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LIÇÃO 6 - Devir por Natureza, por Arte e por Acaso. A Fonte e o Sujeito do Devir

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 7: 1032a 12-1033a 23

598. Ora, das coisas que vêm a ser, algumas vêm a ser por natureza, outras por arte e outras espontaneamente.

599. E tudo que vem a ser vem a ser por algo e a partir de algo e torna-se algo. E esse algo que digo que vem a ser pode estar em qualquer categoria; pois pode vir a ser ou um isto, ou tanto, ou de tal tipo, ou em algum tempo.

600. Ora, as gerações naturais são aquelas que ocorrem por natureza.

601. E aquilo a partir do qual uma coisa vem a ser é o que chamamos de matéria; e aquilo pelo qual ela vem a ser é uma daquelas coisas que existem por natureza. E esse algo que ela vem a ser é um homem, ou uma planta, ou alguma outra daquelas coisas que principalmente afirmamos serem substâncias.

602. Ora, todas as coisas que vêm a ser, seja por natureza ou por arte, têm matéria; pois é possível para cada uma delas ser e não ser, e essa possibilidade é a matéria de cada uma.

603. E, em geral, tanto aquilo a partir do qual elas vêm a ser quanto aquilo segundo o qual elas vêm a ser é natureza; pois a coisa gerada, como uma planta ou um animal, tem uma natureza. E aquilo pelo qual elas são geradas, i.e., a chamada natureza específica, que é especificamente a mesma, também é natureza (embora isso seja encontrado em outra coisa); pois o homem gera o homem. As coisas que vêm a ser por natureza, então, são produzidas dessa maneira.

604. Mas os outros tipos de geração são chamados de "produções"; e todas as produções são resultado ou de arte, ou de poder, ou de mente. E algumas delas são resultado de acaso e fortuna, da mesma forma que as coisas que vêm a ser por natureza; pois algumas dessas mesmas coisas são geradas tanto a partir de semente quanto sem semente. Portanto, teremos que investigar isso mais tarde (619).

605. Ora, aquelas coisas são produzidas por arte cuja forma existe na mente; e por forma quero dizer a essência de cada coisa e sua primeira substância. Pois mesmo os contrários têm, em certo sentido, a mesma forma; pois a substância de uma privação é a mesma que a substância de seu oposto, como a saúde é a substância da doença, pois a doença se torna aparente pela ausência de saúde; e a saúde que existe na mente é o conceito no conhecimento científico.

606. A saúde ocorre, então, como resultado do pensar desta maneira: já que a saúde é tal e tal, se a saúde deve existir, tal e tal condição deve existir, por exemplo, regularidade; e se isto deve existir, deve haver calor; e o médico continua a pensar dessa maneira até que eventualmente chegue a alguma coisa final que ele é capaz de fazer. Portanto, o movimento que começa a partir disso, que é ordenado para a aquisição da saúde, é chamado de produção. Daí resulta que, em certo sentido, a saúde vem da saúde, e uma casa vem de uma casa, e o que tem matéria vem do que é sem matéria; pois a arte médica e a arte de construir são a forma da saúde e a forma de uma casa. E por substância sem matéria quero dizer a essência.

607. Das gerações e movimentos, uma parte é chamada pensamento e a outra produção; pois o que procede do princípio e da forma é pensamento, e o que procede do termo do pensamento é produção. E cada uma das demais coisas, intermediárias, é produzida da mesma maneira. Quero dizer que, se a saúde deve ser restaurada, um equilíbrio deve ser alcançado. O que, então, um equilíbrio envolve? Alguma coisa particular. E isso ocorrerá se o corpo for aquecido. E o que isso envolve? Algo mais. E isso existe em potência; e já está presente no próprio médico. A coisa que produz o efeito, então, e aquilo a partir do qual a restauração da saúde começa, se ela vier a ser pela arte, é a forma na mente.

608. Mas se ela vier a ser por acaso, a coisa que a produz é o ponto de partida da produção para aquele que age pela arte. Por exemplo, na restauração da saúde, o ponto de partida pode ser talvez a produção de calor, que o médico causa pela fricção. O calor no corpo, então, é ou uma parte da saúde, ou é seguido por algo tal como é uma parte da saúde, ou ocorre através de vários intermediários. Ora, esta última coisa é a que produz a saúde, e o que é tal é uma parte da saúde, como as pedras são partes de uma casa e outros materiais são partes de outras coisas.

