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Capítulo XXVII — Bruno é martirizado entre os prussianos

A vida religiosa de todos os demais irmãos de Pereo era largamente superada pela do bem-aventurado Bonifácio.

Ele era parente de sangue do rei e tão querido por ele que o soberano costumava chamá-lo simplesmente de “minha alma”.

Fora instruído até grau elevado nas artes liberais e era particularmente estimado por seu conhecimento das proporções da música.

Quando ainda vivia na capela real e viu uma Igreja dedicada ao antigo mártir Bonifácio, inflamou-se imediatamente no desejo do martírio, seguindo o exemplo daquele de quem recebera o nome, e disse:

“Também eu me chamo Bonifácio. Por que, então, não deveria eu também tornar-me mártir de Cristo?”

Depois de se tornar monge, entregou-se a abstinência tão rigorosa que frequentemente comia, durante toda a semana, apenas aos domingos e quintas-feiras.

Não raras vezes, ao encontrar moitas de urtigas ardentes ou mesmo espinheiros, lançava-se sobre eles e revolvia-se ali.

Certo irmão o repreendeu uma vez:

“Hipócrita! Por que fazes isso na presença de todos, para conquistar louvor na boca do povo?”

Bonifácio não respondeu senão isto:

“Sejam para ti os confessores; quanto a mim, escolho os mártires.” (nota de rodapé: Confessores: na terminologia hagiográfica cristã, santos que deram testemunho da fé e alcançaram a santidade sem sofrer a morte pelo martírio. Aqui Bruno contrapõe deliberadamente a condição de confessor à de mártir, manifestando sua aspiração ao martírio.)

Depois de longo tempo na vida eremítica, decidiu partir para pregar. Dirigiu-se primeiro a Roma e recebeu da Sé Apostólica a consagração arquiepiscopal.

Certo monge idoso, que o acompanhara desde a região de Ravena, contou-me que, durante toda a viagem, o venerável homem e todos os que o seguiam caminhavam a pé; ele próprio, salmodiando sem cessar e avançando muito à frente dos demais, caminhava sempre descalço.

Por causa do esforço da viagem, comia um pouco todos os dias, mas passava os dias inteiros apenas com pão comum e água. Nas festas, desconhecendo todo tipo de molho ou condimento, acrescentava à refeição diária alguma fruta ou raiz.

Depois de sua consagração, observava diariamente, na celebração das horas, tanto o ofício monástico quanto o dos cônegos.

Quando partiu para as regiões além dos Alpes, viajava de fato a cavalo; mas o venerável bispo, segundo se conta, suportava o frio intolerável daquela região geladíssima mantendo sempre descobertas as pernas e as plantas dos pés. Quando desejava desmontar, mal conseguia desprender o pé do ferro ao qual se colara pelo frio, a não ser que fosse aquecido com água morna.

Chegando finalmente entre os pagãos, começou a pregar com tamanha perseverança, saindo as palavras de seu peito inflamado, que ninguém podia duvidar de que aquele santo homem buscava o martírio.

Eles, porém, temiam que, assim como depois do martírio do bem-aventurado Adalberto muitos eslavos haviam se convertido mediante sinais luminosos e milagres, o mesmo acontecesse entre eles. Por isso, durante longo tempo contiveram as mãos e, engenhosos em sua malícia, poupavam cruelmente aquele homem que ardia pelo desejo de morrer.

Bonifácio chegou à presença do rei dos russos e continuou a pregar com grande vigor e firmeza.

Vendo-o vestido de roupas miseráveis e caminhando descalço, o rei imaginou que ele pregasse não por causa da religião, mas com a intenção de conseguir dinheiro. Prometeu-lhe, portanto, que, se abandonasse aquela vã aparência, ele próprio enriqueceria sua pobreza com abundantes riquezas.

Bonifácio retirou-se imediatamente para a hospedaria, revestiu-se com os mais preciosos ornamentos pontificais e voltou a apresentar-se no palácio.

