Lição 2
Investiga-se a causa de haver muitas espécies de regimes; e rejeita-se aquela divisão que era feita por alguns segundo os muitos e os poucos.
584. Ora, visto que consideramos por quais coisas se produzem sedições e transmutações acerca dos regimes, deve-se tomar universalmente os primeiros princípios e as causas delas. E são, por assim dizer, quase três em número, que se devem determinar primeiro em si mesmas, em esboço: pois é preciso apreender em que disposição os homens promovem sedições, e em vista de quê; e, em terceiro lugar, quais tenham sido os princípios das perturbações civis e das sedições de uns contra os outros.
585. Portanto, daquilo que consiste em os próprios estarem de algum modo dispostos para a transmutação, deve-se pôr universalmente como causa máxima aquela de que já estivemos falando. Pois uns, apetecendo a igualdade, promovem sedições se julgam ter menos, sendo iguais aos que os ultrapassam; e outros, apetecendo a desigualdade e o excesso, se julgam, sendo desiguais, não ter mais, mas o igual ou menos. Ora, isto é apetecer justamente; mas é também injustamente: pois, sendo menores, para serem iguais, promovem sedições; e, sendo iguais, para serem maiores. De que modo, portanto, os homens dispostos promovem sedições, já se disse.
586. Ora, aquilo por que divergem são o lucro e a honra e os contrários destes: com efeito, fugindo da desonra e do dano, seja por si mesmos, seja pelos amigos, promovem sedições nas cidades.
587. Ora, as causas e os princípios dos movimentos, pelos quais eles se dispõem do modo dito, e a partir das coisas ditas, são em número sete, mas de outro modo mais numerosos. Dos quais dois são os mesmos que os ditos, mas não do mesmo modo. Pois, por causa do lucro e por causa da honra, exasperam-se uns contra os outros, não para obtê-los para si mesmos, como se disse antes, mas por verem outros ter mais destas coisas, uns justamente e outros injustamente. Ademais, por causa da injúria, por causa do temor, por causa do excesso, por causa do desprezo, por causa do crescimento além da proporção. E ainda, de outro modo, por causa da vergonha, por causa da pouca consideração, por causa da pequenez, por causa da dessemelhança.
588. Destes, quanto à injúria e ao lucro, que poder tenham e de que modo sejam causa, é quase manifesto. Pois, quando os que estão nos cargos cometem injúria e ultrapassam a medida, promovem sedições tanto uns contra os outros como contra os regimes que lhes dão o poder. E o receber em excesso dá-se ora dos bens próprios, ora dos comuns.
589. É também claro quanto à honra, e que poder tem, e de que modo é causa de sedição. Pois os próprios, desonrados e vendo outros honrados, promovem sedições. Ora, estas coisas fazem-se injustamente, quando, à revelia da dignidade, alguns são honrados ou desonrados. Justamente, porém, quando segundo a dignidade.
590. Ora, por causa do excesso, quando alguém é maior em poder, seja um só, seja muitos, seja em relação à cidade e ao poder do corpo governante. Pois de tais [homens] costuma originar-se uma monarquia ou um poder despótico. Por isso, em alguns lugares costumavam banir tais [homens], como em Argos e em Atenas. Ainda que fosse melhor, desde o princípio, [providenciar] de modo que não houvesse [homens] que a tal ponto excedessem, do que, depois de haverem permitido que se produzissem, remediá-lo depois.
591. Ora, por causa do temor promovem sedições tanto os que cometeram injustiças, temendo pagar a pena, como os que hão de sofrer injustiças, querendo antecipar-se antes de sofrê-las; assim como em Rodes os notáveis se coligaram contra o povo por causa das sentenças que se pronunciavam contra eles.
592. Por causa do desprezo também promovem sedições e se sublevam, como nas oligarquias, quando forem muitos os que não participam do governo; pois julgam ser mais fortes; e nas democracias os ricos, desprezando aqueles que estão sem ordem e sem cargo; como em Tebas, depois do combate de Enófita, governando mal, a democracia se corrompeu, e a dos megarenses por causa da desordem dos vencedores e da falta de governo. E em Siracusa, antes da tirania de Gélon, e em Rodes o povo, antes da sublevação.
