Capítulo 4
Por isso, tendo este ministério, conforme a misericórdia que alcançamos, não desfalecemos, mas renunciamos às coisas ocultas e vergonhosas, não andando com astúcia nem adulterando a palavra de Deus, mas, pela manifestação da verdade, recomendando-nos a nós mesmos à consciência de todo homem diante de Deus. Se, porém, o nosso Evangelho está encoberto, está encoberto para os que perecem: nos quais o deus deste século cegou as mentes dos infiéis, para que não resplandeça para eles a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Pois não nos pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, Senhor nosso; e a nós, como vossos servos por Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, foi quem brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da claridade de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a sublimidade do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo sofremos tribulação, mas não somos angustiados; ficamos perplexos, mas não desamparados; sofremos perseguição, mas não somos abandonados; somos abatidos, mas não perecemos; trazendo sempre em nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos. Pois nós, que vivemos, somos continuamente entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. Assim, a morte opera em nós, mas a vida em vós. Tendo, porém, o mesmo espírito de fé, conforme está escrito: Acreditei, por isso falei (Sl 115,1), também nós cremos e por isso falamos; sabendo que aquele que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará convosco. Pois tudo é por vossa causa, para que a graça, abundando por meio de muitos, faça redundar em glória de Deus a ação de graças. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior renova-se de dia em dia. Pois a nossa tribulação momentânea e leve produz em nós, de modo sobremaneira excelente, um eterno peso de glória, não olhando nós para as coisas que se veem, mas para as que não se veem. Pois as que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas.
Comentário
E por isso, porque contemplamos a glória do Senhor, indo de claridade em claridade, nós, por isso, tendo este ministério do Evangelho, não entregue a nós por nosso mérito, mas conforme a misericórdia que alcançamos de Deus, não desfalecemos neste ministério, quaisquer adversidades que se nos apresentem; mas renunciamos às coisas ocultas e vergonhosas, não só às abertas, mas também às ocultas, isto é, ao pecado que desonra o homem; nós, digo, não andando com astúcia para extorquir dinheiro dos súditos, como os falsos apóstolos; nem adulterando a palavra de Deus, como os falsos apóstolos; mas pregando pela manifestação da pura verdade; não nos preocupamos, com efeito, como eles, de falar apropriadamente para persuadir, mas recomendando-nos a nós mesmos pela pureza da palavra e da vida, não à vista, como eles, mas à consciência de todo homem; embora, com efeito, nos persigam com palavras, louvam, contudo, em si a nossa pureza; recomendando, digo, diante de Deus, isto é, no beneplácito de Deus, a quem agradar os falsos apóstolos pouco ou nada se importam; ou assim: que isto seja assim de nós, digo-o diante de Deus, para que ele mesmo nos seja testemunha, ele que só conhece os nossos segredos.
Porque disse ali "pela manifestação da verdade", objetariam que o Evangelho foi ocultado a alguns. Contra o que diz: certamente nós evangelizamos na manifestação; se o nosso Evangelho está encoberto, sabei que está encoberto para os que perecem, isto é, no pecado dos que perecem por infidelidade; nos quais perecentes cegou as mentes deles, ainda dos infiéis, o deus deste século, isto é, o diabo, que domina os que são do mundo, segundo aquilo: «O príncipe deste mundo será expulso» (Jo 12,31). Ou digamos: Deus deste século, isto é, que governa não só as coisas celestes, mas também as terrenas; houve, com efeito, o erro de alguns, de que Deus governa apenas as coisas celestes, e as terrenas rolam só por acaso da fortuna. Ou assim: deus deste século; os homens, com efeito, fazem para si diversos deuses do mundo, este cultua a avareza, aquele a volúpia, e por tal deus são cegados. Cegou de modo que a luz do Evangelho, isto é, o Evangelho iluminado, não resplandeça, mas esteja encoberto para eles; Evangelho, digo, da glória de Cristo, isto é, no qual Cristo é aprovado glorioso; Cristo que é a imagem de Deus, isto é, que nos representa Deus. Não imagem de modo que o Filho seja outro que o Pai na substância, mas imagem porque quem vê o Filho vê também o Pai; imagem do Deus invisível; e porque Deus na natureza da Deidade é invisível, por isso convinha que por Cristo se tornasse visível o que em sua natureza é invisível.
