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Capítulo 11

Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo. Louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as minhas instruções, como vo-las transmiti. Quero, porém, que saibais que a cabeça de todo homem é Cristo; a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus. Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é exatamente como se fosse rapada. Se, pois, a mulher não se cobre, seja tosquiada. Mas, se é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada, cubra a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus; a mulher, porém, é glória do homem. Pois o homem não procede da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por isso a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade, por causa dos Anjos. Todavia, nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Pois, assim como a mulher procede do homem, assim também o homem nasce pela mulher; e tudo vem de Deus. Julgai vós mesmos: convém que a mulher ore a Deus descoberta? Não vos ensina a própria natureza que ao homem, se deixa crescer a cabeleira, é desonra; mas à mulher, se a deixa crescer, é glória? Pois a cabeleira lhe foi dada como véu. Se, porém, alguém parece ser contencioso, nós não temos tal costume, nem a Igreja de Deus. Mas, ao dar-vos esta instrução, não vos louvo, porque vos reunis não para melhor, mas para pior. Primeiramente, ouço dizer que, quando vos reunis em assembleia, há divisões entre vós, e em parte o creio. Pois é preciso que haja também heresias, para que se manifestem entre vós os que são aprovados. Quando, pois, vos reunis em comum, não é mais para comer a ceia do Senhor. Pois cada um toma antecipadamente a sua própria ceia para comer. E um tem fome, e outro está embriagado. Porventura não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Pois eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu Corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de cear, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu Sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Pois todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha. Portanto, quem comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe a sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor. Por isso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos dormem. Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Quando somos julgados, somos corrigidos pelo Senhor, para não sermos condenados com este mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, para que não vos reunais para condenação. As demais coisas disporei quando eu for.

Comentário

Depois de ter repreendido neles o que se refere às carnes sacrificadas aos ídolos, para que não participassem delas nem sob tropeço do irmão nem sob veneração do ídolo[1], passa a outra coisa, que haviam costumado fazer com demasiada impudência, a saber, orarem os homens na Igreja com a cabeça coberta e as mulheres descoberta; o que proíbe que se faça daqui em diante entre eles, tanto pela lei da condição deles, como pela autoridade dos santos, como porque a natureza repugna. O texto liga-se assim: por comerdes as carnes sacrificadas aos ídolos, ou sob veneração do ídolo ou sob tropeço do irmão, eu vos repreendo; quanto a isto, porém, louvo-vos, ó irmãos, porque vos lembrais de mim em tudo o que vos mandei; lembrais-vos porque, como vos transmiti as minhas instruções, assim as guardais, sem omitir nada incompleto. E tudo isto ironicamente; porque dificilmente em alguma coisa haviam guardado o seu mandamento. Mas, embora assim vos louve, vitupero-vos naquilo em que o homem com a cabeça coberta e a mulher com a cabeça descoberta se desonram. Antepõe, porém, as razões com que aprova que assim não deve ser, dizendo: para que não desonreis tão perversamente as vossas cabeças, quero que saibais que a cabeça de todo homem, rico ou pobre, é Cristo; tem ele, com efeito, princípio de Deus, não de outro; e assim como na cabeça temos todos os sentidos, e nenhum no corpo exceto o tato, que de novo temos na cabeça, assim todos os nossos sentidos devem consentir e cooperar com a sua cabeça Cristo. Cristo é a cabeça do homem; o homem, porém, é a cabeça da mulher, isto é, o princípio; da costela do homem, com efeito, foi fabricada a mulher, e assim tirou do homem a matéria do seu princípio; homem que só de Deus teve princípio. Cristo é a cabeça do homem; e a cabeça de Cristo é Deus, isto é, o princípio de Cristo: segundo o homem, especialmente cabeça, porque Deus constituiu Cristo imune de pecado pela Divindade que lhe foi unida; segundo a Deidade, Deus é cabeça de Cristo, porque o Filho tem princípio do Pai, o Pai não de outro. E porque o homem tem só Cristo por cabeça, por isso todo homem que ora na Igreja a oração do Senhor, ou quaisquer orações, ou profetiza — diz profetizar ou ensinar o símbolo, em que se prega a ressurreição da carne e a vida eterna, que são futuras; ou então, profetizando, isto é, lendo na Igreja e revelando as coisas passadas ou futuras só acerca de Cristo — com a cabeça coberta, o homem que assim faz, desonra a sua cabeça. Poderíamos dizer aqui que a cabeça do homem é Cristo, que, enquanto age desonestamente, parece, quanto a si, desonrar, cujas ordens despreza; mas, porque a letra seguinte não o permite, dizemos: o homem que ora com a cabeça coberta desonra a sua própria cabeça, enquanto cobre com véu a liberdade que tem, porque está sob ninguém exceto Cristo, véu que é sinal de sujeição vergonhosa.

