Lição 10
A honra, o ódio e o desprezo derrubam a tirania; a sedição doméstica derruba o reino.
731. Daqueles, porém, que se insurgem por amor da honra, há outro modo de causa além dos ditos antes. Pois não é como alguns que atacam os tiranos vendo que existem para eles grandes lucros e grandes honras; assim também, dentre os que se insurgem por amor da honra, cada um prefere expor-se ao perigo: mas aqueles por causa da dita causa; estes, porém, como se se fizesse alguma outra ação singular pela qual se tornariam nomeados e conhecidos; assim também atacam os monarcas, não querendo possuir a monarquia, mas a glória.
732. Mas, contudo, pouquíssimos em número são os que por esta causa fazem o ataque: pois é preciso supor que não se importa com a própria salvação, se não houver de prevalecer na ação; a esses convém alcançar a estima de Díon, mas não é fácil que ela se encontre em muitos. Pois aquele Díon guerreou com poucos contra Dionísio, dizendo que estava disposto de tal modo que, até onde pudesse avançar, bastava-lhe apenas participar da ação; de sorte que, ainda que tivesse invadido pouco da terra e logo lhe acontecesse morrer, para ele estaria bem tal morte.
733. Corrompe-se, porém, a tirania de um modo, como cada uma das outras constituições políticas, por causa extrínseca, se houver alguma constituição contrária mais forte: pois é evidente que a deliberação existe por causa da contrariedade da escolha. E os potentes fazem todos aquilo que querem. Ora, entre as constituições contrárias, o povo é contrário à tirania, segundo Hesíodo, como o oleiro ao oleiro. Pois a democracia extrema é uma tirania; o reino, porém, e a aristocracia são contrários por causa da contrariedade da constituição: motivo pelo qual os lacedemônios dissolveram muitíssimas tiranias, e também os siracusanos, no tempo em que se governavam bem.
734. Outras vezes, porém, corrompe-se por si mesma, quando os que participam dela fazem sedições; como os que estavam em torno de Gélon, e agora os que estavam em torno de Dionísio. Quanto à de Gélon, tendo Trasibulo, irmão de Hierão, desviado o filho de Gélon e incitado-o aos prazeres, para que ele mesmo governasse; e, reunidos os familiares para que a tirania não se dissolvesse de todo, mas subsistisse com Trasibulo; reunidos estes, como tendo oportunidade, expulsaram a todos eles. Dionísio, porém, atacou-o Díon, que era seu administrador, e, tomando consigo o povo, expulsando-o, matou-o.
735. Sendo, porém, duas as causas pelas quais sobretudo se insurgem contra as tiranias, a saber, o ódio e o desprezo, uma delas, a saber, o ódio, é preciso que exista para os tiranos; do desprezo, porém, resultam muitas das dissoluções. E eis o sinal: dos que adquiriram o principado, a maioria o conservou; os que, porém, o receberam de outrem, logo, por assim dizer, foram todos mortos. Pois os que vivem entregues aos prazeres facilmente se tornam desprezíveis e dão muitas oportunidades aos que se insurgem.
736. É preciso, porém, considerar a ira como uma certa parte do ódio; pois de certo modo torna-se causa das mesmas ações.
737. Muitas vezes, porém, a ira é ainda mais operosa que o ódio: pois insurgem-se com mais vigor, porque a paixão não se serve do raciocínio. E sobretudo se mostra que se atinge pelos furores por causa da injúria: por cuja causa foi destruída a tirania dos Pisistrátidas, e muitas outras; mas o ódio é maior: pois a ira está acompanhada de tristeza, motivo pelo qual não é fácil raciocinar; a inimizade, porém, é sem tristeza.
738. Para dizer, porém, em suma: quantas causas dissemos da oligarquia intemperada e extrema e da democracia extrema, outras tantas se devem estabelecer também para a tirania: pois estas são como que tiranias divisíveis.
739. O reino, porém, dificilmente se corrompe por causas extrínsecas; motivo pelo qual é também de longa duração; mas por si mesmo acontecem-lhe muitíssimas corrupções.
740. Corrompe-se, porém, de dois modos: de um, quando fazem sedição aqueles que participam do reino; de outro modo, quando tentam governar de modo mais tirânico, quando exigem ser senhores de mais coisas e contra a lei.
741. Não se constituem, porém, reinos agora; mas, se se constituírem, são antes monarquias e tiranias; porque o reino é um principado voluntário e um domínio sobre coisas maiores, e porque há muitos semelhantes e nenhum que se distinga tanto que corresponda à grandeza e à dignidade do principado. Por isso, por esta razão, os súditos não permanecem voluntários; e, se alguém governa por fraude ou por violência, já isto parece ser tirania.
