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LIÇÃO 2 - O Ser que Esta Ciência Investiga

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 2: 1026a 33-1027a 28

543. O ser em sentido absoluto tem vários significados, dos quais um é o acidental, e outro é o verdadeiro (e o não-ser pode significar o falso); e, além destes, há as figuras categoriais, por exemplo, o que, de que tipo, quanto, onde, quando, e qualquer outra coisa que signifique dessa maneira; e, além de todos estes, há o potencial e o atual.

544. Visto que o ser é usado em muitos sentidos, então, devemos falar primeiro do acidental, porque não há especulação sobre ele. E isto é indicado pelo fato de que não há ciência, seja prática ou especulativa, que o investigue. Pois quem constrói uma casa não causa simultaneamente todos os traços que são acidentais à casa concluída, já que estes são infinitos em número. Pois nada impede que a casa concluída seja agradável para alguns, prejudicial para outros, útil para outros e diferente, por assim dizer, de todas as outras coisas, nenhuma das quais a arte de construir produz. E, similarmente, o geômetra também não especula sobre coisas que são acidentes das figuras dessa maneira, nem se um triângulo difere de um triângulo que tem dois ângulos retos.

545. E isto é compreensível, porque o acidental é, em certo sentido, ser apenas no nome.

546. Daí, de certo modo, Platão não errou quando disse que a sofística lida com o não-ser. Pois os argumentos dos sofistas, por assim dizer, concernem principalmente ao acidental; [por exemplo, eles perguntam] se o musical e o gramatical são o mesmo ou diferentes; e se o Córisco musical e Córisco são o mesmo; e se tudo o que é, mas nem sempre foi, veio a ser, de modo que, se alguém que é musical se tornou gramático, então alguém que é gramático se tornou musical; e todos os outros argumentos desse tipo. Pois o acidental parece estar próximo do não-ser.

547. Agora, isto também fica claro a partir destes argumentos: há geração e corrupção daquelas coisas que são de outra maneira, mas não daquelas coisas que são por acidente.

548. Contudo, concernente ao acidental, é necessário afirmar ainda, tanto quanto possível, qual é sua natureza e por qual causa ele existe; e talvez, ao mesmo tempo, também se tornará evidente por que não há ciência dele.

549. Portanto, visto que há alguns seres que sempre são do mesmo modo e por necessidade (necessidade não no sentido de compulsão, mas no sentido daquilo que não pode ser de outro modo), e outros que não são nem por necessidade nem sempre, mas na maioria das vezes, este é o princípio e esta a causa do acidental.

550. Pois aquilo que não é nem sempre nem na maioria das vezes, chamamos de acidental. Por exemplo, se houver tempo frio e invernal durante os dias caniculares, dizemos que isto é acidental; mas não se o tempo for abafado e quente, porque este último ocorre ou sempre ou na maioria das vezes, enquanto o primeiro não. E é acidental para um homem ser branco, pois isto não é assim nem sempre nem na maioria das vezes; mas não é acidental para ele ser animal. E é acidental se um construtor produz saúde, porque não é um construtor, mas um médico, que está naturalmente apto a fazer isso; mas é acidental para um construtor ser médico. Novamente, um confeiteiro, visando preparar algo palatável, pode produzir algo saudável; mas não segundo a arte do confeiteiro. Daí, dizemos que foi acidental. E, embora haja um sentido no qual ele o produz, não o produz em um sentido primário e próprio. Pois há outros poderes que às vezes são produtivos de outras coisas, mas não há arte ou poder determinado que seja produtivo do acidental; pois a causa das coisas que são ou vêm a ser por acidente também é acidental.

551. Daí, visto que nem todas as coisas são ou vêm a ser por necessidade e sempre, mas a maioria ocorre na maioria das vezes, o acidental deve existir; por exemplo, um homem branco não é nem sempre nem na maioria das vezes musical. Mas, como isto ocorre apenas ocasionalmente, deve ser acidental; caso contrário, tudo seria por necessidade. Daí, a matéria é a causa contingente do acidental, que acontece de modo diferente do usual. E devemos tomar como ponto de partida esta questão: Não há nada que não seja nem sempre nem na maioria das vezes, ou isto é impossível? Há, então, além destes, algo que é contingente e acidental. Mas então há a questão: Aquilo que ocorre na maioria das vezes e aquilo que ocorre sempre não têm existência, ou há alguns seres que são eternos? Estas questões devem ser investigadas posteriormente (1055).

