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LIÇÃO 9 - Existem Quaisquer Universais à Parte das Coisas Singulares Percebidas pelos Sentidos e Daquelas que São Compostas de Matéria e Forma?

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 4: 999a 24-999b 20

  1. Mas há um problema conectado a essas coisas, que é o mais difícil de todos e o mais necessário a considerar, com o qual nossa análise está agora preocupada.

  2. Pois, se não há nada à parte das coisas singulares, e as coisas singulares são infinitas em número, como é possível adquirir conhecimento científico delas? Pois, na medida em que há algo que é uno e o mesmo, e na medida em que há algo universal [que se relaciona com as coisas singulares], nessa medida adquirimos conhecimento delas.

  3. Mas se isso é necessário, e deve haver algo à parte das coisas singulares, será necessário que os gêneros existam à parte das coisas singulares, e eles serão ou os últimos ou os primeiros. Mas a impossibilidade disso já apareceu em nossa discussão.

  4. Além disso, se há algo à parte do todo concreto (o que é mais discutível), como quando algo é predicado da matéria, se existe tal coisa, surge o problema de saber se deve existir à parte de todos os todos concretos, ou à parte de alguns e não de outros, ou à parte de nenhum.

  5. Se, portanto, não há nada além das coisas singulares, nada será inteligível, mas todas as coisas serão sensíveis, e não haverá ciência de coisa alguma, a menos que se possa dizer que a percepção sensorial é ciência.

  6. Além disso, também nada será eterno ou imóvel; pois todas as coisas sensíveis perecem e estão sujeitas ao movimento.

  7. Mas se não há nada de eterno, também não pode haver geração; pois deve haver algo que veio a ser e algo a partir do qual vem a ser; e o último destes deve ser não gerado, já que o processo de geração deve ter um limite, e já que é impossível que algo venha a ser a partir do não-ser.

  8. Além disso, já que a geração e o movimento existem, deve haver um termo; pois nenhum movimento é infinito, mas todo movimento tem um termo. E aquilo que é incapaz de vir a ser não pode ser gerado. Mas aquilo que veio a ser deve existir assim que veio a ser.

  9. Além disso, se a matéria existe porque não é gerada, é muito mais razoável que a substância exista, já que é nisso que ela (a matéria) acaba por se tornar. Pois se nem uma nem a outra existem, nada existirá. Mas se isso é impossível, deve haver algo além do sínolo, e isso é a forma ou princípio especificador.

COMENTÁRIO

Q. 10: Existe algo separado das coisas sensíveis, que seja seu princípio?

  1. Tendo debatido a questão se os universais são os princípios das coisas, o Filósofo agora levanta uma questão sobre sua separabilidade, a saber, se existe algo separado das coisas sensíveis como seu princípio. A respeito disso, ele considera duas questões. A primeira (443) delas é se os universais são separados das coisas singulares. A segunda (447) é se existe algum [princípio] formal separado das coisas que são compostas de matéria e forma ("Além disso, se existe algo").

A respeito da primeira, ele faz três coisas. Primeiro, descreve o problema. Segundo (444), argumenta um lado da questão ("Pois se não há nada"). Terceiro (445), argumenta o outro lado da questão ("Mas se isso é").

Assim, este problema surge com respeito a um ponto mencionado no último argumento da questão precedente, a saber, se um universal é separado das coisas singulares, como o referido argumento supunha. Ele descreve este problema como "aquele com o qual nossa análise agora se ocupa (235)", i.e., aquele que imediatamente precedeu o argumento anterior. E ele fala sobre isso desta forma: primeiro, que "está ligado a", i.e., é uma consequência do, anterior, porque, como já foi dito, a consideração da questão precedente depende disso. Pois se os universais não são separados, eles não são princípios; mas se são separados, eles são princípios. Segundo, ele fala deste problema como o mais difícil de todos os problemas nesta ciência. Isso é mostrado pelo fato de que os filósofos mais eminentes tiveram opiniões diferentes sobre ele. Pois os platônicos sustentavam que os universais são separados, enquanto os outros filósofos sustentavam o contrário. Terceiro, ele diz que este problema é aquele que é mais necessário considerar, porque todo o conhecimento das substâncias, tanto sensíveis quanto imateriais, depende disso.

