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LIÇÃO 16 - Os Sentidos da Qualidade

TEXTO DE ARISTÓTELES Capítulo 14: 1020a 33-1020b 25

487. Qualidade (o qualificado ou de que tipo [quale]) significa em um sentido a diferença substancial; por exemplo, Como a quididade do homem é qualificada? Como um animal bípede. Como a do cavalo? Como um animal quadrúpede. A do círculo? Como uma figura que não tem ângulos; como se a diferença substancial fosse qualidade. Neste primeiro sentido, então, qualidade (qualitas) significa diferença substancial.

488. Em outro sentido, o termo se aplica a coisas imóveis e aos objetos da matemática, como os números são de um certo tipo (quales), por exemplo, aqueles que são compostos, e não apenas os de uma dimensão, mas também aqueles de que superfície e sólido são a contraparte (pois há números que são tantas vezes tanto e tantas vezes tantas vezes tanto). E, em geral, significa o que está presente na substância além da quantidade. Pois a substância de cada número é o que ele é uma vez; por exemplo, a substância de seis não é duas vezes três, mas seis tomado uma vez, pois seis vezes um é seis.

489. Novamente, todas as modificações das substâncias que são movidas, tais como calor e frio, brancura e negrura, peso e leveza, e quaisquer outros atributos desse tipo segundo os quais os corpos das coisas mutáveis são ditos alterados, são chamadas qualidades.

490. Além disso, o termo qualidade é usado para virtude e vício, e, em geral, para o bem e o mal.

491. Os sentidos de qualidade, então, reduzem-se a dois; e um destes é mais fundamental que o outro. Pois o tipo primário de qualidade é a diferença substancial. E a qualidade encontrada no número é uma parte disso, pois esta é uma diferença substancial, mas ou de coisas que não são movidas, ou não delas enquanto são movidas. As outras, no entanto, são as modificações das coisas que são movidas enquanto são movidas, e são as diferenças dos movimentos. E a virtude e o vício são partes dessas modificações, pois indicam claramente as diferenças do movimento ou atividade segundo as quais as coisas em movimento agem ou são afetadas bem ou mal. Pois o que é capaz de ser movido ou de agir dessa maneira é bom, e o que não pode fazê-lo, mas age de maneira contrária, é ruim. E o bem e o mal significam qualidade especialmente no caso dos seres vivos, e especialmente naqueles que têm o poder de escolha.

COMENTÁRIO
Qualidade

987. Aqui ele expõe os vários sentidos em que o termo qualidade é usado, e a respeito disso faz duas coisas. Primeiro, dá quatro sentidos do termo qualidade; e segundo (966), reduz-os a dois (“Os sentidos de qualidade”).

(1) Ele diz, portanto, primeiro, que o termo qualidade é usado em um sentido como “diferença substancial”, i.e., a diferença pela qual uma coisa é distinguida substancialmente de outra e que está incluída na definição da substância. E por esta razão diz-se que uma diferença é predicada como uma qualificação substancial. Por exemplo, se alguém perguntasse que tipo de animal (quale) o homem é, responderíamos que ele é bípede; e se alguém perguntasse que tipo de animal o cavalo é, responderíamos que ele é quadrúpede; e se alguém perguntasse que tipo de figura um círculo é, responderíamos que ele é “não-angular”, i.e., sem ângulos; como se a diferença substancial fosse qualidade. Em um sentido, então, qualidade significa diferença substancial.

988. Ora, Aristóteles omite este sentido de qualidade nas Categorias porque ele não está contido sob a categoria de qualidade — da qual ele trata ali. Mas aqui ele está tratando do significado do termo qualidade.

989. Em outro sentido (488).

(2) Aqui ele dá um segundo sentido no qual o termo qualidade é usado. Ele diz que o termo qualidade ou “qualificado” é usado em outro sentido na medida em que coisas imóveis e os objetos da matemática são ditos qualificados de uma certa maneira. Pois os objetos da matemática são abstraídos do movimento, como é afirmado no Livro VI desta obra (1161). Tais objetos são números e grandezas contínuas, e de ambos usamos o termo qualidade. Assim, dizemos que as superfícies são qualificadas como sendo quadradas ou triangulares. E similarmente, os números são ditos qualificados como sendo compostos. Aqueles números são ditos compostos que possuem algum número comum que os mede; por exemplo, o número seis e o número nove são medidos pelo número três, e não são meramente referidos a um como medida comum. Mas aqueles que não são medidos por nenhum número comum além de um são chamados de não compostos ou primeiros em sua proporção.

990. Também se fala dos números como tendo qualidade numa metáfora tirada da superfície e do “sólido”, i.e., corpo. Eles são considerados como uma superfície na medida em que um número é multiplicado por outro, seja pelo mesmo número ou por um diferente, como na expressão “duas vezes três” ou “três vezes três”. E é isto que ele quer dizer com “tantas vezes tanto”; pois algo como uma dimensão é designado ao dizer “três”, e uma espécie de segunda dimensão ao dizer “duas vezes três” ou “três vezes três”.

991. Os números são considerados como um sólido quando há uma dupla multiplicação, seja do mesmo número por si mesmo, ou de números diferentes por um; como na expressão “três vezes três vezes três” ou “duas vezes três vezes duas” ou “duas vezes três vezes quatro”. E é isto que ele quer dizer com “tantas vezes tantas vezes tanto”. Pois tratamos de três dimensões num número de modo um tanto similar ao de um sólido; e nesta disposição dos números há algo que é tratado como uma substância, como três, ou qualquer outro número que é multiplicado por outro. E há algo mais que é tratado como quantidade, como a multiplicação de um número por outro ou por si mesmo. Assim, quando digo “duas vezes três”, o número dois é significado à maneira de uma quantidade medida, e o número três à maneira de uma substância. Portanto, o que pertence à substância do número além da própria quantidade, que é a substância do número, é chamado de sua qualidade, como o que se entende ao dizer duas vezes ou três vezes.

