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Capítulo 1

Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandato de Deus nosso Salvador e de Cristo Jesus, nossa esperança, a Timóteo, amado filho na fé. Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. Como te rogei que ficasses em Éfeso quando eu ia para a Macedônia, para ordenares a alguns que não ensinem doutrina diferente, nem se apliquem a fábulas e genealogias intermináveis, que suscitam questões mais do que a edificação de Deus, que é na fé. O fim do preceito, porém, é a caridade que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida. Dela se desviaram alguns e se perderam em vãs palavras, querendo ser doutores da lei, sem entender nem o que dizem, nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém usa dela legitimamente; sabendo isto: que a lei não foi posta para o justo, mas para os injustos e insubmissos, para os ímpios e pecadores, para os celerados e contaminados, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, fornicadores, sodomitas, plagiários, mentirosos e perjuros, e para o que quer que seja outra coisa contrária à sã doutrina, que é segundo o Evangelho da glória do Deus bem-aventurado, que me foi confiado. Dou graças àquele que me deu forças, a Cristo Jesus, nosso Senhor, porque me julgou fiel, pondo-me no ministério, a mim que antes fui blasfemo, perseguidor e injuriador; mas alcancei misericórdia de Deus, porque o fiz por ignorância, na incredulidade. Superabundou, porém, a graça de nosso Senhor, com a fé e a caridade que há em Cristo Jesus. Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim primeiro mostrasse Cristo Jesus toda a sua longanimidade, como exemplo dos que hão de crer nele para a vida eterna. Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Este preceito te confio, filho Timóteo, segundo as profecias que precederam sobre ti, para que militem nelas a boa milícia, tendo fé e boa consciência, que alguns, rejeitando, naufragaram na fé; dos quais são Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar.

Comentário

Paulo, etc. Prestes a escrever ao discípulo, antepõe a saudação, dizendo: Paulo; nome que é de humildade, Paulo, com efeito, diz-se como "pequeno". Aqui, porém, onde há necessidade de autoridade, é nome de autoridade; Paulo, com efeito, era nome muito conhecido; donde, para mais refutar os falsos doutores, diz: Paulo, Apóstolo, isto é, legado ou enviado — embora todos os santos sejam legados de Deus, sobretudo os Apóstolos assim se chamam, sob os quais está todo o gênero de santos, acima dos quais só se acha Cristo —; Apóstolo, digo, de Jesus Cristo, porque só por Cristo foram enviados os Apóstolos, pelos Apóstolos, porém, os demais santos, como Timóteo por Paulo. Se Paulo é Apóstolo de Cristo, consta que quem contradiz a Paulo contradiz também a Cristo, que enviou Paulo; quem ofende Timóteo, enviado por Paulo, ofende tanto a Paulo como a Cristo. Paulo, digo, Apóstolo de Cristo Jesus segundo o mandato. Põe em outras Epístolas "segundo a vontade", mas, para assinalar maior rigor, pôs aqui "mandato"; queremos, com efeito, certas coisas que não mandamos; as que, porém, mandamos fazer, tanto queremos como parece que proibimos que não se façam; donde diz: segundo o mandato de Deus Pai; Deus Pai, com efeito, mandou que eu fosse Apóstolo: de Deus, digo, nosso Salvador, isto é, que salva os que obedecem ao seu mandato e aliena da salvação os que não obedecem; donde se deve temer pelos que não obedecem ao mandato de Timóteo, porque nem a mim, nem a Deus, que mandou que eu fosse Apóstolo, obedecem, e assim estão alheios à salvação de Deus: segundo o mandato de Deus Pai, digo, e segundo o mandato de Cristo, rei e sacerdote; segundo o homem, digo, que também se imolou a si mesmo no altar da Cruz para nos limpar dos delitos, e se deu a nós para ser imolado cada dia no altar; e rei, porque tanto dá os bens como rege nos bens; de Cristo, digo, Jesus, isto é, Salvador, que tanto no presente salva dos males como no futuro há de dar aos seus a salvação eterna; de Cristo Jesus, digo, autor da nossa esperança, isto é, de recuperar a impassibilidade e a imortalidade, que esperamos recuperar por ele, que elevou a nossa carne, unida em si ao Verbo de Deus, acima de toda criatura, nada deixando acima dela senão a Divindade que lhe adere: a esperança, com efeito, diz-se não das coisas que temos, como a justificação dos pecados no batismo, mas daquelas que cremos ter, como a imortalidade e a impassibilidade por Cristo; a esperança é, com efeito, a espera de um bem futuro, com desejo.

