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Capítulo 1

Paulo, chamado a ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, em todo lugar deles e nosso. Graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças sempre ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus, porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado em vós; de modo que nenhuma graça vos falta, enquanto aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, irrepreensíveis, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais a mesma coisa e que não haja entre vós divisões, mas que sejais perfeitos no mesmo pensar e no mesmo parecer. Foi-me comunicado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Digo isto porque cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus porque a ninguém de vós batizei, exceto Crispo e Gaio, para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; quanto ao mais, não sei se batizei algum outro de vós. Pois Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; não com sabedoria de palavra, para que não se esvazie a Cruz de Cristo. Pois a palavra da Cruz é loucura para os que perecem; para os que se salvam, isto é, para nós, é poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e rejeitarei a prudência dos prudentes (Is 29,14). Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século? Não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Pois, como o mundo, na sabedoria de Deus, não conheceu a Deus pela sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado: escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os mesmos chamados, judeus e gregos, Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus; porque o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Considerai, irmãos, a vossa vocação: não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas Deus escolheu o que é loucura no mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir os fortes; e Deus escolheu o que é vil e desprezível no mundo, e o que não é, para destruir o que é; para que nenhuma carne se glorie diante dele. Dele é que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Quem se gloria, glorie-se no Senhor (Jr 9,23-24).

Comentário

Paulo, etc. Porque era preciso autoridade para reprimir a soberba dos coríntios, põe o nome da autoridade, dizendo: Paulo, nome que é certamente conhecido em toda parte; Paulo, digo, chamado por Deus, isto é, constituído Apóstolo por vocação divina; ou então, chamado por todos, porque já todos sabem que é Apóstolo; Apóstolo, digo, isto é, enviado de Jesus Cristo, isto é, não se intrometendo presunçosamente como os falsos apóstolos, mas enviado de Cristo Jesus; e não enviado por Cristo por oportunidade de exercer a ira, como Saul, mas pela vontade, isto é, pelo beneplácito de Deus: Paulo certamente, e com ele o irmão Sóstenes — não porque Sóstenes tenha escrito algo nesta Epístola, mas para que Paulo mostre por isso que conhece todos os erros, porque quem era deles e convivia entre eles lhos havia anunciado; também para mostrar que Sóstenes lhe anunciou os erros deles, não com ânimo mau contra eles, mas por desejo da correção deles — Paulo, digo, e o irmão Sóstenes escrevem à Igreja de Deus que está em Corinto; à Igreja, digo, aos santificados, isto é, justificados dos pecados no batismo, e tudo isto em Cristo Jesus, não pelo mérito dos que batizam. Como "Igreja" é nome coletivo, junta-se com bastante conveniência ao plural, de modo que digamos: à Igreja, aos santificados; e não só santificados por Cristo, mas pela graça do mesmo, chamados santos, isto é, para serem santificados, de modo que o lavacro e a santificação se atribuam à vocação, e a própria santificação se reconheça como vinda de Deus, e se exclua todo mérito do batizado e do batizante. Paulo escreve à Igreja dos coríntios com todos, isto é, e a todas as Igrejas retidas nos mesmos erros; a todos, digo, os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, naquele que invocam, confessam ser o único que justifica. Não a todas as Igrejas, digo, do mundo, mas às que estão em todo lugar deles, dos próprios coríntios, isto é, a toda Igreja sujeita à metrópole dos coríntios e caída no mesmo erro; Igrejas que, embora sejam lugar dos próprios coríntios, porque lhes são antepostas, são também nosso lugar, porque as sujeito aos coríntios de modo, contudo, a exercer sempre sobre elas a minha providência, como sobre os coríntios. Paulo diz isto para que os coríntios não dissessem: de nós apenas tens de julgar, e não dos súditos. Costume cuja regra ainda hoje se mantém, porque o Sumo Pontífice, embora tenha sujeitado Igrejas a Igrejas, examina, contudo, o erro de todas, mas por direito mediante os metropolitas.

