Lição 8
A origem do reino e da tirania.
700. Resta, porém, tratar por acréscimo da monarquia: por que causas se corrompe e por quais coisas é apta a conservar-se. Ora, quase semelhantes ao que foi dito acerca dos regimes políticos são também as coisas que acontecem acerca dos reinos e das tiranias: pois o reino é conforme a aristocracia, ao passo que a tirania se compõe da oligarquia extrema e da democracia; por isso é também sobremaneira nociva aos súditos, como que composta de dois males, tendo as transgressões e os pecados que vêm de ambos os regimes.
701. Ora, a geração de cada uma das monarquias surge logo dos contrários. Pois o reino surge para auxílio prestado pelo povo aos homens equânimes, e institui-se um só rei dentre os equânimes segundo a excelência de virtude, ou das ações que provêm da virtude, ou segundo a excelência de tal linhagem.
702. A tirania, porém, surge do povo e da multidão contra os notáveis, para que o povo em nada seja molestado por eles. E isto é manifesto pelo que aconteceu: pois quase a maior parte dos tiranos surgiu dos demagogos, como se diz, tornados dignos de crédito por se oporem aos notáveis. Pois estes constituíram deste modo as tiranias em cidades já engrandecidas.
703. As tiranias, porém, anteriores a estas, surgiram de reis que transgrediam as tradições pátrias e apeteciam um principado mais despótico. Estas, porém, surgiram dos que eram eleitos para os principados principais: pois antigamente os povos instituíam fundadores do povo e supervisores por muito tempo. Estas, porém, surgiram das oligarquias que elegiam algum único senhor para os máximos principados.
704. Pois em todos esses modos havia meios de realizá-lo com facilidade, se apenas o quisessem, por causa da potência preexistente: em uns, o principado régio; em outros, aquele que é conforme a honra. Fídon, junto de Argos, e outros tiranos constituíram-se existindo o reino; os que estavam junto da Jônia, e Fálaris, a partir das honras. Panécio, em Leontinos, e Cípselo, em Corinto, e Pisístrato, em Atenas, e Dionísio, em Siracusa, e outros do mesmo modo, a partir dos demagogos.
705. Pois, como dissemos, o reino foi instituído segundo a aristocracia: pois é segundo a dignidade, ou segundo a linhagem, ou segundo o benefício, ou segundo essas coisas e a potência. Pois todos, quando tinham beneficiado, ou eram capazes de beneficiar cidades ou povos, alcançaram esta honra: uns impedindo, na guerra, que fossem escravos, como Codro; outros libertando, como Ciro; ou tendo instituído uma região, como os reis dos lacedemônios, e dos macedônios, e dos molossos.
706. Pois o rei quer ser guardião, de modo que os que possuem bens nada de injusto sofram, e o povo nenhuma injúria suporte.
707. O tirano, porém, como se disse, muitas vezes nada de comum considera, senão por causa da própria utilidade. Ora, a intenção do tirano é o que é deleitável; a do rei, porém, o que é bom.
708. Por isso, dos excessos, os que dizem respeito ao dinheiro são próprios do tirano; os que dizem respeito à honra, mais próprios do rei. E a guarda do rei é de cidadãos; a do tirano, porém, por meio de estrangeiros.
709. É manifesto que a tirania tem os males tanto da democracia quanto da oligarquia. Da oligarquia, porque o fim é a riqueza; pois só assim é necessário também que a guarda e as delícias permaneçam; e nada confiar à multidão; por isso fazem também a retirada das armas. E ter suspeita da turba, e afastá-la da fortaleza, e mantê-la dentro de casa é comum a ambas, à oligarquia e à tirania.
710. Da democracia, porém, vem combater os notáveis e corrompê-los oculta e manifestamente, e bani-los, como que maquinadores e impedidores contra os principados; pois destes acontece surgirem também as insídias, querendo uns governar; donde também o conselho de Periandro a Trasíbulo foi o arrancar das espigas que sobressaíam, como se fosse oportuno sempre eliminar os que sobressaem.