552. No entanto, é evidente que não há ciência do acidental, pois todo conhecimento científico é daquilo que é sempre ou na maioria das vezes; caso contrário, como poderia alguém ser ensinado ou ensinar a outrem? Pois uma coisa deve ser definida como sendo assim sempre ou na maioria das vezes; por exemplo, água com mel é benéfica na maioria dos casos para aqueles com febre. Mas, com relação ao que acontece nos outros casos, será impossível afirmar quando ocorrem, por exemplo, na lua nova; pois tudo o que acontece na lua nova também acontece ou sempre ou na maioria das vezes; mas o acidental é contrário a isto. Explicamos, então, o que é o acidental, e por qual causa existe, e que não há ciência dele.

COMENTÁRIO
Esta ciência não trata do ser acidental.

1171. Aqui, Aristóteles indica com quais seres esta ciência pretende lidar principalmente; e, quanto a isso, faz três coisas. Primeiro, recorda os modos pelos quais as coisas são ditas ser; segundo (1172), estabelece a natureza dos dois tipos de ser com os quais não está principalmente preocupado ("Já que o ser"); e terceiro (1241), mostra que não é seu objetivo principal considerar esses dois tipos de ser ("Mas já que a combinação").

Assim, ele diz, primeiro, que ser em sentido não qualificado, i.e., em sentido universal, é predicado de muitas coisas, como foi dito no Livro V (885). Em um sentido, ser significa o que é acidental; em outro sentido, significa o mesmo que a verdade de uma proposição (e não-ser o mesmo que a falsidade de uma proposição); e, em um terceiro sentido, ser é predicado das coisas contidas sob as figuras categóricas, por exemplo, o que, de que tipo, quanto, e assim por diante; e, em um quarto sentido, além de tudo o que foi dito acima, ser se aplica ao que é dividido por potencialidade e atualidade [modos].

1172. Já que o ser (544).

Aqui, ele trata dos sentidos de ser que pretende excluir desta ciência. Primeiro (1172), trata do ser acidental; e segundo (1223), do ser que é idêntico ao verdadeiro [lógico].

Quanto ao primeiro, faz duas coisas. Primeiro, mostra que não pode haver ciência do acidental. Segundo (1180), estabelece as coisas que devem ser consideradas sobre o ser acidental ("No entanto, acerca do acidental").

Ele diz, primeiro, que, já que ser é usado em muitos sentidos, como foi dito (1170), é necessário antes de tudo falar do ser acidental, para que qualquer coisa que tenha o caráter de ser em menor grau seja primeiro excluída do estudo desta ciência. E, quanto a esse tipo de ser, deve-se dizer que nenhuma especulação de qualquer ciência pode lidar com ele; e prova isso de duas maneiras.

1173. Primeiro, faz isso dando uma indicação concreta. Diz que a impossibilidade de haver qualquer especulação sobre o ser acidental é indicada pelo fato de que nenhuma ciência, por mais "investigativa" que seja, ou "pensativa", como outra tradução diz, i.e., não importa quão cuidadosamente investigue os objetos que entram em seu escopo, é encontrada lidando com o ser acidental. Nenhuma ciência prática (e esta se divide em ciência da ação e ciência produtiva, como foi dito acima [1152]) está preocupada com ele, nem mesmo qualquer ciência especulativa.

1174. Ele torna isso evidente, primeiro, no caso das ciências práticas; pois aquele que constrói uma casa, ainda que a construa, é apenas uma causa acidental daquelas coisas que são acidentais à casa terminada, já que estas são infinitas em número e, portanto, não podem entrar no escopo da arte. Pois nada impede que a casa terminada seja "agradável", ou deliciosa, para aqueles que nela habitam felizes; "prejudicial" para aqueles que sofrem algum infortúnio ocasionado por ela; "útil" para aqueles que obtêm algum lucro dela; e também "diferente" e dessemelhante de todas as outras coisas. Mas a arte de construir não produz nenhuma das coisas que são acidentais a uma casa, mas apenas produz uma casa e as coisas que lhe são essenciais.

1175. Então, mostra que a mesma coisa é verdadeira no caso das ciências especulativas, porque, similarmente, nem a geometria especula sobre aquelas coisas que são acidentes "das figuras deste modo", i.e., acidentalmente, mas apenas sobre aqueles atributos que pertencem essencialmente às figuras. Pois ela especula sobre um triângulo ser uma figura tendo "dois ângulos retos", i.e., tendo seus três ângulos iguais a dois ângulos retos; mas não especula se um triângulo é qualquer outra coisa, como madeira ou algo do tipo, porque essas coisas pertencem a um triângulo acidentalmente.

