Capítulo 10
Não quero, pois, que ignoreis, irmãos, que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos atravessaram o mar; e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; e todos comeram o mesmo alimento espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual (bebiam, com efeito, de uma rocha espiritual que os acompanhava; e a rocha era Cristo). Mas na maioria deles Deus não se comprouve; pois foram prostrados no deserto. Estas coisas aconteceram como figura para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles cobiçaram. Nem vos torneis idólatras, como alguns deles; conforme está escrito: O povo sentou-se para comer e beber, e levantou-se para se divertir (Ex 32,6). Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram, e caíram em um só dia vinte e três mil. Nem tentemos a Cristo, como alguns deles o tentaram, e pereceram pelas serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo exterminador. Todas estas coisas lhes aconteciam como figura; e foram escritas para nossa advertência, a nós, para quem chegou o fim dos séculos. Portanto, quem julga estar de pé, veja que não caia. Não vos sobreveio tentação que não seja humana; fiel, porém, é Deus, que não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dará também o êxito, para que possais suportá-la. Por isso, meus caríssimos, fugi do culto dos ídolos. Falo como a pessoas prudentes; julgai vós mesmos o que digo. O cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do Sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a participação do Corpo do Senhor? Porque nós, que somos muitos, somos um só pão, um só corpo, todos os que participamos de um só pão e de um só cálice. Vede Israel segundo a carne: os que comem as vítimas não participam do altar? Que digo, então? Que o sacrificado aos ídolos é alguma coisa, ou que o ídolo é alguma coisa? Mas o que as nações sacrificam, sacrificam-no aos demônios, e não a Deus. Ora, não quero que sejais comparsas dos demônios; não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar o ciúme do Senhor? Somos porventura mais fortes do que ele? Tudo me é lícito, mas nem tudo convém. Tudo me é lícito, mas nem tudo edifica. Ninguém procure o seu próprio interesse, mas o do outro. Tudo o que se vende no mercado, comei-o sem perguntar nada por motivo de consciência: Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém (Sl 23,1). Se algum dos infiéis vos convida e quereis ir, comei tudo o que vos puserem, sem perguntar nada por motivo de consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência; consciência, digo, não a tua, mas a do outro. Por que, com efeito, a minha liberdade seria julgada pela consciência alheia? Se eu participo com ação de graças, por que sou censurado pelo que dou graças? Quer, pois, comais, quer bebais, quer façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não sejais motivo de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a Igreja de Deus; como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o que me é útil, mas o que é útil a muitos, para que se salvem.
Comentário
Porque Paulo dissera: castigo o meu corpo, etc., para não ser eu mesmo reprovado; a isto alguém diria: por que te afadigas tanto para não seres reprovado? Não se deve crer, com efeito, que Deus nos reprove levianamente, a nós a quem conferiu o batismo, a fé e os demais sacramentos da Igreja, ainda que alguma vez tenhamos obrado injustamente. Contra isto prova Paulo que os sacramentos nada valem para a salvação, se faltam as boas obras; os pais do Antigo Testamento, com efeito, tiveram em figura as mesmas coisas que nós temos em verdade; mas porque obraram mal, os sacramentos não lhes aproveitaram; assim também não nos aproveitarão, se forem más as nossas obras. O texto liga-se assim: por isso me afadigo tanto para não ser reprovado; vejo, com efeito, que me não bastam os sacramentos recebidos, se faltarem as obras, como não bastaram aos nossos pais sob a antiga lei, porque obraram mal: para o que vejais, não quero que ignoreis, irmãos, que nossos pais, isto é, os judeus, que nos precederam e ensinaram no culto de Deus, e cujas figuras geraram a nossa verdade; esses, digo, pais, todos, sem exceção, estiveram debaixo da nuvem: aquela nuvem que foi posta entre os egípcios e os judeus até o mar Vermelho significou a misericórdia divina, que protege os catecúmenos até chegarem ao batismo. E todos os nossos pais atravessaram o mar Vermelho: assim também nós todos atravessamos pelo batismo. E todos os nossos pais foram batizados em Moisés, isto é, no governo de Moisés, isto é, avançaram na nuvem que os separava dos egípcios e na passagem do mar. Diz "batizados", embora nem esta palavra tenha sido então dita deles, nem aquele mar tenha sido a verdade do batismo, porque só figura; mas põe o nome da coisa significada pelo próprio significante; porque, assim como eles foram protegidos sob a chefia de Moisés, assim muito melhor nós, tendo Cristo por chefe, somos protegidos no batismo, no qual nos perdoa os pecados e fortalece o nosso livre-arbítrio, para que possa resistir ao diabo que mal persuade. Por isso diz também "batizados", porque, quão eficaz nos é o batismo para a salvação, tal lhes seria a passagem do mar, se, crendo nos mandamentos de Deus, obedecessem.