O homem que ora com a cabeça coberta desonra a sua própria cabeça; mas toda mulher que ora ou profetiza (como acima se expôs) com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça, que deveria sempre cobrir, em sinal do seu pudor, porque a mulher é causa de toda perdição, e sobretudo quando na Igreja se apresenta ao seu juiz, a quem tornou hostil todo o gênero humano, ao consentir com o diabo e impelir o homem a consentir com ele. Na verdade, a mulher não cobrir a cabeça é desonrar a cabeça; pois é exatamente como se fosse rapada, isto é, repartisse os cabelos na fronte, embora seja certo que não queira ser tosquiada. Pôs só "rapada", o que certamente tem por inconveniente, porque sabia que elas de modo algum queriam ser tosquiadas. Na verdade não cobrir a cabeça é ser rapada; pois, se a mulher não se cobre, seja tosquiada; como de modo algum o fará, segue-se que, com a cabeça descoberta, será rapada. Da cabeça descoberta segue-se necessariamente ou ser rapada ou tosquiada; mas se é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada, o que certamente a desonraria, cubra a cabeça, o que lhe convém.

A mulher cubra a cabeça, mas o homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem de Deus, de quem tem forma e princípio; e o homem é glória de Deus, pois, se tiver obrado bem, Deus se gloria nele. O homem é imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do homem, porque deve ser governada pelo homem; e, se for bem governada, tem glória pelo que a mulher bem fez. Na verdade o homem é glória só de Deus, e a mulher glória do homem; pois o homem não procede da mulher, isto é, na primeira criação o homem não teve origem da mulher, que ainda não existia; mas a mulher teve princípio do homem, porque da costela de Adão foi edificada Eva. De novo, na verdade o homem é glória só de Deus, e a mulher do homem; pois o homem não foi criado por causa da mulher, para servi-la, porque só a Deus; mas a mulher por causa do homem, para permanecer, com toda servidão, em auxílio do homem. E porque a mulher foi feita para a glória do homem e para estar sempre sujeita ao homem, por isso a mulher deve ter sempre poder, isto é, sinal de que está sob poder alheio, sobre a cabeça, que deve cobrir em sinal de sujeição; e por causa dos Anjos, isto é, por causa dos doutores da Igreja, que se dizem Anjos porque são núncios de Deus, para que, vista a lascívia das mulheres impudicas, não sejam ilicitamente movidos a elas; ou por causa dos Anjos de Deus, que estão presentes em todos os sacramentos da Igreja, para que não se ofendam com a intemperança de tão grande libido; ou por causa dos Anjos, isto é, dos Patriarcas e dos santos anteriores, que proibiram que isso se fizesse.

Porque acabara de deprimir tanto o sexo feminino, feito em tudo indigno em relação ao homem, agora o levanta e consola, dizendo: embora na primeira criação o homem tenha precedido a mulher, na sucessão posterior da geração, contudo, homem e mulher são iguais; porque nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem podem gerar, mas por participação do outro ambos geram igualmente; e não, contudo, que possam procriar por si, mas tudo no Senhor; o Senhor, com efeito, cria o homem pela conjunção do macho e da fêmea. Na verdade nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem; pois, assim como a mulher procede do homem, assim também o homem nasce pela mulher[2]. Embora eu diga que a mulher é gerada do homem, e vice-versa, tudo isto e todas as coisas vêm de Deus; porque nem o homem nem a mulher podem algo por si sem Deus.

