Capítulo 10
Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus são, na verdade, em favor deles, para a salvação. Pois lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não segundo a ciência. Com efeito, ignorando a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus. Pois o fim da lei é Cristo, para a justiça de todo aquele que crê. Moisés, com efeito, escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei viverá por ela (Lv 18,5). Mas a justiça que vem da fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (Dt 30,12), isto é, para fazer Cristo descer; ou: Quem descerá ao abismo? isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos. Mas que diz a Escritura? Perto de ti está a palavra, em tua boca e em teu coração (Dt 30,14); esta é a palavra da fé que pregamos. Porque, se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz a confissão para a salvação. Diz, com efeito, a Escritura: Todo aquele que nele crê não será confundido (Sl 118,16). Pois não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam; porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 2,32). Como, então, invocarão aquele em quem não creram? Ou como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam o bem! (Is 52,7). Mas nem todos obedecem ao Evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? (Is 53,1). Logo, a fé vem do que se ouve; e o que se ouve, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura não ouviram? Pelo contrário: Por toda a terra se espalhou o seu som, e até os confins do mundo as suas palavras (Sl 18,5). Mas pergunto: Porventura Israel não o conheceu? Primeiro Moisés diz: Eu vos provocarei a ciúme com um povo que não é povo; com uma nação insensata vos irritarei (Dt 32,21). E Isaías ousa dizer: Fui achado pelos que não me procuravam, manifestei-me aos que não perguntavam por mim (Is 65,1). Mas a respeito de Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo incrédulo e rebelde (Is 65,2).
Comentário
Para que, por ter acabado de dizer: Israel não chegou à lei da justiça, mas tropeçaram em Cristo, não se julgasse que o Apóstolo dizia que os judeus estão por isso reprovados e que não podem mais salvar-se, diz que ora por eles, por quem certamente não oraria se os soubesse reprovados diante de Deus; por isso diz: embora os judeus tenham tropeçado em Cristo, contudo, irmãos, o desejo do meu coração é por eles, isto é, tenho boa vontade para com eles, que, se se arrependerem, confio que serão salvos; e não só o desejo, mas também a oração a Deus é por eles, para a salvação, para que a tenham. Por isso certamente rogo a Deus por eles, porque lhes dou testemunho de que têm com certeza zelo de Deus, isto é, amor de Deus; ou então, zelo, isto é, indignação contra os santos, por zelo de Deus e de sua lei; julgando, com efeito, que assim se deve defender a sua lei, perseguem os santos: têm certamente zelo de Deus, mas não segundo a ciência; não amam, com efeito, a lei com ciência, nem assim se indignam em favor da lei; por isso diz o bem-aventurado Pedro: «Sei, irmãos, que o fizestes por ignorância, etc.» (At 3,17). Na verdade não segundo a ciência; pois eles, ignorando a justiça de Deus, isto é, que toda justificação vem somente de Deus, e procurando estabelecer, isto é, confirmar a sua própria, de modo a serem justificados pelas obras carnais da lei; justiça que seria, certamente, não de Deus, mas deles; procurando isto, não se sujeitaram à justiça de Deus, isto é, a Deus que justifica; antes, derrogando a Deus, atribuíam a si a justiça que é de Deus. Na verdade não se sujeitaram à justiça de Deus; pois não quiseram sujeitar-se a Cristo, que é para a justiça de todo aquele que crê, isto é, que justifica todo crente; Cristo, digo, que é o fim da lei, tanto segundo o seu cumprimento quanto porque, vindo Cristo, aquela lei findou e agora, por Cristo, tem lugar a graça.
Na verdade Cristo é para a justiça, pois a lei não é para a justiça; Moisés, com efeito, escreve que o homem que praticar a justiça que vem da lei, isto é, as observâncias carnais que a lei prescreve, viverá por ela (Lv 18,5), pela lei, isto é, só terá do cumprimento da lei carnal que não morrerá pelo julgamento da lei; quem cumpre a lei, com efeito, apenas evita a pena, mas não é por ela justificado. Da justiça da lei assim diz; mas a justiça que vem da fé, o mesmo Moisés assim diz: Não digas em teu coração, isto é, nem creias com o coração nem digas com a boca isto: Quem subirá ao céu? (Dt 30,12), isto é, não duvides de que alguns subiram ao céu e de que ainda subirão quaisquer justos; dizer isso (quem subirá ao céu) é fazer Cristo descer do céu, isto é, negar que Cristo tenha subido ao céu. Ou não digas em teu coração: Quem descerá ao abismo, isto é, ao inferno? porque dizer isto é fazer Cristo subir dentre os mortos, isto é, dizer que nem Cristo morto desceu ao inferno, nem dali tirou Abraão e seus santos: duas coisas contrárias à fé. Isto não creias, mas crê o que segue; que diz, com efeito, a Escritura pelo mesmo Moisés? Perto de ti está a palavra, em tua boca, isto é, está preparada a palavra da doutrina; ou então, a Palavra de Deus, Cristo, em tua boca, para que o confesses e racionalmente o defendas. E esta mesma palavra está perto também em teu coração (Dt 30,14), para que creias nela; e esta palavra que digo estar perto é a palavra da fé, isto é, a doutrina apta a ser crida, ou Cristo, em quem convém crer; palavra que pregamos. Pregamos isto, a saber: se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, e quaisquer coisas impossíveis creias a seu respeito, e que nem a lei da natureza pôde obstar-lhe; se isto, diz, confessares e creres, não só viverás a vida presente, como pela lei, mas também serás salvo eternamente.