609. Portanto, como se diz, é impossível que algo seja produzido se nada pré-existe. Logo, que alguma parte necessariamente pré-existirá é evidente; pois a matéria é uma parte, já que existe no produto e se torna algo. Portanto, ela também é uma daquelas coisas que estão contidas na expressão inteligível de uma coisa. E descrevemos o que são círculos de bronze de ambas as maneiras, dizendo sobre a matéria que é bronze, e sobre o princípio especificador que é tal e tal figura. E este é o gênero no qual o círculo é primeiramente colocado. Portanto, um círculo de bronze tem matéria em sua expressão inteligível.

610. Agora, quanto àquilo a partir do qual como matéria uma coisa é produzida, algumas coisas, quando são produzidas, não são ditas ser aquilo, mas daquela espécie; por exemplo, uma estátua não é pedra, mas de pedra. E um homem que está recuperando sua saúde não é dito ser aquilo do qual ele veio. A razão é que, embora uma coisa venha tanto de sua privação quanto de seu sujeito, que chamamos de matéria (por exemplo, o que se torna saudável é tanto um homem quanto alguém que está doente), dizemos que ela vem antes de sua privação (por exemplo, uma pessoa saudável vem de uma doente, em vez de de um homem). E por esta razão uma pessoa saudável não é dita ser uma pessoa doente, mas ser um homem, e o homem é dito ser saudável. No entanto, quanto àquelas coisas das quais a privação não é evidente e é inominada (por exemplo, a privação de alguma figura particular no bronze ou nos tijolos e madeiras de uma casa), a coisa produzida parece vir destas assim como uma pessoa saudável vem de uma doente. Portanto, assim como no primeiro caso uma coisa não é dita ser aquilo do qual ela vem a ser, também neste caso a estátua não é dita ser madeira, mas de madeira, não bronze, mas de bronze, não pedra, mas de pedra; e uma casa não é dita ser tijolos, mas de tijolos. Pois se alguém examinasse a questão cuidadosamente, não diria sem qualificação que a estátua vem da madeira ou a casa dos tijolos, porque deve haver mudança naquilo do qual algo vem a ser sem permanecer. É por esta razão, então, que falamos desta maneira.

COMENTÁRIO

1381. Tendo mostrado o que é a essência e a quais coisas ela pertence, e que ela não difere da coisa à qual pertence, o Filósofo agora visa mostrar que as essências e formas presentes nestas coisas sensíveis não são geradas por quaisquer formas existentes separadas da matéria, mas por formas presentes na matéria. E esta será uma das maneiras pelas quais a posição de Platão é destruída; pois Platão afirmava que existem Formas separadas, e que estas são necessárias tanto para que se tenha um entendimento das coisas sensíveis, quanto para que as coisas sensíveis possam existir pela participação nelas, e quanto para que estas Formas possam ser responsáveis pela geração das coisas sensíveis. Ora, ele já mostrou, no capítulo anterior (593:C 1368), que as Formas separadas não são necessárias nem para explicar nosso entendimento das coisas sensíveis nem seu ser, uma vez que estas podem ser adequadamente explicadas com base no fato de que a quididade de uma coisa sensível está presente nessa coisa e é idêntica a ela. Portanto, resta mostrar que as Formas separadas não são requeridas para a geração das coisas sensíveis; e ele prova isto neste capítulo.

Este empreendimento é, portanto, dividido em duas partes. Na primeira (598:C 1381), ele prefacia sua discussão com certos pontos requeridos para a prova de sua tese. Na segunda (611:C IV7), ele prova sua tese ("Agora, uma vez que").

Em relação à primeira, ele faz duas coisas. Primeiro, ele propõe certas divisões a respeito dos processos de geração que ocorrem no mundo natural. Segundo (600:C 1385), ele explica estas ("Ora, as gerações naturais").

Ele dá duas divisões. A primeira diz respeito às coisas que são geradas e ao seu modo de geração; e a segunda (599:C 1383), às condições necessárias para a geração ("E tudo").