1176. E isso é compreensível (545)

Segundo, prova a mesma coisa por meio de um argumento. Diz que é razoável que nenhuma ciência especule sobre o ser acidental, porque uma ciência estuda aquelas coisas que são ser em um sentido (+) real, mas (~) o ser acidental é, em certo sentido, ser apenas de nome, na medida em que uma coisa é predicada de outra. Pois cada coisa é um ser na medida em que é uma. Mas, de quaisquer duas coisas que estão relacionadas acidentalmente entre si, surge algo que é um apenas de nome, i.e., na medida em que uma é predicada da outra, por exemplo, quando o musical é dito ser branco, ou o contrário. Mas isso não ocorre de tal modo que uma coisa una seja constituída da brancura e do musical.

1177. Portanto, de certa forma (546).

Ele prova de duas maneiras que o ser acidental é, em certo sentido, ser apenas de nome. Faz isso, primeiro, pela autoridade de Platão; e segundo (1179), por um argumento.

Diz que, já que o ser acidental é, em certo sentido, ser apenas de nome, Platão de certa forma não estava errado quando, ao atribuir diferentes ciências a diferentes tipos de substância, designou a ciência sofística ao reino do não-ser. Pois os argumentos dos sofistas estão preocupados principalmente com o acidental, já que os paralogismos ocultos têm a falácia do acidente como sua base principal.

1178. Por isso, no primeiro livro dos Argumentos Sofísticos, diz-se que, ao argumentar contra sábios, os sofistas constroem silogismos baseados no acidental. Isso é evidente, por exemplo, nesses paralogismos em que se questiona se o musical e o gramatical são o mesmo ou diferentes. Construamos tal paralogismo. O musical difere do gramatical; mas o musical é o gramatical; logo, o musical difere de si mesmo. Pois o musical difere do gramatical falando essencialmente, mas o musical é o gramatical por acidente. Pouca admiração, então, que se siga uma conclusão absurda, pois o que é acidental não se distingue do que é essencial. E seria semelhante se falássemos assim: Córisco difere de Córisco musical; mas Córisco é Córisco musical; logo, Córisco difere de si mesmo. Aqui também não se traça distinção entre o que é acidental e o que é essencial. E seria o mesmo se disséssemos: tudo o que é e nem sempre foi, veio a ser; mas o musical é gramatical e nem sempre foi assim; portanto, segue-se que o musical tornou-se gramatical e que o gramatical tornou-se musical. Mas isso é falso, porque nenhum processo de geração termina no gramatical ser musical, mas um processo de geração termina num homem ser gramatical e outro, num homem ser musical. Também é evidente que, nesse argumento, a primeira afirmação é verdadeira de algo que tem ser essencialmente, enquanto, na segunda, assume-se algo que tem ser apenas por acidente. E é semelhante em todo argumento baseado na falácia do acidente. Pois o ser acidental parece próximo do não ser; e, portanto, a sofística, que se ocupa do aparente e inexistente, trata principalmente do acidental.

1179. Como isso também fica claro (547).

Em segundo lugar, ele prova a mesma coisa por um argumento. Diz que também é evidente, a partir desses argumentos que os sofistas usam, que o acidental está próximo do não ser; pois há geração e corrupção daquelas coisas que são seres de um modo diferente do acidental, mas não há geração nem corrupção do acidental. Pois o musical vem a ser por um processo de geração e o gramatical por outro, mas não há um processo de geração do gramatical musical como há do animal bípede ou do homem risível. Portanto, é evidente que o ser acidental não é chamado ser em nenhum sentido verdadeiro.

1180. Contudo, acerca do acidental (548).

Ele agora estabelece a verdade sobre o ser acidental na medida em que é possível fazê-lo. Pois, embora aquelas coisas que são propriamente acidentais não estejam no escopo de nenhuma ciência, ainda assim a natureza do acidental pode ser considerada por alguma ciência. Isso também acontece no caso do infinito; pois, embora o infinito como infinito permaneça desconhecido, ainda assim alguma ciência trata do infinito como infinito.

A esse respeito, ele faz duas coisas. Primeiro, resolve a questão sobre os pontos que devem ser investigados acerca do ser acidental. Segundo (1191), rejeita uma opinião que aboliria o ser acidental ("Agora é evidente").