593. Também se produzem, por causa do crescimento que ultrapassa a proporção, transmutações dos regimes. Pois, assim como o corpo se compõe de partes, e é preciso que cresça proporcionalmente, para que permaneça a comensuração: caso contrário, corrompe-se, quando o pé é de quatro côvados e o resto do corpo de dois palmos, e às vezes até se transmutará na forma de outro animal, se crescer além da proporção não só segundo a quantidade mas também segundo a qualidade: assim também a cidade se compõe de partes, das quais muitas vezes alguma cresce despercebida, como a multidão dos pobres nas democracias e nos regimes constitucionais.
594. Ora, isto acontece às vezes também por causa dos infortúnios, como em Tarento, tendo sido vencidos e perecendo muitos notáveis pelos iápiges pouco depois [da guerra] contra os medos, de regime constitucional passou a democracia; e em Argos, tendo perecido no [dia] sétimo os [mortos] por Cleômenes de Lacedemônia, foram compelidos a admitir alguns dos servos domésticos. E em Atenas, sofrendo revés em terra, os notáveis se tornaram menos numerosos, porque prestavam serviço militar sendo recenseados na guerra lacônica. Ora, isto acontece também nas democracias, mas menos; pois, tornando-se mais numerosos os pobres, ou aumentadas as fortunas, transmutam-se em oligarquias e poderes despóticos.
595. Ora, os regimes também se transmutam, mesmo sem sedição, por causa da vergonha, como em Hereia. Pois, de eletivas [as magistraturas], por esta razão as tornaram por sorteio, porque elegiam os que recorriam a intrigas.
596. E por causa da pouca consideração, quando permitem entrar nos cargos os que não são amigos do regime, assim como em Oreo se dissolveu a oligarquia dos governantes, ao tornar-se governante Heracleodoro, que da oligarquia instituiu um regime constitucional e uma democracia.
597. Ademais, por causa daquilo que é pouco; e digo pouco porque muitas vezes passa despercebida uma grande transgressão das leis quando negligenciam o que é pouco; como em Ambrácia, pequeno era o censo [exigido para os cargos], mas por fim governavam com nenhum; como se o pouco estivesse próximo, ou em nada diferisse, daquilo que é nada.
598. Ora, é também causa de sedição o não ser [os cidadãos] da mesma estirpe, até que porventura tenham conspirado num mesmo espírito. Pois, assim como a cidade não se faz de qualquer multidão, assim tampouco em qualquer tempo.
599. Por isso, todos os que acolheram co-habitantes, seja depois da fundação, seja como recém-chegados, na maior parte se dividiram por sedição; como quando os aqueus co-habitaram com os trezênios em Síbaris, e depois, tendo-se tornado mais numerosos, os aqueus expulsaram os trezênios. Donde sobreveio o ódio aos sibaritas. E em Túrios, os sibaritas [foram expulsos] por aqueles que ali co-habitaram: pois, exigindo ter mais, como se a região fosse sua, foram expulsos. E aos bizantinos os forasteiros, tramando ciladas, saquearam-nos, e foram expulsos em combate. E os antisseus expulsaram em combate os fugitivos de Quios que haviam acolhido. Já os zancleus, tendo acolhido os sâmios, foram eles mesmos expulsos. E os apoloniatas, no Ponto Euxino, introduzindo forasteiros, padeceram sedições. E os siracusanos, depois dos [governos] tirânicos, tendo feito cidadãos estrangeiros e mercenários, padeceram sedições e chegaram ao combate. E os anfipolitas, acolhendo os expulsos dos calcídicos, foram por eles expulsos, a maior parte deles.
600. Ora, nas oligarquias promovem sedições os que são muitos, por sofrerem injustiças, porque não participam em igualdade, como se disse antes, sendo iguais; já nas democracias os notáveis, porque participam em igualdade não sendo iguais.
601. Ora, as cidades padecem sedições às vezes também por causa dos lugares, quando a região não é bem apta a formar uma só cidade, como em Clazômenas os que habitam em Quitro em relação aos que habitam na ilha; e os colofônios e os nótios. E em Atenas não são do mesmo modo, mas são mais populares os que habitam o subúrbio do que os que habitam o núcleo urbano. Pois, assim como nas guerras as passagens de aberturas, ainda que muito pequenas, desbaratam as linhas de batalha, assim parece que toda diversidade produz dissensão. A maior dissensão, porém, é talvez a da virtude e da malícia. Depois, a das riquezas e da pobreza: e assim uma é maior do que a outra: das quais uma é a que foi dita.