Ele diz, portanto, primeiro (598), que das coisas que vêm a ser, algumas vêm a ser por natureza, algumas pela arte, e algumas por acaso, ou "espontaneamente", i.e., por si mesmas sem propósito. A razão para esta divisão é que a causa da geração é ou uma causa própria ou uma causa acidental. Pois se é uma causa própria, é ou o princípio de movimento intrínseco a uma coisa, e então é natureza, ou é extrínseco à coisa, e então é arte; pois a natureza é um princípio de movimento naquilo em que existe, mas a arte não existe na coisa produzida pela arte, mas em outra coisa.

1382. Mas se é uma causa acidental, então é acaso ou fortuna. É fortuna com referência àquelas coisas que agem pela mente, mas o acaso ocorre também em outras coisas; e ambos estes caem sob "o espontâneo", i.e., o que é por si mesmo sem propósito; pois aquilo é sem propósito que é direcionado a um fim e não o alcança. E tanto o acaso quanto a fortuna são encontrados entre aquelas coisas que são feitas por causa de algum fim, quando algum efeito resulta além daquele pretendido por alguma causa própria definida. Portanto, um efeito é dito próprio na medida em que tem uma causa definida, e dito sem propósito na medida em que ocorre à parte da intenção do agente.

1383. E tudo (599).

Então ele dá a segunda divisão, que envolve as condições da geração; pois tudo o que vem a ser é trazido à existência por algum agente, e é produzido a partir de algo como sua matéria, e também se torna algo, que é o termo da geração. E uma vez que ele disse acima que este algo pertence à classe das substâncias, ele agora nos informa que isto deve ser entendido de uma maneira mais geral, na medida em que por algo se entende qualquer categoria na qual a geração pode ocorrer, de modo absoluto ou qualificado, essencial ou acidentalmente. Pois o algo do qual ele falou é ou "um isto", i.e., uma substância, ou uma quantidade ou qualidade ou tempo ou alguma outra categoria.

1384. E a razão para esta divisão é que em toda geração algo que era anteriormente potencial torna-se atual. Ora, uma coisa pode ser dita ir da potência à atualidade apenas em razão de algum ser atual, que é o agente pelo qual o processo de geração é realizado. Ora, a potência pertence à matéria da qual algo é gerado; e a atualidade pertence à coisa gerada.

1385. Ora, as gerações naturais (600).

Em seguida, ele explica que essas três condições necessárias para a geração são encontradas nos três tipos mencionados; e, a respeito disso, faz duas coisas. Primeiro (600:C 1385), explica sua tese. Segundo (609:C 1412), introduz a conclusão que pretende principalmente extrair ("Por isso, como se diz").

Quanto ao primeiro, ele faz três coisas. Primeiro, esclarece isso no caso das gerações naturais; segundo (604:C 1394), no caso das gerações resultantes da arte ("Mas o outro"); e terceiro (608:C 1410), no caso das gerações que ocorrem por acaso ("Mas se vier").

Quanto ao primeiro, ele faz quatro coisas. Primeiro (600), indica quais gerações são naturais. Diz que são naturais aquelas gerações cujo princípio é a natureza e não a arte ou qualquer mente, por exemplo, quando fogo, planta ou animal são gerados como resultado do poder natural inerente às coisas.

1386. E aquilo a partir do que (601).

Tendo postulado essas três condições, ele agora dá exemplos de gerações naturais. Diz que na geração natural há algo a partir do qual qualquer coisa natural é gerada, e isso se chama matéria; e algo pelo qual é gerada, e isso se chama agente; e há esta coisa particular, ou seja, a coisa gerada, como um homem, uma planta ou algo desse tipo, que "afirmamos ser principalmente substâncias", i.e., substâncias compostas particulares, que são mais evidentemente substâncias, como foi dito acima. Mas a matéria e a forma, que é o princípio de ação no agente, são substâncias apenas enquanto são princípios das substâncias compostas.

1387. Ora, dessas três condições, duas têm a natureza de princípios de geração, a saber, matéria e agente, e a terceira tem a natureza de término da geração, i.e., o composto que é gerado. E como a natureza é um princípio de geração, tanto a matéria quanto a forma, que é o princípio de geração no agente, são chamadas de natureza, como é evidente no Livro II da Física. E o composto que é gerado é dito ser por natureza ou segundo a natureza.