Na verdade evangelizamos a glória de Cristo; pois não nos pregamos a nós mesmos. Ou liga-se ali acima: na verdade não andamos com astúcia, como os falsos apóstolos; pois não pregamos, isto é, pregando não nos recomendamos a nós mesmos, isto é, o que vem de nós mesmos; mas pregamos a Jesus Cristo, Senhor nosso. E a nós, como vossos servos, não só de Jesus, mas também vossos, por Jesus, isto é, para edificarmos em vós a caridade de Jesus: e com razão por Jesus; porque Deus brilhou em nossos corações, abrindo-nos os seus mistérios, para que, doutos, saibamos evangelizar-vos: brilhou Deus, que disse, isto é, que só com o dito fez resplandecer a luz das trevas; quando, com efeito, no princípio a massa de toda a criatura era tenebrosa, indistinta por nenhuma variedade de formas, disse: «Faça-se a luz», e neste dito expulsou as trevas e fez resplandecer aquela massa, que estava confusa em um, discernindo-a por várias formas: este Deus, digo, brilhou em nossos corações para iluminação do conhecimento, isto é, para nos iluminar do conhecimento da claridade de Deus, isto é, da essência divina, da qual não nos pôde iluminar senão na face, isto é, no conhecimento e fé de Jesus Cristo; se Cristo, com efeito, não se mostrasse visível a nós, nele toda a Deidade, de modo algum bastaríamos para entender o conhecimento da claridade de Deus.
Recomendou-se bastante segundo o espírito, agora muito se avilta segundo o corpo, e por este aviltamento recomenda o Evangelho que lhe foi entregue; se não entendesse, com efeito, a glória admirável do seu Evangelho, de modo algum quereria padecer tantas e tão grandes coisas por ele: Deus nos iluminou com o conhecimento da claridade divina, que, embora tão digna, temos este tesouro da claridade de Deus em vasos de barro, isto é, em nossos corpos. Chama bem tesouro; tesouro, com efeito, é o que se ama e se reparte. Chama vasos do espírito os corpos, porque o espírito nada operaria senão pela administração dos membros; com a mão, com efeito, damos ao pobre, e assim nos demais. Dizem-se de barro por causa da fragilidade, porque os nossos corpos estão sujeitos a toda corrupção. Por isso temos este tesouro em vasos de barro, para que a sublimidade do poder seja de Deus, isto é, para que em todos os que obram bem só o poder de Deus seja sublimado e exaltado, e apareça que nada vem de nós, vasos de barro: por isso foi conveniente que o tesouro de Deus fosse guardado em vaso frágil, para que, se houvesse algum poder do homem, não usurpasse incautamente para si o que é próprio de Deus.
Na verdade nós somos de barro, e o poder de Deus está em nós, frágeis; pois em tudo, em todos os lugares e coisas, sofremos tribulação do corpo, mas, contudo, não somos angustiados no espírito, antes dilatados; ficamos perplexos, isto é, empobrecemos exteriormente, mas não desamparados por Deus interiormente (aporós em grego, pobre em latim); sofremos perseguição de lugar em lugar, mas não somos abandonados por Deus; somos abatidos, isto é, prostrados por açoites, ou precipitados de lugar alto, e, contudo, não perecemos: para concluir, sempre andamos trazendo de lá para cá em nosso corpo a morte, isto é, as coisas que causam a morte, a saber, as tribulações, que são acessos de morte: e devemos de bom grado padecer, porque esta morte é de Jesus, que ele mesmo suportou por nós, e nós, a seu exemplo, a levamos, para que a vida de Jesus Cristo se manifeste não só em nossas almas, mas também em nossos corpos, devolvidas a nós a imortalidade e a impassibilidade.
Na depressão do seu corpo ainda se demora, mostrando que padece todas estas coisas para recomendação do seu Evangelho e da glória de Cristo, dizendo: digo bem, trazendo a morte; nós, com efeito, somos sempre entregues à morte — não diz sempre por poder morrer mais vezes que uma, mas porque cada dia padecia tantas coisas que a virtude do homem não escaparia senão morrendo; mas pelo poder do Espírito Paulo era restaurado para melhor. Chama morte às tribulações, pelas quais pouco a pouco se aproxima da ruína; morte, porém, diz o último golpe em que se dissolve —; nós, digo, somos entregues à morte; acima disse "a exemplo de Jesus", aqui diz por causa de Jesus, isto é, por amor de Jesus: nós, digo, que vivemos, embora assim morramos, isto é, poderíamos viver na glória do mundo muito melhor que os vossos falsos apóstolos, se calássemos o que Cristo impôs; ou assim: nós, segundo o corpo, somos entregues à morte; mas pela morte da carne vivemos melhor segundo a justificação da alma; ou assim: nós somos entregues à morte, segundo a injúria infligida ao corpo; mas vivemos, não desfalecendo, pela virtude de Deus. Morremos por causa de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste, como na alma, assim também em nossa carne mortal. O mesmo dissera no versículo precedente, mas repete para resolver o que aqui poderia ser objetado: a vida de Jesus estará em nossa carne; se objetas que a nossa carne mortal não pode tornar-se imortal, como é a carne de Jesus: certamente, digo, porque em nossa carne mortal se fará a vida de Jesus, e por Jesus a carne, que é mortal, certamente se tornará imortal.