E todos os nossos pais comeram o mesmo alimento, isto é, o maná; alimento, digo, espiritual, isto é, significativo do alimento espiritual do Corpo e do Sangue de Cristo: espiritual também porque o que o alimento do Corpo e do Sangue de Cristo faz em nós, o mesmo aproveitaria àquele maná para a salvação deles, se perseverassem no bem: não que fosse outra coisa que maná. E todos beberam a mesma bebida, isto é, a água que fluía da rocha; bebida, digo, espiritual, porque figurava a bebida do Sangue de Cristo e valia o mesmo na fé para eles, se fossem bons. E não beberam dela uma só vez, mas bebiam assiduamente da rocha, isto é, da água que manava da rocha, que os acompanhava, porque aonde quer que fossem no deserto, aquela água os seguia; rocha, digo, espiritual, isto é, que significava a rocha espiritual Cristo. Por isso não bebiam uma vez só, mas continuamente, porque não nos basta, a nós que cada dia caímos em pecado, tomar uma só vez o Sangue de Cristo; porque, assim como cada dia caímos, assim precisamos de contínuo remédio. E a rocha de que manava a água era Cristo, de cujo lado fluiu a água da nossa regeneração. E, embora nossos pais tivessem tantos sacramentos, na maioria deles Deus não se comprouve; porque, pecando, tornaram-se indignos dos sacramentos recebidos; na verdade a maior parte deles não agradou a Deus, pois foram prostrados no deserto, provocando sobre si a ira de Deus obrando mal.
E estas coisas ditas não foram feitas apenas por causa deles, mas também como figura para nós; em todas as coisas ditas, com efeito, foi figurada a verdade dos sacramentos que nos foi dada por Cristo; por isso foram feitas como figura para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles muitas vezes cobiçaram o mal; aqui Paulo se insere entre eles, para melhor os desviar, tomando como seus, por compaixão, os pecados deles. Agora repõe alguns pecados dos judeus, que viu estarem nos coríntios, dizendo: não cobicemos coisas más, a saber, nem vos torneis idólatras: aqui já se separa daqueles, a cuja idolatria não consentiu. Não sejais, digo, idólatras, como alguns deles. Os coríntios eram idólatras, porque ou comiam sob veneração do ídolo as carnes sacrificadas aos ídolos, ou, não se importando em ofender o irmão ao comê-las, eram causa de o irmão fraco ser idólatra, e assim acusáveis de idolatria. Foram idólatras alguns dos judeus, conforme deles está escrito no Êxodo: O povo dos judeus sentou-se para comer e beber o que imolaram ao bezerro de fundição, e depois levantou-se para se divertir (Ex 32,6), isto é, para dançar e o mais diante do ídolo; ou então, levantou-se para se divertir, isto é, para adorar o ídolo; o que parecia jogo e zombaria da parte dos que haviam sido instruídos por tantos milagres. Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram com as madianitas, e por isso caíram vinte e três mil. Havia fornicação entre os coríntios, como naquele que tomara a mulher do pai, cujo consentimento tornava réus os outros. Nem tentemos a Cristo, como alguns deles o tentaram, dizendo: «Poderá Deus preparar mesa no deserto?» (Sl 77,19); e pereceram pelas serpentes que os envenenavam, até que Moisés ergueu a serpente de bronze no madeiro, a qual, quem dos judeus a via, naquele dia ficava seguro da lesão das serpentes; serpente que significou Cristo segundo a humanidade, como ele mesmo diz no Evangelho: «Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim convém que seja levantado o Filho do homem» (Jo 3,14). Tentavam os coríntios a Deus, enquanto duvidavam da ressurreição, como se Deus não pudesse tudo o que por bondade quisesse. Nem murmureis (o que certamente faziam os coríntios, dos quais alguns diziam que Paulo não era Apóstolo, e coisas semelhantes), como alguns dos judeus murmuraram, como os filhos de Core, Datã e Abiram, dizendo que Moisés não consagrava Aarão sacerdote por mandato de Deus, mas pela exaltação de sua família; e por isso pereceram pelo exterminador, isto é, pelo Anjo que os feria.
