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Lição 5

Quais devem ser os que habitam e governam a cidade.

968. Ora, quais é preciso que sejam por natureza, digamos agora. Assim, quase o compreenderá alguém olhando para as cidades aprovadas dos gregos e para todo o orbe da terra, conforme está ocupado por povos.

969. Pois os povos que estão em lugares frios, e os que estão em torno da Europa, são cheios de animosidade, mas mais deficientes quanto ao intelecto e à arte; por isso perseveram, na verdade, mais livres, mas não governam politicamente, nem são capazes de comandar os vizinhos. Ora, os que estão em torno da Ásia são intelectivos e engenhosos segundo a alma, mas sem animosidade; por isso perseveram sujeitos e servindo.

970. Ora, o gênero dos gregos, assim como está no meio segundo os lugares, assim participa de ambos. Pois é animoso e intelectivo, por isso, na verdade, persevera livre, e governa politicamente da melhor forma, e é capaz de comandar todos, se alcançar uma única constituição. Ora, a mesma diferença há também entre os próprios povos dos gregos entre si, pois estes têm uma natureza unilateral, mas aqueles são bem misturados quanto a estas duas potências.

971. É manifesto, portanto, que devem ser por natureza intelectivos e animosos aqueles que devem ser conduzidos pelo legislador à virtude.

972. Pois aquilo que alguns dizem que deve existir nos guardiões — a saber, que sejam amorosos para com os conhecidos, mas rudes para com os desconhecidos — é o ânimo que produz o que é amoroso: pois esta é a potência da alma pela qual amamos. E o sinal disto é que o ânimo se eleva mais para com os habituais e amigos do que para com os desconhecidos, julgando-se menosprezado. Por isso também Arquíloco, queixando-se convenientemente dos amigos, argumenta dirigindo-se ao ânimo. Pois não se sofrem dos amigos os ferimentos das lanças. E tanto o que é próprio do que governa quanto o que é próprio do que é livre provém desta potência em todos: pois o ânimo é dominador e invencível.

973. Mas não está bem dizer que sejam ásperos para com os desconhecidos: pois para com ninguém se deve ser tal, nem os que são magnânimos por natureza são agrestes, a não ser para com os que praticam injustiças; e isto sofrem ainda mais para com os habituais, o que já foi dito antes, se julgarem sofrer injustamente. E isto acontece segundo a razão: pois daqueles de quem julgam ser-lhes devida a beneficência, julgam ser privados dela juntamente com o dano. Donde se disse: severos, com efeito, são os inimigos oriundos de irmãos; e uns amam em excesso, mas outros também odeiam em excesso.

974. Portanto, quanto aos cidadãos, quantos devem existir e quais devem ser por natureza; e ainda quão grande e de que qualidade deve ser a região, foi quase determinado: pois não se deve buscar a mesma certeza por meio dos raciocínios e daquilo que se conhece pelos sentidos.

Depois que o Filósofo determinou acerca da multidão civil, passa agora a investigar quais, segundo a natureza, devem ser os que governam retamente. E acerca disto, primeiro expõe sua intenção com a ordem de considerar. Em segundo lugar, quando diz pois os que estão nas regiões frias etc., prossegue. Em terceiro lugar, quando diz quanto aos cidadãos etc., recapitula o que foi dito. Na primeira parte ele diz que, uma vez determinado acerca daquilo que se deve pressupor da parte da grandeza da cidade em geral, resta consequentemente dizer quais, segundo a disposição natural, devem ser os futuros bons governantes; o que em segundo lugar antes se propunha investigar. E isto se tornará quase manifesto se alguém quiser considerar, olhando para as cidades dos gregos que dizemos governar bem, e também para todo o orbe da terra, conforme está ocupado por povos e cidades, considerando as disposições naturais deles; pois destas de algum modo se poderá concluir o que se pretende.

