Capítulo 6
Termo 1
A fama
Que a fama comum de muitos povos não pode ser inteiramente falsa.
Termo 2
O agente
Que o agente governa e comanda a respeito do que é singular.
Termo 3
O feito
Que nem o feito nem a produção são fim de modo absoluto, mas em vista de algo e de alguém; ao passo que a ação é fim.
Termo 4
As fantasias
Que as fantasias dos homens virtuosos são melhores que as dos outros, porque sempre sonham que agem de modo virtuoso, em razão dos movimentos deixados pela vigília.
Que não somos senhores da nossa fantasia.
Termo 5
O febricitante
Que ao febricitante, de modo universal, aproveitam a abstinência e o repouso, mas a algum, talvez, não.
Termo 6
A felicidade
Que a felicidade, que é o maior bem entre os bens humanos, é um dom dos deuses.
Que a felicidade é o que há de mais excelente e mais divino, enquanto é fim da virtude, a qual é algo ótimo, divino e bem-aventurado.
Que a felicidade pode caber a todos os que não estão privados de tender à virtude por meio da disciplina e do estudo.
Que colocar a felicidade nos bens da fortuna será, sem dúvida, muito pernicioso, uma vez que ela é o que há de maior e de melhor.
Que a felicidade é o fim da política, porque esta muito se empenha em tornar os cidadãos bons e praticantes de boas ações.
Que diversos colocaram a felicidade em coisas diversas, por exemplo, alguns no prazer e nas riquezas, ou na honra.
Que alguns sustentaram que a felicidade é a honra.
Que a felicidade é o bem ótimo e último, em vista do qual todas as outras coisas são feitas.
Que a felicidade é o bem perfeito.
Que a felicidade requer uma vida e uma virtude perfeitas.
Se a felicidade se dá segundo o termo da vida ou se alguém pode ser feliz durante a vida.
Que é inconveniente chamar o homem de feliz quando morre.
Que a felicidade não se diz existir segundo o termo da vida como se o morrer fosse da essência da felicidade, pois nem Sólon quis isso, mas porque então se declarará firmemente feliz o homem, como já existente fora dos males e dos infortúnios.
Que a felicidade do pai não se transmuta pela transmutação dos filhos, pois a transmutação dos vivos não introduz transmutação nos mortos.
Termo 7
Feliz
Que o feliz não se diz enquanto vivo por causa das transmutações.
Que, se seguimos as fortunas, chamaremos alguém muitas vezes de feliz e de miserável, como um camaleão.
Que, na consideração da felicidade, não se devem incluir os bens da fortuna, pois neles não há bem nem mal, mas apenas servem instrumentalmente à felicidade.
Que o feliz é imóvel por toda a sua vida, e age e contempla aquilo que é segundo a virtude, e suporta muito bem as fortunas e em toda parte se comportará prudentemente.
Que o feliz é um homem bom e perfeito e quadrado, sem censura.
Que o feliz não se inclina nem se muda por pequenos bens ou males.
Que o feliz é atribulado pelos grandes males, pois lhe é infligida tristeza, mas neles resplandece o seu bem, pois neles se mostra viril e magnânimo.
Que o feliz se torna mais feliz pelos grandes bens.
Que o feliz não pratica males e atos odiosos quando as fortunas se transmutam, mas suporta dignamente todas as fortunas.
Que o feliz nunca se tornará miserável quando as fortunas se transmutam.
Que o feliz não se muda facilmente pelos infortúnios que sobrevêm, mas pelos grandes e pelos muitos e por tais infortúnios não voltará a ser feliz em pouco tempo.
Que o feliz que caiu dos grandes bens dos quais era abundante não se torna novamente feliz, a não ser que, em muito tempo, se torne abundante de grandes bens.
Que se diz feliz aquele que age segundo a virtude perfeita e está suficientemente dotado de bens exteriores.
Que o feliz necessita de bens exteriores e de fortaleza e de beleza e de fortuna.
Que não é feliz aquele que é de aparência torpíssima ou de baixa origem ou solitário ou sem prole.
Que é menos feliz aquele cujos filhos ou amigos são péssimos, ou que morreram sendo bons.
Que as mulheres, por causa da fragilidade do sexo, são delicadas, e nisso diferem dos homens.
Que a felicidade não a faz um só dia nem um breve tempo, assim como uma andorinha não faz a primavera.
Que a vida dos felizes é deleitável em si mesma.
Que não se diz feliz aquele que padece muitos males e infortúnios.