Depois que o Filósofo apresentou a primeira raiz e o primeiro princípio da corrupção dos regimes, e os modos pelos quais se transmutam, determina universalmente as causas desta corrupção e transmutação; e divide-se em duas. Na primeira determina as causas da corrupção dos regimes em universal, sem descer a algum regime particular. Na segunda determina as causas da corrupção segundo cada regime, ali: segundo cada um etc. A primeira divide-se em três. Na primeira determina as causas da transmutação dos regimes. Em segundo lugar declara o termo desta transmutação, declarando qual regime em qual se transmuta, ali: pois há etc. Na terceira declara de que modo sobretudo se dá tal transmutação, ali: move-se também etc. A primeira em duas. Na primeira antepõe seu intento. Na segunda prossegue, ali: daquilo etc. Na primeira diz: visto que nossa intenção é considerar por quais coisas se produzem as sedições e as transmutações dos regimes, devem-se tomar primeiro, em universal, os princípios e as causas da transmutação e da corrupção dos regimes; e há, por assim dizer, quase três causas e três princípios da transmutação delas, sobre os quais é preciso considerar sucintamente. Primeiro, pois, é preciso considerar em que disposição os homens promovem sedições e transmutam os regimes. Em segundo lugar, por que fim o fazem. Em terceiro lugar, quais sejam os princípios pelos quais se dispõem a promover dissensões e sedições no regime.
Em seguida, quando diz: daquilo, prossegue; e divide-se em três. Na primeira mostra em que disposição os homens promovem sedições e perturbações. Em segundo lugar, por que fim o fazem, ali: ora, aquilo por que etc. Em terceiro lugar, quais são as causas e os princípios, e quantos, e por quais se dispõem a fazer sedições, ali: ora, as causas etc. Na primeira diz que a causa de os homens estarem de algum modo dispostos a fazer sedição e perturbação é aquela de que se falou antes: que alguns homens, pelo fato de apetecerem o igual, se não creem ter o igual mas menos, sendo contudo iguais, ou se julgam iguais àqueles que receberam mais, promovem sedição. Outros, porém, querem ter o desigual e mais, julgando-se desiguais aos outros e excedê-los. E, se julgam ter não mais, mas o igual ou menos, promovem sedição. De que modo, portanto, os homens dispostos promovem sedições, julgando-se ter menos do que creem dever ter. Mas acontece apetecer estas coisas, a saber, o mais e o igual, justa e injustamente. Pois, se é digno de ter o igual aquele que tem em si o bem da virtude e é absolutamente igual aos outros, pode apetecê-lo justamente. Se, porém, não é digno, apetece-o injustamente. Semelhantemente, alguém pode apetecer o mais e o desigual, justa e injustamente. Justamente, se excede os outros naquilo que são bens absolutamente. Se, porém, não excede, apetece injustamente: porque aqueles que recebem menos, para serem iguais aos outros no receber, fazem sedições; e aqueles que são iguais no receber, para receberem mais, fazem dissensões. E isto é injusto. E então conclui, dizendo que já se disse em que disposição os homens fazem sedições. E deve-se entender que aquela igualdade se considera segundo a dignidade daquilo que é bem do homem enquanto homem. Ora, o bem do homem é duplo. Pois há um bem do homem intrínseco: e este se divide, porque há um bem segundo a parte inferior, como a saúde, o vigor. Outro segundo a parte superior, como a ciência, a virtude e coisas semelhantes. E estes são bens absolutamente. Outros são bens exteriores do homem, como as riquezas e a honra; e estes são bens sob certo aspecto. E por isso a dignidade do homem absolutamente não deve considerar-se segundo a dignidade destes bens, mas segundo a dignidade dos bens absolutamente. E por isso, porque no regime dos poucos se considera a igualdade segundo esses bens sob certo aspecto, não se considera o justo absolutamente, mas sob certo aspecto; e por isso, por causa destes, não se promove justamente sedição, se aquele que excede nestes não recebe mais. Mas aquele que não recebe o igual segundo a dignidade do bem absoluto, se for bom, pode justamente promovê-la. Já no regime popular considera-se a liberdade; a saber, que alguém não sirva a outros segundo o corpo, ou nas coisas. Ora, esta não é bem absolutamente, mas sob certo aspecto; e por isso, porque neste regime se considera a igualdade segundo essa liberdade, por ela não se considera o injusto absolutamente, mas sob certo aspecto. De que modo, portanto, os homens dispostos, isto é, de que modo dispostos promovem sedições, já se disse.