Em seguida, quando diz as quais etc., prossegue. E acerca do primeiro ponto, expõe as diversas disposições das regiões para governar. Em segundo lugar, quando diz é patente, portanto etc., a partir disto infere o que pretende. E acerca do primeiro ponto, primeiro toca em quem são naturalmente ineptos para governar. Em segundo lugar, quando diz mas o gênero dos gregos, quem são mais aptos. Acerca do primeiro deve-se entender que, embora o intelecto por si não se comunique ao corpo em sua operação, comunica-se todavia ao corpo que se comunica, segundo o Comentador no livro Sobre a alma. Pois tudo o que entende, entende nos fantasmas sensíveis; porque, quando especula, é necessário especular ao mesmo tempo algum fantasma. Ora, os fantasmas em ato são sensíveis em ato, como se diz no terceiro livro Sobre a alma. E o sensível em ato e o sentido em ato são uma só coisa em ato; e por isso, segundo a diversa disposição do sentido em ato, diversamente se dispõe o intelecto para entender. E o sentido em ato dispõe-se diversamente segundo a diversidade do órgão e do espírito, especialmente na sutileza e na espessura, no qual primeiro parecem selar-se as formas dos sensíveis. E por isso, segundo a diversidade do espírito na espessura e na sutileza, e em outras coisas semelhantes, diversamente se dispõe o intelecto para entender; de modo que os que têm espíritos sutis e claros, bem representativos das formas sensíveis, são bem-nascidos para entender; mas os que os têm espessos e turvos, mal. Também a abundância do espírito natural e do sangue, e por consequência do calor, torna os homens robustos. Pois o vigor produz os espíritos, segundo o Filósofo no livro Sobre o sono; e a abundância do calor torna-os animosos e impetuosos, porque o calor é a mais ativa entre as qualidades. Ora, os que habitam nas regiões quentes, abrindo o calor da região os poros, exalam o úmido, arrastando consigo o calor interior; e por isso têm pouco sangue e calor. Todavia os espíritos, ainda que os tenham em pouca quantidade, têm-nos claros e limpos, e por isso são bem intelectivos. Já os que habitam nas regiões frias, fechando o frio exterior os poros, fortalece-se o calor interior, e são de forte digestão, e necessitam de muito alimento. E têm muitos espíritos por causa da abundância do calor, porém espessos por causa da espessura e da abundância do alimento, e por causa da menor exalação. E por isso, por causa da abundância de calor e de sangue, são animosos, mas, por causa da espessura e da turbulência dos espíritos, menos intelectivos. Ora, os que habitam nas regiões temperadas comportam-se de modo intermédio entre estes, medianamente dispostos para a animosidade e para a operação do intelecto. Suposto isto, diz que os que habitam nas regiões frias e em torno da Europa, que é uma região que se estende para o Aquilão, na parte remota do caminho do sol, são naturalmente animosos por causa da abundância de sangue e de calor, pela causa dita; mas no intelecto (a saber, o especulativo) e na arte, isto é, no intelecto factivo, encontram-se mais deficientes, e por isso, porque são animosos e potentes, vivem livres em suas próprias regiões, sendo potentes e ousando repelir os ataques dos que se insurgem; mas não sabem governar bem, nem dominar os vizinhos, por causa dos defeitos do intelecto e da prudência que se requerem para governar bem e dominar retamente. Já os que habitam nas regiões quentes e em torno da Ásia, que é uma região que se estende para o meridião, perto do caminho do sol, são bem intelectivos e muito engenhosos quanto à alma, por causa da sutileza e da limpidez dos espíritos neles, pela causa predita; todavia são tímidos e sem animosidade, por causa da falta de sangue e de calor natural; e por isso são súditos e servem a outros, não ousando nem podendo repelir os que os combatem, a não ser talvez às vezes por meio da fraude e do dolo, excogitando pelo intelecto que têm sutil.