  1. Pois se não há nada (236).

Aqui ele apresenta um argumento para mostrar que os universais são separados das coisas singulares. Pois as coisas singulares são infinitas em número, e o que é infinito não pode ser conhecido. Daí todas as coisas singulares podem ser conhecidas apenas na medida em que são reduzidas a algum tipo de unidade que é universal. Portanto, há ciência das coisas singulares apenas na medida em que os universais são conhecidos. Mas a ciência é apenas sobre coisas que são verdadeiras e que existem. Portanto, os universais são coisas que existem por si mesmas separadas das coisas singulares.

  1. Mas se isso é (237)

Então ele argumenta o outro lado da questão desta forma: se é necessário que os universais sejam algo aparte das coisas singulares, é necessário que os gêneros existam aparte das coisas singulares, seja os primeiros gêneros ou também os últimos, que são imediatamente anteriores às coisas singulares. Mas isso é impossível, como fica claro pela discussão precedente. Portanto, os universais não são separados das coisas singulares.

  1. O Filósofo resolve este problema no Livro VII (659:C 1592) desta obra, onde mostra de muitas maneiras que os universais não são substâncias que subsistem por si mesmas. Nem é necessário, como foi dito frequentemente, que uma coisa tenha o mesmo modo de ser na realidade que tem quando compreendida pelo intelecto de um conhecedor. Pois o intelecto conhece as coisas materiais imaterialmente, e de modo similar conhece universalmente as naturezas das coisas que existem como singulares na realidade, i.e., sem considerar os princípios e acidentes dos indivíduos.

447. Além disso, se existe algo (238).

Aqui ele levanta outra questão, a saber, se algo é separado das coisas compostas de matéria e forma; e a respeito disso, faz duas coisas. Primeiro, levanta a questão. Segundo (239:C 448), prossegue para tratá-la ("Se, então, existe").

Quanto ao primeiro, deve-se observar que ele primeiro levanta a questão se um universal é separado das coisas singulares. Ora, acontece que algumas coisas singulares são compostas de matéria e forma. Mas nem todas as coisas singulares são assim compostas, seja de acordo com o estado real das coisas, uma vez que as substâncias separadas são particulares porque existem e operam por si mesmas, seja até mesmo de acordo com a opinião dos platônicos, que sustentavam que mesmo entre as entidades matemáticas separadas existem particulares, na medida em que sustentavam que há muitas delas em uma única espécie. E embora seja passível de disputa se existe algo separado no caso daquelas coisas que não são compostas de matéria e forma, assim como o universal é separado do particular, o problema é principalmente se existe algo separado no caso das coisas que são compostas de matéria e forma. Por isso ele diz que o ponto que causa maior dificuldade é se existe algo "à parte do todo concreto", i.e., à parte da coisa composta de matéria e forma. A razão pela qual uma coisa composta é chamada de todo concreto, ele explica acrescentando "quando algo é predicado da matéria". Pois Platão sustentava que a matéria sensível participa dos universais separados, e que por esta razão os universais são predicados das coisas singulares. Essas participações nas formas universais pelas coisas materiais sensíveis constituem um todo concreto, na medida em que uma forma universal é predicada da matéria através de algum tipo de participação. Ora, a respeito dessas coisas, ele levanta uma questão que tem três partes, a saber, se existe algo que existe separado de todas as coisas deste tipo, ou separado de algumas e não de outras, ou separado de nenhuma.

