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Capítulo 8

Portanto, nenhuma condenação há agora para os que estão em Cristo Jesus, os que não andam segundo a carne. Pois a lei do espírito de vida, em Cristo Jesus, libertou-me da lei do pecado e da morte. Com efeito, o que era impossível à lei, enquanto enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu Filho em semelhança de carne de pecado, e por causa do pecado condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça da lei fosse cumprida em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito. Pois os que vivem segundo a carne cuidam das coisas da carne; os que vivem segundo o espírito, das coisas do espírito. Porque a prudência da carne é morte; a prudência do espírito, porém, é vida e paz. Pois a sabedoria da carne é inimiga de Deus; não se submete à lei de Deus, nem o pode. Os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele. Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justificação. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por causa de seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis; se, porém, pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Com efeito, não recebestes o espírito de servidão, para estardes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: Abba (Pai). O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Se filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se é que sofremos com ele para sermos também com ele glorificados. Julgo, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não são dignos de comparação com a glória futura que se há de revelar em nós. Pois a ansiosa expectativa da criatura aguarda a revelação dos filhos de Deus. A criatura, com efeito, foi sujeita à vaidade, não de bom grado, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança; porque também a própria criatura será libertada da servidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Sabemos, com efeito, que toda a criatura geme e sofre dores de parto até agora. E não só ela, mas também nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção de nosso corpo. Pois fomos salvos em esperança. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o esperaria? Se, porém, esperamos o que não vemos, aguardamo-lo com perseverança. Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza; pois não sabemos o que devemos pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que perscruta os corações sabe qual é o desejo do Espírito; porque ele intercede pelos santos segundo Deus. Sabemos, porém, que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus, dos que, segundo o seu desígnio, são chamados santos. Pois os que ele previu, também os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, a esses também chamou; e os que chamou, a esses também justificou; e os que justificou, a esses também glorificou. Que diremos, pois, a respeito disto? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria também com ele todas as coisas? Quem acusará os eleitos de Deus? Deus é quem os justifica; quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, que está à direita de Deus, e que também intercede por nós. Quem, pois, nos separará da caridade de Cristo? A tribulação? A angústia? A fome? A nudez? O perigo? A perseguição? A espada? (Como está escrito: Por tua causa somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro) (Sl 43,23). Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores por aquele que nos amou. Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem as Virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a fortaleza, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura alguma poderá separar-nos da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Comentário

Visto que posso servir à lei de Deus com a mente, portanto, agora, no tempo da graça, nenhuma condenação resta àqueles que estão em Cristo Jesus, isto é, que renasceram na fé de Cristo; não porque às vezes sejam bons e às vezes deixem de agir mal, mas porque estão de tal modo em Cristo Jesus que não andam segundo a carne, isto é, não se comprazem nos males, seguindo a carnalidade. Diz oportunamente andar, afastando outra coisa: é impossível, com efeito, não fazer às vezes as coisas da carne; por isso não disse "os que estão segundo a carne", mas os que andam, isto é, os que não se arrependem do mal, mas, acostumando-se, se deleitam nele.

Na verdade nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus; pois a lei do espírito, isto é, ou a que o Espírito Santo dita, ou a própria racionalidade; do espírito, digo, do doador da vida, isto é, que dá viver aqui nas virtudes, de onde provém também a vida eterna; da vida, digo, tida em Cristo Jesus, isto é, por Cristo Jesus, libertou-me da lei do pecado, isto é, do fomes do pecado, e da morte, isto é, do ato do fomes do pecado, para que não praticasse o que o fomes mal aconselha. Na verdade fui libertado da lei do pecado; pois pelo Filho de Deus: Deus, com efeito, enviou seu Filho; não que o Filho estivesse ausente de algum lugar, mas porque Ele, invisível por natureza, tornou-se visível pela carne unida a si, diz-se enviado segundo o nosso conhecimento. Enviou certamente Deus seu Filho, não em carne de pecado, mas em semelhança de carne de pecado, isto é, em carne semelhante à carne pecadora: Cristo, com efeito, suportou toda a matéria da carne, exceto o pecado. E pelo Filho enviado condenou o pecado, isto é, o fomes do pecado, que estava em nossa carne, por causa do pecado, isto é, pelo Filho, que foi vítima oferecida pelos pecados de todos; por isso Cristo também foi chamado pecado: a vítima oferecida pelo pecado, com efeito, chamava-se pecado, ou pelo pecado. Ou assim: condenou o pecado, isto é, Satanás, por causa do pecado que o diabo cometeu na carne de Cristo; o diabo, com efeito, tinha direito sobre todo homem por causa do pecado original; do qual, porque Cristo não era réu (não nasceu, com efeito, na concupiscência da carne), usurpou contra Ele um direito indevido; por isso perdeu o direito que lhe fora concedido sobre todos, e assim, porque se apossou do que não lhe fora concedido, perdeu justamente o que lhe fora concedido.