1388. Ora, todas as coisas (602).

Aqui ele prova que uma dessas três condições — o princípio a partir do qual algo vem a ser — é encontrada em todo tipo de geração, não apenas nas gerações naturais, mas também nas artificiais (pois a natureza das outras duas condições é evidente). Diz que todas as coisas que vêm a ser por natureza ou por arte têm uma matéria a partir da qual vêm a ser; pois tudo que é gerado por natureza ou por arte é capaz tanto de ser quanto de não ser. Pois, como a geração é uma mudança do não ser ao ser, a coisa gerada deve ora ser e ora não ser, e isso seria verdade apenas se fosse possível para ela tanto ser quanto não ser. Ora, o elemento potencial que cada coisa tem tanto para ser quanto para não ser é a matéria; pois ela está em potência para as formas pelas quais as coisas têm ser, e para as privações pelas quais têm não ser, como fica claro pelo que foi dito acima. Portanto, segue-se que deve haver matéria em todo tipo de geração.

1389. E em geral (603).

Aqui ele mostra como as três condições mencionadas acima se relacionam com a natureza. Diz que, em geral, cada uma das três condições mencionadas acima é, de certo modo, natureza. Pois o princípio a partir do qual a geração natural procede, a saber, a matéria, é chamado de natureza; e por essa razão, as gerações dos corpos simples são ditas naturais, ainda que o princípio ativo de sua geração seja extrínseco a eles. Isso parece ser contrário à própria noção de natureza, porque a natureza é um princípio intrínseco que tem uma aptidão natural para tal forma; e os processos de geração que procedem desse princípio são ditos naturais.

1390. Além disso, o princípio segundo o qual a geração ocorre, a saber, a forma da coisa gerada, é dito ser sua natureza, como uma planta ou um animal; pois uma geração natural é aquela que se dirige à natureza, assim como o ato de branquear é aquele que se dirige à brancura.

1391. Além disso, o princípio pelo qual a geração ocorre, como por um agente, é a natureza específica, que é especificamente a mesma que a natureza da coisa gerada, embora exista em outra coisa; pois homem gera homem. No entanto, a coisa gerada e a que a gera não são numericamente as mesmas, mas apenas especificamente as mesmas.

1392. E por essa razão se diz no Livro II da Física que a forma e o objetivo do processo de geração coincidem em um mesmo indivíduo. Ora, o agente coincide com eles enquanto é especificamente o mesmo, mas não enquanto é numericamente o mesmo. Mas a matéria não é nem especificamente nem numericamente a mesma.

1393. Outro texto afirma que o princípio pelo qual uma coisa vem a ser é a chamada natureza específica ou uma que a ela se conforma; pois a coisa gerada e a que a gera nem sempre são especificamente as mesmas, embora tenham alguma conformidade, como quando um cavalo gera uma mula. Finalmente, ele conclui que as coisas geradas por natureza são geradas da maneira descrita.

1394. Mas os outros tipos (604).

Ele agora resolve a questão sobre as coisas geradas pela arte; e, a respeito disso, faz duas coisas. Primeiro (604), distingue os processos de geração provenientes da arte de outros processos de geração, a saber, os naturais. Segundo (605:C 1404), mostra como a geração ocorre pela arte ("Agora, aquelas coisas").

Ele diz, portanto, primeiro, que aqueles processos de geração que diferem dos naturais são chamados produções. Pois, embora no caso das coisas naturais possamos usar a palavra produção, que é equivalente a praxis em grego (como quando dizemos que o que está realmente quente produz algo que está realmente quente), ainda assim usamos a palavra adequadamente em referência àquelas coisas que ocorrem como resultado da mente, nas quais a mente do agente tem domínio sobre a coisa que ele faz, na medida em que pode fazê-la desta ou daquela maneira. Mas isso não ocorre no caso das coisas naturais, pois elas agem antes visando algum efeito na maneira definida que lhes foi provida por um agente superior. Além disso, produções desse tipo são resultado da arte, do poder ou da mente.

1395. Agora, o termo "poder" usado aqui parece ser tomado no sentido de violência; pois certas daquelas coisas que não ocorrem pela natureza são produzidas pela virtude do poder do agente apenas, no qual é necessário um mínimo de arte e um mínimo de atividade dirigida pela mente. Isso ocorre especialmente ao puxar, lançar ou expelir corpos.

1396. Além disso, quando a direção da mente é necessária, às vezes isso ocorre pela arte, e às vezes apenas pela mente, como quando alguém ainda não possui um hábito artístico perfeitamente. Pois, assim como uma pessoa pode argumentar pela arte, e outra sem arte, como uma pessoa não instruída, também em relação àquelas coisas que são feitas pela arte, alguém pode produzir uma obra artística pela arte, e outra pessoa sem arte.