448. Se, então, existe (239)

Aqui ele prossegue para tratar deste problema; e sobre ele faz duas coisas. Primeiro, argumenta contra a posição de que nada pode ser considerado separado das coisas compostas de matéria e forma. Segundo (244:C 454), ele argumenta o outro lado da questão ("Mas, novamente, se alguém sustenta isso").

Quanto ao primeiro (239), ele apresenta dois argumentos. Primeiro, argumenta a partir do princípio de que aquelas coisas que são compostas de matéria e forma são coisas sensíveis; e, portanto, ele propõe que aquelas coisas que são compostas de matéria e forma são singulares. No entanto, as coisas singulares não são inteligíveis, mas sensíveis. Portanto, se não há nada além das coisas singulares que são compostas de matéria e forma, nada será inteligível, mas todos os seres serão sensíveis. Mas existe ciência apenas das coisas que são inteligíveis. Portanto, segue-se que não haverá ciência de coisa alguma, a menos que alguém diga que a percepção sensorial e a ciência são a mesma coisa, como sustentavam os antigos filósofos da natureza, conforme é afirmado no Livro I de Da Alma. Mas ambas as conclusões são insustentáveis, a saber, que não existe ciência e que a ciência é percepção sensorial. Portanto, a primeira posição também é insustentável, a saber, que nada existe exceto as coisas singulares que são compostas de matéria e forma.

449. Além disso, nem existirá nada (240).

Segundo, ele argumenta com base no fato de que as coisas compostas de matéria e forma são móveis. Ele apresenta o seguinte argumento. Todas as coisas sensíveis compostas de matéria e forma perecem e estão sujeitas ao movimento. Portanto, se não existe nada além de seres deste tipo, seguir-se-á que nada é eterno ou imóvel.

450. Mas se existe (241).

Aqui ele mostra que esta conclusão é insustentável, a saber, que nada é eterno e imóvel. Ele faz isso, primeiro, com respeito à matéria; e segundo (242:C 451), com respeito à forma ("Além disso, uma vez que a geração").

Assim, ele diz primeiro (241) que, se nada é eterno, é impossível que algo seja gerado. Ele prova isso da seguinte forma. Em todo processo de geração deve haver algo que vem a ser e algo a partir do qual ele vem a ser. Portanto, se aquilo a partir do qual uma coisa vem a ser é ele mesmo gerado, deve ser gerado a partir de algo. Logo, deve haver um regresso ao infinito nos princípios materiais, ou o processo deve parar em algo primeiro que seja um primeiro princípio material não gerado, a menos que se possa dizer, talvez, que ele é gerado a partir do não-ser; mas isso é impossível. Ora, se o processo continuasse ao infinito, a geração nunca poderia ser completada, porque o infinito não pode ser percorrido. Portanto, é necessário sustentar ou que existe algum princípio material que não é gerado, ou que é impossível que ocorra qualquer geração.

451. Além disso, uma vez que a geração (242).

Aqui ele prova a mesma coisa com respeito à causa formal; e apresenta dois argumentos, o primeiro dos quais é o seguinte. Todo processo de geração e movimento deve ter algum termo. Ele prova isso com base no fato de que nenhum movimento é infinito, mas cada movimento tem algum termo. Isso é claro no caso de outros movimentos que se completam em seus termos. Mas parece que um exemplo contrário é encontrado no caso do movimento circular, que pode ser perpétuo e infinito, como é provado no Livro VIII da Física. E embora se suponha que o movimento é eterno, de modo que toda a continuidade do movimento circular é infinita na medida em que um movimento circular segue outro, ainda assim cada movimento circular é tanto completo em sua espécie quanto finito. Que um movimento circular suceda a outro é acidental no que diz respeito à natureza específica do movimento circular.