Condenou certamente o pecado a fim de que a justiça da lei fosse cumprida em nós, isto é, a que a lei prefigurava e não podia cumprir em nós definitivamente; nós que não andamos segundo a carne, isto é, seguindo os desejos da carne, mas segundo o espírito, isto é, segundo o que o Espírito Santo ou a razão dita. Condenou, digo, o pecado; o que, a saber, condenar o pecado, era impossível à lei: a lei, com efeito, era impotente para libertar do original, enquanto nisto, isto é, em cumprir a justificação, a lei se enfraquecia pela carne, isto é, porque seguia a carnalidade. Na verdade a justificação não se cumpre naqueles que andam segundo a carne; pois os que seguem a carnalidade cuidam, isto é, tomam bom sabor nas coisas que são da carne. Daqui em diante, nas passagens seguintes, recomendará longamente a lei espiritual por oposição, deprimindo a carnal. Que diria alguém a respeito, se cuidam das coisas da carne? É certamente grande mal isto; pois a prudência da carne é morte, isto é, ocupar-se das coisas que a carne persuade é morte da alma. Naqueles que seguem o espírito cumprir-se-á a justificação da lei; pois os que são segundo o espírito cuidam, isto é, saboreiam e seguem as coisas que são do espírito. E que diria alguém a respeito? Muito, na verdade; pois a prudência do espírito é vida, isto é, viver aqui nas virtudes, e paz, isto é, tranquilidade do ânimo e sossego das tentações; nem todos, com efeito, os que vivem nas virtudes têm esta paz, mas bem poucos.

Por isso a prudência da carne é morte, porque a sabedoria da carne é inimiga de Deus; enquanto é inimiga de Deus, não pode viver, mas quem antepõe a Deus o bem de sua carnalidade diminui, quanto está em si, o reino de Deus, submetendo-se ao reino da carne. Na verdade a sabedoria da carne é inimiga de Deus; pois não se submete à lei de Deus, mas ao império da carne: não se submete, nem o pode, enquanto aderir à carnalidade. Por que procuro, com efeito, enumerar cada coisa, dizendo: a prudência da carne é morte e inimiga de Deus? Para compreender em poucas palavras: os que estão na carne, isto é, na carnalidade, enquanto aí são retidos, não podem agradar a Deus.