1397. Ademais, daqueles processos de geração que são resultado da arte, do poder ou da mente, alguns são resultado do acaso e da fortuna, por exemplo, quando um agente, pelo uso da inteligência, visa algum objetivo a ser alcançado por sua própria atividade, e um objetivo é alcançado que o agente não pretendia. Por exemplo, alguém pretende esfregar-se vigorosamente e a saúde vem disso, como é dito mais adiante (C 1403).

1398. E a mesma coisa ocorre no caso das coisas produzidas pela arte como naquelas produzidas pela natureza; pois o poder contido na semente, como é dito abaixo (619:C 1451), é semelhante à arte, porque assim como a arte através de certos intermediários definidos atinge a forma que visa, também o poder formativo na semente. E assim como um efeito produzido pela arte pode também ocorrer fora da intenção da arte ou da mente, e então é dito acontecer por acaso, também no caso dessas coisas, i.e., as naturais, algumas coisas são geradas tanto da semente quanto sem semente. E quando são geradas da semente, são geradas pela natureza; mas quando são geradas sem semente, são geradas por acaso. Essas coisas também devem ser investigadas neste mesmo capítulo.

1399. Agora, as palavras aqui usadas dão origem a dois problemas. O primeiro é que, uma vez que toda coisa natural tem um modo definido de geração, aquelas coisas que são geradas da semente e aquelas que são geradas da putrefação não parecem ser as mesmas. Isso é o que Averróis parece sentir em seu comentário sobre o Livro VIII da Física, pois ele diz que um animal que é gerado da semente e um que é gerado da putrefação não podem ser especificamente os mesmos. Avicena, no entanto, sente que todas as coisas que são geradas da semente podem ser geradas na mesma espécie sem semente, a partir da putrefação, ou por algum método de combinação de matérias terrestres.

1400. A visão de Aristóteles parece ser um meio-termo entre essas duas opiniões, a saber, que algumas coisas podem ser geradas tanto da semente quanto sem semente, mas não todas as coisas, como ele diz abaixo (610:C 1454); assim como no caso das coisas produzidas pela arte, nem todas as coisas podem ser produzidas pela arte e sem arte, mas algumas são produzidas apenas pela arte, como uma casa. Pois os animais perfeitos parecem ser capazes de ser gerados a partir da semente, enquanto os animais imperfeitos, que são semelhantes às plantas, parecem ser capazes de ser gerados tanto da semente quanto sem semente. Por exemplo, as plantas são às vezes produzidas sem semente pela ação do sol sobre a terra quando ela está devidamente disposta para esse efeito; no entanto, plantas geradas dessa forma produzem sementes a partir das quais plantas de um tipo semelhante são geradas.

1401. E isso é razoável, porque quanto mais perfeita uma coisa é, mais numerosas são as coisas necessárias para sua completude. E, por essa razão, na geração de plantas e animais imperfeitos, é suficiente que o poder dos céus sozinho aja. Mas no caso dos animais perfeitos, o poder da semente também é necessário, juntamente com o poder dos céus. Por isso é dito no Livro II da Física que o homem e o sol geram o homem.

1402. O segundo problema é que os animais que são gerados sem semente a partir da putrefação não parecem ser produzidos pelo acaso, mas por algum agente definido, a saber, pelo poder dos céus, que na geração de tais animais fornece a energia do poder gerativo encontrado na semente. O Comentador também é dessa opinião em seu comentário sobre o Livro IX desta obra.

1403. Mas deve-se notar que nada impede que um processo de geração seja um processo próprio quando referido a uma causa, e ainda assim seja um assunto acidental ou casual quando referido a outra causa, como é evidente no exemplo do Filósofo. Pois quando a saúde resulta de uma esfrega vigorosa totalmente fora do objetivo daquele que está esfregando, o processo de restaurar a saúde, se for referido à natureza, que governa o corpo, não é acidentalmente, mas propriamente visado. No entanto, se for referido ao objetivo daquele que está esfregando, será acidental e uma questão de acaso. Da mesma forma, se o processo de geração de um animal gerado a partir da putrefação for referido às causas particulares que atuam aqui embaixo, também será considerado acidental e uma questão de acaso; pois o calor, que causa a putrefação, não é inclinado pela natureza a ter como objetivo a geração deste ou daquele animal particular que resulta da putrefação, assim como o poder na semente tem como objetivo a geração de algo de um tipo particular. Mas se for referido ao poder dos céus, que é o poder universal que regula a geração e a corrupção nesses corpos inferiores, não é acidental, mas é diretamente visado, porque seu objetivo é que todas as formas existentes potencialmente na matéria sejam trazidas à atualidade. Assim, Aristóteles comparou corretamente aqui as coisas que vêm a ser pela arte com aquelas que vêm a ser pela natureza.