Paulo, digo, Apóstolo, assim e assim deseja, manda, ou algo semelhante, a Timóteo, filho que bem o imita, a quem gerou na fé, porque, sendo infiel, o fez fiel; filho, digo, amado de modo peculiar e especial, porque, embora todo fiel deva ser amado, há contudo alguns entre eles que se devem amar com privilégio de amor. Paulo, digo, manda a Timóteo isto a si, ou a ti, Timóteo: graça, misericórdia e paz — em outras costuma pôr apenas graça e paz, significando ali pela graça o que aqui pela misericórdia, a saber, a remissão dos pecados, que se diz graça porque são perdoados gratuitamente, sem preço nem mérito nosso; diz-se misericórdia a remissão porque pela misericórdia de Deus os pecados são perdoados —; misericórdia, pois, isto é, remissão dos pecados, e paz, isto é, tranquilidade de ânimo, que aqui têm os santos, antegozando por isso a doçura da paz eterna: esta misericórdia e paz, digo, sejam-te perseverantes; não deseja isto porque ignore ter sido feita a remissão dos pecados a Timóteo, e que ele faz parte dos santos, mas para que nisto permaneça.

Estas duas, misericórdia e paz, devem desejar-se a todo fiel e podem advir; esta terceira, porém, isto é, a graça, deve desejar-se só aos prelados e só a eles pode advir; recebe, com efeito, por graça a doação do Espírito Santo, que certamente é dado, não pelos prelados, mas por seu ministério, sem diferença de méritos, sejam justos ou injustos os prelados (contanto que seja pura a sua consagração), àqueles que santificam, se são idôneos para que nele deva habitar o Espírito; «não habitará, com efeito, em corpo sujeito aos pecados» (Sb 1,4). Se se pergunta por que os súditos, por causa dos pecados, não merecem receber o Espírito Santo, quando por ministério dos prelados que são pecadores (contanto que seja justa a sua consagração) é dado? A isto deve responder-se: porque é dado por Deus, e não pelo prelado, que o que não teve não pôde dar, mas por ministério do prelado; e não sem causa quis Deus dar isto por ministério, pois, se o Espírito Santo fosse dado sem ministros, cada um, presumindo ter o Espírito Santo, se jactaria; e assim os ministros da Igreja, mesmo que fossem justos, cairiam em desprezo: dessa coisa Cristo deixou a forma, ressuscitado Lázaro, dizendo aos discípulos: «Desatai-o e deixai-o ir» (Jo 11,44), mostrando que ninguém pode ser desatado senão por ministros a quem estes ministérios foram confiados.

Graça, misericórdia e paz te sejam certamente da parte de Deus, que, sendo Deus, pode isto e tudo; Deus Pai, digo, que, pelo fato de ser Pai, tem vontade e piedoso afeto por ti e por todo filho. Sejam-te também isto mesmo de Cristo Jesus, que, sendo Rei e tendo vindo salvar, tem igualmente a vontade; de Cristo, digo, nosso Senhor, o qual, porque é Senhor, aparece que pode isto e tudo.

Terminada a saudação, começa a Epístola, dizendo: ó Timóteo, faze assim, subentende-se, como te rogei — onde diz "como", nota a quantidade, como se dissesse: eu te adverti de muitos modos, com frequente repetição, que insistisses em ensinar, e como te adverti, faze-o de todos os modos, com toda assiduidade; onde diz "rogei", podendo dizer "como discípulo te mandei", sendo ele o prelado, recomenda bastante Timóteo, insinuando que era tal que não devia ser coagido por império, mas exortado por certa dignidade de paridade —; como, digo, te rogei que ficasses em Éfeso para ordenar ali a ordem eclesiástica, quando eu ia para a Macedônia, convertidos os efésios, para converter os macedônios pela palavra da pregação; no que também tu me serias necessário, e te ofereceste por vontade a ir comigo; vendo contudo que incumbia maior necessidade, deixei-te para instruir os efésios.

