não só ele em pessoa própria, mas que nenhum dos que estão ao seu redor injurie os outros.

Em seguida, quando diz igualmente, mostra o que se deve observar quanto à pessoa conjunta; e diz que o tirano deve agir de modo que sua mulher seja familiar às mulheres dos súditos, porque, por causa da injúria feita às mulheres, muitas tiranias foram destruídas; e por isso deve procurar que sua mulher seja amiga familiar das mulheres dos súditos: pois assim terá como que a metade da cidade, porque as mulheres com as crianças são quase a metade dela, como disse no segundo livro.

Em seguida, quando diz e quanto, mostra o que ele deve observar quanto às delícias corporais; e diz que, quanto às delícias corporais, deve fazer o contrário do que fazem agora alguns tiranos. Pois há alguns que não só querem buscar tais delícias por muitos dias, mas querem ser vistos pelos outros buscando-as, como se fossem venturosos e felizes por causa delas e assim reputados pelos outros, e por isso sejam tidos em admiração junto deles: mas ele deve antes ou ser moderado acerca delas, ou, se não for assim, deve contudo mostrar-se tal que pareça fugir delas; porque aquele que é sóbrio em buscar tais coisas não é facilmente assaltado nem desprezado; mas aquele que é ébrio é facilmente assaltável e facilmente desprezado. Também aquele que vigia acerca dos atos das virtudes não é facilmente assaltado, nem é desprezível; mas aquele que dorme, isto é, que não age segundo a virtude, é facilmente assaltado e desprezado. Pois aquele que age segundo a virtude é reputado algo grande por causa da virtude que todos, bons e maus, reputam, ainda que segundo o mais e o menos. Ora, quem é reputado grande não é facilmente assaltado nem desprezado: pois ninguém despreza aquele que reputa; mas quem age desordenadamente comporta-se ao contrário.

Em seguida, quando diz e deve fazer o contrário, mostra o que se deve observar na relação com toda a cidade e com as coisas divinas. E primeiro o que na relação com toda a cidade. Segundo, quando diz deve também parecer, etc., o que na relação com as coisas divinas. Na primeira, diz que, para salvar a tirania, deve fazer-se o contrário daquilo que se disse antes: a saber, que o tirano deve preparar e ornar a cidade, isto é, fazendo torres e muros, edifícios e habitações, e outras coisas comuns semelhantes, e ordenando os cidadãos como se fosse procurador da cidade e não tirano; pois assim aparecerá benévolo e não tirano.

Em seguida, quando diz ademais, mostra o que se deve observar em ordem a Deus; e diz que, para a salvação da tirania, o tirano deve comportar-se com zelo e reverência naquilo que pertence à religião e ao culto divino; e tanto mais diferentemente dos outros quanto mais excele. E a razão disto é que, se os súditos julgarem que o príncipe é religioso e piedoso, não temerão sofrer o mal por parte dele. Pois do que é divino ninguém espera de si mesmo o mal; e menos se inclinarão os que armam ciladas, julgando que o próprio Deus lhe é propício e defensor em seu favor contra os que maquinam contra ele.

Em seguida, quando diz é preciso, porém, mostra o que se deve observar quanto à distribuição da honra; e divide-se em quatro, segundo as quatro coisas em que toca. A segunda, ali: e tais. A terceira, ali: é guarda comum. A quarta, ali: se algo. Na primeira, diz que é preciso que o tirano seja sábio, para que saiba considerar o fim e a dignidade do homem; ou ao menos que pareça ser probo e sem improbidade: e é preciso que honre os cidadãos bons e virtuosos quanto aos atos de algumas virtudes, e de tal modo que julguem ser mais honrados por ele do que por seus próprios concidadãos; porque assim será sobremaneira benévolo para com os súditos.

Em seguida, quando diz e tais, toca no segundo; e diz que, para maior benevolência, as honras devem ser distribuídas por ele mesmo, mas os suplícios devem ser infligidos por meio de outros governantes e tribunais.

Em seguida, quando diz é guarda comum, toca no terceiro, dizendo que, para a guarda comum de toda monarquia, muito convém não tornar nenhum homem muito grande, seja em poder, seja em riquezas. Pois quem é grande em poder ou em riquezas mais facilmente se insurgirá. Se, porém, for preciso fazê-lo, é mais conveniente fazer vários. Pois dificilmente serão unânimes, e um ajudará contra o outro.

Em seguida, quando diz se algo, toca no quarto; e diz que, se for preciso tornar alguém grande segundo o poder, não deve tornar tal aquele que é audaz de índole e se inclina à audácia; porque tal é o mais dado a assaltar em todas as ações; e por isso, porque se inclina às grandes coisas, uma vez tendo poder, facilmente se insurgiria.