Na verdade, se creres com o coração, serás salvo; pois com o coração se crê para a justiça, isto é, para a justificação dos pecados; quem foi justificado está seguro da salvação. E na verdade, se confessares com a boca, serás salvo; pois com a boca se faz a confissão para a salvação. Pôs salvação porque parece maior, para a confissão da boca; confessar isto, a saber, a Deus, era coisa grande e principal no tempo do Apóstolo, com a perseguição furiosa; tempo em que muitos que criam sinceramente não ousavam falar abertamente nem confessar.
Prova que a crença do coração justifica pela autoridade da Escritura, sem determinar, contudo, de que escritura se trata; mas nos salmos encontra-se muitas vezes coisa equivalente: na verdade com o coração se crê para a justiça; pois a Escritura diz: Todo aquele, quer judeu, quer gentio, que nele crê, naquele que Deus ressuscitou dentre os mortos, não será confundido, isto é, não se envergonhará como se tivesse crido mal. Digo bem todo; pois não há distinção diante de Deus entre judeu e grego, isto é, Deus na sua salvação acolhe indistintamente o judeu como o gentio, e o gentio como o judeu. Na verdade diante de Deus não há distinção alguma entre judeu e gentio; porque o mesmo é o Senhor de todos; quem criou um criou também o outro: donde aparece que tem igual vontade para ambos. E como a vontade, assim também tem o poder; pois Ele é rico e retribui abundantemente para com todos os que o invocam. Prova que a confissão é para a salvação; a letra responde, porém, ao imediato: na verdade Deus é rico para com todos os que o invocam; pois todo aquele, quem quer que seja, judeu ou gentio, que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 2,32).
Visto que é preciso que invoquem para serem salvos, portanto é preciso que primeiro creiam, para depois invocarem; como invocarão, com efeito, aquele em quem não creram? como se dissesse: porque crerão, invocarão. Ou como crerão naquele de quem não ouviram falar?, isto é, porque ouvirão, crerão. E como ouvirão, se não há quem pregue?, isto é, porque lhes será pregado, ouvirão. E como pregarão, se não forem enviados?, isto é, porque Deus os enviará, pregarão. Com todas estas interrogações pretende que tudo venha da graça de Deus, desde o princípio da vocação até a salvação deles; quando diz, com efeito, que os pregadores foram enviados por Deus, que foram ouvidos, e depois de ouvidos creem, e em seguida invocam, e assim por fim são salvos, insinua que tudo deve ser referido à graça de Deus. Na verdade os pregadores são enviados por Deus, como está escrito em Isaías: Quão formosos são os pés, isto é, a chegada, dos que anunciam, isto é, dos que bem anunciam a paz entre Deus e o homem, dos que anunciam o bem (Is 52,7), isto é, a humildade, a castidade e coisas semelhantes.
Porque havia dito acima que, por terem ouvido, creram, para que não pensássemos que só ouvir bastava para ter a fé, sem operar interiormente o Espírito Santo, diz: embora eu tenha dito que, ouvindo, crerão, contudo nem todos os que ouvem obedecem ao Evangelho; e não digo isto só eu; mas Isaías, sentindo comigo, diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? (Is 53,1), isto é, ou nas coisas que ouviram de nós, ou nas que nós ouvimos de ti e lhes anunciamos? Ao dizer quem creu, insinua que muitos ouviram e que, se não todos, alguns, contudo, creram; e visto que alguns creram, logo a fé vem do que se ouve, isto é, alguns creem porque ouvem. Nem de todo ouvir, porém, se obtém a fé sã, mas do ouvir que se faz pela palavra de Cristo, isto é, segundo a doutrina de Cristo, a fé é salutar.