Porque acabava de dizer que os que estão na carne não podem agradar a Deus, para que por isso não atemorizasse os romanos, que, tendo recebido antes a justificação, haviam recaído em alguns pecados, acalma-os lisonjeando-os, insinuando, contudo, claramente o que devem fazer: os que estão na carne não podem agradar a Deus; vós, porém, ó romanos, não estais na carne, nem entendo que estejais na carne, mas no espírito. Declaro-vos, no entanto, no espírito com esta condição: se o Espírito de Deus, que recebestes no batismo, habita, isto é, persevera, em vós; se alguém, não digo de vós, mas quem quer que seja, não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele, isto é, de Deus, isto é, não tem parte com Deus. Aqui o Apóstolo mostra claramente que o Espírito procede do Filho como do Pai, quando diz Espírito de Deus e Espírito de Cristo, e que o Espírito de Deus e o Espírito de Cristo são o mesmo. Se, porém, Cristo, isto é, o Espírito de Cristo, está em vós, o corpo, vosso, está morto, isto é, ainda sujeito à mortalidade por causa do pecado, isto é, ou por causa da pena do pecado, ou para guarda, a fim de que não caiais de novo por elação: o corpo ainda está morto, mas o espírito vosso vive já por causa da justificação, isto é, pelas obras da justiça que exerce o justificado dos pecados. Ao dizer: se Cristo está em vós, insinua que Cristo e o Espírito Santo são o mesmo na substância da Deidade. E não só pelo Espírito que habita em vós tereis a vida do espírito, mas também se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, por esta causa, porque o Espírito Santo nele habitou; se, diz, o mesmo Espírito habita em vós, vivificará também os vossos corpos mortais, tornados imortais pela mesma causa, a saber, por causa de seu Espírito que habita em vós, e que pode e vai fazer assim convosco prefigurou-o em ter já ressuscitado Jesus Cristo dentre os mortos. E se se pergunta por que Cristo foi ressuscitado incorruptível antes de todos, responde-se: porque foi concebido do Espírito Santo, porque não cometeu pecado, e porque por Ele todos hão de ter a incorrupção, era digno que antecedesse a todos no tempo e recebesse mais que todos.

Visto que Deus já vivificou a alma e vivificará o corpo, portanto, irmãos, não somos devedores à carne, isto é, nada devemos já à carnalidade, mas ao espírito; porque pelo espírito vivemos e ainda seremos vivificados. Devemos, sim, à carne o que lhe é necessário, como sustento e cobertura, mas não de modo a vivermos seguindo a carnalidade; se, pois, viverdes segundo a carne, não sereis vivificados, mas morrereis; se, porém, pelo espírito fizerdes mortas as obras da carne, vivereis, tanto aqui segundo a alma quanto no futuro segundo a incorrupção do corpo. E deveis mortificar, pois sois conduzidos pelo Espírito de Deus; e realmente vivereis, porque sereis filhos de Deus; o que diz assim: na verdade, se mortificardes a carne pelo espírito, vivereis; pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus (o que é mortificar as obras da carne), esses são filhos de Deus, e esta é a vida eterna.

Depois de ter recomendado bastante a lei do espírito, mostra quanta utilidade nos vem pelo Espírito Santo, o que já em parte mostrou acima; o que diz assim: na verdade sois filhos; não recebestes, com efeito, o espírito de servidão, de modo que sejais mais servos e sirvais de novo no temor; enquanto estáveis sob a lei, servíeis pelo temor das penas que a lei ameaçava; quem serve, porém, por temor da pena, evita a pena, mas não merece a glória: não recebestes certamente o espírito de servidão, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, isto é, pelo qual somos adotados como filhos de Deus; no qual, Espírito que nos ensina, clamamos: Abba (Pai). Abba é hebraico e significa o mesmo que pai, ou o grego pater. Por isso pôs a voz hebraica e a voz dos gentios, seja grega, seja latina, para mostrar que ambos os povos, o judeu e o gentio, devem servir a Deus em novidade de espírito, e não mais na velhice da letra. Na verdade clamamos no Espírito: Abba (Pai); pois o próprio Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito, isto é, ensina à nossa razão que somos filhos de Deus; se o Espírito não o insinuasse, com efeito, não saberíamos que somos filhos de Deus. Se, porém, somos filhos, seremos também herdeiros.

Eis quantas utilidades nos vêm pelo Espírito: primeiro somos adotados como filhos; depois clamamos; somos também constituídos herdeiros, e não de herança vil, mas herdeiros de Deus, porque Deus nos distribuirá a sua herança, isto é, a suficiência de todo bem. Se perguntamos como somos herdeiros de Deus, já que é costume que o herdeiro o seja pela morte do predecessor, responde-se

que Deus de certo modo morrerá para nós na beatitude futura, segundo o que agora o vemos por espelho e em enigma, mas então o veremos face a face. Herdeiros seremos de Deus, co-herdeiros de Cristo, porque a mesma herança que Cristo, isto é, a incorrupção segundo a carne, receberemos ao nosso modo. Herdeiros, diz, de Deus, como daquele de quem é a herança e que a distribui; co-herdeiros de Cristo, como daquele que conosco tomará parte na herança.