Estas coisas antecipadas leem-se em alegoria, assim: o homem, que na primeira criação foi feito por Deus com grande fortaleza de racionalidade, significa a razão, que deve sempre reger a sensualidade; a mulher, porém, que não foi tão forte quanto o homem, significa a sensualidade, que, bem governada, deve obedecer à razão: o que o diabo, vendo sutilmente que não podia perverter o homem, que mais vigorava pela razão do que amolecia pela sensualidade, atacou a mulher, a quem sentiu mais oprimida pela sensualidade do que erguida pela razão. E segundo isto dizemos assim: o homem não deve cobrir a cabeça, porque o homem é imagem de Deus, isto é, pela força da razão imagina a Deus; e, agindo pela razão, é glória de Deus; Deus, com efeito, é glorificado nos servos que obram bem. A mulher, porém, isto é, a própria sensualidade, é glória do homem, que pela razão imagina a Deus; a sensualidade, com efeito, obrando bem e consentindo na razão, é glória dela. E embora por homem tomemos a razão, por mulher a sensualidade, não negamos, contudo, que ambos estejam em ambos: e a razão na mulher se diz homem, e a sensualidade no homem se chama mulher; nem aqui tratamos da razão e da sensualidade de modo a não olhar sempre às próprias pessoas. O homem deve ser glória de Deus, e a mulher do homem; pois o homem não procede da mulher, isto é, a racionalidade não deve depender da sensualidade, mas a mulher do homem, isto é, a sensualidade da razão. O homem certamente não procede da mulher; e o homem não foi criado, isto é, a razão não foi dada ao homem por causa da mulher, isto é, para que siga a sensualidade; mas a mulher por causa do homem, isto é, a sensualidade foi criada para obedecer à razão. E porque a mulher foi criada por causa do homem, por isso deve ter sinal de poder sobre a cabeça, e por causa dos Anjos, como se disse. Mas, embora eu tenha anteposto o homem à mulher em tamanha dignidade, contudo, nem o homem sem a mulher, nem a mulher sem o homem, isto é, um não precederá o outro no Senhor, isto é, na bem-aventurança, contanto que obrem bem: embora na primeira criação o homem tenha precedido a mulher, na verdade um não precederá o outro na salvação; pois o que acima foi dito, a mulher do homem, o homem não da mulher, em nada prejudicará, uma vez que na sucessão da geração o homem procede da mulher como a mulher do homem, embora na primeira criação a mulher tenha sido gerada só do homem: e tudo vem de Deus, como foi dito.

Provou, segundo a ordem da criação, segundo as instituições dos Pais, que o homem não deve ser velado, nem a mulher descobrir a cabeça; prova o mesmo pela natureza de ambos, que deu ao homem cabelos mais curtos em sinal de liberdade, à mulher prolixos em sinal de pudor a velar: embora alguns homens os tenham mais longos, isto se dá pela arte, não pela natureza; se as mulheres os têm mais curtos, isto é por algum vício, não pela natureza. O texto liga-se assim: provei acima pela ordem da criação que se deve velar a cabeça da mulher; agora julgai vós mesmos, coríntios, o que provarei não dever fazer-se pela natureza; julgai, digo, convém que a mulher ore a Deus descoberta? Certamente não; porque a própria natureza não vos ensina a agir assim, antes o proíbe; e como a natureza o proíbe, se o homem deixa crescer a cabeleira, é-lhe desonra, porque age contra a natureza; se, porém, a mulher a deixa crescer, é-lhe glória; pois a cabeleira longa lhe foi dada pela natureza como véu, isto é, em sinal de véu, que deve estar sempre sobre a cabeça. Provei pela ordem da criação e pela lei da natureza que o homem não deve cobrir a cabeça nem a mulher descobri-la; mas se alguém entre vós parece ser contencioso e não consente em nossas razões, só isto lhe diremos: irmão, nós não temos tal costume, nem o tivemos na sinagoga dos judeus, nem a Igreja de Deus ainda o tem na nova Igreja, de que o homem ore com a cabeça coberta e a mulher descoberta. E porque o costume não o teve, nem ainda o tem, por isso, porque abusas da nossa admoestação, já não só aconselho, mas ordeno com a nossa autoridade que não se faça daqui em diante este inusitado.

