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Lição 4 — Teorias Anteriores. Empédocles, Platão, Alma como Número Automotor

TEXTO 404 b 8-404 b 29 - LIVRO 1, CAPÍTULO II, CONTINUAÇÃO
TEORIAS ANTERIORES. EMPÉDOCLES, PLATÃO, ALMA COMO NÚMERO AUTOMOTOR

Todos os que a consideraram como conhecedora e perceptora das realidades identificam a alma com os princípios [elementares] — alguns estabelecendo vários princípios, outros um só. § 43-4

Empédocles, por exemplo, diz que ela é composta de todos os elementos, e que cada um destes é uma alma, afirmando:

Como pela terra conhecemos a terra, pelo éter divino o éter,

Pela água a água, pelo fogo, é claro, o fogo misterioso e oculto;

Pelo amor o amor, pelo ódio triste o ódio. §45

Da mesma forma, Platão no Timeu constitui a alma a partir dos elementos. Pois o semelhante [diz ele] é conhecido pelo semelhante; e as coisas são compostas de elementos. §§46-7

Nas lições 'Sobre a Filosofia', ele igualmente estabelece que o próprio animado é composto da ideia do Um, juntamente com o Comprimento, a Largura e a Profundidade primários; outras coisas existindo da mesma maneira. § 48-50

Novamente, de modo um tanto diferente, que o intelecto é o Um, o conhecimento é o Dois (pois [este procede] como um para um), e o número do Plano pertence à opinião, e o do Sólido à sensação. Pois ele disse que os números são as formas específicas e os princípios dos seres, e são eles próprios constituídos a partir de elementos. Algumas coisas são discernidas pelo entendimento, algumas pela ciência, algumas pela opinião, algumas pela sensação. Mas esses mesmos números são as formas específicas das coisas. § 51

Mas, uma vez que a alma parece ser tanto um princípio motor quanto um princípio cognoscente, alguns a conceberam como uma combinação desses dois, afirmando que ela é um número automotor. § 52

COMENTÁRIO DE SÃO TOMÁS
LIÇÃO QUATRO

§ 43. Tendo mostrado como alguns abordaram o conhecimento da alma através do movimento, o Filósofo agora se volta para aqueles que chegaram a ela por meio da sensação ou do conhecimento. Ele faz isso em duas etapas. Primeiro, mostra onde estes últimos estavam de acordo; e, em segundo lugar, em 'Empédocles, por exemplo', onde discordavam.

Ele começa, então, dizendo que todos os que estudaram a alma em ou através de seu conhecer e sentir concordaram em sustentar que a alma era composta dos princípios das coisas; mas alguns 'fizeram', i.e., puseram, muitos tais princípios, enquanto outros puseram apenas um. Mesmo os primeiros filósofos assumiram que esses princípios estavam na alma, como que compelidos pela força da própria verdade; eles sonhavam, por assim dizer, com a verdade. A verdade, de fato, é que o conhecimento é causado pelo conhecedor conter uma semelhança da coisa conhecida; pois esta deve estar no conhecedor de alguma forma. Os primeiros filósofos, no entanto, pensavam que ela existia no conhecedor em seu próprio ser natural, i.e., com o ser que tem em si mesma. O semelhante, diziam, deve ser conhecido pelo semelhante. Se, então, a alma deve conhecer todas as coisas, ela deve conter uma semelhança de todas as coisas de acordo com seu modo natural de ser. Eles não podiam distinguir entre o modo de existência que uma coisa tem na mente ou no olho ou na imaginação daquele que ela tem em si mesma. Portanto, uma vez que tudo o que é da essência de uma coisa é um princípio constituinte da coisa, e conhecer seus princípios constituintes é conhecer a própria coisa, esses filósofos mantiveram que a razão pela qual a alma pode conhecer todas as coisas é que ela é composta dos princípios de todas as coisas. Esta teoria era comum a todos eles.

§ 44. Mas eles diferiam quanto a esses princípios. Nem todos admitiam os mesmos; um admitia muitos, outro apenas um, e um admitia um, outro admitia outro. Daí discordarem também sobre os constituintes da alma.