Em seguida, quando diz e se do poder, mostra o que se deve observar na demissão do principado ou da honra; e diz que, se for preciso afastar alguém do poder, deve ser deposto gradualmente, de modo que não se lhe retire primeiro toda a potestade, mas uma parte, depois outra, até que a tenha perdido toda; porque isto o contristará menos e, por conseguinte, menos se insurgirá e menos poderá insurgir-se, sendo-lhe retirada aos poucos; porque o que é pequeno é reputado como nada. Se, porém, quisesse retirar tudo de uma só vez, muito se contristaria e poderia insurgir-se.

Em seguida, quando diz além disso, mostra o que se deve observar sobretudo quanto às injúrias. E primeiro que todas as injúrias devem ser evitadas. Segundo, quando diz quanto aos que assaltam, de quais sobretudo se deve acautelar. Na primeira, diz que o tirano que quer salvar a tirania deve proibir toda injúria e não fazer nenhuma. Mas principalmente deve evitar duas, para não as fazer. A primeira é a flagelação do corpo; e a outra é a injúria que se dá segundo a idade, a saber, a desonra. A flagelação do corpo, porque esta é servil; ora, os cidadãos querem ser livres; e por isso, se os injuriasse flagelando-os, poderiam insurgir-se. A injúria que se dá segundo a idade não a deve fazer, mas antes mostrar a máxima reverência aos anciãos segundo a virtude e aos amantes das honras, porque cada um suporta com dificuldade a injúria acerca daquilo que muito ama: pois os amantes das riquezas suportam com dificuldade que o seu dinheiro seja diminuído; e os amantes da honra suportam com dificuldade se são desonrados ou se não lhes são prestadas as honras devidas; e os virtuosos do mesmo modo. Por isso, do mesmo modo, é preciso que ele honre os virtuosos e os amantes da honra; ou, se lhes infligir suplícios e desonra, é preciso que pareça fazer isto pelo bem da paz e não por menosprezo; e as correções por palavras ou as repreensões que se costumam fazer a alguns, fazê-las aos virtuosos e aos anciãos segundo a idade, não para ostentação do poder, mas por amor, para que pareça amá-los: e se a alguém se fizessem tais desonras, deve depois prestar-lhe maiores honras para as mitigar.

Em seguida, quando diz quanto aos que assaltam, mostra de quais injúrias sobretudo se deve acautelar; e diz que as injúrias daqueles que se inclinam a assaltar a pessoa do príncipe são as que mais se devem evitar: pois estes são os mais temíveis, e contra eles é preciso exibir maior guarda, os que não fazem questão de sua vida se puderem matar o príncipe. E por isso deve-se acautelar sobretudo de que se lhes faça injúria, ou àqueles de quem cuidam. Pois, se lhes for feita alguma exacerbação, não se poupam os que assaltam por furor. Pois, como disse Heráclito, é difícil lutar contra um furioso, porque tal homem por pequeno preço põe a alma, isto é, a vida.

Em seguida, quando diz ora, uma vez que, mostra o que se deve fazer se a cidade estiver dividida. E diz que, uma vez que a cidade é constituída de dois, a saber, de pobres e de ricos, é preciso que uns e outros sejam salvos por causa do principado: de modo que o tirano não faça injúria nem a estes nem àqueles. E deve acautelar-se de que não se injuriem mutuamente. Deve, porém, tomar os melhores para o principado. Pois, se assim se fizesse, não seria preciso que o tirano manumitisse os escravos, nem retirasse as armas dos súditos. Pois, se uma parte quisesse insurgir-se contra ele, a outra parte, com o príncipe, seria suficiente para repeli-la, caso estivessem divididos.

Em seguida, quando diz é supérfluo, recolhe algumas coisas ditas, escusando-se de ulterior consideração. E primeiro faz isto. Segundo, quando diz além disso, os homens egrégios pela familiaridade consigo, etc., acrescenta algumas coisas. Na primeira, diz que percorrer cada uma das coisas que servem à salvação da tirania é supérfluo, mas alguém poderá percorrê-las pela razão. Pois é manifesto que é preciso que o principado não seja tirânico, mas como o de um pai de família. E que pareça real aos súditos, e não governar a cidade em vista de si mesmo, e antes mostrar-se procurador e manter o estado dos medíocres, não das excelências.

Em seguida, quando diz ademais, os insignes, acrescenta algumas coisas. E primeiro acrescenta uma coisa quanto aos insignes. Segundo, quando diz ademais, ele mesmo, quanto ao próprio tirano. Na primeira, diz que o tirano deve ser afável para com os insignes e os grandes homens da cidade, e deve reter a multidão na obediência por meio do favor: pois assim o principado não só será mais belo e mais amável, a saber, se governar sobre os melhores e não sobre os humildes, nem o príncipe será odiado, nem perseverará no temor; antes, o principado será mais duradouro.