Paulo e Sóstenes escrevem isto aos coríntios: Graça e paz a vós. Como entre os coríntios havia alguns que haviam guardado íntegra a graça que lhes fora dada no batismo, obrando bem, para os quais não se devia desejar o perdão, que já haviam recebido e firmemente conservado; e outros entre eles que, errando, haviam aniquilado a graça recebida, e para estes era necessário repetir o perdão; por esta diversidade de perfeitos e imperfeitos, deve-se desejar esta graça de modo diverso, de maneira que se diga: a vós, que pecastes de novo, seja dada segunda graça, isto é, sejam perdoados de novo os pecados; a vós, porém, que não tornastes vã, pecando, a justificação recebida, seja graça, isto é, a guarda perseverante da justificação recebida. Assim da paz: aos pecadores seja restituída a paz do ânimo; aos que não pecam persevere a tranquilidade do ânimo. Graça, digo, e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, de quem só crede que vem toda justificação, excluído todo mérito do que batiza.

Porque entre os coríntios havia alguns que perseveravam na doutrina de Paulo, não comungando no erro dos outros, fala primeiro separadamente a estes, para que, ouvindo que o seu bem é de tanta autoridade para o Apóstolo, se animem mais ao bem; e também para que por isso se empenhem mais na correção dos irmãos que erram, e para que os que erram obedeçam a estes sem reclamação, quando ouvirem que a perfeição deles é de tanto peso para o Apóstolo. Por isso diz: Dou graças ao meu Deus, isto é, a quem faço meu, não detraindo dele como os falsos apóstolos, que dizem que os méritos do que batiza prejudicam ou aproveitam aos batizados; dou graças ao meu Deus por vós sempre, isto é, em toda a minha oração; dou, digo, graças pela graça, isto é, na consideração da graça de Deus que persevera em vós; graça que vos foi dada em Cristo Jesus, isto é, por Cristo Jesus, que ministra esta graça ao homem reconciliado com Deus. Disto, certamente, dou graças; porque (isto é, que) fostes enriquecidos em tudo, porque tendes copiosamente tanto cada graça como todas; fostes enriquecidos, digo, nele, isto é, por Cristo, cuja misericórdia sozinha dá a graça; em tudo, digo, a saber, em toda palavra, isto é, em toda doutrina dos espirituais, dos medianos e dos simples; enriquecidos também em todo conhecimento literal, moral e alegórico: assim enriquecidos em tudo, assim como o testemunho de Cristo, isto é, a doutrina sobre Cristo atestada a vós pelas Escrituras; assim como, digo, este testemunho foi confirmado, isto é, persevera firmemente em vós. Pois na medida em que mantivestes firme a fé de Cristo, nessa medida Deus vos enriqueceu com as suas graças; confirmação cuja causa e semelhança foi a vossa.

Assim, pois, o testemunho de Cristo foi confirmado em vós, de modo que nenhuma graça vos falta, isto é, que mantendes toda graça com tanta firmeza quanta vos foi transmitida; a vós, digo, que aguardais a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, em razão da segurança que tendes pela justificação conservada, aguardais seguros o dia da vossa dissolução, em que ele se revelará a vós. Enquanto vivemos, com efeito, a nossa alma, cercada de carne, não pode contemplar a essência divina, que contemplará mais plenamente quando for libertada do peso da carne. Esta revelação, quem obra bem aguarda-a seguro; quem, porém, obra mal, antes parece fugir dela do que aguardá-la. Vós aguardais certamente a Cristo, que, assim como vos confirmou no passado, assim também vos confirmará continuamente até o fim, isto é, até o dia da vossa dissolução; e não digo que vos confirmará de modo que possais abster-vos dos veniais, mas vos confirmará irrepreensíveis, isto é, feitos imunes dos capitais; até o fim, digo, a saber, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, que vem a cada justo na dissolução, recebendo a sua alma para a levar. Por isso determinou assim "irrepreensíveis", para que, se por acaso os vissem cair nos veniais, não insultassem e dissessem: eis que agora aparece a justiça daqueles a quem Paulo estimava tanto: na verdade confirmará daqui em diante; pois prometeu, dizendo: «Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos» (Mt 28,20). Deus, que prometeu, é fiel, e não pode mentir; por isso confio que vos confirmará; confio também porque por ele fostes chamados; se, estando vós no pecado, vos chamou por misericórdia, deve-se crer que, já justificados e já merecendo, vos confirmará daqui em diante: por Deus, certamente, fostes chamados à comunhão de seu Filho, isto é, para que, segundo o vosso modo, permaneçais na justiça com seu Filho; e não digo Filho adotivo, mas Jesus Cristo, nosso Senhor, próprio e consubstancial.