Depois de ter coibido os coríntios deste mal, passa a outros em que ofendiam muito pior: seduzidos, com efeito, por falsos mestres, tinham abandonado a instituição de Paulo, que lhes transmitira, sobre a recepção do Corpo e do Sangue de Cristo; os falsos apóstolos lhes haviam persuadido que deviam comungar depois da ceia, porque a essa hora Cristo transmitira estes sacramentos aos seus discípulos para serem participados. Daí tinham caído em muitos males; porque, havendo entre eles cismas, presumiam aproximar-se da unidade do Corpo de Cristo; e outro mal, porque antes ceavam e se embriagavam, e isto na Igreja; e nestas ceias envergonhavam os que não tinham tantos preparativos, e não ministravam aos necessitados; e depois destes males, ingeriam-se à mesa do Senhor. O texto liga-se assim: o que acima foi dito ordeno que não se faça; quanto a isto outro, não louvando, mas antes reprovando, a saber, que vos reunis para a ceia do Senhor, na qual deveríeis fazer-vos um, digo-vos que não é para melhor, como deveríeis, que vos reunis, mas para pior.

E, como são muitos os vossos males, primeiramente antepo isto de todos: que, quando vos reunis em assembleia, ouço que há entre vós divisões e discórdias, exigindo a Igreja a unidade; e, como ouço, em parte o creio, isto é, por causa de uma parte de vós, de quem sei que se gloria nos cismas: creio-o certamente, porque é preciso crer, porque pessoas religiosas mo comunicaram. Ou assim: há divisões entre vós; pois é preciso que haja divisões, isto é, quaisquer discórdias e (o que é maior) heresias; é necessário, com efeito, que venham escândalos, para que os que são aprovados e eleitos por Deus se manifestem entre vós, perseverando nas tentações, e para que igualmente se manifestem os reprovados.

Visto que há divisões entre vós, portanto, quando vos reunis em comum, vós que contradizeis à unidade, já não é, isto é, só pela causa da discórdia não é lícito, comer a ceia do Senhor, isto é, o Corpo e o Sangue de Cristo, que o Senhor transmitiu aos discípulos na ceia; ou então, já, isto é, neste mundo, a ceia do Senhor vos é interditada por causa da discórdia, mas no futuro sereis totalmente condenados. Por causa das divisões não é lícito receber o Corpo de Cristo; também por isso não vos é lícito, porque cada um de vós toma antecipadamente, isto é, presumindo antecipa a sua própria ceia, não só para preparar, mas também para comer. E ainda outro mal: porque um, que não tem de que se prepare, tem fome. De novo outro mal: e outro está embriagado. Mas, comendo assim na Igreja, porventura não tendes casas particulares para comer e beber? as quais, se não tivésseis, seria mais tolerável comer na praça; ou desprezais a Igreja de Deus, na qual vos embriagais, e envergonhais, isto é, infligis vergonha aos pobres que nada têm de que se preparem? E porque agis assim impudentemente, que vos direi? certamente estais sem caridade, desprezadores de Deus, seguidores da gula, etc. Louvar-vos-ei nisto? certamente não louvo, antes vitupero; ou então: louvo-vos em algumas outras coisas, mas nisto de modo algum louvo.