Em seguida, quando diz ademais, ele mesmo, acrescenta outra coisa quanto ao tirano. E diz que o tirano, para a salvação da tirania, deve dispor-se a governar bem segundo os costumes e segundo a virtude, e deve antes tornar-se meio-bom do que maligno, e meio-maligno do que maligno, ainda que não segundo a virtude, contudo segundo a aparência. Pois, quanto menos mau for, seja segundo a virtude, seja segundo a aparência, tanto menos o odiarão.

Em seguida, quando diz de fato a todos, esclarece quais dessas repúblicas são de breve duração por si, e quais não. E primeiro propõe. Segundo prova, ali, pois durante muitíssimo tempo. Na primeira diz que, entre as repúblicas de menor duração por si, estão o estado de poucos segundo a última espécie, e a tirania. E a razão disso é que se afastam mais do reino, que por si é mais duradouro, e existem contra as vontades dos súditos. E tais repúblicas são de menor tempo que as outras.

Em seguida, quando diz pois durante muitíssimo, prova. E primeiro mostra que algumas dessas são de longa duração pelas causas mencionadas. Segundo mostra o proposto, a saber, que algumas são de breve duração, ali, quanto às restantes. A primeira parte em três, conforme apresenta três que foram de longa duração pelas causas mencionadas. A segunda, ali, e a segunda etc. A terceira, ali, e a terceira etc. Na primeira diz que a tirania que houve em torno da cidade de Sícion durou muito tempo, onde exerceram a tirania Ortágoras e seus filhos. Pois durou cem anos. E a razão disso foi que se comportaram moderadamente para com os súditos, e dispunham a tirania segundo algumas leis, e serviam aos súditos. Pois Clístenes, que foi filho de Ortágoras, por ser belicoso, não foi desprezível e conduzia o povo com favor em muitas coisas. E por isso, porque este usava moderadamente dos súditos, exerceu a tirania por muito tempo; e a tal ponto moderou a tirania, usando certas leis e a ordenação dos sábios, que às vezes, por seus próprios atos, submetia-se ao juízo dos anciãos como também os outros, e suportava as sentenças; e por isso ainda dizem naquela cidade como Clístenes coroou o juiz que contradisse a sua vitória, porque, tendo sido citado em juízo acerca da vitória, respondeu como qualquer outro dos súditos, não como tirano. Disseram porém alguns que a estátua que está no foro é a imagem daquele juiz que julgou, o qual ele julgou digno de ser coroado. Diz-se também que Pisístrato, quando exercia a tirania, ao ser convocado ao Areópago, onde se proferiam as sentenças, suportou a sentença, e por isso exerceu a tirania por longo tempo.

Em seguida, quando diz e a segunda, trata da segunda. E diz que a segunda tirania que muito durou foi em torno de Corinto, que foi a dos Cipsélidas, assim chamados a partir da linhagem. Pois esta durou setenta e três anos e seis meses, porque Cipselo exerceu a tirania por trinta anos, Periandro por quarenta e quatro, incompletos porém. Psamétio, que se diz filho de Górdias, por três anos, igualmente incompletos. E deve-se entender que ele tomava seis meses por um ano. E as causas por que durou tanto são as mesmas que as anteriores. Pois Cipselo era condutor do povo, e no princípio não fez guarda de armas. Periandro porém foi tirano, mas foi muito belicoso; e por isso não foi desprezível.

Em seguida, quando diz e a terceira, trata da terceira. E diz que a terceira tirania que muito durou foi a dos Pisistrátidas em Atenas. Esta porém não foi contínua, porque Pisístrato exerceu ali a tirania duas vezes. Pois, dos trinta e três anos, ele próprio exerceu a tirania dezessete no início. Seus filhos, por sua vez, exerceram a tirania em seguida por dezoito; e assim são ao todo trinta e cinco anos, durante os quais durou aquela tirania.

Em seguida, quando diz quanto às restantes, mostra o proposto principal; a saber, quais repúblicas tirânicas foram de menor duração. E diz que aquela tirania com que Hierão e Gelão exerceram a tirania em Siracusa não foi muito duradoura; pois não duraram senão dezoito anos; porque Gelão exerceu a tirania por sete anos, no oitavo morreu. Hierão porém somente por dez anos. Trasíbulo morreu no nono mês. Também muitas outras tiranias foram de pouco tempo, porque a tirania é contra a natureza; e as coisas que são contra a natureza são por si de breve duração. E então recapitula; e diz que quais sejam os princípios e as causas pelas quais se corrompem as repúblicas e as monarquias, e novamente quais sejam os princípios pelos quais se conservam, já quase foi dito.