Co-herdeiros de Cristo seremos, digo, com esta condição: se sofremos com Cristo, não com a intenção de louvor ou lucro temporal, mas para sermos glorificados, só com o desejo da glória eterna. Devemos certamente sofrer com Ele para sermos glorificados; pois julgo (e é verdade) que os sofrimentos do tempo presente, isto é, que são temporais, e deste tempo, isto é, tão breve, não são dignos de comparação para merecer a glória futura que se há de revelar em nós; porque nem nós mesmos, que a teremos, entendemos quão digna e grande ela é. Na verdade esta glória se revelará em nós; pois a ansiosa expectativa da criatura, isto é, de toda a Igreja, aguarda a revelação dos filhos de Deus, para que também ela seja revelada entre os filhos de Deus. Se toda a Igreja o aguarda, deve-se crer que será o que aguarda. "A expectativa aguarda" assinala frequência. Chama criatura à Igreja, pois esta é especialmente criatura de Deus, que, ao justificá-la, fez nova criatura. E porque por causa dela todos os bens foram criados, por isso a criatura, isto é, a Igreja, aguarda esta revelação, pois foi sujeita à vaidade, isto é, às misérias da carne, que são vãs; se agora come, daqui a pouco terá fome de novo; se bebe, terá sede de novo, e assim nas demais. E porque vê vãs todas estas coisas, por isso aguarda aquilo em que não haja variedade alguma. Foi sujeita à vaidade, não de bom grado, porque não quereria sofrer estas vaidades; e, embora não de bom grado, suporta, contudo, por causa daquele que a sujeitou a estas misérias, para que não perecesse de novo por soberba. Sujeitou-a, digo, na esperança, posta em esperança, para que tivesse a esperança de escapar desta vaidade; na esperança, digo, porque (isto é, pois) também a própria criatura, como Cristo, será libertada da servidão da corrupção, isto é, da variabilidade, transferida da servidão para a liberdade, da corrupção para a glória dos filhos de Deus.

Digo bem: não é sujeita de bom grado; pois sabemos que toda a criatura, isto é, a Igreja, geme no ânimo e sofre dores de parto, isto é, trabalha com o máximo esforço, operando, como a parturiente que espera o fruto do trabalho; sofre dores de parto, digo, até agora, porque desde o primeiro justo a Igreja esteve sempre em trabalho, até este tempo. A criatura geme certamente, e não só ela, mas também nós mesmos, que somos de tão grande dignidade que somos reputados até deuses; nós, digo, que temos as primícias do Espírito, porque na Igreja primitiva recebemos o Espírito Santo antes de todos e mais abundantemente, mais abundantemente também que os Profetas que nos precederam; não falavam, com efeito, sempre pelo Espírito Santo, porque às vezes o Espírito Santo se retirava deles, e predisseram coisas falsas, como Natã em certa ocasião e alguns outros; mas os Apóstolos nunca foram privados do Espírito Santo, uma vez recebido. Nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, que somos tão dignos, também nós mesmos somos tão frágeis que gememos como a criatura: e, para que não se julgasse que gemiam por compaixão dos súditos, e não por si, determina: gememos, digo, em nosso íntimo, isto é, oprimidos pelas tentações que nos conturbam interiormente. Primeiro nota a dignidade, depois a fragilidade. Com isso o Apóstolo muito consola a Igreja e convida à paciência, ao dizer que os Apóstolos são oprimidos pela mesma fragilidade que oprime os súditos.

Acrescenta ainda a grande consolação que têm, dizendo: gememos, digo, aguardando a adoção de filhos de Deus, isto é, para sermos adotados como filhos de Deus. A adoção é dupla: a primeira, pela qual Deus perdoa os pecados e justifica; a segunda, pela qual, na beatitude eterna, fazendo os santos co-herdeiros de Cristo, os remunera: desta segunda insinua Paulo que fala quando diz: adoção, digo, a redenção de nosso corpo, isto é, adoção na qual o nosso corpo, agora frágil, não será corrompido por mutabilidade alguma. Ao dizer aguardando, insinua que fala da adoção futura, não da já tida, pois a coisa já tida não a aguardamos. Deve-se crer também que Cristo assumiu corpo com alma para libertar ambos da corrupção.