Quando o rei o viu tão esplendidamente vestido, disse:

“Agora sabemos que não é a pobreza que te impele a esse ensinamento inútil, mas a ignorância da verdade.”

E acrescentou:

“Se existe realmente poder naquilo que declaras que devemos crer, levantem-se dois altos montes de madeira, separados por um espaço muito estreito. Acenda-se fogo por baixo deles; quando estiverem tão ardentes que as duas fogueiras pareçam uma só, passa pelo meio. Se fores atingido pelas chamas de qualquer dos lados, nós te entregaremos ao fogo para que sejas consumido. Mas, se passares ileso — coisa em que não podemos acreditar —, todos nós creremos em teu Deus sem dificuldade.”

Estabelecido esse acordo diante do rei e de todos os pagãos presentes, Bonifácio, vestido como para celebrar os sagrados mistérios da Missa, primeiro rodeou o fogo de todos os lados, aspergindo água benta e oferecendo incenso.

Depois entrou entre as chamas crepitantes.

Saiu tão completamente ileso que nem sequer o menor cabelo de sua cabeça parecia queimado.

Então o rei e todos os que haviam presenciado o espetáculo lançaram-se em multidão aos pés do bem-aventurado homem. Pediram perdão entre lágrimas e suplicaram com a maior insistência que fossem batizados.

Começou a acorrer ao batismo tamanha multidão de pagãos que o santo homem dirigiu-se a um grande lago e, naquela abundância de água, batizou todo o povo.

O rei decidiu então entregar o reino ao filho e, durante todo o restante de sua vida, jamais se separar de Bonifácio.

O irmão do rei, que vivia com ele, recusou-se a crer e foi morto pelo próprio rei durante a ausência de Bonifácio.

Outro irmão, que já não vivia com o rei, inflamou-se de grande ira contra Bonifácio por causa da conversão do irmão. Assim que o venerável homem chegou à sua presença, recusou-se a ouvir-lhe as palavras e imediatamente o prendeu.

Temendo que, se o mantivesse vivo, o rei viesse libertá-lo de suas mãos, ordenou que Bonifácio fosse decapitado diante de seus próprios olhos, na presença de grande multidão.

No mesmo instante, aquele homem foi atingido pela cegueira e tamanho estupor caiu sobre ele e sobre todos os presentes que já não podiam falar nem exercer qualquer função humana: ficaram imóveis e rígidos como pedras.

Quando o rei recebeu a notícia, foi tomado de profunda dor e pensou em matar não apenas o irmão, mas também todos os cúmplices de tão grande crime.

Chegando ao lugar, porém, viu o irmão e os demais homens inteiramente insensíveis e imóveis, enquanto o corpo do mártir ainda permanecia entre eles. Estabeleceu então com os seus este acordo: primeiro rezariam por aqueles homens, para ver se a misericórdia divina lhes restituiria os sentidos perdidos; depois, se aceitassem crer, viveriam e seu crime seria perdoado; se não, todos morreriam pela espada da vingança.

Depois de longa oração do rei e dos demais cristãos, os homens não apenas recuperaram os sentidos, mas receberam também a sabedoria necessária para buscar a verdadeira saúde.

Imediatamente pediram entre lágrimas penitência pelo crime, receberam com grande fervor os sacramentos do batismo e construíram uma Igreja sobre o corpo do bem-aventurado mártir.

Se eu tentasse narrar todos os dons de poder que com verdade se contam desse homem admirável, talvez minha língua viesse a faltar; matéria para narrar, porém, não faltaria.

Embora a virtude de Bonifácio mereça uma obra própria, devemos recordá-lo aqui, com especial honra, entre os demais discípulos de Romualdo, para que, louvando-os, mostremos quão grande foi seu glorioso mestre. Pela excelência dos discípulos que ressoa aos ouvidos dos fiéis, conheça-se, pela escola que formou, quão sublime foi o mestre.