742. Ora, nos reinos que são segundo a linhagem, é preciso pôr como causa de corrupção, além das que foram ditas, tanto o fato de que facilmente muitos se tornam desprezíveis, quanto o fato de que, não possuindo poder tirânico mas apenas a honra régia, cometem injúria: pois facilmente se dá a dissolução; pois, quando os súditos não querem, logo não haverá rei; mas o tirano é senhor dos que não querem. Corrompem-se, portanto, as monarquias por estas e por outras causas semelhantes.
Depois de o Filósofo ter estabelecido os princípios da corrupção das monarquias por si, acrescenta em seguida um princípio dela por acidente. E primeiro estabelece esta causa ou princípio. Em segundo, mostra que poucos se insurgem por causa dela, ali: mas, contudo, pouquíssimos. Na primeira diz que alguns se insurgem de um modo por causa do apetite da honra. De outro modo se insurgem às vezes, diverso dos modos antes ditos segundo os quais alguns se insurgem. Pois há alguns que, por amor de qualquer honra, se insurgem fazendo sedição, não como outros que os atacam para obter riquezas e grandes honras que veem que eles possuem: convêm, contudo, nisto uns e outros, que se expõem ao perigo e escolhem arriscar-se: mas por uma e outra causa diversa. Alguns, a saber, para obter riquezas ou o principado ou ambas as coisas; outros, porém, para realizar alguma ação singular e notável, pela qual sejam nomeados diante dos outros, não se importando nem com o principado nem com as riquezas.
Em seguida, quando diz mas, contudo, mostra que pouquíssimos se insurgem por tal causa; e diz que, embora alguns se insurjam contra a monarquia por causa do apetite de tal honra, contudo são pouquíssimos; porque tal homem que faz o ataque contra a monarquia, se houver de prevalecer, é preciso que não tema a morte, e assim julgue como julgava Díon quando se insurgiu contra Dionísio; mas isto não é fácil para muitos. Pois aquele Díon atacou com poucos soldados e insurgiu-se contra Dionísio; e dizia que, de qualquer modo que pudesse avançar contra ele, isto lhe bastava, contanto que apenas conseguisse invadir a terra e Dionísio; e, se depois lhe sobreviesse a morte, estava bem para ele, não se importando nem temendo por ela. Mas isto é difícil, e poucos são os que assim descuidam da própria vida e desprezam a morte. Por isso é manifesto que poucos são os que atacam a monarquia por causa do apetite de tal honra.
Em seguida, quando diz corrompe-se, porém, determina as causas e princípios da corrupção das monarquias em especial. E primeiro da tirania. Em segundo, do reino, ali: o reino, porém, etc. A primeira parte divide-se em duas. Na primeira, toca os modos pelos quais se corrompe. Na segunda, toca as causas pelas quais sobretudo se corrompe, ali: sendo, porém, duas, etc. A primeira divide-se em duas, conforme toca os dois modos de corrupção da tirania. O primeiro modo é por causa extrínseca, o segundo por causa intrínseca. O segundo, ali: outras vezes, porém, por si mesma, etc. Na primeira diz que a tirania se corrompe de um modo, como qualquer outra república, por causa extrínseca, isto é, se houver alguma república mais poderosa, contrária e próxima dela; então, com efeito, aquela mais forte, por ser contrária a esta, a corromperá. Pois não se pode dizer que por meio do conselho poderá precaver-se para não se corromper: porque, para bem deliberar, requer-se o apetite do fim reto. Pois deliberar é acerca das coisas que são para o fim; e deliberar retamente é acerca das coisas que são para o fim reto. Mas o tirano não tem fim reto nem apetite reto; antes, sua escolha ou apetite é contrário ao fim reto; e por isso não poderá resistir a outra república por meio do conselho, sendo a outra mais poderosa. Pois todos os que querem realizar algo, se tiverem poder, realizam o que querem; e por isso a outra república, contrária e mais forte, corromperá esta. Ora, à tirania se contrapõe o estado popular, como disse Hesíodo, por acidente, como o oleiro é contrário ao oleiro. Pois o oleiro não é contrário ao oleiro por si; antes, é semelhante a ele; mas por acidente, enquanto um impede o bem do outro, a saber, o lucro: assim o estado popular é contrário à tirania, não por si, mas enquanto um impede o outro: pois a última espécie dele é péssima, a qual é uma certa tirania, como aparece no quarto livro desta obra. Mas o reino e o estado dos melhores são contrários por si; pois buscam fins diversos, de modo que um corrompe o outro. Motivo pelo qual acontece que os lacedemônios corromperam muitas tiranias, porque eram mais poderosos; semelhantemente os siracusanos, enquanto tiveram boa república, pois tinham o governo dos melhores.