Deve-se notar que, porque os judeus eram rudes e não podiam captar as coisas espirituais, por isso lhes foi proposto servir a Deus em coisas carnais; e assim como, ofendendo na servidão carnal, eram punidos segundo a carne, assim também nós, a quem foram dadas as coisas espirituais, se nelas ofendemos, seremos punidos segundo a alma. Não só os sacramentos ditos precederam como figura de nós, mas todas estas coisas, e os pecados e as penas dos pecados, lhes aconteciam como figura para nós; porque, se eles, permanecendo na sombra, foram condenados pela transgressão da sombra, quanto mais nós, se pecamos na própria verdade? Não só estas coisas lhes aconteceram em figura de nós, mas foram escritas para nossa advertência, para sermos advertidos pelos exemplos deles; nossa, digo, a nós, para quem chegou o fim dos séculos; porque, por mais que estes séculos hajam de durar, nós temos os fins, porque estes ritos, que foram dados pelo Evangelho, são os últimos ritos, e eles, enquanto o mundo existir, não terminarão. Ou assim: chegou a nós o fim dos séculos, porque acabou toda a secularidade, a saber, a carnalidade dos ritos antigos, e nos foi entregue a própria verdade.
Visto que os sacramentos anteriores em nada aproveitaram a nossos pais por causa do pecado, e estas coisas foram escritas para nossa doutrina, portanto, isto é, por isso aquele de vós que julga estar de pé, a saber, que entende sadiamente sobre as criaturas de Deus e que tudo lhe é lícito, veja que não caia por tropeço do irmão. E, para que os coríntios não se perturbassem com esta palavra, "veja que não caia", sabendo que até o justo cai sete vezes ao dia, determina Paulo de que queda entende, dizendo: veja cada um que não caia, de modo que não vos sobrevenha tentação — isto é, deleite do pecado — que não seja humana, isto é, vinda da necessidade da carne, a saber, venial. O que vos toca, vede que o façais; porque Deus é fiel e veraz nas promessas, que em nada abandona os seus fiéis; Deus não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; conforme vê a fortaleza ou a fraqueza de cada um, dispõe as tribulações. E não só não permitirá que sejais tentados além da medida, mas com a tentação dará também o êxito, isto é, tanto o aumento da virtude pela qual persevereis, como o aumento da tribulação; dará, digo, de modo que possais suportá-la, para que não fraquejeis na tribulação.
Por isso, isto é, porque quem está de pé deve ver que não caia e Deus está à mão para estender a mão, fugi do culto dos ídolos; se o fizerdes, então sereis para mim caríssimos. Diz fugir do culto dos ídolos tanto aos fracos que comiam sob veneração do ídolo, como aos que, embora de fé sadia, eram causa de se corromper a fraqueza dos irmãos. E para que fujais do culto dos ídolos, vou dizer coisa sutil, em que falo a vós não como a simples, mas como a prudentes; e por isso julgai vós mesmos, isto é, quanto mais sutilmente podeis, discuti entre vós o que vos digo. Reunamos brevemente a soma da sentença: por isso deveis fugir do culto dos ídolos, porque, assim como aquele que comunga no Corpo e no Sangue de Cristo se faz de certo modo um com Cristo, assim aquele que comunga no ídolo, comendo as carnas sacrificadas aos ídolos, incorpora-se ao diabo.