Na verdade aguardamos, porque temos esperança; essa esperança tem grande mérito, pois nos faz salvos; o que diz assim: pela esperança, isto é, pelo mérito da esperança, porque esperamos constantemente coisa invisível e até impensável, por este mérito somos salvos e fomos feitos salvos nesta esperança, por outro, não por nós; nossa fragilidade, com efeito, não esperaria se não fosse fortalecida pelo Espírito Santo, porque não saberia, e assim não teria o mérito da salvação. Pela esperança fomos feitos salvos: tamanho mérito tem a verdadeira esperança; mas aquela esperança, isto é, a coisa esperada que se vê, já não é esperança, nem tem mérito de esperança; a esperança, com efeito, é de coisa que não se vê, como se esperamos que alguém nos dê dinheiro: o que esperamos, a saber, termos o dinheiro, ainda não o vemos, embora vejamos o próprio dinheiro; da coisa que já se tem, porém, não há esperança, mas já se tem o uso. Na verdade da coisa que se vê não há esperança; pois o que alguém vê, como ou por que o espera? Não se deve mais esperá-lo, mas usá-lo. Da coisa que se vê não se deve falar de esperança, mas se esperamos o que não vemos, temos o mérito dessa esperança; pois aguardamo-lo com perseverança, isto é, na espera toleramos pacientemente tudo, pelo desejo da coisa que esperamos. E esta esperança, que é de tanto mérito, se tem pelo Espírito Santo.

E não só isto nos dá o Espírito Santo, mas também do mesmo modo, isto é, como a esperança e, pela esperança, a paciência, assim o mesmo Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza; assim como sem o Espírito Santo seríamos fracos na esperança, assim também seríamos fracos na oração, se o Espírito não nos ensinasse. Na verdade o Espírito socorre os fracos; pois não sabemos o que devemos pedir, como convém saber e orar, sabemos, sim, como não convém. Nós certamente não sabemos, mas o próprio Espírito intercede, isto é, nos faz pedir e o insinua; intercede, digo, por nós, isto é, ou em nosso lugar, ou por causa de nossa utilidade, com gemidos inexprimíveis. Diz inexprimíveis os gemidos porque os próprios contemplativos não saberiam, nem poderiam, explicar com quantos e quão grandes desejos ardem. Do que foi dito: "o Espírito intercede", alguns caíram em erros, dizendo o Espírito menor que o Pai e o Filho, porque quem pede é entendido menor que aquele a quem pede; convertendo em heresia a cortesia de Paulo; como alguém que ensinasse a outro com que modo de falar e com que palavras falar ao príncipe, e se dissesse que o instruído fala ao príncipe por aquele: assim o Espírito Santo nos instrui sobre o que e como pedir, e por nós instruídos se diz que pede, não de outro modo.

O que disse acima: não sabemos orar como convém, isto é manifesto no próprio Paulo, que orou contra a salvação para que o espírito de Satanás fosse afastado dele, dado a ele em guarda da humildade; para que, por ter sido arrebatado ao terceiro céu e ouvido o que não é lícito ao homem falar, não se ensoberbecesse; mas, pela fragilidade que o impelia, se lembrasse da pusilanimidade da carne.

O Espírito Santo nos faz esperar, nos ensina a orar e nos faz ser ouvidos; o que diz assim: o Espírito intercede; aquele, porém, que perscruta os corações, isto é, Deus, sabe, isto é, cumpre e aprova o que o Espírito deseja, isto é, o que o Espírito Santo nos faz desejar; sabe, portanto, porque o Espírito intercede segundo Deus, isto é, ensina-nos a pedir o que é bom para Deus conceder. Intercede, digo, pelos santos, isto é, ou em lugar ou por causa dos santos. Perscruta diz-se por semelhança: porque, como quem investiga com muito escrutínio conhece melhor a coisa, assim Deus, não que se afadigue em escrutar, mas como escrutador conhece, e muito melhor, os segredos dos corações.