Depois de ter corroborado os perfeitos no seu bem, volta o discurso aos que pecaram nas coisas ditas, dizendo: a vós perfeitos louvo pela confirmação, mas a vós que errais rogo, isto é, conjuro com toda constrição, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo; a quem, contudo, chamo irmãos, embora tenhais errado (chama-os irmãos para que, se não os chamasse irmãos, não desesperassem pelo excesso do pecado); rogo-vos, digo, que todos digais a mesma coisa, isto é, que todos confesseis que só Deus pode perdoar os pecados; e, dizendo isto, não haja entre vós divisões, isto é, algum cisma de infidelidade. Não haja divisões, mas sejais perfeitos no mesmo pensar, isto é, na mesma vontade, e no mesmo parecer, isto é, no mesmo saber, de modo que queirais e saibais o mesmo: há, com efeito, os que querem o mesmo e, contudo, não sabem o mesmo; há outros cuja vontade é diversa e, no entanto, é o mesmo o saber. Por isso assim vos rogo, porque foi-me comunicado a vosso respeito, por cartas, meus irmãos (o que repete pela causa dita), pelos da casa de Cloé, certamente, que há contendas entre vós, isto é, que um contende contra o outro. Cloé é nome de um lugar na arquidiocese dos coríntios, de onde esta contenda lhe havia sido comunicada por Sóstenes; nome que aqui põe para que os coríntios não queiram dissimular o seu erro, sabendo que Paulo o soube pelos mesmos que convivem entre eles.

Não só sei que contendeis, mas também as palavras da própria contenda; digo isto porque cada um de vós diz, preferindo-se por seu batizador, um contra o outro; isto certamente diz: eu, na verdade, fui distinguido por justiça muito maior que aquele, que teve um batizador inferior; eu sou de Paulo; eu, de Apolo (que era arcebispo dos coríntios); eu, de Cefas, isto é, de Pedro. Não põe estes nomes porque se gloriassem deles, já que nem tinham visto Pedro, mas porque, se repusesse os nomes daqueles falsos apóstolos de quem se gloriavam, diriam: Paulo, porque tem inveja destes, não quer que nos gloriemos nos nomes deles, mas julgaria bom que nos gloriássemos no seu nome e no dos seus companheiros. Para remover isto, Paulo pôs o seu nome e o de Pedro, mostrando que não queria que se gloriassem em seu nome; e, se não no nome de Paulo, muito menos devem gloriar-se nos falsos doutores. Os infiéis dizem isto: eu sou de Paulo, eu de Cefas; o fiel, porém, diz: eu sou de Cristo, cuja graça sozinha justifica. E porque este diz ser de Paulo, aquele de outro, está Cristo dividido?, e já não é um só, mas muitos são os Cristos; cada um, com efeito, faz de seu batizador um Cristo, ao atribuir-lhe o perdão dos pecados, que é só de Cristo. Ou então: Cristo está dividido, porque dá divisamente os dons de sua graça, justificando menos por este, mais por aquele. Ou então: porque errais dizendo assim, por isso Cristo está dividido, isto é, separado de vós. Vós dividis Cristo, fazendo cada um o seu Cristo, ou crendo que Cristo dá a graça divisamente; mas porventura Paulo — a quem alguns de vós fazem seu Cristo, ou por cujo mérito credes que Cristo dá melhor a um do que a outro — porventura Paulo foi crucificado por vós? Isto certamente não podeis negar, porque fostes redimidos por Cristo, a quem Paulo não tocou. Ou fostes batizados em nome de Paulo? Se atendêsseis diligentemente às palavras do batismo, nas quais confessais só a Deus, entenderíeis que toda justificação vem de Deus.