Agora exponhamos a letra: deveis fugir do culto dos ídolos; porque o cálice, isto é, o Sangue de Cristo; cálice, digo, de bênção, pelo qual recebemos as bênçãos das graças; porque pelo Sangue de Cristo, se o tomamos dignamente, somos libertados dos pecados anteriores e fortalecidos contra os que vêm; cálice que abençoamos, louvando-o, porque nunca houve tal cálice que libertasse dos pecados e fortalecesse para que não pequemos mais; ou então, cálice de bênção, isto é, que o próprio Deus abençoa e consagra, e que nós abençoamos por nosso ofício; Deus, com efeito, o realiza pelo sacerdote ministro: este cálice, pois, não é a comunhão do Sangue de Cristo?, isto é, não nos unimos a Cristo e nos conformamos a ele pelo Sangue assumido? E o pão, isto é, o verdadeiro Corpo de Cristo, que se recebe sob a só espécie de pão; pão, digo, que partimos no altar, para que, o que é um em verdade, embora assim pareça, mas não se pode dividir, dividindo-o signifiquemos que nós, que somos pessoas diversas, nos tornamos um em Cristo; este pão, digo, que partimos, não é a participação do Corpo do Senhor?, isto é, não recebemos por este Corpo a Deus em nós e o incorporamos a nós? Por isso Deus instituiu este sacrifício em duas substâncias, a saber, do Corpo e do Sangue, para, pela carne entregue no altar, mostrar que redime a nossa carne, a ser algum dia transferida pelos sacramentos à incorrupção; e, pelo Sangue que entrega, insinuar que igualmente redimiu a nossa alma; para insinuar o que respeita à alma, porque não pôde usar de coisa incorpórea, figurou dignamente a alma pelo sangue, que se diz sede da alma. Nem distribuiu em duas substâncias para entender partes diversas dele; quem recebe apenas o Sangue, ou apenas o Corpo, recebe-o todo; quem recebe ambos, não recebe mais por ambos do que por um. Corpo que, assim como é a verdadeira Carne de Cristo sob a espécie de pão, assim pela só espécie é triturado, diminuído, dividido em partes, ao passo que em verdade permanece incorruptível, indivisível, incapaz de diminuição.
Na verdade pela recepção do Sangue e do Corpo de Cristo nos unimos a Cristo; porque nós, que somos muitos, somos um só pão, isto é, assim como no pão os diversos grãos passam à unidade do pão, assim também nós nos unimos pela fé, pela esperança e pela caridade; somos também muitos um só corpo segundo a diversidade dos membros que mutuamente se servem na unidade do amor: nós todos somos um só pão e um só corpo, todos os que participamos de um só pão e de um só cálice, isto é, do Corpo e do Sangue de Cristo, por quem somos unidos a Cristo, incorporando-o a nós.
Agora, segundo Ambrósio, digamos o que segue: ó Israel, isto é, ó alma fiel que contemplas a Deus, o que agora vos mostrei nas coisas espirituais, vede, o mesmo acontece segundo a carne, isto é, pela participação carnal das carnes sacrificadas aos ídolos comunica-se com o diabo; os que comem as vítimas imoladas ao diabo não participam do altar do diabo?, isto é, não comungam com o próprio diabo por participarem do que se imola sobre o altar do ídolo? Como nas coisas espirituais, assim nas carnais não se pode negar que isto se dê. Porque digo que os que comem o sacrificado ao ídolo participam do diabo, que digo, então?, isto é, julga-se que digo que o sacrificado aos ídolos seja algo diverso do que era antes de ser sacrificado? Longe de mim parecer dizer que o ídolo seja algo diverso de pedra ou madeira ou aquilo de que foi fabricado, porque pelo sacrificado a ele digo que o homem se une ao diabo. Não digo, certamente, que o sacrificado aos ídolos, ou o ídolo, seja algo que antes não era; mas digo isto: que as nações que sacrificam essas coisas, sacrificam-nas aos demônios e por isso a eles se unem, não pela carne sacrificada, que seja outra coisa que carne, nem pelo ídolo, que seja outra coisa do que era antes; sacrificam aos demônios, e não a Deus; por isso se incorporam ao diabo.
Ou de outro modo, para que tomemos fora do livro a adaptação da semelhança assim: porque os que comungam no Corpo e no Sangue de Cristo se unem a Cristo, assim, por semelhança, os que participam do sacrificado ao ídolo se unem ao diabo; e isto tomemos fora da letra. Para que vejais nas coisas carnais o que mostrei pelas espirituais, vede agora Israel, isto é, o povo judaico, segundo a carne, isto é, agindo segundo os ritos carnais; os que entre os judeus comem as vítimas imoladas a Deus, não participam do altar, isto é, participam de Deus a quem imolam no altar? Do mesmo modo os que comem as carnes sacrificadas aos ídolos são participantes do diabo; e isto fora do livro. A letra seguinte liga-se assim: visto que digo que quem come das carnes sacrificadas aos ídolos participa do diabo, que, então, pareço dizer? A letra seguinte não muda.