O Espírito não só dá a esperança, insinua a oração, faz ser ouvidos, mas também tudo o que, próspero ou adverso, acontece aos santos, Ele faz com que seja para o bem. O texto liga-se assim: por nós mesmos não sabemos orar como convém, mas o sabemos pelo Espírito Santo, porque o mesmo Espírito coopera em todas as coisas, prósperas ou adversas, para o bem, isto é, para a utilidade dos santos; ou então: todas as coisas cooperam pelo Espírito Santo para o bem, para dizê-lo passivamente; ou em sentido ativo: todas as coisas cooperam para o bem, e de novo pelo Espírito Santo (o sentido não muda); cooperam, digo, para os que amam a

Deus, e não os que ora amam, ora pecando odeiam, mas para estes, isto é, para tais que amam e que foram chamados por Deus segundo o seu desígnio para serem santos. E porque nem todos os chamados são eleitos, acrescenta: chamados, digo, segundo o desígnio da presciência de Deus, que de modo algum pode ser mudado.

Na verdade foram chamados segundo o desígnio e todas as coisas cooperam para o bem deles; pois Deus os previu desde a eternidade como idôneos para si e dignos de eleição; e porque os previu desde a eternidade, também os predestinou, isto é, preparou-os no tempo oportuno. Esta preparação foi a oferta da graça e a inspiração interna. Previu, diz, e predestinou a serem conformes, isto é, imitadores da imagem, isto é, da pureza de seu Filho; porque neste mundo é lícito imitar o Filho de Deus apenas pela pureza, a quem no futuro os santos imitarão por maior pureza e imutabilidade. Isto dizemos da essência divina do Filho. Se por isso parecemos diversificar o Filho do Pai, porque dizemos imagem do Filho, respondemos que na substância são o mesmo em tudo, mas nas pessoas há variedade, e no fato de que o Pai é sem princípio, não de outro, ao passo que o Filho tem princípio do Pai (embora tenha estado sempre com o Pai), e assim de outro. Se, porém, aqui tratamos de Cristo segundo a humanidade, concordam com acerto as passagens seguintes, que tratam de Cristo somente segundo a carne, e diremos: sejamos conformes à imagem de seu Filho, para que, assim como Ele andou em novidade de espírito, assim também nós andemos. Conformes, porém, segundo ambos os sentidos, de modo que o próprio Filho seja o primogênito entre muitos irmãos, para que, assim como o filho primogênito é senhor da herança paterna e o que os outros filhos têm dela o têm por ele, assim também Cristo é Senhor nesta herança, e todos os que dela têm algo, têm tudo dele e por ele. Chama-se também primogênito dos mortos, porque foi o primeiro a ressuscitar dos mortos, mesmo assim de modo que alguns santos são cridos ter ressuscitado incorruptíveis com Ele. Os que, porém, foram ressuscitados por Cristo não ressurgiram dos mortos, porque haviam de morrer de novo.

E não só previu, mas os que predestinou, a esses também chamou; porque, depois de os

ter inspirado, aplicou chamadores interiormente aos preparados, cuja chamada seria em vão se o espírito não operasse interiormente. E os que chamou, a esses também justificou, remitindo os pecados, infundindo a graça; e os que justificou, a esses também glorificou no futuro, quando reinarão com Ele; ou então, "glorificou" diz-se segundo a certeza da coisa futura, e segundo alguns que já reinam com Deus, quanto às almas.

Visto que Deus previu, preparou, justificou e por fim glorificará os seus eleitos, que diremos, pois, a respeito disto? Há alguma coisa que possa contrariar esta disposição divina? Contra isto nada pode ser dito, porque Deus é por nós, e se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem pode perverter, para que não se cumpra o que Deus preordenou a nosso respeito? Na verdade Deus é por nós; pois é ele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou, isto é, dispôs que fosse entregue à morte por todos os seus eleitos. E, tendo feito coisa tão difícil como entregar à morte por nós o Filho caro mais que todos os filhos, como, isto é, por que razão não nos daria também com ele todas as coisas que restam, juntamente com aquele Filho, a quem teve por muito mais caro que toda coisa, que nos deu no momento da morte? Não se deve crer que quem deu o Filho vá negar-nos o que é menor que o Filho.