E visto que este bem do batismo se faz mal para vós que errais, porque eu não fiz este bem, dou graças a Deus meu porque a ninguém de vós batizei, exceto Crispo e Gaio. Por isso não quero ter batizado alguns, para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Com Crispo e Gaio, batizei também a casa, isto é, a família de Estéfanas. Destes me lembro; mas não sei se batizei algum outro. Por isso batizei tão poucos, porque Cristo não me enviou para batizar. Nisto muito humilha o ministério de batizar, quando diz que não foi enviado para isso, que também podem fazer quaisquer infiéis, se a necessidade o exigir; ministério em que, contudo, os coríntios se preferiam reciprocamente uns aos outros. Diz aqui que o sacramento da Igreja foi concedido, em tempo de necessidade, até ao infiel, porque é aquele sem o qual ninguém pode ser salvo; mas os outros sacramentos foram confiados só aos ministros, porque, embora aproveitem à salvação, não são, contudo, aqueles sem os quais o homem não possa salvar-se; porque só a fé do batismo, se conservada íntegra, basta para a salvação.

Aqui termina a questão do batismo e começa o discurso sobre a sua pregação, dizendo: Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; enviou-me, sim, para pregar, não com sabedoria de palavra, isto é, não com a verbosa sabedoria do mundo; e isto para que não se esvazie a Cruz de Cristo. Se eu seguisse as razões da sabedoria humana, que destroem inteiramente que o imortal possa morrer e que o morto possa viver de novo, comprovar-se-ia plenamente que Cristo não provou a morte da Cruz, e assim se destruiria o preço de toda a salvação: por isso não fui enviado com a verbosa sabedoria do mundo, segundo cujas razões a Cruz de Cristo pode facilmente ser esvaziada.

Na verdade, se eu seguisse a sabedoria do mundo, esvaziar-se-ia a Cruz de Cristo; pois a palavra, isto é, a pregação da Cruz, para os que perecem, isto é, os sábios do mundo, que se dizem perecentes porque a sabedoria deles logo perecerá e será destruída, ou porque por causa dessa sabedoria perecerão e serão condenados; a palavra da Cruz é certamente loucura para os sábios deste mundo, porque a razão humana não obriga ninguém a crer que Cristo, que era imortal por natureza, pôde morrer e, morto, viver de novo. Para os que perecem é loucura; mas para os que se salvam, isto é, para nós, que nos afastamos da verbosa sabedoria, para nós, certamente, a palavra da Cruz é poder de Deus; considerando, com efeito, que por tão grande fraqueza (como pela morte) foi vencido o antigo inimigo, cuja força prevalecera sobre todo o gênero humano, admiramos mais nisto o poder de Deus, em que destruiu a fortaleza pela fraqueza, do que se extinguisse um poder menor por uma fortaleza manifesta.

Na verdade Deus não me teria enviado com sabedoria de palavra; assim está escrito em Abdias: Destruirei (diz o Senhor) a sabedoria dos sábios (cf. Ab 8), seja porque a destruirei, seja porque os condenarei, porque aderiram à sabedoria humana. E não só a sabedoria destruirei, mas também rejeitarei a prudência dos prudentes, isto é, a previdência com que astutamente sabem premunir as suas sentenças, para que não sejam quebradas por alguma impugnação; alguns, com efeito, têm a sabedoria da arte, que, contudo, não sabem premunir-se bastante contra as capciosidades de quem objeta; essa prudência certamente rejeitarei, porque a nenhum dos prudentes deste mundo assumirei no ministério da minha pregação.

Ou liga-se onde diz para os que perecem: na verdade perecem; pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios. E na verdade tais prudentes foram reprovados (estas são palavras do Apóstolo); pois onde está o sábio?, isto é, o lógico que confia em sua argumentação? E onde o escriba?, isto é, o ético que trata dos costumes? E onde o inquiridor deste século?, isto é, o físico que investiga a natureza de todas as coisas? Se o lógico disser: se pariu, coabitou com homem, mente; porque Maria concebeu sem coito viril do Espírito Santo. Se o ético ensinar sobre os costumes e o culto dos ídolos, é repelido; porque novos costumes, novo culto foi introduzido. Se de novo o físico disser que repugna à natureza que uma virgem dê à luz e que um morto viva, é réu de mentira.

