LIÇÃO 15 - Os Primeiros Princípios Existem em Ato ou em Potência, e São Universais ou Singulares?
TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 6: 1002b 32-1003b 17
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E, ligadas a esses problemas, está a questão de saber se os elementos das coisas existem em potência ou de alguma outra forma.
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Se existem de alguma outra forma, então haverá algo anterior aos [primeiros] princípios. Pois a potência é anterior àquela causa, mas o potencial não precisa existir dessa forma.
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Mas se os elementos existem em potência, é possível que nada exista; pois até aquilo que ainda não existe é capaz de existir, porque o que não existe pode vir a ser. Mas nada que é incapaz de existir pode vir a ser. É necessário, portanto, investigar esses problemas.
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E há também o problema de saber se os [primeiros] princípios são universais ou coisas singulares, como sustentamos.
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Pois, se são universais, não serão substâncias, porque um termo comum significa não uma coisa particular, mas que tipo de coisa; e uma substância é uma coisa particular.
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Mas, se é uma coisa particular, e é tida como a quididade comum que é predicada das coisas, o próprio Sócrates será muitos animais: [ele mesmo] e homem e animal; isto é, se cada um desses significa uma coisa particular e uma unidade. Se, então, os primeiros princípios das coisas são universais, essas consequências se seguirão.
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No entanto, se não são universais, mas têm a natureza de coisas singulares, não serão cognoscíveis; pois todo conhecimento científico é universal. Portanto, se deve haver algum conhecimento científico dos [primeiros] princípios, terão que existir princípios diferentes que sejam predicados universalmente e sejam anteriores aos [primeiros] princípios.
COMENTÁRIO
Q 14d: Os princípios das substâncias são atuais ou potenciais?
- Tendo inquirido o que são os princípios, o Filósofo agora pergunta como eles existem. Primeiro, pergunta se existem em potência ou em ato; e segundo (523), se são universais ou singulares ("E há também o problema"). Quanto ao primeiro, ele faz três coisas. Primeiro, levanta a questão. Segundo (520), argumenta um lado ("Se existem"). Terceiro (501), argumenta o lado oposto ("Mas se os elementos").
Sua primeira questão (287), então, é se os primeiros princípios existem em potência ou "de alguma outra forma", isto é, em ato. Esse problema é introduzido por causa dos antigos filósofos da natureza, que sustentavam que existem apenas princípios materiais, que estão em potência. Mas os platônicos, que postularam Formas separadas como princípios formais, afirmavam que elas existem em ato.
- Se existem (288).
Ele prova que os princípios existem em potência. Pois, se existissem "de alguma outra forma", i.e., em ato, seguir-se-ia que haveria algo anterior aos princípios; pois a potência é anterior à atualidade. Isso é claro pelo fato de que uma coisa é anterior a outra quando a sequência de seu ser não pode ser invertida; pois, se uma coisa existe, segue-se que ela pode ser, mas não se segue necessariamente que, se uma coisa é possível, ela existirá em ato. Mas é impossível que algo seja anterior a um primeiro princípio. Portanto, é impossível que um primeiro princípio exista de qualquer outra forma senão em potência.
- Mas se os elementos (289).
Aqui ele argumenta o outro lado da questão. Se os princípios das coisas existem em potência, segue-se que nenhum ser existe em ato; pois aquilo que existe em potência ainda não existe em ato. Ele prova isso com base no fato de que aquilo que está vindo a ser não é um ser. Pois o que existe não está vindo a ser; mas apenas aquilo que existe em potência vem a ser. Portanto, tudo o que existe em potência é não-ser. Logo, se os princípios existem apenas em potência, os seres não existirão. Mas, se os princípios não existem, seus efeitos também não existirão. Segue-se, então, que é possível que nada exista na ordem do ser. E, resumindo esta conclusão, ele conclui que, de acordo com o que foi dito, é necessário inquirir sobre os princípios das coisas pelas razões apresentadas.
- Esta questão será respondida no Livro IX (1844) desta obra, onde se mostra que a atualidade é anterior à potencialidade em sentido absoluto, mas que, em qualquer coisa que passa da potencialidade à atualidade, a potencialidade é anterior à atualidade no tempo. Por isso, é necessário que o primeiro princípio exista em ato e não em potência, como se mostra no Livro XII (2500) desta obra.