Por isso quero que fujais do culto dos ídolos, porque não quero que sejais comparsas dos demônios, como se provou serem os que comem carnes sacrificadas aos ídolos. Seríeis comparsas dos demônios, se não fugíssemos dos ídolos, porque não podeis beber o cálice dos demônios e o cálice do Senhor, e não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Devemos fugir do culto dos ídolos, para não nos associarmos aos demônios; devemos também porque, participando da mesa dos demônios, provocamos o ciúme, isto é, invejamos ao Senhor, cujo reino diminuímos em nós mesmos e nos nossos imitadores. Mas provocamos o ciúme do Senhor? Invejamos-lhe certamente com o nosso mal, porque somos porventura mais fortes do que ele? quem inveja a quem é mais forte age mal, porque é oprimido por ele.
Dir-me-iam, os que com fé sadia creem que o ídolo e as coisas a ele imoladas nada são: parece, Paulo, que entendes que o sacrificado ao ídolo é algo, já que dizes que por isso nos tornamos comparsas dos demônios. Longe de mim, diz Paulo; confesso claramente que todas estas coisas me são lícitas, e a qualquer que tenha fé sadia, comer por fé; mas, contudo, não é lícito, porque nem tudo convém, antes impede a bem-aventurança por tropeço do irmão. De novo o mesmo: tudo me é lícito segundo a fé sadia, mas nem tudo edifica o próximo, e no que o destrói não é lícito. E porque tudo se deve fazer para a edificação do próximo, por isso ninguém procure o seu próprio interesse, e não o do próximo, mas procure o do outro, isto é, o que serve à edificação do próximo.
Porque acabou de dizer que segundo a fé é lícito, por tropeço do irmão não é lícito, determina o modo quando é lícito usar destes alimentos e quando não, dizendo: para que não ofendais nas coisas ditas, assim discerni: tudo o que se vende no mercado, isto é, se vende, comei, sem perguntar nada por motivo de consciência (que determinará nas passagens seguintes); comei tudo, porque do Senhor é a terra e tudo o que ela contém (Sl 23,1). Se algum dos infiéis vos convida ao banquete e quereis ir, o que é bem lícito, porque dos infiéis não temos de julgar, comei tudo o que vos puserem, sem perguntar nada por motivo de consciência, que de novo determinará. Vós nada pergunteis, mas se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos avisou e por motivo de consciência; que agora determina: consciência, digo, não a tua, que és são na fé, mas a do outro, isto é, do irmão fraco, para que não se ofenda em ti. Disse consciência, notando primeiro a consciência do judeu, que, se vir um cristão comer das carnes sacrificadas aos ídolos, dirá que não se deve aderir à fé cristã, porque voltam ao culto do ídolo; segundo, a consciência do gentio, que, vendo o mesmo, dirá: por que deixaria eu os meus ídolos, se os cristãos voltam a eles?; terceiro, a consciência do irmão fraco, pela causa tantas vezes dita.
Por causa da consciência do outro deves abster-te, porque por que a minha liberdade, isto é, o que me é lícito pela fé sadia, é julgada, isto é, torna-se julgável e condenável, pela consciência alheia, isto é, por causa da consciência fraca do irmão? E se eu participo das carnes sacrificadas aos ídolos com ação de graças, isto é, comendo em nome do Senhor, por que sou censurado, isto é, por que me mostro censurável pelo que dou graças? O fraco ou o infiel julga, com efeito, que eu venero os ídolos, quando dou graças a Deus. Visto que a consciência de ninguém deve ser lesada, quer, pois, comais, quer bebais, quer façais outra coisa, fazei estas e todas as coisas para a glória de Deus, não em licença da vossa fé, para que ninguém possa, justa ou injustamente, caluniar a fé de Cristo. E para que tudo façais para a glória de Deus, não sejais motivo de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a Igreja de Deus, isto é, os irmãos fracos, como acima foi determinado. Sede-o, digo, como também eu em tudo procuro agradar a todos, isto é, esforço-me por agradar a todos em tudo, não buscando o que me é útil só, mas o que é útil a muitos, para que assim se salvem muitos por mim: e para que sejais úteis a muitos, sede nesta matéria imitadores meus; porque, se meus, sereis também de Cristo, como também eu sou imitador de Cristo.