Visto que o sábio, o escriba e o físico são repelidos, não é por isso manifesto que Deus tornou louca, isto é, comprovou ser louca, a sabedoria deste mundo? Deus repele a sabedoria deste mundo; pois assim lhe aprouve. E, quando ouvires que isto agrada a Deus, não perguntes a causa disto. Aprouve certamente a Deus salvar pela loucura da pregação, isto é, tanto pela coisa louca pregada quanto pelos loucos pregadores, os que creem nele. Por isso lhe aprouve salvar os que creem pela loucura, porque o mundo, isto é, os homens do mundo, não conheceu a Deus pela sabedoria carnal.

Se alguns filósofos entenderam que há um só Deus, que criou todas as coisas, não o conheceram, contudo, na sabedoria de Deus, isto é, a ponto de entender o desígnio de Deus, com que ordem dispunha salvar o homem perdido pela Encarnação do Verbo, e o mais. Ou assim: o fato de o mundo não ter conhecido a Deus pela sua sabedoria isto foi na sabedoria de Deus, isto é, assim aprouve à sabedoria de Deus, de não misturar a sua com a mundana.

Na verdade salvou pela loucura os que creem; pois tanto a coisa pregada foi louca quanto os pregadores foram loucos: na verdade pela coisa louca pregada; pois os judeus, que já tinham conhecido a Deus por sinais, como no Egito, pedem ainda sinais para comprovar ser verdadeiro o que se prega de Cristo; e os gregos, isto é, os gentios, que ignoram a Deus, buscam sabedoria, isto é, querem que se lhes aprove por razões mundanas o que se diz de Cristo; nós, porém, para satisfazer aos judeus, pregamos Cristo, poder de Deus, porque os judeus exigem o poder dos milagres; aos gregos, que buscam sabedoria, pregamos que Cristo é sabedoria de Deus, o que, para uns e outros, judeus e gregos eleitos, é poder e sabedoria, mas para os reprovados é escândalo e loucura; e por isso dissemos que os que creem se salvam por uma coisa louca. Exponhamos agora a letra: na verdade Deus salva pela loucura os que creem; porque os judeus pedem sinais, eles que costumavam conhecer a Deus por milagres; e os gregos buscam a sabedoria mundana, porque não entendem outra; nós, porém, loucos, pregamos coisa louca, a saber, Cristo crucificado: escândalo para os judeus, porque se lhes censura que crucificaram o seu rei; loucura para os gentios, porque não sabem entender por que razão dizemos Deus aquele mesmo que dizemos ter morrido. Para os judeus e gregos reprovados é escândalo e loucura; mas para os mesmos chamados, isto é, eleitos por Deus, judeus e gregos, pregamos Cristo, poder de Deus; pois Deus não pôde operar milagre maior do que destruir a morte pela morte. Pregamos também Cristo sabedoria de Deus; porque não se pode achar maior sabedoria do que destruir a soberba pela humildade e a fortaleza pela fraqueza. Na verdade Cristo é a sabedoria de Deus; pois o que é loucura de Deus, segundo a estima dos homens, é mais sábio que os homens, ou porque os homens não podem alcançar tamanha sabedoria nem operar tão sabiamente. E na verdade Cristo é o poder de Deus; pois o que é fraqueza de Deus, segundo os carnais, é mais forte que os homens, ou porque não sabem entender este poder, ou porque nada podem fazer com tamanha fortaleza.

Ou de outro modo liga-se a letra acima assim: por isso o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria; porque os judeus pedem sinais e os gregos sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado: aos judeus não sinal, mas escândalo; aos gregos ou gentios não sabedoria, mas loucura. E porque na Cruz de Cristo o mundo não entende nem poder nem sabedoria, por isso não conheceu a Deus. E aí termina a sentença. Mas, embora a Cruz de Cristo seja escândalo e loucura para os judeus e gregos reprovados, para os mesmos judeus e gregos chamados, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. A letra seguinte não muda.