Que o feliz se alegra nas ações que são segundo a virtude e se entristece com aquelas que provêm da malícia, assim como o músico se deleita com as boas melodias e se entristece com as más.
Termo 8
Felicidade
Que escolhemos a felicidade por si mesma e nunca por causa de outra coisa.
Que a felicidade é um bem por si suficiente.
Que a felicidade é o mais elegível, não contada juntamente com outros bens, e é mais elegível quando contada juntamente com o menor dos bens.
Que a felicidade é um bem perfeito e por si suficiente e o fim de todas as ações.
Que a felicidade é a obra do homem segundo a razão e o hábito perfeito e a operação numa vida perfeita.
Que a felicidade se dá segundo a operação numa vida perfeita.
Que a felicidade se adquire pela operação de muito tempo.
Que tudo o que os antigos disseram acerca da felicidade parece existir em conformidade com o que ele disse.
Que alguns diziam que a felicidade é a virtude, alguns a prudência, alguns porém a sabedoria, acrescentando a isto o prazer, que é o bem do corpo, e outros ainda acrescentavam os bens exteriores.
Que a opinião de Aristóteles acerca da felicidade concorda em muitos pontos com os que dizem que a felicidade é a virtude.
Que a felicidade não necessita de prazer fora de si como algo acrescentado, mas tem o prazer em si mesma.
Que a felicidade é algo ótimo e belíssimo e deleitabilíssimo.
Que a felicidade é a operação ótima segundo uma só virtude ou várias.
Que a felicidade necessita de bens exteriores que sirvam instrumentalmente.
Se a felicidade é das coisas louváveis ou das honoráveis.
Que ninguém louva a felicidade, mas a declara feliz como algo divino.
Que a felicidade não é louvável, mas é algo melhor que o louvor.
Que a felicidade é das coisas honoráveis e perfeitas.
Que a felicidade é o princípio por cuja causa todos praticam todas as demais coisas.
Termo 9
O Fim
Que o fim é o princípio e a causa dos bens e algo honroso.
Que alguns fins são operações, como tocar cítara, ao passo que outros são obras produzidas.
Que há muitos fins, tantos quantas são as operações, as artes e as doutrinas; e dá exemplos.
Que o fim da medicina é a saúde; o da arte naval, a navegação; o da arte militar, a vitória.
Que os fins das artes superiores são mais desejáveis do que os das que lhes estão subordinadas.
Que há algum fim das ações que queremos por si mesmo, e as demais coisas por causa dele, já que não se pode ir ao infinito; e é manifesto que este será o bem e o ótimo.
Que o conhecimento do fim último traz grande proveito para a vida em seu conjunto e para o conhecimento.
Que o fim da ciência política é o bem humano.
Que o fim desta ciência não é o conhecimento, mas a ação.
Que o fim da operação se dá segundo o tempo.
Que o fim não é objeto de deliberação, mas sim os meios que conduzem ao fim.
Que o fim é para cada um tal qual ele próprio é, segundo a disposição de seu hábito.
Que o fim e os meios que a ele conduzem, tanto no bem quanto no mal, provêm da natureza ou da vontade; e apresenta uma divisão de três membros pela qual conclui que as virtudes e os vícios são igualmente voluntários.
Que o fim nas ações não é conhecê-las, mas praticá-las, pois é por isso que nos tornamos bons, ou se há algo mais pelo qual podemos tornar-nos bons, como a pena ou a lei.
Que o fim desta obra não é que saibamos, mas que nos tornemos bons.
Que o fim das operações do forte é conveniente segundo o seu hábito, de modo que conserve a fortaleza, que é o seu bem pretendido.
Que o fim parece a cada um tal qual cada um é.
Que a eupraxia é fim para si mesma.
Que a produção tem sempre outro fim, ao passo que a ação não.
Que os fins nas ações são princípios, assim como os pressupostos na matemática.
Termo 10
Filho
Que o filho, ao ser arrastado, mandou parar junto à porta.
Que por causa dos filhos parece existir a principal união entre o marido e a esposa; e por isso os estéreis se separam mais depressa.
Que os filhos são um bem comum a ambos, isto é, ao marido e à esposa.
Que o filho não pode renegar o pai, mas o pai pode renegar o filho.
Que o filho nada faz ao pai que seja digno daquilo que dele recebeu; por isso está sempre em dívida.
Que a procriação dos filhos é comum a todos os animais.
Termo 11
Forte
Que não se diz que alguém é forte pelo fato de não temer a flagelação do corpo.
Que se diz forte principalmente aquele que é impávido diante de uma boa morte e das coisas súbitas que podem levar a ela.
