Capítulo XXXI — Em Parenzo, Romualdo recebe o dom da compreensão e das lágrimas
Romualdo viveu durante três anos no território da cidade de Parenzo. Em um deles construiu um mosteiro; nos outros dois permaneceu recluso.
Ali a bondade divina conduziu-o ao cume de tão grande perfeição que, inspirado pelo Espírito Santo, não apenas previu numerosos acontecimentos futuros, mas também penetrou, pelos raios da compreensão espiritual, muitos dos profundos mistérios do Antigo e do Novo Testamento.
Certa vez, procurava constranger-se a chorar, mas por esforço algum conseguia chegar à compunção de um coração contrito.
Aconteceu, porém, que certo dia, enquanto cantava em sua pequena cela, chegou a este versículo do salmo:
“Dar-te-ei entendimento e te instruirei no caminho por onde deves andar; fixarei sobre ti os meus olhos.”
Então brotou dele tamanha efusão de lágrimas, e sua mente foi tão iluminada para compreender o sentido da divina Escritura, que a partir daquele dia e enquanto viveu, sempre que quisesse, lágrimas abundantes lhe corriam com grande facilidade; e a maior parte dos segredos místicos das Escrituras já não permanecia oculta para ele.
A contemplação de Deus frequentemente o arrebatava de tal maneira que parecia dissolver-se inteiramente em lágrimas. Agitado pelo ardor inabalável do amor divino, exclamava:
“Querido, querido Jesus, meu doce mel, desejo inexprimível, doçura dos santos, deleite dos anjos!”
E dizia ainda outras coisas semelhantes. Aquilo que proferia nesse cântico de júbilo, composto pelo Espírito Santo, não podemos exprimir em palavras humanas. Pois, como diz o Apóstolo: “Não sabemos rezar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.”
Por isso Romualdo jamais celebrava a Missa diante de uma multidão muito grande, pois não conseguia conter as torrentes de lágrimas.
Também por essa razão, sendo homem de coração simples e julgando que a graça que Deus lhe concedera tivesse sido dada igualmente a todos, costumava dizer aos discípulos:
“Cuidai de não derramar lágrimas demais, porque elas prejudicam a vista e ferem a cabeça.”
Onde quer que decidisse habitar, o santo homem preparava primeiro, dentro de uma pequena cela, um oratório com altar; depois encerrava-se ali, vedando o acesso.