Depois que o filósofo determinou as causas e os princípios da corrupção e da salvação das repúblicas em que muitos dominam, determina as causas e os princípios da corrupção e da salvação daquelas em que um só domina, como são as monarquias. E divide-se em duas partes. Na primeira determina quais são as causas e os princípios da corrupção e da salvação das repúblicas monárquicas. Na segunda mostra qual delas é de menor duração, ali, e de todas etc. A primeira em duas. Na primeira antepõe seu intento. Na segunda prossegue, ali, mas surge a geração etc. Na primeira diz que, depois de determinado quais são os princípios da salvação e da corrupção das repúblicas em que muitos dominam, resta, por consequência, considerar acerca da monarquia, a saber, quais são as causas e os princípios pelos quais se corrompe, e quais são os princípios e as causas pelos quais é apta a conservar-se. Ora, aquilo que acontece acerca da monarquia régia e da tirania é semelhante ao que foi dito das outras repúblicas. Pois o reino convém com o estado dos melhores. Com efeito, assim como se assume o príncipe segundo a virtude no estado dos melhores, assim também no reino. A tirania, porém, compõe-se do estado dos poucos último, que é o pior entre todos os estados dos poucos, e do estado popular último, que igualmente é o pior entre todos os estados populares; por isso a própria tirania é muito nociva aos súditos, sendo composta de dois males, e tendo os pecados e as transgressões de uma e de outra.
Em seguida, quando diz mas surge, prossegue; e divide-se em duas partes. Na primeira antepõe algo acerca dessas monarquias, das quais algumas coisas foram ditas antes. Na segunda prossegue acerca das causas da corrupção e da salvação delas, quando diz, assim, pois etc. Acerca do primeiro faz duas coisas. Primeiro mostra de que se compõe cada monarquia. Segundo declara algo dito acerca da tirania, ali, mas que a tirania etc. A primeira em duas. Na primeira faz o que foi dito. Na segunda mostra o que se pretende em cada uma, quando diz: mas a tirania etc. Ainda a primeira em duas. Na primeira declara de que se compõe cada monarquia, para que apareça de que se corrompe e se salva. Na segunda declara algo dito, ali, mas, como dissemos etc. Ainda a primeira em duas. Na primeira mostra de que se compõe o reino. Na segunda, de que a tirania, ali, mas a tirania etc. Na primeira diz que cada monarquia gera-se dos contrários. Pois o reino foi feito para auxílio dos bons contra a multidão, para que a multidão não oprimisse os próprios homens de bem; e assume-se o rei dentre os virtuosos, sobressaindo segundo a virtude ou na obra da virtude; ou assume-se segundo a nobreza de linhagem, para que estes não sejam oprimidos pela multidão.
Em seguida, quando diz mas o tirano, mostra de que se gera a tirania. E primeiro, de que agora se gera. Segundo, de que se gerava, ali, mas as que foram antes etc. Diz, pois, que o tirano foi assumido pelo povo, e a partir do povo e da multidão contra os ricos e os notáveis, para que o povo não fosse molestado pelos ricos: e isto é manifesto pelo que aconteceu. Pois muitos tiranos, como se diz, surgiram daqueles que eram condutores do povo, nos quais muito confiava o povo por imputarem de bom grado crimes aos ricos, caluniando-os; ora, tais tiranias fizeram-se em cidades já engrandecidas.