Provou em parte que pela loucura, pois pela coisa louca pregada, se salvam os que creem; prova agora a outra parte, a saber, que Deus salvou os que creem por meio de pregadores loucos, dizendo: na verdade Deus salvou pela loucura os que creem; considerai, com efeito, a vossa vocação, isto é, os vossos chamadores, por quem fostes chamados à fé; isto, digo, considerai deles: que não há muitos sábios, etc.; mas Deus escolheu o que é louco no ministério da vossa vocação. Ou liga-se assim ao imediato: na verdade o que é loucura e fraqueza de Deus é mais sábio e mais forte que os homens; pois considerai agora os vossos chamadores; achá-los-eis loucos e fracos. E segundo esta continuação, aquilo que precede, isto é, que o que é louco e fraco de Deus é mais sábio e mais forte que os homens, olha a comprovar que os pregadores foram loucos, como no precedente quis mostrar que a coisa pregada foi louca. No que segue nota-se também o efeito desta loucura e insensatez: considerai, digo, a vossa vocação, isto é, aqueles por quem fostes chamados, irmãos; porque entre eles não há muitos sábios segundo a carne, isto é, a sabedoria carnal; não há muitos poderosos segundo a carne; nem muitos nobres segundo a nobreza da carne. Dizem os santos que Paulo disse "não muitos" porque ele mesmo foi perfeito nas letras seculares, rico de bens terrenos, ilustre pela parentela romana.

Os vossos chamadores não foram nem sábios nem nobres, mas Deus escolheu o que é loucura no mundo, isto é, o que o mundo julga loucura, para confundir os sábios, isto é, para que Deus, por meio dessas coisas, envergonhe os sábios do mundo, vendo que não podem resistir com seus argumentos aos loucos pregadores de Deus. Escolheu também Deus o que é fraco no mundo, isto é, os que no mundo eram de nenhum poder, para confundir os fortes, isto é, para que por esses fracos envergonhe os poderosos do mundo. E o que é vil no mundo, isto é, os que de sua linhagem não podiam gloriar-se, e desprezível, isto é, aqueles em quem não havia reverência alguma pelas pessoas, estes escolheu Deus. E, para enumerar uma a uma, e o que não é, isto é, o que ao mundo parecia nada ser, isto escolheu Deus, para destruir o que é pelo que não é, isto é, o que parece ser bens do mundo. E tudo isso fez Deus assim para que nenhuma carne se glorie, isto é, para que convenha a toda carne não gloriar-se diante dele, a saber, porque, se os pregadores considerassem a sua abjeção, ou os gentios por eles convertidos, entenderiam que nada se deve a si mesmos, mas tudo à graça de Deus. Ou assim, para que não se torça: que nenhuma carne se glorie diante de Deus, isto é, considerando o poder de Deus e a sua fraqueza, nem o pregador nem os súditos atribuam algo aos mestres, mas tudo à graça de Deus.

Mas, embora os pregadores fossem loucos e fracos, vós, contudo, nada tivestes de menos por isso; sois, com efeito, feitos fiéis em Cristo Jesus. E, como aparece tanta fraqueza dos pregadores, vós, contudo, nada tendes de menos: consta por isso que tudo vem do próprio Deus e nada do mérito dos doutores. Aqui se considera otimamente o efeito da loucura e da fraqueza. Vós, digo, estais em Cristo Jesus, Cristo que se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, porque Deus, instruindo-nos por Cristo, fez-nos sábios nos ministérios de Deus; e, para nos fazer sábios, tornou-se para nós justiça, fazendo-nos viver na justiça das virtudes; para que vivêssemos na justiça, tornou-se para nós santificação, pois nos santificou perdoando os pecados; e, para santificar, tornou-se redenção, isto é, deu o preço de seu sangue, com que nos redimisse, para que, redimidos, nos santificasse, santificados nos confirmasse na justiça das virtudes e aos que permanecem na justiça desse a sabedoria. Tudo isto se tornou para nós, para que todo aquele que se gloria se glorie não em si mesmo ou nos doutores, mas em Deus; segundo o que está escrito em Jeremias: «Nisto se glorie o que se gloria: em saber e conhecer-me, porque eu sou o Senhor» (Jr 9,24).