1404. Agora, aquelas coisas (605).

Ele agora explica a maneira pela qual as coisas são geradas pela arte; e ele faz isso principalmente com referência ao princípio eficiente, pois o princípio material já foi discutido onde ele falou sobre a geração natural. A respeito disso, faz duas coisas. Primeiro, mostra qual é o princípio ativo em um processo de geração resultante da arte. Segundo (606:C 1406), mostra como o processo de geração procede desse princípio ("A saúde vem a ser").

Ele diz, portanto, primeiro (605), que aquelas coisas que vêm a ser pela arte são aquelas das quais a forma produtiva existe na mente. E por forma ele significa a essência de qualquer coisa feita pela arte, por exemplo, a essência de uma casa, quando é uma casa que é feita. Ele também chama isso de "primeira substância", i.e., a primeira forma; e ele faz isso porque a forma presente na matéria das coisas feitas pela arte procede da forma presente na mente. No caso das coisas naturais, no entanto, o oposto é verdadeiro.

1405. Agora, a forma presente na mente difere daquela presente na matéria; pois na matéria as formas dos contrários são diferentes e opostas, mas na mente os contrários têm, em certo sentido, a mesma forma. E isso é verdade porque as formas presentes na matéria existem para o bem do ser das coisas informadas, mas as formas presentes na mente existem de acordo com o modo do que é cognoscível ou inteligível. Ora, enquanto o ser de um contrário é destruído pelo de outro, o conhecimento de um contrário não é destruído pelo de outro, mas antes é sustentado por ele. Portanto, as formas dos contrários na mente não são opostas, mas antes "a substância", i.e., a quididade, "de uma privação" é a mesma que a substância de seu contrário, assim como os conceitos de saúde e doença na mente são os mesmos; pois a doença é conhecida pela ausência de saúde. Além disso, a saúde que existe na mente é o conceito pelo qual a saúde e a doença são conhecidas; e é encontrada "no conhecimento científico" de ambos, i.e., no conhecimento de ambos.

1406. A saúde se produz (606).

Agora ele mostra como a saúde é produzida por esse princípio; e quanto a isso, faz duas coisas. Primeiro, mostra como a saúde que existe na mente é o princípio (ou ponto de partida) para a restauração da saúde; e segundo (607:C 1408), como o termo princípio é tomado de diferentes maneiras em relação à atividade da arte (“Das gerações”).

Ele diz, portanto (606) que, uma vez que a saúde presente na mente é o princípio da saúde produzida pela arte, a saúde é gerada em um sujeito como resultado de alguém pensar desta maneira: como a saúde é tal e tal, isto é, seja a regularidade ou o equilíbrio de calor, frio, umidade e secura, se a saúde deve existir, é necessário que isto exista, i.e., a regularidade ou o equilíbrio dos humores; e se a regularidade ou equilíbrio deve existir, deve haver calor, pelo qual os humores são equilibrados; e assim, sempre indo do que é subsequente ao que é anterior, ele pensa na coisa que é produtora de calor, e então na coisa que é produtora disso, até chegar a alguma coisa final que ele mesmo é imediatamente capaz de fazer, por exemplo, a administração de algum medicamento particular; e finalmente, o movimento começando a partir da coisa que ele pode fazer imediatamente é dito ser a atividade dirigida à produção da saúde.

1407. Daí é evidente que, assim como no caso das coisas naturais o homem é gerado a partir do homem, também no caso das coisas artificiais acontece que a saúde vem a ser, em certo sentido, a partir da saúde, e uma casa a partir de uma casa; i.e., a partir do que existe na mente sem matéria, produz-se algo que tem matéria. Pois a arte médica, que é o princípio da saúde, nada mais é do que a forma da saúde existente na mente; e esta forma ou substância, que existe sem matéria, é aquela que ele menciona acima como a essência da coisa produzida pela arte.