Em seguida, quando diz mas as que, mostra de que se gerava antes. E primeiro faz isto. Segundo toca o modo fácil de sua geração a partir do que foi dito, ali, pois em todos havia meios etc. Na primeira diz que, antigamente, as tiranias que se fizeram antes destas, algumas se fizeram de reis que transgrediam as leis e os costumes paternos em que haviam sido criados; e que queriam mais governar com principado dominativo, que é o do senhor para com o servo, querendo usar dos súditos como servos. Pois aconteceu que alguém, existindo deste modo, começou a tiranizar e a oprimir os súditos, e assim, de rei tornou-se tirano. Às vezes, porém, a tirania fez-se daqueles que haviam sido eleitos para principados mais excelentes e poderosos. Pois antigamente o povo instituía muitos governantes e supervisores do povo, ou reitores. E acontecia a estes que alguns mais perversos atraíam a si o domínio da cidade e tiranizavam. Às vezes também a tirania fez-se da potência dos poucos, elegendo os homens um poderoso para os máximos principados, o qual depois tiranizava. Por todos esses modos fazia-se antigamente a tirania.
Em seguida, quando diz pois em todos, toca o modo fácil da geração da própria tirania. E diz que tais tiranias podiam facilmente surgir do que foi dito, porque tinham potência. Pois alguns governavam com principado régio. E é manifesto que tais tinham potência, por isso podiam facilmente tornar-se tiranos. Outros, porém, governavam com principado que é segundo alguma honorabilidade. Tais também tinham potência; por isso podiam facilmente tiranizar. E exemplifica. Pois um que se chamava Fídon, junto de Argos, foi tirano, e alguns outros semelhantemente governantes a partir do principado régio. Aqueles, porém, que tiranizaram junto da Jônia, e Fálaris, foram assumidos a partir dos principados honoráveis do estado dos poucos. Mas Panécio, que tiranizou em Leontinos, e Cípselo, que em Corinto, e Pisístrato, que em Atenas, e Dionísio, que em Siracusa, e outros que do mesmo modo foram tiranos, foram antes condutores pelo favor dos povos. Pois estes tinham potência. Por isso é manifesto que foi fácil que estes fossem tiranos por causa da potência que tinham.
Em seguida, quando diz como dissemos, prova algo dito. Pois tinha dito que o reino é instituído segundo o estado dos melhores: isto se prova. E primeiro faz isto. Segundo mostra qual é o ofício do rei, ali, pois o rei quer etc. Na primeira diz que, como se disse antes, o reino é instituído segundo o estado dos melhores. E isto aparece, porque é instituído segundo a dignidade, ou da virtude, ou da linhagem, ou por causa do benefício prestado à região, ou por causa dessas coisas juntamente com a potência. E isto aparece, porque todos os antigos reis, por assim dizer, quando tinham feito algum benefício à cidade ou ao povo da região, ou eram capazes de beneficiar, receberam esta honra de serem assumidos como rei: pois alguns, como Codro, que combateu contra os adversários da cidade e impediu que fossem escravos deles, tornou-se rei. Outros, porque libertaram da servidão; como Ciro tornou-se rei dos persas, porque libertou da servidão do rei dos caldeus. Outros, porque constituíram a cidade; outros, porque adquiriram a região, como os reis dos lacedemônios, e dos macedônios, e dos molossos.
Em seguida, quando diz pois o rei quer, mostra qual é o ofício do rei. E diz que o ofício do rei é ser guardião da justiça. E quer ser guardião do justo. E por isso recorrer ao rei é recorrer ao justo animado. E isto aparece, porque o rei visa guardar e conservar o bem comum. Ora, isto não pode, a não ser que seja guardião do justo. E por isso seu ofício é ser guardião do justo; de modo que os que têm posses e riquezas nenhuma injustiça sofram dos que não têm, nem o povo suporte alguma injúria dos ricos.
Em seguida, quando diz mas o tirano, mostra qual é o fim em cada monarquia; do que aparece uma diferença entre elas. E primeiro mostra o que cada uma pretende. Segundo manifesta-o pelos efeitos, ali, por isso, dos excessos etc. Na primeira diz que o tirano não visa o bem comum, mas visa o próprio. E a razão disto é que o tirano visa o deleite segundo o sentido; e por isso apetece aquilo pelo qual julga tê-lo: ora, isto é o superexcesso de dinheiro; por isso visa adquirir dinheiro, pois crê ter tudo por meio do dinheiro; o rei, porém, visa o bem comum. Pois chamamos rei àquele que governa por causa do bem da multidão. Ora, tal deve ser virtuoso, e assim não querer injuriar os súditos. É preciso que ele seja rico, para que não seja compelido a receber algo injustamente dos súditos.