992. Outro texto lê “segundo a quantidade”, e então a substância do número é dita ser o próprio número expresso em sentido não qualificado, como “três”. E na medida em que consideramos a qualidade de uma quantidade, isso é designado multiplicando um número por outro. O resto do texto concorda com isso, dizendo que a substância de qualquer número é o que ele é dito ser uma vez; por exemplo, a substância de seis é seis tomado uma vez, e não três tomado duas vezes ou dois tomado três vezes; e isso pertence à sua qualidade. Pois falar de um número em termos de superfície ou sólido, seja quadrado ou cúbico, é falar de sua qualidade. E este tipo de qualidade é o quarto tipo dado nas Categorias.

993. Novamente, todas as modificações (489).

(3) Então ele dá o terceiro sentido no qual qualidade é usada. Ele diz que qualidades também significam as modificações de substâncias móveis segundo as quais os corpos são mudados através de alteração, como calor e frio e acidentes deste tipo. E este sentido de qualidade pertence ao terceiro tipo de qualidade dado nas Categorias.

994. (4) Em seguida ele dá o quarto sentido no qual qualidade é usada. Ele diz que qualidade ou “qualificado” é usado num quarto sentido na medida em que algo é disposto por virtude ou vício, ou de qualquer modo que seja bem ou mal disposto, como por conhecimento ou ignorância, saúde ou doença, e semelhantes. Este é o primeiro tipo de qualidade dado nas Categorias.

995. Ora, ele omite o segundo destes sentidos de qualidade porque ele está contido antes sob potência, uma vez que é significado apenas como um princípio que resiste à modificação. Mas é dado nas Categorias entre os tipos de qualidade por causa do modo como é nomeado. Contudo, segundo seu modo de ser, está contido antes sob potência, como ele também sustentou acima (960).

996. Os sentidos de qualidade (491).

Então ele reduz a dois os quatro sentidos de qualidade até agora dados, dizendo que uma coisa é dita qualificada de uma certa maneira em dois sentidos, na medida em que dois destes quatro sentidos são reduzidos aos outros dois.

(1) O mais fundamental destes sentidos é o primeiro, segundo o qual qualidade significa diferença substancial, porque por meio dela uma coisa é designada como sendo informada e qualificada.

997. A qualidade encontrada nos números e em outros objetos da matemática é reduzida a este como uma parte. Pois qualidades deste tipo são, em certo sentido, as diferenças substanciais dos objetos matemáticos, porque são significadas à maneira de substância em maior grau do que os outros acidentes, como foi afirmado no capítulo sobre a quantidade (980). Além disso, qualidades deste tipo constituem diferenças substanciais, “seja de coisas que não são movidas, ou não delas na medida em que são movidas”; e ele diz isso para mostrar que não faz diferença para sua tese se os objetos da matemática são substâncias auto-subsistentes, como Platão afirmou, e são separados do movimento; ou se existem em substâncias que são móveis na realidade mas separadas no pensamento. Pois no primeiro sentido elas não seriam qualidades de coisas que são movidas; mas no segundo sentido seriam, mas não na medida em que são movidas.

998. (2) O segundo sentido básico em que qualidade é usada é aquele em que as modificações das coisas que são movidas enquanto tais, e também as diferenças das coisas que são movidas, são chamadas de qualidades. Elas são chamadas de diferenças dos movimentos porque as alterações diferem em termos de tais qualidades, assim como tornar-se quente e tornar-se frio diferem em termos de calor e frio.

999. O sentido em que virtude e vício são chamados de qualidades reduz-se a este último sentido, pois é de certa forma uma parte deste sentido. Pois virtude e vício indicam certas diferenças de movimento e atividade baseadas em bom ou mau desempenho. Pois virtude é aquilo pelo qual uma coisa está bem disposta a agir ou ser agida, e vício é aquilo pelo qual uma coisa está mal disposta. O mesmo vale para outros hábitos, sejam eles intelectuais, como a ciência, ou corporais, como a saúde.

1000. Mas os termos bem e mal referem-se principalmente à qualidade em seres vivos, e especialmente naqueles que possuem "eleição", i.e., escolha. E isso é verdade porque o bem tem o papel de um fim ou objetivo. Então, aquelas coisas que agem por escolha agem por um fim. Ora, agir por um fim pertence particularmente aos seres vivos. Pois coisas não vivas agem ou são movidas por um fim, não na medida em que conhecem o fim, ou na medida em que elas mesmas agem por um fim, mas sim na medida em que são direcionadas por outra coisa que lhes dá sua inclinação natural, assim como uma flecha, por exemplo, é direcionada ao seu alvo por um arqueiro. E seres vivos não racionais apreendem um fim ou objetivo e o desejam por um apetite da alma, e movem-se localmente em direção a algum fim ou objetivo na medida em que têm discernimento dele; mas seu apetite por um fim, e por aquelas coisas que existem por causa do fim, é determinado para eles por uma inclinação natural. Portanto, eles são mais agidos do que agem; e assim seu julgamento não é livre. Mas os seres racionais, nos quais apenas existe escolha, conhecem tanto o fim quanto a proporção dos meios para o fim. Portanto, assim como eles movem a si mesmos em direção ao fim, também movem a si mesmos para desejar o fim e os meios; e por isso têm livre escolha.