1181. Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas. Primeiro (548), diz que há três pontos que devem ser discutidos sobre o ser acidental, na medida em que é possível tratá-lo, a saber: (1) qual é sua natureza, e (2) o que o causa; e disso o terceiro se tornará evidente, (3) por que não pode haver ciência dele.

1182. Portanto, uma vez que há (549).

Ele discute esses três pontos. (2) Primeiro, mostra qual é a causa do acidental. Diz que há alguns seres que sempre são do mesmo modo e por necessidade (não no sentido em que necessidade é tomada como compulsão, mas no sentido daquilo que não pode ser de outro modo, como "O homem é animal"); e há outros seres que não são nem sempre nem por necessidade, mas na maioria das vezes, i.e., na maioria dos casos, e "isso", i.e., o que ocorre na maioria dos casos, é o princípio e a causa do acidental. Pois, no caso daquelas coisas que sempre são, não pode haver nada acidental, porque somente o que existe por si mesmo pode ser necessário e eterno, como também é dito no Livro V (839). Portanto, segue-se que o ser acidental só pode ser encontrado no reino das coisas contingentes.

1183. Mas o que é contingente, ou aberto a opostos, não pode, como tal, ser causa de nada. Pois, na medida em que é aberto a opostos, tem o caráter de matéria, que está em potência para dois opostos; pois nada age na medida em que está em potência. Portanto, uma causa que é aberta a opostos, como a vontade, para que possa agir, deve estar inclinada mais para um lado do que para o outro, sendo movida pelo objeto apetecível, e assim ser causa na maioria dos casos. Mas o que ocorre apenas em poucas instâncias é o acidental, e é isso cuja causa buscamos. Portanto, segue-se que a causa do acidental é o que ocorre na maioria dos casos, porque isso deixa de ocorrer apenas em poucas instâncias. E isso é o que é acidental.

1184. Pois aquilo que (550).

Segundo (1), ele expõe a natureza do ser acidental; e fala assim: o que existe na maioria das vezes é a causa do acidental, porque chamamos de acidental aquilo que não é nem sempre nem na maioria das vezes. E isso é a ausência do que ocorre na maioria das vezes; de modo que "se houver tempo invernal", i.e., um período de chuva e frio, "durante os dias caniculares", i.e., nos dias da estrela Sirius, dizemos que isso é acidental. Mas não dizemos isso "se o tempo for abafado" durante esse período, i.e., se houver um período de seca e calor; pois este último ocorre sempre ou quase sempre, mas o primeiro não. Da mesma forma, dizemos que é acidental um homem ser branco, porque isso não é nem sempre nem na maioria das vezes. Mas dizemos que homem é animal essencialmente, não acidentalmente, porque isso é sempre. E da mesma forma, um construtor causa saúde acidentalmente, porque um construtor, enquanto construtor, não é naturalmente apto a causar saúde, mas apenas um médico pode fazer isso. No entanto, um construtor pode causar saúde na medida em que ele por acaso é médico. Da mesma forma, um confeiteiro, ou cozinheiro, "visando", i.e., pretendendo, preparar algo "saboroso", ou deleitável no âmbito da comida, pode fazer algo saudável ao preparar um prato saboroso. Pois comida boa e deleitável às vezes promove saúde. Mas não é de acordo com a "arte do confeiteiro", i.e., a arte culinária, que ele produz algo saudável, mas algo deleitável. E por essa razão dizemos que isso é acidental.

1185. E deve-se notar que, no (1) primeiro exemplo, o acidental ocorreu na medida em que duas coisas acontecem ao mesmo tempo; no segundo, (2) na medida em que duas coisas acontecem de estar presentes no mesmo sujeito, como branco e homem; no terceiro, (3) na medida em que a mesma causa eficiente acontece de ser um agente duplo, como construtor e médico; e no quarto, na medida em que o efeito acontece de ser duplo, como saúde e prazer no caso da comida; pois, enquanto um cozinheiro prepara um prato agradável, no entanto isso acontece de ser saudável por acidente. Na verdade, um cozinheiro prepara algo saudável apenas em sentido secundário, mas não primário e próprio, porque uma arte opera através do conhecimento. Portanto, tudo o que está fora do conhecimento de uma arte não é produzido primária e propriamente por essa arte. Logo, o acidental, que está fora do conhecimento de uma arte, não é produzido pela arte. Pois há certos poderes determinados que às vezes são produtivos de outros seres que têm ser no sentido próprio do termo, mas não há arte ou poder determinado que seja produtivo de seres em sentido acidental. Ora, a causa daquelas coisas que são ou vêm a ser por acidente deve ser uma causa acidental e não uma causa própria. Pois efeito e causa são proporcionais entre si; e, portanto, o que quer que seja um efeito acidental tem apenas uma causa acidental, assim como um efeito no sentido próprio tem uma causa no sentido próprio.