Que o forte é destemido no mar, mas não à maneira dos marinheiros, que têm esperança por causa da experiência.
Que o forte não se deixa aturdir, e teme e suporta tais coisas, isto é, aquilo que a razão dita, em vista do bem.
Que se diz forte aquele que teme e suporta bem segundo todas as circunstâncias, e igualmente ousa bem a respeito de todas.
Que o forte padece e age segundo o que é digno, como a razão dita.
Que o forte, ao ousar, é de boa esperança, ao passo que o tímido se desespera.
Que os fortes são impetuosos na guerra, mas antes dela estão tranquilos e serenos.
Que é preciso ser forte não por necessidade, mas por causa do bem.
Que o forte, em relação ao audaz, é tímido, e em relação ao tímido, é audaz.
Que não são fortes os que se lançam aos perigos por causa da dor da paixão e do furor, e não por previsão dos perigos, pois assim os asnos famintos seriam fortes; com efeito, mesmo golpeados não desistem da pastagem.
Que o forte age por causa do bem.
Que os que têm boa esperança de vitória são semelhantes aos fortes, pois ambos ousam enfrentar os perigos, mas não são verdadeiramente fortes.
Que é próprio do forte suportar as coisas terríveis proporcionadas ao homem, e não as aparentes.
Que parece próprio de um homem mais forte ser impávido e imperturbável diante das coisas súbitas do que diante das já conhecidas de antemão.
Que para o forte a morte e as feridas são penosas, mas ele as suporta por causa do bem da fortaleza.
Que para o forte a morte é penosa até mais do que para os outros, pois é privado dos maiores bens; contudo, não perde a razão de forte, mas antes a adquire em maior grau.
Que o forte, na guerra, escolhe o bem da fortaleza em lugar daqueles bens que perde pela morte.
Que ser forte contra o débil e não avançar rumo às coisas árduas que são honrosas é oneroso.
Que os fortes exalavam por cada uma das narinas uma áspera força; o sangue fervia, no que havia sinal de furor.
Que os corajosos agem verdadeiramente em vista do bem da virtude, mas as feras, isto é, os animais, agem furiosamente — e os homens que se enfurecem à maneira delas —, agem por causa da tristeza infligida, pois, se não estivessem na floresta ou no pântano, não a encontrariam.
Que os corajosos segundo a arte militar, quando veem um perigo que excede a sua estimativa, seja quanto à multidão dos inimigos, seja quanto à preparação das armas, fogem; mas os corajosos segundo a ordem civil permanecem e permitem-se ser mortos, como aconteceu em Hermeon.
Que o corajoso nem foge imediatamente como o soldado, nem se permite ser morto, quando se conserva para a salvação dos cidadãos.
Que o corajoso tem a aparência do furor, pois o furor é impetuoso diante dos perigos.
Que os corajosos na guerra são honrados nas cidades e junto às monarquias.
Termo 12
Fortaleza
Que a fortaleza não diz respeito a todas as coisas que devem ser temidas por todos, como a infâmia, nem às que não devem ser temidas, como a indigência, nem às coisas temíveis que pouco comovem.
Que a fortaleza diz respeito às coisas mais terríveis.
Que a fortaleza diz respeito às melhores mortes, que são as que ocorrem na guerra, e não no mar nem nas doenças.
Que a fortaleza é o bem do corajoso, que é visado por meio das suas operações.
Que a fortaleza é um meio-termo acerca das coisas ousáveis e das terríveis, nas quais deseja e suporta o que deve, para que não sobrevenha algo torpe.
Que a fortaleza se diz segundo cinco modos distintos da verdadeira fortaleza; e o primeiro entre eles é a fortaleza política.
Que a fortaleza, como estimou Sócrates, é uma certa ciência experimental.
Que a fortaleza diz respeito mais às coisas terríveis do que às ousáveis.
Que a fortaleza é mais louvável entre as outras virtudes, porque consiste em suportar as coisas terríveis, o que é mais difícil do que abster-se dos prazeres.
Que na fortaleza parece haver deleite em razão do fim, enquanto se suportam tais coisas em vista do bem.
Que a fortaleza se obtém de tomar muito alimento e suportar muitos trabalhos; pois o exercício torna forte.
Que a fortaleza é um meio-termo acerca dos temores e das ousadias.
Termo 13
Irmão
Que o governo dos irmãos que são iguais se assemelha à timocracia.
Que, se os irmãos diferem muito em idade, não há entre eles amizade fraterna, mas como que a de pai para filho.