Em seguida, quando diz: ora, aquilo por que, declara por que fim fazem a dissensão. E deve-se entender que há um fim segundo a verdade, como é o bem da alma. Outro fim é segundo a aparência, como é o bem do corpo. Convém, pois, que o homem, em sua ação, vise ao fim absoluto ou ao fim segundo a aparência. E o bem do corpo é o lucro; já o bem da alma é a honra. Diz, pois, que aquilo por que, isto é, aquilo por causa do qual fazem a dissensão, são dois: a saber, o lucro, de modo que sob o lucro se contenham todos os bens sob certo aspecto, ou seja, os do corpo. O outro é a honra, de modo que sob a honra se compreendam todos os bens absolutos, que são os bens da alma. Fazem igualmente sedição por causa dos contrários destes, isto é, por causa do dano e da desonra. Por causa do dano, porque é da mesma razão apetecer o lucro e fugir do dano. Por causa da desonra, porque é da mesma razão apetecer a honra e fugir de seu oposto. Mas, porque o amigo é como um outro [eu], por isso acrescenta que fazem sedição por causa da própria honra e do próprio dano, ou dos de seus amigos.
Em seguida, quando diz: ora, as causas, declara quais são os princípios pelos quais se dispõem a fazer dissensão e sedição: e divide-se em duas. Primeiro declara as causas pelas quais se dispõem à sedição. Na segunda declara de que modo, uma vez iniciadas, facilmente ganham força a partir daí, ali: produzem-se, pois etc. A primeira em duas. Primeiro enumera aquelas causas. Em segundo lugar prossegue, ali: destes, porém etc. Na primeira diz que os princípios e as causas das transmutações dos regimes, pelos quais se dispõem a fazer sedição, e a partir das coisas ditas, isto é, por causa das coisas ditas, a saber, o lucro e a honra, são sete em número, de um modo; de outro modo, mais numerosos. Pois, se se enumeram as causas que dispõem à dissensão oculta, tal como é a sedição (pois a sedição é uma dissensão oculta), assim são sete em número. Se, porém, se enumeram estas e aquelas que dispõem à dissensão manifesta, assim são mais numerosas. Ora, os primeiros princípios dispositivos à sedição são os dois já mencionados, a honra e o lucro; mas não como se disse antes. Pois a honra e o lucro podem considerar-se de dois modos. De um modo, conforme são visados por alguém, e assim têm razão de fim: e assim dizia antes que aquilo por que finalmente fazem sedição são a honra e o lucro e os opostos destes. De outro modo, podem considerar-se conforme alguém vê estas coisas em outro: e então, porque vê o lucro e a honra, e um tê-los justamente, outro não, entristece-se: não porque queiram tê-los, mas porque injustamente alguém tem deles mais do que deveria. Há, portanto, dois princípios pelos quais promovem sedição, a saber, a honra e o lucro. Há também outros, a saber, a injúria, o temor, o excesso, o desprezo, a excelência além da proporção. Por causa destes dispõem-se à dissensão manifesta: a saber, a vergonha, a pouca consideração, a pusilanimidade, a disparidade ou a negligência. Pois por causa destes promovem sedições.