1186. E como ele havia dito acima (1182) que a causa do acidental é o que ocorre na maioria das vezes, portanto, quando ele diz "Portanto, uma vez que nem todos", ele mostra como o acidental existe como resultado do que ocorre na maioria das vezes. Diz que, uma vez que nem todas as coisas são ou vêm a ser sempre e por necessidade, "mas a maioria das coisas acontece na maioria das vezes", i.e., na maioria dos casos, portanto (#) o acidental deve existir; e isso é o que não ocorre sempre ou na maioria das vezes, como quando digo "O homem branco é musical". No entanto, porque isso às vezes acontece, embora não sempre ou na maioria dos casos, segue-se que isso ocorre por acidente. Pois se o que ocorre apenas ocasionalmente nunca ocorresse, então o que ocorre na maioria dos casos nunca deixaria de ocorrer, mas seria sempre e por necessidade. Assim, todas as coisas seriam eternas e necessárias. Mas isso é falso. E uma vez que o que ocorre na maioria dos casos deixa de ocorrer por causa da matéria (que não está completamente sujeita ao poder ativo do agente, como acontece na maioria dos casos), então a matéria é a causa daquilo que acontece ser diferente "do que geralmente ocorre", i.e., do que acontece apenas ocasionalmente. Essa causa, digo, não é uma causa necessária, mas contingente.

1187. Concedido que nem todas as coisas são necessárias, mas que há algo que não é nem sempre nem na maioria das vezes, então devemos tomar como ponto de partida a questão de saber se não há nada que não seja nem sempre nem na maioria das vezes. Mas obviamente isso é impossível; pois, uma vez que o que ocorre na maioria das vezes é a causa do acidental, então tanto o que sempre é quanto o que é na maioria das vezes devem existir. Portanto, qualquer coisa além das coisas mencionadas é um ser acidental.

1188. No entanto, a questão se aquilo que ocorre na maioria das vezes se encontra em algum ente, e se aquilo que ocorre sempre não se encontra em ente algum, ou se existem algumas coisas que são eternas, deve ser tratada posteriormente no Livro XII (2488), onde ele mostrará que existem algumas substâncias que são eternas. Assim, na primeira questão, ele pergunta se todas as coisas são acidentais; e, na segunda, se todas as coisas são contingentes e nada é eterno.

1189. Aqui ele estabelece o terceiro ponto, ou seja, que não há ciência do acidental. Ele diz que isso é evidente pelo fato de toda ciência tratar do que é ou sempre ou na maioria das vezes. Portanto, já que o acidental não ocorre nem sempre nem na maioria das vezes, não haverá ciência dele. Ele prova o primeiro assim: não se pode ser ensinado por outro ou ensinar a outro algo que não ocorre nem sempre nem na maioria das vezes; pois tudo o que pode ser ensinado deve ser definido com base no fato de ser assim, ou sempre ou na maioria das vezes; por exemplo, que a "água de mel" (uma mistura de mel e água) é benéfica para quem tem febre é definido como algo que ocorre na maioria das vezes.

1190. Mas quanto ao "que acontece nos outros casos", i.e., no caso das coisas que não são nem sempre nem na maioria das vezes, não se pode dizer quando ocorrerão, por exemplo, no tempo da lua nova; pois tudo que está destinado a acontecer nesse tempo também acontece ou sempre ou na maioria das vezes. Ou sua afirmação sobre a lua nova pode ser outro exemplo de algo que é definido como ocorrendo sempre; e ele acrescenta a frase "ou na maioria das vezes" por causa da maneira pela qual o acidental difere, porque não ocorre de nenhuma dessas maneiras. Daí ele acrescenta que "o acidental é contrário a isso", i.e., contrário ao que ocorre sempre ou na maioria das vezes. E esta é a premissa menor do argumento principal usado acima. Ao concluir sua discussão, ele menciona os pontos que foram explicados, ou seja, o que é o acidental, qual é sua causa e que não pode haver ciência dele.