Aqui começa primeiro sobre os falsos doutores a repelir, dizendo: ficasses, digo, para ordenares — dizemos "anunciar" entre iguais, "ordenar" porém, de prelado a súditos —; ordenasses certamente a alguns, isto é, àqueles doutores que introduzem doutrina singular, desviando-se da comunhão da Igreja: isto, digo, ordenasses: que não ensinem doutrina diferente, isto é, algo alheio à minha doutrina, com que ensinei os efésios e tu ainda ensinas. Se os doutores, ordenando-lho tu, não quisessem desistir, ordenasses aos súditos que não dessem atenção às doutrinas deles, ou os ouvissem. A forma desta coisa conserva-se ainda na Igreja; primeiro, com efeito, o prelado perverso é proibido pela Igreja. Se o desobediente não cessa, então se interdiz aos súditos obedecer-lhe. Nem se apliquem, digo, a fábulas dos falsos pregadores, que dizem dever manter-se na lei nova a circuncisão e os antigos sacrifícios. Diz-se fábula aquilo em que só há palavras e não coisa; assim na doutrina deles havia, sim, palavras nuas da verdade da coisa, porque a circuncisão e aquelas coisas que ensinavam não podiam salvar. Não se apliquem, digo, a fábulas e genealogias, isto é, a discursos sobre a sua geração; dizem, com efeito, que a salvação foi prometida somente a eles, nascidos da carne de Abraão e de Davi, e não a outros; genealogias intermináveis, isto é, proibidas, para que ninguém confie nelas, ou então, intermináveis, isto é, que não têm termo nem fim onde subsistam provadas como dizem; se alguém considera, com efeito, verá muitos filhos de Abraão segundo a carne reprovados, como Esaú; achará também muitos não gerados da carne de Abraão que contudo Deus escolheu, como Jó. Estas genealogias suscitam questões, isto é, litígios, e nenhuma solução; isto, digo, suscitam mais do que a edificação, que de modo algum prestam — aqui "mais" é eletivo, tratando de coisas que não participam —; edificação certamente [de Deus, isto é] das virtudes, não a prestam; edificação que não é pela circuncisão, mas que é na fé, isto é, pela fé: toda justificação, com efeito, é da fé, que se lança como fundamento; e sobre esta, como sobre fundamento, as demais virtudes são edificadas.

Prova que na fé está a edificação de Deus, dizendo: se da fé procede a boa consciência, isto é, a esperança, da esperança, porém, o coração puro, e do coração puro a caridade; sendo a caridade o fim, isto é, o cumprimento de todo o preceito, da lei nova ou da antiga: se desse modo da fé se segue o cumprimento de todo preceito, então na fé está toda a edificação de Deus, e não em outro lugar; mas na fé está o cumprimento de todo o mandamento, logo também a edificação de Deus. O que em ordem transversa põe assim: verdadeiramente na fé está a edificação de Deus; o fim, com efeito, isto é, porque o cumprimento de todo o preceito da lei velha ou nova é a caridade, isto é, o amor de Deus e do próximo, mandamento do qual dependem toda a lei e os Profetas; quem, com efeito, cumprir este mandamento, isto é, a caridade, sem dúvida cumpriu a lei nova e a velha.