452. As coisas que ele disse sobre o movimento em geral, ele prova especialmente em relação à geração; pois nenhum processo de geração pode ser infinito, porque aquela coisa não pode ser gerada cujo processo de geração não pode chegar ao fim, uma vez que o fim da geração é ter sido feito. Que o seu ser feito é o termo da geração fica claro pelo fato de que o que foi gerado deve existir "assim que vier a ser", i.e., assim que sua geração é primeiramente terminada. Portanto, uma vez que a forma pela qual algo é é o termo da geração, deve ser impossível ter um regresso ao infinito no caso das formas, e deve haver alguma forma última da qual não há geração. Pois o fim de toda geração é uma forma, como dissemos. Assim, parece que, assim como a matéria a partir da qual uma coisa é gerada deve ela mesma ser não gerada porque é impossível um regresso ao infinito, de maneira semelhante deve haver alguma forma que não é gerada porque é impossível um regresso ao infinito no caso das formas.

453. Além disso, se a matéria existe (143). (Na versão original, (143) parece ser uma referência a uma seção ou parágrafo diferente. Mantendo a tradução fiel, ficaria como "Além disso, se a matéria existe (143)." No entanto, considerando que o texto anterior usava (241), (242), (239), etc., e aqui aparece (143), pode ser um erro de digitação na fonte ou uma referência que não se encaixa na sequência imediata. Seguir a instrução de não adicionar comentários.) Além disso, se a matéria existe (143).

Ele apresenta o segundo argumento, que se desenvolve assim. Se existe alguma matéria primeira que é ingerada, é muito mais razoável que exista alguma substância, isto é, alguma forma, que seja ingerada, pois uma coisa tem ser através de sua forma, enquanto a matéria é antes o sujeito da geração e da transmutação. Mas, se nenhuma dessas é ingerada, então absolutamente nada será ingerado, já que tudo o que existe tem o caráter de matéria ou forma ou é composto de ambas. Mas é impossível que nada seja ingerado, como foi provado (24-2:C 452). Portanto, segue-se que deve haver algo mais "além do sínolo", ou todo concreto, isto é, além da coisa singular que é composta de matéria e forma. E por algo mais quero dizer a forma ou princípio especificador. Pois a matéria em si mesma não pode ser separada das coisas singulares, porque ela só tem ser por razão de outra coisa. Mas isso parece ser verdadeiro antes da forma, pela qual as coisas têm ser.

  1. Mas, novamente, se alguém (244).

Aqui ele argumenta o outro lado da questão. Pois, se alguém sustenta que existe alguma forma separada das coisas singulares que são compostas de matéria e forma, surge o problema de em quais casos isso deve ser admitido e em quais não. Pois obviamente isso não deve ser considerado verdadeiro no caso de todas as coisas, especialmente naquelas feitas pela arte. Pois é impossível que exista uma casa além desta casa sensível, que é composta de matéria e forma.

  1. Ora, Aristóteles resolve este problema em parte no Livro XII (2488) desta obra, onde mostra que existem certas substâncias separadas das coisas sensíveis e inteligíveis em si mesmas; e em parte no Livro VII (1503), onde mostra que as formas ou princípios especificadores das coisas sensíveis não são separadas da matéria. No entanto, não se segue que nenhuma ciência das coisas sensíveis possa existir ou que a ciência seja percepção sensorial. Pois não é necessário que as coisas tenham em si mesmas o mesmo modo de ser que têm no intelecto de quem as conhece. Pois aquelas coisas que são materiais em si mesmas são conhecidas de modo imaterial pelo intelecto, como também foi dito acima (446). E, embora uma forma não seja separada da matéria, não é necessário, portanto, que ela seja gerada; pois não são as formas que são geradas, mas os compostos, como será mostrado no Livro VII (1417) desta obra. Fica claro, então, em quais casos é necessário postular formas separadas e em quais não. Pois as formas de todas as coisas que são sensíveis por natureza não são separadas da matéria, enquanto as formas das coisas que são inteligíveis por natureza são separadas da matéria. Pois as substâncias separadas não têm a natureza das coisas sensíveis, mas são de uma natureza superior e pertencem a outra ordem dos seres existentes.