E visto que Deus nos amou tanto a ponto de entregar o Filho por nós, quem acusará agora os eleitos de Deus? Acusar é contra o eleito dispor como seja subvertido, como Satanás, vendo Jó abundar em bens terrenos, porque julgou que Jó estava retido a eles em sua mente, tramava como, demolindo-lhe os bens, destruísse a justiça dele pela impaciência nascida da perda dos bens; mas, porque Jó era eleito, Satanás não pôde. Desde o princípio, com efeito, desde que disse: «Porei o meu trono ao Aquilão» (Is 14,13), sempre trabalhou por destruir o reino de Cristo, no qual ainda perversamente persevera. O diabo quer acusar, mas não pode; Deus pode, mas não quer; Deus é quem os justifica. Quem os condenará? Satanás quer condenar, mas não pode; Cristo poderia, mas não quer; o que é manifesto por isto: Cristo Jesus é quem morreu por nós; e não só isso, mais ainda, ressuscitou, para nos fazer ressurgir também a nós; que está à direita de Deus, onde também nos colocará consigo; que também intercede por nós, estando à direita do Pai: quem fez e faz tudo isso por nós, deve-se crer que nos condene? Diz-se que Cristo intercede não porque clame com voz, mas a humanidade assumida, que está aos olhos de Deus, sempre bate a Deus e o faz lembrar-se de cumprir aquilo por que quis que o Filho assumisse a carne; como um legado, só pela representação da pessoa de sua legação, faria lembrar-se aquele a quem fora enviado, por se lhe representar.

Visto que Deus previu, justificou, etc., quem, pois, nos separará da caridade de Cristo, de modo a perverter assim o desígnio de Deus? Separar-nos-á a tribulação, isto é, qualquer aflição da carne? Ou a angústia, isto é, a ansiedade do ânimo? Ou a perseguição de lugar em lugar? Ou a fome? porque muitas vezes teve fome, a ponto de lhe causar tédio viver; ou a nudez? ou o perigo, isto é, a ameaça de morte? Ou a espada? ou a própria morte? Nenhuma destas coisas nos separará, como está escrito no livro dos Salmos: porque (esse "porque" liga-se ao que segue) por tua causa somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro (Sl 43,22); não as que se reservam para a procriação, mas as destinadas ao matadouro, isto é, que são estéreis e são mortas. E se somos mortos por causa de ti, é certo que de ti não seremos separados; mas que importa se somos mortos? Em todas estas coisas, a tribulação, a angústia e as demais, somos mais que vencedores, por aquele, ardendo de amor por Ele, que nos amou. Na verdade venceremos; porque nem a morte, isto é, a ameaça de morte, nem a vida, isto é, a promessa de vida ou de glória do mundo, nem os Anjos, que exercem a legação de Deus, nem os Principados, isto é, nem aquela ordem que tem principado mesmo sobre os Anjos, nem as Virtudes, isto é, nem aquela ordem cujo ofício é operar milagres; ou estas coisas, se quisermos, entendemo-las dos anjos maus (entre os quais também há distinções de ofícios, pois de cada ordem alguns caíram), de modo que digamos: nem os anjos maus, cujo ofício é cumprir legações, nem os principados, que no gênero dos maus presidem aos anjos súditos; nem as virtudes, pois os espíritos maus fazem milagres; nem as coisas presentes, isto é, atuais, sejam prósperas ou adversas, nem as futuras, bens ou males deste mundo, nem a fortaleza, isto é, a violência de qualquer fortíssimo, nem a altura, isto é, a promessa de honra, ou "altura" como aquela em que o diabo se mostrou purpurado e resplandecente de diadema; nem a profundidade, isto é, ainda que, aberto o inferno, me ameaçasse com o precipício dele, nem outra criatura alguma, isto é, se fizessem uma criatura nova e nunca vista: nenhuma de todas estas coisas poderá separar-nos da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.