Q 14e: Os princípios das substâncias são universais ou singulares?
- E eis também o problema (290).
Aqui ele pergunta se os princípios das coisas existem como universais ou como coisas singulares; e, quanto a isso, faz três coisas. Primeiro, apresenta a questão. Segundo (524), argumenta um lado ("Pois, se são universais"). Terceiro (527), argumenta o outro lado ("Contudo, se não são universais"). O problema (290), então, é se os princípios são universais ou existem à maneira de coisas singulares.
- Pois, se são (291).
Em seguida, prova que os princípios não são universais, mediante o seguinte argumento. Nenhum predicado comum a muitas coisas significa uma coisa particular, mas significa tal e tal coisa ou de que tipo é uma coisa; e isso não segundo uma qualidade acidental, mas segundo uma qualidade substancial, como é dito adiante no Livro V (487:C 987) desta obra. A razão disso é que uma coisa particular é dita tal na medida em que subsiste por si mesma. Mas aquilo que subsiste por si mesmo não pode ser algo que existe em muitos, como pertence à noção de comum. Pois aquilo que existe em muitos não subsistirá por si mesmo, a menos que seja ele próprio muitos. Mas isso é contrário à noção de comum, porque o que é comum é o que é um-em-muitos. Portanto, é claro que uma coisa particular não significa algo comum, mas significa uma forma existente em muitas coisas.
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Além disso, ele acrescenta a premissa menor, a saber, que a substância significa uma coisa particular. E isso é verdadeiro das substâncias primeiras, que são ditas substâncias no sentido pleno e próprio, como é afirmado nas Categorias; "pois substâncias desse tipo são coisas que subsistem por si mesmas. Assim, segue-se que, se os princípios são universais, eles não são substâncias. Portanto, ou não haverá princípios das substâncias, ou será necessário dizer que os princípios das substâncias não são substâncias.
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Mas, como é possível que alguém afirme que algum predicado comum possa significar esta coisa particular, ele critica isso quando diz "Mas se é (292)".
Ele explica a consequência insustentável que resulta disso. Pois, se um predicado comum fosse uma coisa particular, seguir-se-ia que tudo aquilo a que esse predicado comum é aplicado seria esta coisa particular que é comum. Mas é claro que tanto animal quanto homem são predicados de Sócrates, e que cada um desses — animal e homem — é um predicado comum. Portanto, se todo predicado comum fosse uma coisa particular, seguir-se-ia que Sócrates seria três coisas particulares; pois Sócrates é Sócrates, que é uma coisa particular; e ele é também um homem, que é uma coisa particular segundo o acima; e ele é também um animal, que é similarmente uma coisa particular. Logo, ele seria três coisas particulares. Além disso, seguir-se-ia que haveria três animais; pois animal é predicado de si mesmo, de homem e de Sócrates. Portanto, como isso é impossível, também é impossível que um predicado comum seja uma coisa particular. Essas, então, serão as consequências impossíveis que se seguem se os princípios são universais.
- Contudo, se não são (293).
Ele argumenta o outro lado da questão. Como todas as ciências são universais, elas não se ocupam dos singulares, mas dos universais. Portanto, se alguns princípios não fossem universais, mas fossem coisas singulares, eles não seriam cognoscíveis em si mesmos. Logo, se alguma ciência pudesse ser tida deles, haveria que existir certos princípios anteriores, que seriam universais. É necessário, então, que os primeiros princípios sejam universais para que se possa ter ciência das coisas; porque, se os princípios permanecerem desconhecidos, as outras coisas devem permanecer desconhecidas.
- Esta questão será respondida no Livro VII (1584) desta obra, onde se mostra que os universais não são nem substâncias nem princípios das coisas. Contudo, não se segue por essa razão que, se os princípios e as substâncias das coisas fossem singulares, não poderia haver ciência deles, tanto porque as coisas imateriais, mesmo que subsistam como singulares, são no entanto também inteligíveis, quanto porque há ciência dos singulares segundo seus conceitos universais, que são apreendidos pelo intelecto.