Em seguida, quando diz: destes, porém, prossegue acerca destes, declarando de que modo dispõem à sedição. E primeiro prossegue acerca daqueles que dispõem indiferentemente à dissensão oculta e à manifesta. Em segundo lugar, acerca daqueles que dispõem principalmente à manifesta, ali: ora, transmutam-se etc. A primeira em duas. Primeiro declara de que modo a injúria e o lucro dispõem à sedição. Em segundo lugar declara acerca dos outros, ali: é também claro quanto à honra etc. Na primeira diz: que poder tenham, e de que modo a honra e o lucro são causa de sedição, é quase manifesto. Pois acontece que os governantes cometam injúria contra os cidadãos e os excedam em honras ou em lucro: por isso os cidadãos promovem sedição tanto contra o governante como contra o regime. Contra o governante, porque cometeu injúria e excede injustamente. Contra o regime, porque é por meio do regime que ele tem o poder. E que assim os [governos] despóticos promovam sedição é manifesto; porque, quando o governante toma os bens dos súditos, tem a vontade de tomar. Os outros têm vontades contrárias; logo divergem na vontade: ora, a divergência das vontades é raiz da sedição. Por causa da injúria, pois, e dos lucros, promovem sedições. E diz ademais que os governantes podem tomar mais do que convém, seja dos bens comuns, seja dos bens próprios dos súditos; e de um e outro modo cometem injúria contra os súditos. E deve-se entender que o lucro e a injúria às vezes são o mesmo pelo sujeito e diferem pela razão: pois aquilo mesmo que é lucro em relação a um que tomou mais, é injúria em relação a outro, a saber, aquele de quem tomou.
Em seguida, quando diz: é também claro, declara acerca dos outros: e divide-se em cinco. Primeiro declara acerca da honra, de que modo dispõe à sedição. Em segundo lugar, acerca do excesso, ali: ora, por causa do excesso etc. Em terceiro lugar, acerca do temor, ali: ora, por causa do temor etc. Em quarto lugar, acerca do desprezo, ali: pois por causa do desprezo, às sedições etc. Em quinto lugar, acerca do crescimento além da proporção, ali: ora, produzem-se também por causa do crescimento etc. Na primeira diz que é manifesto que poder tenha, e de que modo a honra é causa de sedição. Pois, quando alguns não são honrados, vendo outros honrados, fazem sedições; então, com efeito, divergem as vontades. E isto é raiz da sedição. Ora, alguém pode ser honrado tanto justa como injustamente, e apetecer a honra semelhantemente justa e injustamente. Pois, se alguns são honrados à revelia da dignidade ou desonrados, é injusto: e, se apetece a honra à revelia da dignidade, apetece injustamente: mas, se isto se faz segundo a dignidade, é justo.
Em seguida, quando diz: por causa do excesso, declara de que modo por causa do excesso fazem sedição. E diz que às vezes por causa do excesso fazem sedição: pois, quando alguém é maior em poder, seja um só, seja muitos que tenham poder na cidade ou no regime, fazem sedição. Pois de tais [homens] acontece às vezes originar-se uma monarquia: o que é evidente, porque cada um se inclina à própria excelência. Quando, pois, há alguém tal, que excede os outros em poder, ou em amigos ou em riquezas, esforça-se por mudar o regime em monarquia; ou, se não se produz uma monarquia, produz-se às vezes um poder despótico, no qual dominam os muito ricos e poderosos, não segundo a lei, mas segundo suas vontades. E por isso, em algumas cidades, baniam tais [homens] excelentes, como se fazia em Argos e em Atenas. E, contudo, teria sido melhor ter ordenado desde o princípio que não houvesse na cidade ninguém que a tal ponto excedesse, e até que limite pudesse exceder, do que baní-lo depois de o haverem deixado [crescer]: assim como nas coisas da medicina, é melhor prever desde o princípio que alguma doença não cresça, do que, depois de ela ter excedido ou crescido, expulsá-la e curá-la.
Em seguida, quando diz: por causa do temor, declara de que modo por causa do temor se produz sedição na cidade. E diz que por causa do temor fazem sedições. Pois, quando alguns cometeram injustiças, temendo ser punidos e que se faça vingança deles, promovem sedição, para que, pela sedição promovida, possam escapar, de modo a não serem punidos. Semelhantemente, se alguns hão de sofrer injustiças, ou temem que as sofrerão por alguma causa, querendo antecipar-se antes de as sofrerem, promovem sedição e perturbam o regime antes de padecerem injustiças; assim como aconteceu produzir-se na ilha de Rodes. Pois os ricos coligaram-se contra o povo, temendo as sentenças que deviam ser dadas contra eles, e perturbaram o regime.