Em seguida, quando diz outras vezes, porém, toca o segundo modo de corrupção; e diz que às vezes a tirania se corrompe não por causa extrínseca, mas intrínseca; pois acontece que o tirano tenha às vezes alguns familiares que de algum modo alcançam o principado e participam das honras. Quando, pois, tais homens fazem sedição, acontece que a tirania se corrompe; como aconteceu antes com a tirania de Gélon, e depois com a de Dionísio. Pois os familiares de Gélon insurgiram-se contra ele e o expulsaram. Semelhantemente também alguns contra Dionísio. Ora, a sedição que se fez contra Gélon foi feita por Trasibulo, que era irmão de Hierão, o qual, desviando o filho de Gélon daquilo que é conforme a razão, seduzia-o por meio de atrativos e prazeres, para que assim se tornasse desprezível ao povo, de modo que fosse afastado do principado, e o próprio Trasibulo governasse. Tendo, pois, reunido os familiares e amigos, acautelando-se para que a tirania não se dissolvesse, mas ele mesmo exercesse a tirania, considerando o tempo conveniente, expulsaram o próprio Gélon e todos os amigos dele, e Trasibulo ficou sozinho. Contra Dionísio insurgiu-se Díon, que tinha o cuidado da república: pois era familiar dele; e, tomando consigo o povo em auxílio, insurgiu-se contra ele e o expulsou, e foi morto.
Em seguida, quando diz sendo, porém, duas, toca as causas pelas quais sobretudo se corrompe. E primeiro toca estas causas em si e absolutamente. Em segundo, conclui as causas de corrupção dela em comparação com as repúblicas visadas, a saber, o estado dos poucos e o estado popular, ali: para dizer, porém, em suma, etc. Na primeira toca aquelas causas. Na segunda toca uma outra que se reduz a uma delas, ali: uma certa parte, porém, etc. Na primeira diz que, sendo duas as causas pelas quais alguns sobretudo se insurgem contra o tirano, a saber, o ódio e o desprezo, o ódio se deve mais ao tirano por si. E a razão disto é que ele governa os que são melhores do que ele e contra a utilidade destes; e, além disso, busca somente o bem próprio, sendo por isso odiado por eles; assim é o tirano. Pois o tirano governa os que são melhores do que ele, isto é, os virtuosos; e não busca senão o bem próprio; e por isso ao tirano se deve o ódio. Acerca do desprezo, porém, acrescenta que muitas vezes a tirania se corrompe por causa do desprezo. E o sinal disto é que aqueles que adquiriram o principado pela virtude e pela própria diligência conservaram mais o principado, porque tais homens que o adquiriram foram belicosos; e tais homens não são desprezíveis. Mas aqueles que receberam a tirania de outrem logo a perderam e por causa do principado morreram: pois, porque viviam prazerosamente entregues às comilanças e aos prazeres venéreos, eram desprezíveis; e, porque se entregavam às delícias, davam muitas oportunidades e ocasiões aos outros para se insurgirem: seja porque é preciso que às vezes se ponham sob o poder das mulheres, seja porque muitas vezes estão embriagados e, por consequência, tornados impotentes.
Em seguida, quando diz mas em parte, toca em outra causa que reduz ao ódio; e essa causa é a ira; e tem duas partes. Na primeira reduz a ira ao ódio. Na segunda assinala duas diferenças entre a ira e o ódio, ali, mas muitas vezes etc. Diz, pois, primeiro que a ira é parte do ódio; isto é, a destruição que se produz por causa da ira produz-se de algum modo por causa do ódio, de sorte que não é preciso pô-la como causa distinta. Com efeito, a ira é o apetite de retribuir a tristeza; e por isso é manifesto que o irado quer o mal ao outro: ora, isto pertence ao ódio. Donde a ira é de algum modo causa das mesmas ações das quais é causa o ódio.
Em seguida, quando diz mas muitas vezes, assinala duas diferenças entre a ira e o ódio; e diz que frequentemente a ira é mais laboriosa, isto é, opera mais, do que o ódio. Pois os irados insurgem-se com maior ímpeto e mais robustamente do que os que têm ódio. E a razão disto é que a paixão da ira é sem raciocínio. Com efeito, o irado, ainda que de algum modo ouça a razão, ouve-a contudo imperfeitamente. Pois o irado ouve bem que se deve tomar vingança, mas não ouve de que modo se deve tomá-la. Donde é semelhante ao servo que ouve imperfeitamente o mandato do senhor, pelo que acontece que às vezes o execute mal. Do mesmo modo se dá com o irado. Pois ouve imperfeitamente a razão; e por isso executa mal a vingança. Donde parece furioso por causa da injúria; e ainda que a ira seja mais laboriosa, contudo o ódio prejudica mais. A segunda diferença é que a ira é acompanhada de tristeza; e por isso não facilmente o irado pode raciocinar: com efeito, por causa do movimento da paixão não o pode: mas o ódio é sem tristeza; e por isso é acompanhado de raciocínio.