Em seguida, quando diz mas o gênero, declara quais são mais aptos; dizendo que aqueles que ocupam o lugar intermédio entre as ditas regiões, a Europa e a Ásia, como o gênero dos gregos, assim como ocupam o meio quanto ao lugar, assim também quanto às disposições. Pois não há entre eles tanto frio como no Setentrião, nem tanto calor como entre os que estão em torno da Ásia; e por isso, sendo temperados quanto ao calor e ao frio, participam de ambos; pois são intelectivos, porém menos do que os que estão em torno da Ásia, e também animosos menos do que os que estão em torno da Europa; e por isso permanecem livres em sua região, potentes e ousando de algum modo repelir os que os combatem: e são também bem-nascidos para governar entre si e dominar os outros segundo alguma república una, por causa do vigor do intelecto e da razão neles. E na própria região da Grécia encontra-se uma diferença de algum povo em relação aos outros na mesma região, semelhante à do conjunto dos gregos em relação às duas regiões ditas; de modo que os que habitam em alguma parte dela têm a natureza como que de um só membro, ou de uma só disposição; por exemplo, porque, aproximando-se mais do Setentrião entre os gregos, são naturalmente mais animosos entre eles. Mas os que habitam em outra parte são de disposição diversa; assim como os que habitam na parte mais próxima da Ásia são mais intelectivos entre eles. E outros são bem misturados ou proporcionados a ambas estas potências, a saber, a intelectiva e a animativa; como aqueles que mais se aproximam do meio por igual distância.

Mas contra estas coisas alguém poderia argumentar razoavelmente: que, sendo que aquilo que é natural sempre ou na maior parte das vezes se comporta do mesmo modo, mas os gregos são nascidos para dominar os outros, e não aqueles que estão em torno da Ásia ou da Europa, seguir-se-ia que os gregos sempre ou na maior parte dominariam os outros, e os outros não a eles; cujo contrário aparece nas histórias dos antigos (pois os caldeus e os persas, que estão em torno da Ásia, por muito tempo dominaram a eles e a seus vizinhos, mantendo a monarquia; semelhantemente os romanos, que estão em torno da Europa, por muitíssimo tempo dominaram os gregos, mais do que o contrário: pois mais duradoura foi a monarquia dos romanos do que a dos gregos); logo parece que eles não são nascidos para dominar os outros, mas antes o contrário.

A isto deve-se entender que as disposições naturais das coisas naturais que estão aqui reduzem-se à disposição celeste, como diz o Filósofo no primeiro livro dos Meteoros, ao dizer: este mundo está por necessidade em continuidade com os movimentos superiores, de modo que toda a sua virtude é governada dali. Donde se deve julgar que aquela é a causa do princípio do movimento para todas as coisas. E isto mostra suficientemente no oitavo livro da Física. Ora, a disposição celeste, por comparação com aquilo que está aqui, é dupla: uma comum, que se considera segundo a proximidade ou o afastamento em relação ao caminho do sol, que máximamente move estas coisas inferiores. E segundo isto, alguns dos que existem aqui são quentes, alguns frios, alguns temperados, e inclinam-se para aquilo para o que estas coisas os dispõem. E, quanto ao que seria da inclinação natural dos gregos em tal disposição, seriam por natureza mais temperados, e alcançariam mais ambos os já ditos, a saber, a animosidade e o intelecto proporcionalmente, e seriam mais nascidos para governar e dominar os outros, e os setentrionais mais animosos, deficientes no intelecto; e os que estão em torno da Ásia, ao contrário. Mas há outra disposição celeste em ordem a estas coisas, que se considera segundo a figura das estrelas errantes entre si e em relação às fixas, e em ordem àquilo que está aqui; e esta disposição ou esta figura é continuamente outra e outra de algum modo, embora isto não apareça sensivelmente, e é outra e outra em relação a um e outro lugar; de modo que, se em relação a esta região há agora tal figura celeste, consequentemente em outro tempo haverá outra; e se em relação a esta região é tal, em relação a outra será outra. Se, portanto, alguma disposição está em alguma cidade ou região por causa de tal figura celeste, enquanto durar a figura, aquela disposição estará nela naturalmente. E segundo este modo pode-se dizer que os gregos, por tal figura celeste, num tempo foram nascidos para governar bem e dominar os outros; mas em outro tempo foram outros, como os caldeus ou os romanos; e se aquela figura não permanece agora, agora não são nascidos para as mesmas coisas, mas para outras, segundo a exigência da figura ora existente.