Depois de ter vituperado neles a ordem em que mal haviam costumado, determina-lhes como devem receber os sacramentos de Cristo, a saber, na abstinência; não na embriaguez, mas na dor e na tribulação. O texto liga-se assim: não vos louvo porque recebeis embriagados o Corpo do Senhor; assim, com efeito, não se deveria receber, mas em comemoração da tribulação e morte de Cristo. Mas antes que a isto chegue, recomenda o que vai dizer pela autoridade do Senhor, dizendo: eu recebi do próprio Senhor o que também vos transmiti, e agora de novo transmitirei, a saber, que nosso Senhor Jesus Cristo, naquela noite — a noite é sinal de adversidade e tristeza —, noite em que não banqueteava, não se embriagava, mas era entregue à morte por nossos pecados, tomou o pão, isto é, a verdadeira substância do pão, e dando graças a Deus Pai por isto: porque, como por ele dispusera, redimia o gênero humano e perseverava na obediência ao Pai — nestas palavras com que Cristo deu graças ao Pai diz-se que a substância do pão e do vinho posta no altar passa à verdadeira Carne e ao verdadeiro Sangue de Cristo —, dando graças, digo, partiu aquilo que, uno e inseparável, dura eternamente; mas partiu quando deu o todo a cada um, para insinuar com isso que nós, que somos pessoas diversas, devemos tornar-nos um no amor de Deus. Partiu, digo, e disse: Tomai, isto é, tende isto por aceitável e discuti sutilmente o mistério deste sacramento, para que, como eu por vós, assim também vos alegreis de padecer pelo meu nome e pelos próximos; tomai, digo, e comei: em que Cristo quis insinuar que não nos basta crer, se não vemos gostando quão suave é o Senhor; como comer de nada aproveitaria se não crêssemos. E isto que pouco antes era pão, agora é verdadeiramente o meu Corpo; Corpo que será entregue por vós à morte, embora agora vo-lo apresente imortal e impassível. Deve-se notar que estas coisas são também de tal modo sinais da substância que nelas não se nota qualidade alguma, nem mortalidade nem imortalidade; nem é de admirar, como diz Agostinho, que se levasse imortal em mãos mortais, quando na Transfiguração, quem então e depois foi mortal, mostrou-se na glória da imortalidade e impassibilidade a Pedro, Tiago e João. Comei, diz, o meu Corpo; e fazei isto, isto é, tomai continuamente, não em alegria e embriaguez, mas em memória de mim, para que vós, sempre lembrados da minha Paixão e morte, queirais padecer e morrer por mim.

Do mesmo modo, como o Corpo, tomou também o cálice, depois de cear — aqui insinua que depois da ceia deu o Corpo igualmente —, tomou, digo, o cálice, dizendo: Este cálice, que pouco antes era verdadeira substância de vinho; este cálice é o meu Sangue; e neste meu Sangue está a nova aliança, isto é, a nova promessa; a lei antiga, com efeito, prometia coisas carnais, mas este sacramento do meu Corpo e Sangue promete coisa nova, porque a bem-aventurança espiritual; aliança também nova porque nunca será mudada, de modo que se introduzam outros ritos. E fazei isto, a saber, o meu Sangue, isto é, tomai em memória de mim, isto é, de coração contrito e humilhado, não uma vez, mas todas as vezes que beberdes. E é justo que tomeis isto em memória de mim; porque todas as vezes que comerdes este pão, isto é, o meu verdadeiro Corpo, que retém a espécie e o sabor de pão, para que os que o tomam não o aborreçam; e todas as vezes que beberdes este cálice, isto é, o meu Sangue, que retém por isso o sabor e a espécie do vinho: todas as vezes, digo, que tomardes isto, anunciareis, isto é, representareis a morte do Senhor, com quem sempre deveis compadecer e morrer juntos, fazendo isto até que o Senhor venha ao juízo, e se entregue a vós face a face.

Deve-se notar por que o Senhor Jesus, depois da ceia, celebrada a antiga Páscoa, transmitiu aos discípulos o seu Corpo e Sangue, isto é, a nova Páscoa: o que foi feito em ordem bastante conveniente; se, com efeito, celebrasse primeiro a nova Páscoa, depois a antiga, não pareceria por isso destruir o novo sacramento as coisas antigas, nem que seria o fim das antigas; pareceria insinuar que depois destas novas reconduziria ainda aquelas antigas: para mostrar, porém, que todas as antigas têm fim neste novo sacrifício e que jamais se hão de reconduzir, convenientemente antepôs a antiga Páscoa para destruição e sobrepôs a nova Páscoa, que haveria de permanecer, na qual foi o fim de todas as antigas.

