Prólogo
Paulo havia pregado aos coríntios e os convertera à fé; permaneceu entre eles, como cremos, por um ano e meio, vendo que por muito tempo e em muitas coisas se devia aconselhar os coríntios, porque aderiam demasiadamente à carnalidade. Enquanto Paulo esteve presente, aderiram com simplicidade aos preceitos dele, a quem ele pregara simplesmente, como a gente simples, sabendo que os mistérios da fé, se lhes fossem revelados, antes prejudicariam do que aproveitariam à carnalidade deles; e por isso julgou melhor que a simplicidade deles fosse cultivada em coisas simples do que corrompida na altura dos mistérios de Deus, dos quais antes hesitariam do que creriam. Mas, tendo Paulo partido de Corinto, introduziram-se entre eles falsos doutores, que inverteram a boa simplicidade da doutrina anterior; doutrina que, por versar sobre razões mundanas, que contradiziam inteiramente a doutrina espiritual, começou a atrair mais e a levar os coríntios a darem-lhe crédito, porque aderiam mais ao mundo do que a Deus, e a destruir neles, pela astúcia da razão humana, o que Paulo edificara seguindo a simplicidade da fé. Os coríntios, porém, desviando-se da instrução de Paulo, precipitaram-se em muitos erros: julgaram que os méritos dos que batizam aproveitam aos batizados tanto mais quanto maiores forem, e prejudicam se forem menores; e deste modo atribuíam ao homem o que era só de Deus, a saber, perdoar os pecados. Daí acontecia que quem fora batizado por um mais digno julgava menos digno quem fora batizado por um menos digno: nisto, certamente, derrogando a Deus. Erravam também porque distinguiam pouco o Corpo do Senhor dos outros alimentos. De novo, porque os homens oravam com a cabeça coberta, e as mulheres com a cabeça descoberta. Havia ainda outro erro: não criam, como Paulo pregara, na ressurreição futura. Eram acusados também porque se ouvia entre eles falar de fornicação, que nem os gentios toleravam; um deles, com efeito, tomara por esposa a sua madrasta; a quem nem corrigindo haviam emendado, nem interditado a participação na Igreja a tão criminoso; mas por uma paciência ilícita pareciam consentir neste incesto. Conhecidos estes erros, Paulo, por meio de Sóstenes, que lhe fora enviado com uma carta pelos irmãos de Cloé, lugar que se contava na arquidiocese dos coríntios, escreveu-lhes esta Epístola, na qual trata dos coríntios que erravam: enumerando os erros deles e reprovando-os com razões adequadas, com a intenção de os afastar desses vícios.