1408. Das gerações (607).

Ele mostra como a palavra princípio é tomada de diferentes maneiras em relação às atividades da arte. Ele diz que nas gerações e movimentos artificiais há uma atividade que é chamada de pensar e outra que é chamada de produzir. Pois o planejamento do artista, que começa a partir do princípio que é a forma da coisa a ser feita por sua arte, é ele mesmo chamado de pensar; e esta atividade se estende, como foi dito acima, até o que é último na ordem da intenção e primeiro na ordem da execução. Portanto, a atividade que começa a partir desta última coisa em que a atividade de pensar termina, é chamada de produzir, e esta é então um movimento que afeta a matéria.

1409. E o que dissemos sobre a atividade da arte em referência à forma, que é o objetivo final da geração artificial, também se aplica no caso de todas as outras coisas intermediárias; por exemplo, para que alguém possa ser curado, os humores do corpo devem ser equilibrados. Portanto, este processo de equilíbrio é uma das coisas intermediárias que está mais próxima da saúde. E assim como o médico, quando visa causar saúde, deve começar considerando o que é a saúde, também quando pretende produzir um equilíbrio, ele deve saber o que é um equilíbrio, ou seja, que é “alguma coisa particular”, i.e., a proporção de humores apropriada à natureza humana. “E isto ocorrerá se o corpo for aquecido” — supondo que alguém esteja doente por falta de calor. E novamente ele deve saber o que isto é, i.e., o que é ser aquecido, como se alguém pudesse dizer que ser aquecido consiste em ser alterado por um medicamento quente. E “isto, ou seja, a administração de um medicamento quente, está imediatamente no poder do médico; e “isto já está presente no próprio médico”, i.e., está em seu poder administrar tal medicamento.

1410. Daí é evidente que o princípio causador da saúde, a partir do qual o processo de restaurar a saúde começa, é a forma existente na mente, seja da própria saúde, ou de outras coisas intermediárias pelas quais a saúde é produzida. E digo que este é o caso se o processo de restaurar a saúde ocorre pela arte. Mas se ocorre de alguma outra maneira, o princípio da saúde não será uma forma existente na mente; pois isto é próprio das operações artificiais.

1411. Mas se (608).

Ele mostra como ocorrem as gerações por acaso. Ele diz que, quando a restauração da saúde ocorre por acaso, o princípio da saúde é o mesmo a partir do qual a saúde ocorre para aquele que causa saúde pela arte. Mas isto deve ser entendido do princípio de produção, que é último na ordem da intenção e primeiro na ordem da execução, assim como no processo de restaurar a saúde o princípio da saúde pode às vezes começar com o aquecimento do paciente. E o processo de restaurar a saúde também começa aqui quando alguém é curado por acaso, porque alguém pode produzir calor por fricção, mas não pretende que isto seja o objetivo da fricção. Assim, o calor produzido no corpo pela fricção ou por um medicamento, ou é uma parte da saúde, na medida em que é algo que entra na substância da saúde, como quando por si só a alteração de ser aquecido é suficiente para promover a saúde; ou algo que é uma parte da saúde pode resultar do calor, como quando a saúde é produzida como resultado do calor dissolver certos humores congestionados, cuja dissolução então constitui a saúde. Ou também pode ser produzida por vários intermediários, como quando o calor consome certos humores supérfluos que bloqueiam alguma passagem no corpo, de modo que, quando estes são removidos, o movimento apropriado dos espíritos para algumas partes do corpo então começa; e este passo final é então aquele que causa a saúde. “E o que é tal”, ou seja, a causa próxima da saúde, “é uma parte da saúde”, i.e., algo que entra na composição da saúde. E o mesmo ocorre com outras coisas produzidas pela arte; pois as partes de uma casa são as pedras cuja ligação no curso da construção vai constituir uma casa.

1412. Portanto, como é dito (609).

Em seguida, ele tira a conclusão a que visa principalmente; e quanto a isso, faz duas coisas. Primeiro, introduz esta conclusão; e segundo (610:C 1414), dissipa uma dificuldade (“Quanto àquilo”).