Ou leia-se ali continuadamente: onde diz acima "que não ensinem" e "que não se apliquem", insinua que alguns perversamente ensinavam e se aplicavam; donde diz: embora aqueles falsos apóstolos ensinem diferentemente de mim, o fim do preceito, isto é, todo cumprimento da lei, é a caridade, como eu ensino; donde o que eles ensinam, as coisas velhas, não deve ser reconduzido. A caridade procede de um coração puro, isto é, de inteligência limpa; que alguém tenha puro o entendimento, conservando-se na pureza em que Deus o purificou no batismo, entendendo que deve amar o seu Criador e em nada o ofender. A caridade procede também de uma boa consciência, isto é, da esperança, não porque a consciência seja o mesmo que a esperança, mas por aquela afinidade com que àquele a quem falta escrúpulo de má consciência, e em toda parte, olhando-se no ânimo e nada achando que o morda, assim enfim é lícito esperar; quem se vê pecador, com efeito, deve temer pelo pecado, não esperar. A caridade procede também de uma fé não fingida; nós, com efeito, cremos Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não fingindo ou homem sem Deus, ou Deus sem homem, e, como alguns falsos apóstolos dizem, que Cristo teve não corpo verdadeiro, mas aéreo; ou então: fé nossa, digo, robusta e inviolável, não fingida, isto é, não frágil ao modo de vaso de barro, como é a doutrina dos falsos doutores.

Recomendada a sua parte, reprova a dos adversários, dizendo: dela, a saber, da caridade, da boa consciência e da fé, alguns se desviaram, isto é, aqueles que introduzem doutrina singular, separados e por isso errantes; a separação, com efeito, da verdade é erro; desviando-se certamente, perderam-se, não na fé, mas em vãs palavras, falando coisas vãs e inúteis, dizendo, a saber, que a circuncisão deve ser mantida. A estes não basta falar estas vaniloquências consigo, mas, o que é pior, querendo ser doutores da lei, isto é, ensinando que se devem manter as observâncias carnais da lei; e isto bastante impudentemente, sem entender nem o que dizem, isto é, a circuncisão, que ensinam, que sob a lei antiga se manteve na carne para figurar que se devia manter a circuncisão do coração no tempo da graça, e não da carne; nem o que afirmam, não entendendo também as Escrituras dos Profetas, das quais, isto é, pelas quais afirmam que a circuncisão e os antigos sacrifícios, que dizem, se devem manter no tempo da graça; ou, ao contrário: não entendendo o que dizem dos Profetas para provar que se devem manter as coisas que ensinam; nem entendendo a circuncisão e os sacrifícios, de que coisa eram mistérios quando se faziam, dos quais eles afirmam que ainda se devem manter.

Que tenha reprovado a parte dos adversários, dizendo "sem entender", etc., isto certamente não bastaria se não recomendasse também a sua parte e inserisse a causa da recomendação; poderia, com efeito, objetar-se-lhe assim: se a doutrina dos falsos doutores é perversa, a tua não é melhor de aprovar; donde julgas que se deve aderir antes a ti do que a eles? Para refutar isto, reprovada a parte dos adversários, acrescenta e aprova a sua, dizendo: os falsos doutores certamente não entendem a lei, nós, porém, sabemos, isto é, entendemos a lei. E acrescenta algo mais que vale para a causa, dizendo: sabemos certamente, não só a lei, mas também isto da lei sabemos: que a lei é boa, isto é, útil e justificante, entendida espiritualmente, segundo como nós a entendemos; segundo o entendimento carnal deles, porém, antes não boa, porque a ninguém justifica, e é cruel; donde o que eles entendem da lei não deve ser reconduzido. A lei certamente é boa, se alguém usa dela, isto é, da inteligência dela, legitimamente, isto é, segundo o que a própria lei ensina e preceitua, a saber, que seja entendida espiritualmente. Sabemos certamente da lei que é boa, sabendo isto também da mesma lei: que a lei antiga não foi posta para o justo, isto é, justificado sob a lei nova, nem mesmo sob a própria lei antiga foi posta para algum justo; a lei, com efeito, foi dada para punir o réu ou coagir o que quer pecar a não delinquir: mas quem é justo não deve ser coagido; não tem, com efeito, vontade de pecar, nem deve ser punido pela lei; mancha, com efeito, não há naquele que foi justificado. Donde aos justos que estiveram sob a lei antiga, quanto a si, não seria necessário manter a lei, a qual contudo congruentemente usaram, para que, rejeitando eles a lei, não viesse ela a desprezo, e para que, pela autoridade deles, mais devotamente a mantivessem aqueles a quem por causa dos pecados era necessária. Por isso também os justos mantiveram a lei antiga, para que o que ela prefigurava de Cristo e do tempo da graça eles o atestassem cumprindo a lei.