Embora poucos tenham crido em nossa pregação, digo, contudo: Porventura não ouviram? como se dissesse: do fato de não terem crido são inescusáveis, porque ouviram a palavra da fé; pelo contrário, por toda a terra se espalhou o som, isto é, a fama daqueles pregadores; e não só a fama, mas também as suas palavras, isto é, as mesmas que eles pregavam, foram ouvidas até os confins do mundo: e digo da terra, que é o orbe, isto é, a terra redonda; em toda parte da terra, com efeito, foram ouvidas as palavras dos Apóstolos. Ouviram certamente, como se provou; e não digo só que ouviram, mas digo que também conheceram; o que põe em forma de pergunta, para mais os excitar, dizendo: Porventura Israel, isto é, o povo judaico, não o conheceu? Há dois gêneros de conhecimento: um, pelo qual, conhecendo uma coisa como boa, amamos e aprovamos o bem dessa coisa; e este é o bom conhecimento: outro, pelo qual vemos que a coisa é como se diz, sem poder contradizê-la, e contudo não amamos aquela coisa, mas (o que só podemos) temos para com ela uma vontade iníqua: este é o mau conhecimento que os judeus tiveram a respeito de Cristo.
Prova pela autoridade de Moisés que os judeus conheceram a Cristo, dizendo: na verdade Israel conheceu; pois primeiro Moisés, primeiro no tempo segundo os escritos, ninguém, com efeito, escreveu profecia antes dele (ao dizer primeiro, insinua que há muitas testemunhas da mesma coisa, embora não as aduza); ou então, primeiro, isto é, principal em dignidade; Moisés, diz, primeiro diz isto: Eu vos provocarei, ó judeus, a ciúme, isto é, à inveja e indignação do ânimo, com um povo que não é povo, isto é, contra a gentilidade, que antes não se dizia meu povo, a quem vós mesmos chamáveis cães; ou então, com um povo que não é povo, isto é, contra a gentilidade a quem farei não-povo, isto é, não a deixarei como foi gerada, mas a farei nova criatura, regenerada pela água e pelo Espírito Santo. E não só vos conduzirei para que vejais, mas também vos irritarei, para que os persigais; irritarei, digo, com uma nação, isto é, contra a gentilidade, insensata, isto é, que antes era insensata; porque, embora muitos filósofos dos gentios tivessem ciência das coisas mundanas, eram, contudo, insensatos, porque ignoravam a verdade do culto divino. Pelo fato de os judeus verem cumprida a profecia de Moisés, ao invejarem os gentios feitos cristãos, que abandonam a idolatria e seguem a nova lei, reconhecem que chegou aquele tempo de que Moisés predizia isto, mas a amargura deles não quer aquiescer ao verdadeiro conhecimento.
Moisés diz isto dos judeus; Isaías, porém, ousa e diz isto sobre a salvação dos gentios e a reprovação dos judeus: ousa certamente; este Isaías, com efeito, porque mais manifestamente que os demais profetizou a salvação dos gentios, muito sofreu dos judeus e por fim foi morto por eles; por isso diz: ousa, isto é, sem temor, mas com audácia diz: Fui achado pelos que não me procuravam (Is 65,1). Ao dizer-se achado e não procurado, que parecem repugnar, mostra que os gentios encontraram a salvação somente pela misericórdia de Deus. Fui achado, digo, pelos gentios que não me procuravam pela razão natural, que lhes dera para me entenderem; e manifestei-me a estes abertamente, isto é, posto à vista de todos; a estes, digo, que não perguntavam por mim, isto é, pelo conhecimento de mim a algum que entendesse; se, com efeito, me procurassem por sua razão e não bastassem para conhecer, seria oportuno que perguntassem a quem entende o que eles entendiam menos. Assim diz Isaías dos gentios; a respeito de Israel, porém, isto é, do
povo judaico, diz isto: Todo o dia, isto é, durante todo o tempo, por meio dos pregadores; ou então, todo aquele dia em que pendi na Cruz, estendi as minhas mãos, isto é, as minhas afeições e obras, a um povo judaico incrédulo; e não só incrédulo, mas também rebelde contra mim. A extensão das mãos de Cristo na cruz significou o amor, com o qual sempre quis abraçar os judeus, e com o qual, mesmo na Cruz, se se arrependessem, estava pronto a perdoar tudo. Eis que de novo em Isaías mostra que os judeus conheceram, uma vez que veem cumprido o que ele disse; mostra também a salvação dos gentios e a reprovação dos judeus.