Em seguida, quando diz: por causa do desprezo, declara de que modo por causa do desprezo se dispõem à sedição: e diz que por causa do desprezo fazem sedição e se sublevam. Pois é manifesto que cada um quer ser tido em alguma consideração: e por isso, se é desprezado, promove sedição, como acontece na oligarquia e no regime popular. Porque na oligarquia, na qual são muitos os que não participam do governo, aqueles que são ricos e detêm o governo desprezam os outros que não governam, e por isso incitam os outros às dissensões; por causa disso fazem sedições contra os ricos e mudam o regime. Semelhantemente é no regime popular: aqueles que são mais ricos desprezam os menores, que estão ou parecem estar sem razão e sem ordem, como indignos do governo, por causa do que estes se incitam a dissolvê-lo; assim como aconteceu em Tebas, depois do combate que travaram em Enófita, quando o povo dominava, excedeu-se e governava mal, os ricos fizeram sedição e mudaram aquele regime popular. Semelhantemente na cidade dos megarenses, quando tinham saído para o combate, aconteceu que o povo governava desordenadamente; e por isso os ricos fizeram sedição. Semelhantemente aconteceu em Siracusa, antes que Gélon tiranizasse, e na ilha de Rodes o povo dominava antes que os ricos se sublevassem, e, porque os ricos os desprezavam, sublevaram-se e fizeram sedição, e mudaram o regime.
Depois, quando diz mas se produzem, esclarece de que modo, por causa de um crescimento fora de proporção, produzem sedição; e divide-se em duas partes. Na primeira, expõe o que foi dito. Na segunda, esclarece que esse crescimento provém às vezes da fortuna, ali: mas acontece às vezes etc. Na primeira diz que, por causa do crescimento que se dá fora de proporção, produzem-se às vezes sedições e corrupções das repúblicas, como, se os ricos crescerem em excesso, ou os virtuosos, ou os pobres, acontece produzir-se uma transformação delas. E isso é evidente: porque, assim como o corpo se compõe de muitas partes, assim também a cidade se compõe de partes. Ora, é preciso que o corpo do animal composto cresça segundo a proporção, para que permaneça a reta proporção dos membros e a comensuração. Se, porém, as partes não crescerem proporcionalmente, o animal se corrompe. Pois, se o pé crescer tanto que seja de quatro côvados, e o restante seja de dois palmos, corrompe-se a devida proporção. Se, porém, o animal crescer desproporcionalmente, tanto segundo a quantidade quanto segundo a potência ou qualidade, se transformará na forma de outro animal. De modo semelhante acontece na cidade: pois ela se compõe de partes; e por isso, se deve conservar-se, é preciso que se componha de partes comensuradas entre si. Às vezes, porém, a multidão excede, como no estado popular e na república; e então corrompe-se o estado dos poucos e torna-se popular ou república. Às vezes há um crescimento não segundo a quantidade, mas segundo a qualidade, como quando há alguns ricos muito excelentes em poder; e então corrompe-se o estado popular e torna-se dos poucos.
Depois, quando diz mas acontece, esclarece que esse crescimento se dá às vezes pela fortuna; e diz que tal crescimento acontece às vezes pela fortuna, como em Tarento. Pois, tendo aqueles saído para o combate e tendo sido mortos muitos nobres e ricos pelos iápiges, do estado popular fez-se um poder de poucos, e assim, pela fortuna, por causa do propósito, cresceu o povo e mudou a república. O mesmo também aconteceu aos argivos: pois, tendo sido mortos aqueles que estavam na cidade de Eudoma por Cleômenes, o espartano, foram compelidos, por causa da escassez de habitantes, a receber na cidade alguns inquilinos para a sua república; os quais depois cresceram e tornou-se uma república popular. De modo semelhante aconteceu em Atenas: como os ricos foram infortunados e muitos tombaram em combate, ficaram poucos os ricos, porque morreram. De modo semelhante acontece nos estados populares, mas menos do que no governo de poucos. Pois, como há muitos indigentes, sucede que muitos se enriqueçam; e então, aumentadas as riquezas, transformam o estado popular no governo de poucos, e nos poderes em que muitos ricos governam não segundo a lei.