Visto que somos entregues à morte, assim, a morte opera em nós o que lhe é próprio, mortificando os nossos corpos; mas em vós, que, desprezada a nossa imitação, aderis aos falsos apóstolos, em vós está a vida, isto é, nada padeceis, mas para vosso mal. Ou assim: porque a vida de Jesus se manifestará em vós mortificados, assim esta morte opera, isto é, faz obra útil em vós, a saber, a vida de Jesus; se a morte opera em vós a vida de Jesus, então a vida presente que amais opera em vós o contrário da vida de Jesus, a saber, a condenação. Ou assim: porque pela morte havemos de ter a vida de Jesus, assim a morte opera em nós o que é bom, e por nossa morte a vida opera em vós; porque pelo mérito de nossa morte viveis na fé e na justiça.
Dir-se-ia: não convinha que fosses tão mortificado, se calasses alguma coisa de tua justiça, e não afirmasses a fé de Cristo à vista dos homens. Contra isto Paulo diz que não pode calar a fé de Cristo, porque tem o Espírito, e pelo Espírito a fé; e porque tem a fé, por isso fala; e porque fala, é mortificado. E que assim lhe convenha fazer, prova pela autoridade de Davi, que fala na pessoa dos mártires, dizendo: por isso ficamos perplexos, somos abatidos, mortificados, porque temos o mesmo espírito de fé, doador da fé, que Davi e os outros santos tiveram; ou então, o mesmo que vós tendes, se por Cristo quiserdes padecer; a virtude do Espírito, com efeito, a ninguém falta, senão a quem primeiro faltou a si mesmo; nós, digo, temos este Espírito, e por isso cremos; por isso, isto é, porque cremos, falamos também à vista dos homens o que cremos — porque antepusera as tribulações, não acrescentou "porque falamos fomos humilhados com açoites", o que, contudo, daí se segue —; cremos, e por isso falamos, agindo como está escrito em Davi: Acreditei, por isso, isto é, porque acreditei, falei. E, crendo e falando, temos ótima confiança, sabendo que aquele que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também com Jesus, a serem postos em lugar e imortalidade com Jesus; e ali nos colocará, isto é, nos situará para permanecermos eternamente; colocará, digo, convosco os que está pronto, se quiserdes, a ressuscitar com Jesus. Por isso diz: "colocará convosco", para que eles não julgassem que por nenhuma justiça de vida podem igualar-se ao Apóstolo; por isso mostra que não segundo as dignidades das prelaturas, mas segundo os frutos das obras cada um será remunerado. Pelo que diz "nós convosco", muito os atrai ao apetite da justiça. Por isso digo: convosco nos colocará; pois tudo padecemos e operamos por vós, para vos instruir, para que a graça, abundando em mim, abunde em vós (como abundasse em Paulo é bastante notório); para que a graça, digo, abundando em mim, abunde em ação de graças, por vós muitas vezes feita em glória de Deus, que merece ser glorificado por nós, que nos deu abundante graça. Ele, na verdade, não disse: abunde a graça em vós; mas ao admoestar a dar graças em glória de Deus, bastante o insinua; em vão, com efeito, dariam graças a Deus, se não abundassem da graça de Deus.
Assim como disse que padece todas estas coisas para glória de Deus, assim agora tudo reverte à utilidade dos coríntios, dizendo: por isso, isto é, porque tudo padecemos por vós, para que agora me cale da glória de Deus, também pela só utilidade vossa não desfalecemos, quaisquer que sejam as tribulações infligidas. Diria alguém: é admirável que digas não desfalecer, a ti que vemos corromper-se com tribulações cotidianas. A isto diz: certamente não desfalecemos, mas nos renovamos; embora o nosso homem exterior, isto é, tão vil, isto é, a carne que é obrigada a obedecer sempre ao nosso império, isto é, ao espírito, homem que está fora, para suportar as chuvas, os calores, quaisquer adversidades; embora, digo, o nosso homem exterior se corrompa, contudo o homem louvável, que está dentro, onde convém ser munido pela vexação do homem exterior; este, digo, que está dentro, quanto mais se corrompe o que está fora, tanto mais se renova de dia em dia, isto é, continuamente; ou então, de dia em dia, isto é, indo de virtude em virtude.
Digo: não desfalecemos; e com razão; pois a nossa tribulação, qualquer que seja, grande ou pequena, aquela a saber que no presente é momentânea, isto é, passa muito depressa e não é intolerável, mas leve; esta tal tribulação, digo, produz em nós um peso eterno de glória [de modo sobremaneira excelente]: peso contra leve, de glória contra de tribulação, eterno contra momentâneo, e em sublimidade, isto é, no céu contra o que diz "no presente". Peso diz-se por semelhança, porque o que tem peso na balança é mais caro, o leve, porém, pior. Por isso julgamos leves e como nada estas coisas que padecemos, porque nós não olhamos, isto é, não afetamos as coisas que se veem, mas as que não se veem. Por isso desprezamos as que se veem, porque são temporais as que se veem; por isso desejamos as que não se veem, porque são eternas as que não se veem.