Para o justo certamente não foi posta a lei, mas para os injustos, isto é, os judeus, aos quais, antes de dada a lei, Moisés deu preceitos morais, que, não os observando, se tornaram injustos: para os injustos certamente e insubmissos, isto é, os judeus, que não quiseram submeter-se a Deus, que dava a lei por Moisés, para se afastarem das injustiças. Quem chame injustos e insubmissos expõe, dizendo: a lei foi certamente posta para os ímpios, isto é, irreligiosos de ânimo contra Deus, e pecadores, isto é, os que irreligiosamente pensam, irreligiosamente operam, celerados, isto é, os que, vendo sacrificar aos ídolos ou semelhante, lhes aprouve prevaricar igualmente. A lei foi posta também para os contaminados, isto é, os que foram compelidos pela violência dos tormentos a sacrificar aos ídolos. Estas quatro [seis?] coisas fazem-se principalmente contra Deus; as demais que seguem fazem-se contra si e contra o próximo, não que todos os pecados não sejam contra Deus, mas porque as quatro ditas parecem ofender a Deus especialmente, sem algum meio. Foi posta também a lei para os parricidas, isto é, os matadores de pais, a quem, devendo-se muito pelo fato de serem homens, muito mais [porque] eram pais; e matricidas igualmente, e homicidas, e fornicadores, isto é, os que se mancham com adultério ou com qualquer gênero de fornicação, e sodomitas, o que é pior, a quem não basta mancharem-se se não corrompem também a outros; e plagiários, isto é, os que infligem golpes ao próximo; ou então, plagiários como "plagiosipis", isto é, os que infligem golpe com coisa viva, como se alguém furtasse ao pai o seu filho, ou semelhante; mentirosos também, que se aplicam a fraudes, e perjuros, que é um pouco pior que a mentira: para estes e semelhantes foi posta a lei. Além disso foi imposta a lei para o que quer que seja outra coisa das ditas contrária à sã doutrina, isto é, à lei natural e moral; os preceitos morais, com efeito, assim como na lei antiga, também na nova perduram; donde diz: sã doutrina, que é segundo o Evangelho, isto é, segue a lei nova; Evangelho, digo, da glória, isto é, que prega o Deus glorioso; ou então, Evangelho da glória, isto é, que dá aos que o seguem a glória eterna; glória, digo, do Deus bem-aventurado, pois a bem-aventurança que Deus tem, tal hão de ter dele os santos: bem-aventurado diz-se, com efeito, aquele a quem nada falta; aos santos com Cristo nada faltará. Este nome Deus não carece de adjetivo algum para que se diga bem-aventurado, ou algo destes, mas, para insinuar de que gênero de glória Deus há de ter e dar aos seus, acrescentou "bem-aventurado", como se dissesse: a glória que Deus tem e dá basta a ele e a quantos a dá. E porque a sã doutrina e o Evangelho se seguem mutuamente, por isso só estas coisas se devem manter, e não reconduzir a circuncisão e as velhas.

Aqui entra a mostrar que, por ter-se afastado da lei antiga, todos os bens lhe foram conferidos; à qual lei enquanto aderiu, sempre se precipitou em despenhadeiro de males; donde diz: Evangelho que me foi confiado, isto é, previu a misericórdia de Deus que eu era idôneo a quem confiar (Evangelho, porém, diz-se boa nova; eu, com efeito, é bom; angelia, núncio [grafia grega corrompida no OCR]; donde Anjo se diz núncio); e por isso, porque Deus me confiou o Evangelho, dou graças a ele, e não à lei, por este benefício e pelos que seguem, a Deus que me julgou fiel. Aqui dizem alguns que as palavras de Paulo são insidiosas, como se dissesse: por isso dou graças a Deus porque, sendo infiel, me fez fiel; e julgou que eu era digno de me tornar fiel, isto é, a providência de Deus, que não sabe enganar-se, preordenou desde o princípio, e me deu forças feito fiel, isto é, me fez forte, de modo que nem a morte nem a espada poderão separar-me da sua caridade; e depois de me confiar o Evangelho da paz, pondo-me no ministério, isto é, na própria obra de pregar: a muitos prelados, com efeito, é confiado o Evangelho que, entorpecidos, não ministram aos súditos o que lhes foi confiado. Fui posto no ministério de Cristo Jesus, isto é, para honra e glória de Cristo Jesus, nosso Senhor; ou então, deu-me forças em Cristo Jesus, nosso Senhor, que me apareceu a mim, respirando mortes, no caminho.