Além disso, deve-se também entender que a disposição natural de uma cidade ou região não se considera apenas a partir da figura celeste absolutamente, mas também a partir da disposição das partes da região ou cidade, segundo a relação que tem com os montes ou o mar, ou os lugares pantanosos ou limpos. Pois a virtude da figura celeste não é recebida no conteúdo senão por meio do continente próximo. E segundo isto pode acontecer que, embora alguma cidade ou região seja fria por natureza e se incline para aquilo para o que dispõe o frio, quanto ao que provém da disposição da figura celeste comum, todavia, segundo a disposição da região por comparação com os montes ou o mar, aconteça que ela seja excelentemente quente, ou até temperada, ou ao contrário. Donde acontece que, embora os que existem em alguma região não se inclinem a governar bem pela figura celeste comum, todavia, pela disposição especial dela, isto lhe pode acontecer.

Em terceiro lugar, deve-se entender que a virtude celeste, sendo material e corpórea, ao passo que o intelecto é imaterial e separado, não age sobre ele por si mesma, mas apenas por acidente, enquanto ele depende do sentido; e por isso o intelecto e a vontade não são necessitados em suas operações pela virtude celeste por si. Donde pode acontecer que, embora alguns, pela virtude celeste ou pela disposição natural, não se inclinem a governar, nem às operações do intelecto ou da virtude, todavia, se por eleição se aplicarem ao estudo da sabedoria e ao exercício das virtudes, acontecerá que sejam intelectivos e bons governantes; e, ao contrário, se os bem-nascidos para estas coisas se entregarem ao ócio e ao exercício em más operações, tornar-se-ão insensatos e maus governantes, e far-se-ão servos de outros. E isto talvez tenha sido uma das causas da destruição do reino dos romanos e dos gregos; pois, mantendo a monarquia e vivendo na tranquilidade, entregaram-se ao ócio e aos prazeres carnais e à avareza, não querendo dedicar-se à sabedoria; e por isso, tornados menos inteligentes e menos exercitados nas ações civis e bélicas, tornaram-se súditos daqueles a quem não sabiam nem podiam enfrentar. Pelo que foi dito aparece a solução da objeção.

Em seguida, quando diz é manifesto, portanto, infere do que precede quais são nascidos para governar bem e dominar. E primeiro faz isto. Em segundo lugar, quando diz pois aquilo que etc., manifesta isto a partir do dito de alguns. Na primeira parte diz que, porque os gregos governam bem e dominam os outros naturalmente, por serem animosos e bem intelectivos, ao passo que os asiáticos são servos de outros, por serem inanimados, ainda que vigorosos no intelecto, e os setentrionais não dominam os outros, por serem deficientes no intelecto, ainda que sejam animosos; é manifesto que eles devem ser do número dos legisladores que devem ser bons condutores à virtude, e governar bem entre si, e dominar os outros; ser animosos, para que possam reprimir os maus e combater os que os atacam; e bem intelectivos, para que saibam dirigir-se a si mesmos e aos outros nas operações.