Depois, quando diz mas se transformam, esclarece quais são as causas da transformação da república sem sedição oculta. E divide-se em quatro partes. Na primeira, esclarece de que modo, por causa da vergonha, se produz sedição e transformação da república. Segundo, de que modo por causa do menosprezo, ali: e por causa do menosprezo etc. Terceiro, de que modo por causa do desprezo daquilo que é pequeno, ali: além disso por causa etc. Quarto, de que modo por causa da dissensão, ali: mas sedicioso etc. Na primeira diz que as repúblicas às vezes se transformam sem sedição, isto é, sem dissensão oculta; e isso por causa da vergonha, como aconteceu na cidade de Hereia. Pois sucedeu naquela cidade que alguns que haviam cometido coisas torpes, pelas quais tinham padecido vergonha, eram eleitos para o principado por alguns. Outros, porém, não querendo suportar que esses infames governassem, fizeram sedição e estabeleceram que os principados que antes se faziam por sorteio se fizessem por eleição: e assim, por causa da vergonha que alguns haviam padecido, fez-se sedição e transformação da república.
Depois, quando diz e por causa. Mostra como, por causa do menosprezo, se produz sedição e transformação da república. E diz que, por causa do menosprezo, às vezes se produz mudança da república e sedição, como quando alguém é assumido para o principado principal e não o ama, mas o menospreza. Então, com efeito, acontece que esse que menospreza o principado muda a república. Assim como na cidade de Óreo sucedeu que elegeram Heracleodoro como príncipe. Este, porém, não amava a república deles; e por isso mudou o estado de poucos que havia naquela cidade, e instituiu uma república e um estado popular.
Depois, quando diz além disso por causa, esclarece que, por causa do desprezo daquilo que consiste na pequenez, se muda a república. E expõe o que chama de pequenez; e diz que consiste na pequenez quando alguma pequena transgressão é negligenciada, e de modo semelhante outra. Pois sucede que de todas essas se produza uma grande transgressão que no princípio não era manifesta; e por causa de tal grande transgressão, que foi causada por muitas pequenas negligenciadas, sucede mudar-se a república, como diz ter acontecido entre os ambraciotas. Pois, entre eles, uma honorabilidade era pouco estimada, e muitas pequenas eram negligenciadas como se pouco ou nada diferissem, ou fossem próximas; e por isso aconteceu enfim naquela cidade que ninguém governava segundo alguma honorabilidade; e então o estado de poucos, no qual governavam os insignes e honoráveis, mudou-se em estado popular.
Depois, quando diz mas sedicioso, esclarece de que modo, por causa da dessemelhança, se muda a república. E divide-se em três. Na primeira, mostra de que modo, por causa da dessemelhança, se dispõem à sedição. Segundo, acidentalmente esclarece quem move as sedições no estado popular e no de poucos, sobretudo pela causa dita, ali: mas movem sedição etc. Terceiro, expõe a causa mais acidental da sedição, ali: mas sofrem sedições etc. A primeira em duas. Na primeira, expõe de que modo se dispõem à sedição, por semelhança. Segundo, manifesta por exemplos, ali: por isso etc. Na primeira diz que outra causa de sedição é a dessemelhança: pois, quando habitarem a cidade aqueles que não têm os mesmos costumes nem os mesmos hábitos, movem sedições, a não ser que por muito tempo tenham conspirado ou vivido juntos. O primeiro é evidente; porque aqueles que têm costumes diversos inclinam-se a fins diversos. Disso, porém, segue-se a divisão da vontade: e isto é causa de dissensão: pelo que é manifesto que a dessemelhança é causa de sedição. O segundo é evidente, porque, se aqueles que têm costumes diversos viverem juntos, sucede que um atrai o outro e no fim têm os mesmos costumes e inclinam-se ao mesmo fim, e então não mudam a república. É, pois, manifesto que, até que tenham vivido juntos por muito tempo, moverão sedições aqueles que têm costumes diversos. Pois, assim como a cidade não se faz de quaisquer, mas de semelhantes, assim não se faz em qualquer tempo, mas quando os cidadãos tiverem vivido juntos e já se inclinam aos mesmos costumes.