Ele diz, primeiro (609), que, uma vez que tudo o que vem a ser é gerado a partir da matéria e também é gerado por algo semelhante a si mesmo, é impossível que algo seja gerado a menos que algo pré-exista, como comumente se diz; pois a opinião comum dos filósofos da natureza era que nada vem do nada. Além disso, é evidente que a coisa que pré-existe deve ser parte da coisa gerada, e isto pode ser demonstrado pelo fato de que a matéria está presente na coisa gerada e se torna a coisa gerada quando é trazida à atualidade. E não apenas a parte material de uma coisa pré-existe, como fica claro pela explicação dada, mas também a parte que existe na mente, ou seja, a forma; pois estes dois princípios, matéria e forma, são partes da coisa gerada.

1413. Pois podemos descrever o que são círculos de bronze de ambas as maneiras, ou, segundo outro texto, o que são muitos círculos, i.e., círculos particulares e distintos, declarando a matéria, que é o bronze, “e declarando o princípio especificador”, i.e., a forma, que é tal e tal figura. E ele está certo em dizer muitos círculos particulares; pois um círculo é uma coisa especificamente e formalmente, mas torna-se muitos e é individuado pela matéria. E isto, a figura, é o gênero no qual o círculo de bronze é primeiramente colocado. Daí é evidente, pelo que foi dito, que o círculo de bronze tem matéria em sua definição. E o fato de que a forma da coisa gerada pré-existe foi esclarecido acima tanto em referência às gerações naturais quanto às produções artificiais.

1414. Quanto àquilo (610).

Aqui ele resolve uma certa dificuldade; pois aquilo a partir do qual algo vem a ser como sua matéria é às vezes predicado não abstratamente, mas denominativamente; pois algumas coisas não são ditas ser "aquilo", i.e., a matéria, "mas daquele tipo"; por exemplo, uma estátua não é dita ser pedra, mas de pedra. E um homem que está recuperando sua saúde "não é dito ser aquilo a partir do qual" — i.e., não se predica dele a coisa a partir da qual se diz que ele vem a ser; pois uma pessoa que está recuperando sua saúde vem de uma pessoa doente. Mas não dizemos que uma pessoa que está recuperando sua saúde é uma pessoa doente.

1415. Ora, a razão para esse tipo de dificuldade é que uma coisa é dita vir de algo de duas maneiras: a saber, a partir de uma privação e a partir de um sujeito, que é a matéria. Por exemplo, quando se diz que um homem recupera sua saúde e que uma pessoa doente recupera sua saúde. Mas uma coisa é dita vir de uma privação antes do que de um sujeito; por exemplo, uma pessoa saudável é dita vir de uma doente antes do que de um homem. Contudo, quando uma coisa se torna outra, dizemos isso com referência ao sujeito antes do que à privação; pois, propriamente falando, dizemos que um homem se torna saudável antes do que uma pessoa doente. Portanto, uma pessoa saudável não é dita ser uma doente, mas antes um homem; e, de maneira oposta, é um homem que é dito ser saudável. Logo, a coisa que vem a ser é predicada do sujeito, não da privação.

1416. Mas em alguns casos a privação não é evidente e é inominada; por exemplo, a privação de qualquer figura particular no bronze não tem nome, e nem a privação de casa nas pedras e nas madeiras. Portanto, usamos o termo matéria simultaneamente para designar tanto a matéria quanto a privação. Daí, assim como dizemos, no primeiro caso, que uma pessoa saudável vem de uma doente, também dizemos, no outro caso, que uma estátua vem do bronze e uma casa, de pedras e madeiras. E por essa razão, também, assim como, no primeiro caso, a coisa que vem a ser a partir de algo tomado como privação não é predicada do sujeito — porque não dizemos que uma pessoa saudável é uma doente —, também não dizemos, no outro caso, que uma estátua é madeira; mas o termo abstrato é predicado concretamente, dizendo-se que não é madeira, mas de madeira; não é bronze, mas de bronze; não é pedra, mas de pedra. E, similarmente, uma casa não é tijolos, mas de tijolos. Pois, se alguém examinasse a questão cuidadosamente, não diria em sentido absoluto que a estátua vem da madeira ou a casa dos tijolos, mas que vem a ser como resultado de alguma mudança. Pois a primeira vem da última tomada como algo que é mudado e não como algo que permanece, porque o bronze não permanece informe enquanto está sendo transformado em estátua, nem os tijolos permanecem sem ligação enquanto uma casa está sendo construída. E por essa razão "falamos dessa maneira", i.e., a predicação é feita dessa maneira, nos casos mencionados acima.