Em seguida, quando diz pois aquilo que, prova isto a partir do dito de alguns. E acerca disto, primeiro, da parte daquele dito, mostra o que pretende. Em segundo lugar, quando diz mas não está bem etc., reprova a outra parte do mesmo dito. Na primeira parte diz que aquilo que alguns dizem mostra que os bons governantes devem ser animosos. Pois dizem que os guardiões dos outros e os que governam devem ser amorosos para com os conhecidos, mas rudes e mais duros para com os desconhecidos. E o sinal do primeiro é que o ânimo do homem mais se eleva ao conversar e ao fazer o bem, julgando que deve ser mais estimado por eles em relação aos conhecidos e habituais do que em relação aos desconhecidos, julgando-se menosprezado. Pois os conhecidos e habituais são mais tidos por amigos, mas o desconhecido é como não amigo; e por isso o homem dispõe-se para com o conhecido e habitual como para consigo mesmo, mas para com os desconhecidos como para com um inimigo; e por causa disto, assim como cada um se estima e se dá em grande apreço a si mesmo, assim quer ser estimado e apreciado pelo amigo e conhecido; mas pelo inimigo e desconhecido julga não ser estimado e ser menosprezado. E que os guardiões devem ser amorosos, deve-se a que o ânimo, isto é, a vontade, é o que torna os homens amorosos uns dos outros; pois esta potência é o princípio da dileção. Por isso Arquíloco, queixando-se dos amigos, argumenta dirigindo-se ao ânimo, como a um amigo, dizendo que os homens não suportam dos amigos os ferimentos das lanças, mas antes os bens. Pois amar é querer o bem a alguém por causa dele mesmo. Ora, querer é ato da vontade; logo, também amar. E a inclinação para governar e para os atos de liberdade provém desta potência em todos os que a isto se inclinam: pois chamamos ao ânimo dominador, invencível e livre, porque governar, primeira e essencialmente, é agir, e o princípio imediato do agir em nós é o ânimo ou vontade; e por isso o ânimo é algo dominador. E a liberdade é aquilo que, na natureza intelectiva, pela virtude daquilo que nela é principal e intrínseco, age em direção ao próprio fim segundo esse mesmo. Ora, agir na natureza intelectual em direção ao fim compete de modo próximo ao ânimo e à vontade, segundo Aristóteles no nono livro da Metafísica. E por isso a liberdade é uma certa virtude da vontade em ordem ao intelecto que precede e ao fim que segue. Se, portanto, o ânimo é aquele segundo o qual governamos e somos livres, e o ânimo é aquilo pelo qual amamos, o que compete aos governantes e guardiões, como já foi dito, convenientemente se disse que os governantes deveriam ser animosos.

Em seguida, quando diz não está bem, reprova a outra parte do dito de outros; dizendo que não dizem convenientemente naquilo que afirmam, que os que governam ou os superiores na cidade devem ser hostis e cruéis para com os desconhecidos: pois não convém a homem algum bom ser tal, porque, com o fato e com a palavra, convém antes tornar-se amável. Também os homens magnânimos, que são dignos de governar, não são severos ou cruéis para com ninguém, a não ser contra os injustos; porque não convém que sejam cruéis, senão para com os que se lhes opõem enquanto tais. Ora, estes, enquanto tais, são virtuosos, ou devem sê-lo; pois a magnanimidade é o ornamento das virtudes, como se diz no quarto livro da Ética. E à virtude opõe-se a malícia, ou injustiça, conforme a injustiça se estende a toda malícia. E são mais duros para com os conhecidos ou amigos, se estes forem maus, ou se julgarem sofrer injustamente da parte deles; e isto fazem razoavelmente: pois, se dos amigos sofrem injustamente, recebem dano daquele por quem acreditavam dever ser ajudados; e são privados dele, pelo que se indignam mais; pois o amigo é como outro eu mesmo, como foi dito. E por isso, assim como alguém se dispõe para consigo mesmo, assim para com o amigo. Ora, de si mesmo cada um espera o bem, e não o dano, e por isso também do amigo: donde, se julgar receber dano, indigna-se. E quanto mais amigo, tanto mais se crê estar obrigado à beneficência. E por isso se diz proverbialmente que a inimizade dos irmãos é muitíssimo cruel; e que aqueles que muito se amam mutuamente tornam-se, por acaso, muitíssimo inimigos, assim como as mesmas coisas se tornam quentíssimas e friíssimas, como diz Aristóteles no quarto livro dos Meteoros. Pois dizemos que de um grande amigo se faz um grande inimigo. Assim, portanto, não convém que o magnânimo ou o governante seja agreste para com alguém, senão para com o injusto; e mais ainda se antes tiver sido amigo.

Em seguida, quando diz quanto aos cidadãos, recapitula, dizendo que, acerca dos que vivem na cidade, foi determinado quantos devem ser segundo a multidão numa cidade ordenada, e quais segundo a disposição natural. De novo, acerca da região, foi dito quão grande e de que qualidade ela deve ser para bem habitar na cidade, por meio de raciocínios verossímeis e concordantes com o sentido. Pois não se deve buscar a mesma certeza daquelas coisas que são manifestas apenas pela razão, não concordando de todo com o sentido, e daquelas que concordam com o sentido.