Em seguida, quando diz de modo que, conclui as causas da destruição da tirania em comparação com as repúblicas visadas, a saber, a dos poucos e o regime popular. E diz que, para dizermos em suma, quantos princípios e causas dissemos da destruição do regime intemperado dos poucos, que é a última espécie dele, e do regime popular último, tantas são as causas e os princípios da tirania: porque essas repúblicas, a saber, a última dos poucos e a popular, são certas tiranias, diferindo apenas por isto: que nestas tiranizam muitos, mas naquela um só.
Em seguida, quando diz mas o reino, determina as causas e os princípios da destruição do reino. E primeiro do reino absolutamente e por si. Segundo do reino que procede segundo a linhagem, ali, mas o reino etc. A primeira em duas. Na primeira toca naquilo pelo qual minimamente se destrói o reino. Na segunda mostra por quais modos se destrói, ali, destrói-se etc. Na primeira diz que o reino não se destrói pelas causas extrínsecas. E a razão disto é que o rei governa homens bons e segundo a virtude, com os súditos consentindo. Ora, tal república não se destrói pelas causas extrínsecas. E por isso o reino dura muito tempo. Mas de si próprio destrói-se de muitos modos.
Em seguida, quando diz mas destrói-se, mostra por quais modos se destrói de si próprio. E primeiro faz isto. Segundo mostra por que agora não se constituem muitos reinos, ali, não se constituem etc. Na primeira diz que o reino se destrói do extrínseco de dois modos. De um modo, quando aqueles que alcançam o principado e são príncipes do reino fazem sedição. Com efeito, acontece, ao fazerem tais homens sedição, que, por causa do poder que têm, expulsem o rei do principado e mudem a monarquia em outra república. De outro modo destrói-se quando o rei quer governar tiranicamente, como quando quer ser senhor de mais coisas do que deve ser, contra a vontade deles e à margem da lei. Pois então acontece que os súditos se insurgem contra ele e o expulsam e mudam a república em outra.
Em seguida, quando diz não se constituem, mostra por que não se constituem agora muitos reinos. E diz que agora não se constituem muitos reinos, e, se se constituem, são antes monarquias tirânicas do que reinos. E disto atribui uma dupla razão. A primeira é que o reino deve ser um principado voluntário; pois governa súditos que não querem aquele que governa no principado régio, e é preciso que o rei seja senhor dos maiores na cidade ou no reino. Ora, é difícil encontrar um só que governe muitos que o querem, e que seja digno de ser senhor dos maiores. E por isso não há muitos reinos. A segunda razão é que, qual é a proporção da dignidade e da honra do rei em relação à dignidade e à honra dos súditos, a mesma deve ser a proporção da virtude do que governa em relação à virtude dos súditos. Ora, a dignidade e a honra régia excedem muito a dignidade dos súditos. Logo, a virtude do rei deve exceder a virtude de todos ou da maioria: mas encontrar tal homem não é possível, ou é demasiado difícil. E por isso, se alguém for elevado a rei, não governará com os súditos consentindo; logo não governará por muito tempo. Mas se alguém governar por fraude ou violentamente, não é rei, mas tirano, porque não governa com os súditos consentindo.
Em seguida, quando diz mas nestes, atribui a causa da destruição dos reinos segundo a linhagem; e diz que, dos reinos segundo a linhagem, as causas e os princípios da destruição são os mesmos que os que foram ditos acima e os que agora serão ditos. A primeira é que muitos facilmente se tornam desprezíveis. Com efeito, acontece que depois do pai se segue o filho, que a todos é desprezível por causa da torpeza da vida. Ora, disto os súditos se insurgem e o expulsam e mudam a república. A segunda causa é que o rei não tem tanto poder quanto é o poder tirânico suficiente para punir os maus; mas acontece que o próprio rei sofra injúria. Ora, onde estas coisas acontecem, facilmente se destrói o reino, porque, não querendo os súditos que ele governe, imediatamente não é rei, mas tirano. Pois o tirano é senhor de súditos que não querem que ele seja senhor. E agora recapitula; e diz que as monarquias se destroem por causa dessas e de outras causas semelhantes.