Eu certamente fui feito fiel, etc., depois que, deixando a lei, me submeti à graça de Deus, a mim que antes, quando estava sob a lei, me precipitava em todos os males, fui então blasfemo, blasfemando Cristo, dizendo-o homem sem Deus, filho de carpinteiro e semelhantes; fui também perseguidor de quaisquer justos; fui também injuriador, porque, se podia prender alguns, afligia-os com injúrias e açoites: mas eu, que sob a lei era tão perverso, logo que a deixei, alcancei misericórdia, isto é, remissão dos pecados. Disto, porém, alcancei misericórdia porque o fiz por ignorância, isto é, pequei ignorantemente; e porque ignorava Cristo, por isso permanecia na incredulidade. Assim "porque" por "o que" lemos; não bastaria, com efeito, para a causa que, por ter pecado ignorantemente, tenha por isso alcançado misericórdia. De outro modo, contudo, lê-se "porque" para a causa; como se alguém dissesse: tu outrora, sob a lei, pregavas que se devia manter a lei; tu, porém, deixada a mesma lei, pregas que se deve deixar a lei; a quem, pois, se deva crer, ou a ti sob a lei, ou a ti não sob a lei, duvidamos. Contra isto diz: a mim sob a lei não se devia crer, porque o fiz por ignorância; e porque ignorei, por isso permaneci na incredulidade.

Nem só alcancei misericórdia, isto é, remissão dos pecados, mas também a graça de nosso Senhor superabundou em mim acima da misericórdia; porque tanto remitiu os pecados como deu muitas outras graças, como o conhecimento da essência divina e o mais. Ou de outro modo: enquanto era perseguidor da Igreja de Cristo, tive muito zelo da lei, mas contudo agora superabundou a graça de Deus em mim, porque, se me tivesse convindo padecer tanto pela lei antiga quanto padeço por Cristo, certamente teria desfalecido: o mais como foi dito. Superabundou, digo, a graça com a fé e a caridade; porque a fé e o amor de Deus sempre cresceram em mim; fé e caridade que há em Cristo Jesus, isto é, tem-se por Cristo Jesus, e não pela lei.

Esta misericórdia que eu alcancei, é fácil também vós a alcançardes; para que os pecadores fossem salvos, com efeito, Cristo Jesus veio a este mundo. Mas, antes de o dizer, antepõe a recomendação da coisa que vai dizer, assim: fiel é esta palavra que vos manifesto, isto é, tal que se lhe deve dar fé e que é bem digna de crédito; nem só é fiel, mas também digna de toda aceitação, isto é, que deve ser aceitável: há, com efeito, muitos discursos dignos de crédito, não porém dignos de aceitação, porque inúteis; este discurso, porém, é digno de crédito e aceito, porque útil: digno certamente de aceitação, não numa só vez ou num só tempo como a lei antiga, mas de toda, isto é, no presente e no futuro, e segundo o corpo e segundo a alma, porque em todo tempo e segundo ambos salva: este, digo, é aquele discurso: que Cristo Jesus veio a este mundo, isto é, tão desprezível e em que lhe convinha padecer tantas misérias; veio, digo, para salvar os pecadores; se estes pudessem ser salvos pela lei, em vão Deus deporia o seu Cristo nas misérias deste mundo. Dos quais pecadores eu, e qualquer legalista, sou o primeiro, isto é, principal e péssimo; piores, com efeito, achou Deus os judeus aderentes à lei do que quaisquer sem lei.