Em seguida, quando diz por isso, manifesta o que foi dito, pelos efeitos. E diz que, por causa disto — que o tirano apetece os deleites por causa dos quais apetece o dinheiro — é manifesto que os excessos em receber, além disso, dinheiro, são próprios do tirano. Pois os tiranos visam o bem próprio, não o comum. Mas os excessos de honras são mais próprios do rei. E a razão disto é que o rei deve ser excelente segundo a virtude, e à excelência de virtude se deve a excelência de honra. E por isso pertence ao rei ter honras excelentes; e mais o excesso de honras do que de dinheiro. Ao contrário, porém, é no tirano. E por isto mesmo também a guarda do rei é de cidadãos, mas a do tirano é por meio de estrangeiros. E a razão disto é que o rei domina aqueles súditos que o querem. E por isso confia neles, por isso é guardado por eles; o tirano, porém, como os oprime, domina-os contra a vontade deles; e por isso não confia neles, por isso é guardado por estrangeiros. Poder-se-ia também introduzir de outro modo aquela parte mas o tirano, de modo a dizer que pretende assinalar as diferenças entre o reino e a tirania; e divide-se em três por causa das três diferenças que põe.
Em seguida, quando diz mas que, manifesta algo dito acerca da tirania. Pois antes se dissera que ela se compõe de dois males: isto declara. E primeiro declara que males tem do estado dos poucos. Segundo, que males tem do estado popular, ali, mas da democracia etc. Na primeira diz que é manifesto que a tirania recebe os males que há no estado dos poucos e no da multidão. Do estado dos poucos tem estes males: porque, assim como o fim do estado dos poucos são as riquezas, assim também na tirania. Pois, assim como quem domina no estado dos poucos visa finalmente as riquezas, assim o tirano. Igualmente, o tirano é como que só, sem amigos, assim como quem domina no estado dos poucos. Pois estes, porque oprimem a multidão, são odiados; e por isso são sós, sem amigos; assim o tirano é só, porque não tem amigos. Igualmente, assim como é preciso que os que dominam entre poucos tenham guarda, porque têm muitos inimigos e são sem amigos, assim é preciso que o tirano tenha guarda; e porque isto não pode ser sem riquezas, por isso visa as riquezas. Igualmente, é preciso que ele não confie na multidão, assim como o poderio dos poucos: pois, sendo odiado pela multidão, não confia nela; e por isso não confia nela; e por isto proíbe a multidão de ter armas, assim como os poderosos dos poucos, para que não possa insurgir-se contra ele. Igualmente, tem a turba por suspeita; e por isso a expulsa das fortalezas e põe estrangeiros nelas. Igualmente, compele-a a permanecer em casa e a não ter sociedade entre si, para que não possam maquinar algo contra ele. Todos esses males, pois, são comuns à potência dos poucos e à tirania.
Em consequência, quando diz da democracia, mostra que males tem do estado popular; e diz que do estado popular tem estes males: a saber, atacar os ricos e matar os notáveis; e isto manifesta e ocultamente: pois de ambos os modos o tirano persegue os notáveis. E tem do estado popular combatê-los e bani-los, como aqueles que maquinam e preparam insídias contra o principado. Pois pelos ricos e notáveis fazem-se as maquinações e procuram-se as dissensões, às vezes por alguns, porque querem governar; por alguns, porém, porque procuram por acaso que alguns governem, não querendo obter para si o principado. Donde os tiranos, às vezes, muito os perseguem. Donde Periandro deu conselho a Trasíbulo, tirano, como seu principado pudesse durar: pois recebeu dele o conselho, como se disse no terceiro livro desta obra, de que era oportuno arrancar as espigas que sobressaíam; pelo que se dava a entender que é preciso eliminar os ricos e os notáveis.