Que os irmãos se amam enquanto nascem dos mesmos pais, e por isso se diz que são o mesmo em sangue e em raiz.
Termo 14
Fortuna
Que as fortunas dos descendentes em nada contribuem para a felicidade.
Que, tendo as fortunas muitas diferenças, se se falasse de todas, isso seria longuíssimo e infinito.
Que, dentre as fortunas, algumas têm peso porque impedem, outras são auxílio para a vida porque servem como instrumentos, e outras são mais leves; e do mesmo modo as que dizem respeito aos amigos.
Que as fortunas e os infortúnios dos amigos parecem contribuir em algo para os que já morreram, mas não algo tal que os torne felizes ou miseráveis.
Que todos censuram a fortuna, porque os bens da fortuna são dados aos indignos e os mais dignos não são enriquecidos.
Se há maior necessidade de amigos nas fortunas ou nos infortúnios.
Que os afortunados e os desafortunados precisam de amigos; aqueles precisam de pessoas com quem conviver e a quem fazer o bem, e estes precisam de auxílio.
Que, para as boas fortunas, os amigos devem ser chamados prontamente, porque o homem bom é também benfeitor e então pode fazer o bem ao máximo; mas, para as más, com vagar, isto é, tardiamente, e somente sob a pressão de grande necessidade, e então sobretudo quando, com pequena tribulação, possam ajudá-lo em algo grande.
Que, nas boas fortunas, o amigo deve cooperar prontamente, pois para isso há necessidade dos amigos; mas, para receber algum benefício dele, deve ir com tranquilidade e discrição, porque se deve respeitar e acautelar-se para que não seja considerado inconveniente, o que às vezes acontece.
Termo 15
Furor
Que o furor, por causa da semelhança com a verdadeira fortaleza, se chama fortaleza, porque os corajosos se lançam audazmente aos perigos, e de modo semelhante os que se enfurecem; como as feras e os animais cruéis se lançam contra os que os ferem.
Que o furor é o mais impetuoso diante dos perigos.
Termo 16
Sobre a figura da proporcionalidade
Que, na figura da proporcionalidade, é preciso reduzir as obras e os artífices a isto: que a equiparação se faça segundo a proporcionalidade.
Termo 17
Felicidade
Que a felicidade não está no hábito, mas na operação, pois os hábitos podem existir naquele que dorme e no desafortunado.
Que a felicidade está na operação eligível por si mesma.
Que a felicidade não está nas operações do divertimento.
Que ninguém atribui felicidade ao homem bestial, a não ser que alguém lhe atribua a vida contemplativa, e isso seria falso.
Que a felicidade é a operação segundo a melhor virtude e é do que há de melhor, a saber, o intelecto, ou de alguma outra coisa que, segundo a natureza, parece reger e dominar e ter inteligência das coisas boas e divinas.
Que a felicidade é a operação mais contínua, e tal é a operação da parte especulativa.
Que julgamos ser preciso que à felicidade esteja mesclado o prazer, e por isso ela será segundo a operação da sabedoria, que é a mais deleitável.
Que a felicidade parece estar no ócio, na medida em que o ócio exclui um ato ulterior.
Que na felicidade nada deve ser imperfeito.
Que a felicidade civil, que vive segundo as virtudes morais, é uma felicidade secundária.
Que a felicidade contemplativa pouco necessita da generosidade exterior, isto é, dos bens exteriores, e menos do que a moral.
Que a felicidade contemplativa e a moral igualmente necessitam do que é necessário à vida, embora quanto a isso trabalhe mais o homem civil; mas é pequena a diferença entre ambas quanto a tais necessidades, ao passo que quanto às operações difere muito, pois o liberal necessita de dinheiro para praticar atos liberais, ao passo que o intelectual não.
Que a felicidade perfeita é uma certa operação especulativa.
Termo 18
Feliz
Que a vida feliz parece consistir na virtude e não no divertimento.
Que o homem feliz, por ser homem, necessita da prosperidade exterior, pois não é suficiente por si para contemplar, mas é preciso que o corpo seja saudável e que existam o alimento e as demais coisas que o servem.
Que, embora o feliz necessite dos bens exteriores, não se deve, contudo, julgar que aquele que há de ser feliz necessite de muitos e grandes bens, pois na superabundância dos bens exteriores o homem não é suficiente por si mesmo para o juízo da contemplação e para a ação da virtude moral, mas é preciso ter muitos auxiliares.
Que ao feliz basta que existam tantos bens exteriores quantos bastam para viver bem.