O que acima pôs absolutamente, aqui põe com a causa, dizendo: embora eu fosse o pior entre os pecadores, contudo alcancei misericórdia, para que Cristo Jesus em mim primeiro, isto é, maior pecador, ou então, primeiro, isto é, sobretudo, mostrasse toda a sua longanimidade, não em qualquer coisa una, mas total; suportou-me, com efeito, blasfemando, perseguindo e infligindo injúrias aos santos: toda a longanimidade certamente mostrou em mim, como exemplo dos que hão de crer nele, isto é, para que por mim ensinasse que ninguém deve desesperar, pela enormidade dos crimes, de crer nele; hão de crer, com efeito, nele para a vida eterna, isto é, para que pela fé tenham a vida eterna.

E, uma vez que Cristo veio salvar os pecadores, o que a lei foi insuficiente para fazer, portanto ao Rei dos séculos, Cristo, seja por isso honra e glória; porque nem à lei nem a outro além de Cristo é devida por isso a graça. Ou continue-se assim: Cristo mostrou em mim toda a longanimidade; àquele, porém, Cristo, Rei dos séculos, imortal, isto é, imutável, que está sempre no mesmo, e invisível, isto é, cuja Deidade nenhuma criatura basta para entender; a este único Deus Criador (só ele, com efeito, pode salvar), a este tão grande e tal seja honra e glória — honra diz-se, como das virtudes, humildade, prudência e semelhantes, que o homem pode ter; glória diz-se das coisas que são só de Deus e não do homem, como ressurgir ao terceiro dia e semelhantes —; honra, digo, e glória lhe seja pelos séculos dos séculos, consecutivos dos séculos presentes; e isto que peço, amém, isto é, certamente assim será.

Uma vez que de Cristo Jesus vem toda a salvação, e da lei nenhuma, por isso, ó Timóteo, filho, confio-te este preceito, para que em tudo seja manifesto que não podes poupar nem tolerar ninguém neste assunto; este é, com efeito, o preceito que não é lícito transgredir, e a ti recomendado com suma obediência, para que milites excluindo da Igreja os falsos doutores; milites também dispondo outra ordem eclesiástica; milites a boa milícia — se militasse uma vez ou em uma coisa só, teria cumprido o "milites" que dissera, mas, para mostrar que queria que militasse sempre e em tudo, acrescentou "milícia boa", isto é, útil; será útil, com efeito, que assim milites —; confio-te, digo, que milites nelas, as profecias, isto é, em toda visão e inteligência que tens de Deus; a profecia, com efeito, é visão, profeta diz-se vidente. Advirto-te que milites segundo as profecias que precederam sobre ti, isto é, segundo o que no tempo precedente foste ensinado nas sagradas Escrituras; Timóteo, com efeito, nascido de pai gentio e de mãe cristã (At 16,1), foi desde a própria meninice entregue a ser instruído nas sagradas Letras; donde diz "segundo as profecias que precederam sobre ti". Ou de outro modo: confio-te que milites segundo as profecias que precederam sobre ti, isto é, a teu respeito; ensinado, com efeito, pelo Espírito de profecia, tomei-te para a obra do Evangelho; vê, porém, que, degenerando da fé, não faças mentiroso o Espírito, que me ensinou a escolher-te. Deves militar, tanto porque é bom e útil como porque podes bem, tendo fé, pela qual foste plenamente justificado, tendo também boa consciência; a ti, com efeito, que pregas, não se pode objetar que ensinas bem e vives mal.

Agora volta por um momento aos falsos doutores, dizendo: boa consciência que alguns rejeitaram de si; quem age e ensina perversamente, com efeito, não tem de que ser bem consciente de si: e porque a rejeitaram, por isso naufragaram na fé, isto é, quebraram a sua nau, rodeando a fé e não entrando nela. Destes falsos doutores naufragantes são Himeneu e Alexandre, príncipes dos que queriam reconduzir a circuncisão; aos quais eu entreguei a Satanás, isto é, separei excomungados da Igreja; e não para que pereçam eternamente, mas para que aprendam a não blasfemar, isto é, para que, assim corrigidos e penitentes, cessem da sua perversidade, e já não blasfemando sejam de novo tirados a Satanás, recebidos no seio da Igreja. Nota-se que excomungar é entregar a Satanás, porque, quando alguém é excomungado, é entregue a Satanás, de quem era antes de ser justificado pelo batismo.