Depois, quando diz por isso, manifesta o que foi dito por sete exemplos; e diz que, porque a dessemelhança é causa de sedição, sucede que aquelas cidades que receberam indistintamente os estrangeiros padeceram mais sedições e divisões; como aconteceu em certa cidade que chamam Síbaris. Pois naquela cidade habitavam os trezênios: estes, porém, receberam os aqueus; mas, quando estes se tinham multiplicado, expulsaram os trezênios, e disso houve então ódio entre os sibaritas que tinham sido expulsos e os túrios que os haviam recebido: pois, como exigissem mais por a região ser sua, foram expulsos pelos sibaritas. Expõe o segundo exemplo; e diz que de modo semelhante aconteceu aos bizantinos. Pois, tendo estes recebido estrangeiros, estes armaram ciladas aos bizantinos e os saquearam; e os bizantinos, conhecido o fato, expulsaram-nos com combate e armas. Expõe o terceiro exemplo; e diz que de modo semelhante aconteceu em outra cidade, que os antisseus receberam em sua cidade fugitivos e estrangeiros de Quios, e enfim fez-se sedição entre eles e os estrangeiros foram expulsos. Então expõe o quarto exemplo; e diz que os zâncleos receberam os sâmios na cidade, e depois, feita sedição entre eles, foram expulsos da cidade. Então expõe o quinto exemplo; e diz que os apoloniatas, que habitavam a cidade junto ao ponto, tendo recebido estrangeiros, padeceram sedição. Então expõe o sexto exemplo; e diz que os siracusanos, tendo expulsado os tiranos da cidade, receberam estrangeiros e os que transportam mercadorias, e os fizeram cidadãos, produziu-se-lhes sedição e vieram à luta. Então expõe o último exemplo; e diz que os anfipolitas, tendo recebido colonos dos calcídios, feita sedição entre eles, muitíssimos dos anfipolitas morreram, e foram expulsos pelos outros. De todos esses não quer concluir mais senão que a dessemelhança é causa de sedição e de destruição da república.
Depois, quando diz mas sedições, esclarece quem move as sedições no estado popular e no de poucos pela causa dita. E diz que no poder de poucos o povo faz sedições. Pois o povo crê que deve receber o igual, porque todos são iguais na liberdade. Os ricos, porém, têm tudo ou mais: e por isso o povo, estimando que sofre injustiças, move sedições. No estado popular, porém, movem sedições os ricos, porque no estado popular recebem o igual. Estimam, porém, que devem receber mais, por serem mais excelentes, e por isso movem sedições contra o povo.
Depois, quando diz mas sedições, toca a causa mais acidental da sedição. E diz que em algumas cidades se produzem sedições por causa da disposição do lugar. Pois sucede que a região não esteja bem disposta para que a cidade seja uma, mas antes uma e outra. Ora, a unidade da ordem para o fim faz a cidade una; e por isso aquilo que dispõe para isto é requerido para a unidade da cidade. Contribui para isso a boa disposição do lugar. Se, pois, o lugar não está bem disposto para que a cidade seja uma, produz-se sedição, como aconteceu aos clazomênios. Pois aqueles que habitavam em Quitro, que é uma parte da cidade, estavam contra aqueles que habitavam na ilha, isto é, na outra parte da cidade; e queriam fazer repúblicas diversas, e a cidade principal na sua parte. De modo semelhante os colofônios e os nótios sofreram sedições entre si por causa da má disposição do lugar. De modo semelhante em Atenas não estão bem dispostos para uma só república; porque aqueles que estão no subúrbio, a saber, no Pireu, fora dos muros da cidade, são mais populares do que aqueles que habitam na urbe, que é o lugar mais fortificado onde estão as fortalezas. Assim, pois, é manifesto que a diversidade contribui para a divisão e a sedição na cidade. Pois, assim como na guerra uma pequena passagem de fossos, e qualquer pequena abertura, dispersa o exército ou a linha de batalha, e interrompe a sua ordem, assim toda diversidade e dessemelhança na cidade produz sedições. Mas deve-se considerar que a dessemelhança que mais causa sedição é a dessemelhança da virtude e da malícia, porque inclinam imediatamente a fins diversos. Depois destas, porém, as riquezas e a pobreza; e assim, ulteriormente, outra dessemelhança segundo outras coisas, que pode observar-se entre muitas. Mas esta é a diferença: que umas mais, outras menos produzem sedições. Sob o próprio membro, porém, contém-se a causa que já foi dita.