Visto que estes sacramentos devem ser tomados em comemoração e conformidade com Cristo, portanto, quem comer o pão, isto é, o Corpo do Senhor, ou beber o cálice, isto é, o Sangue do Senhor, indignamente, isto é, em cisma, em embriaguez ou em males semelhantes, esse será réu do Corpo e do Sangue do Senhor, isto é, condenável por causa do Corpo e do Sangue de Cristo indignamente recebidos. Para que o homem não se torne réu, examine-se a si mesmo, isto é, examine e julgue-se, sem se comparar com quem obra mal, como se por isso preferisse a sua justiça, mas julgue-se a si mesmo à vista da sua fraqueza: e assim, aprovado, coma daquele pão e beba do cálice. É preciso que o homem assim se examine; pois quem come e bebe indignamente come e bebe não a indulgência, mas a sua própria condenação, isto é, o julgamento para si: e com razão, não discernindo o Corpo do Senhor, isto é, distinguindo pouco do outro alimento o Corpo do Senhor, como não distinguiam os coríntios.

Porque o que antecipara em geral entendera sobretudo dos coríntios, infere das premissas contra eles: porque tomais indignamente o Corpo do Senhor e não o discernis dos outros alimentos, por isso entre vós, ó coríntios, há muitos fracos de febres e paixões semelhantes, e doentes, que são privados da virtude dos membros; e muitos dormem o sono da morte. Porque não nos examinamos, por isso somos assim afligidos; se, porém, nos julgássemos a nós mesmos, isto é, julgássemos os nossos maus feitos, isto é, os condenássemos com o flagelo da penitência, não seríamos julgados, isto é, condenados por eles pelo Senhor; de onde o homem se julga, daí escapa livre ao julgamento de Deus. E embora pela fraqueza e doença sejamos assim afligidos pelo Senhor, contudo, quando somos julgados e, segundo alguns, os de nós que obram mal são condenados, nós, outros, para não pecarmos igualmente, somos corrigidos pelo Senhor; no mesmo juízo em que Deus age contra os ímpios, castiga misericordiosamente os seus: somos corrigidos, digo, para não sermos condenados com este mundo. Por isso não diz "com os coríntios", mas "com o mundo"; entende, com efeito, que aos que pecam os sacramentos recebidos não aproveitam mais do que aos que permanecem no mundo, isto é, ainda na gentilidade.

Visto que os que tomam indignamente são condenados, e porque pela condenação dos ímpios somos corrigidos, portanto, meus irmãos, para que dignamente e bem corrigidos recebais, quando vos reunis para comer a ceia do Senhor, esperai uns pelos outros, isto é, um ao outro, não antecipando a hora fixada para receber a ceia do Senhor; segundo a tradição do Senhor, com efeito, a Igreja costumou comungar no dia da ceia à tarde. Digo que espereis; se alguém tem fome, e negligencia esperar a hora legítima, prefiro que coma em casa a que antecipe a ceia de Cristo antes da hora; não, contudo, que, depois de ter comido, participe da mesa de Cristo. Assim quero que vos espereis mutuamente, para que não vos reunais para condenação, isto é, para que a vossa reunião não vos seja causa de condenação. Estas coisas supradictas agora vos propus, porque sei que sem elas não podeis salvar-vos; as demais coisas, porém, sem as quais, contudo, podeis salvar-vos, mas proveitosas ao incremento da glória, disporei quando eu for.

Notas

  1. O primeiro versículo deste capítulo já foi exposto acima; pois, segundo São Bruno, parece pertencer ao capítulo precedente.
  2. Aqui alguns espreitam as palavras de Paulo, perguntando por que disse "a mulher do homem; o homem não da mulher, mas pela mulher", dizendo que o menino é concebido só do sêmen do homem, sem sêmen da mãe, e que somente pela mulher é acolhido o menino no útero da mãe, e que a mãe não tem ali sêmen, mas só a nutrição do útero; expondo mal as palavras de Paulo, [...] (o texto deste final da nota está corrompido no OCR). (Nota do próprio Autor.)