§ 45. Assim, em 'Empédocles, por exemplo', Aristóteles expõe essas diferenças. Ele apresenta primeiro a opinião de Empédocles, dizendo que os primeiros filósofos que estudaram a alma por meio de suas percepções sensoriais pensavam que ela era composta dos elementos. Aqueles que admitiam apenas um princípio diziam que este precisamente era a alma; e aqueles que admitiam muitos diziam que a alma era composta de muitos; assim, Empédocles sustentava que a alma era constituída por todos os elementos, e que cada um deles era ele próprio uma alma. Note-se que Empédocles admitia seis princípios: quatro materiais, a saber, terra, água, fogo e ar; e dois princípios ativos e passivos, a saber, discórdia e amizade. E, uma vez que ele assumia que a alma conhecia todas as coisas, dizia que ela era composta de todos esses princípios. Assim, como terreno conhecemos a terra; como etéreo ou aéreo conhecemos o ar; como aquoso conhecemos a água; e como ígneo, obviamente, conhecemos o fogo. Através do amor conhecemos o amor, e através do 'ódio triste' conhecemos o ódio. 'Triste' aparece aqui porque Empédocles escrevia em verso.

§ 46. Em seguida, ao dizer ‘Do mesmo modo Platão’, Aristóteles expõe a opinião de Platão, que também, segundo ele, fez a alma consistir em elementos, ou seja, ser constituída pelos princípios das coisas. E como evidência para essa afirmação, ele toma três passagens de Platão. A primeira é do Timeu, onde Platão diz que existem dois elementos ou primeiros princípios, a Identidade e a Diferença. Pois há um certo tipo de natureza que é simples e imutável, como são as coisas imateriais; e essa natureza ele chama de Identidade. E há outro tipo que não permanece o mesmo, mas sofre mudança e divisão, como fazem as coisas materiais; e essa natureza ele chama de Diferença. E é desses dois princípios, Identidade e Diferença, que a alma, segundo ele, é composta; não que ambos estejam na alma como suas partes; mas antes como no meio-termo entre extremos; pois a alma racional é por natureza inferior e menos nobre que as substâncias imateriais superiores e puras, mas é superior e mais nobre que as coisas materiais inferiores.

§ 47. Ora, essa opinião baseia-se no princípio já mencionado, de que o semelhante é conhecido pelo semelhante. Pois parecia a Platão que, se a alma conhece todas as coisas, e se Identidade e Diferença são princípios fundamentais, então a própria alma deve ser constituída de Identidade e Diferença; na medida em que participava da ‘Identidade’, a alma, pensava ele, conhecia o ‘idêntico’, enquanto na medida em que participava da ‘Diferença’, conhecia o ‘diferente’, ou seja, as coisas materiais. Daí o processo real da alma no conhecimento das coisas. Pois quando ela reúne as coisas sob gêneros e espécies, então, dizia Platão, ela manifesta a Mesmidade ou Identidade, mas quando atenta para os acidentes e diferenciações, ele encontra nela a Diferença. É assim que Platão, no Timeu, entendia a alma como composta de princípios.

§ 48. A segunda passagem, mostrando que essa era a teoria de Platão, Aristóteles a menciona ao dizer ‘Nas palestras “Sobre a Filosofia”.’ Aqui também a alma é representada como constituída a partir de princípios. Note-se, nessa conexão, que Platão tomava os objetos conhecidos pelo intelecto como coisas em si mesmas, existindo separadamente da matéria em atualidade perpétua, e as causas do conhecimento e do ser nas coisas sensíveis. Para Aristóteles, essa visão envolvia tantas dificuldades que ele foi compelido a excogitar a teoria do ‘intelecto agente’. Mas da posição de Platão seguia-se que ao que podia ser pensado abstratamente correspondiam realidades subsistentes e atuais. Podemos, no entanto, formar abstrações de duas maneiras: uma é procedendo dos particulares aos universais; a outra é aquela pela qual os objetos matemáticos são abstraídos dos objetos sensíveis. Assim, Platão viu-se obrigado a postular três tipos de ser subsistente: os objetos da percepção sensível; os objetos matemáticos; e as ideias universais — estas últimas sendo a causa, por participação, dos outros dois tipos.

§ 49. Platão também sustentava que os números eram causas das coisas reais, ignorando a distinção entre a unidade como idêntica ao ser, e a unidade como princípio do número que é um tipo de quantidade. Daí ele inferiu que os universais eram da natureza do número; pois o universal existindo separadamente é a causa das coisas cuja substância é numérica. Ele dizia, de fato, que os princípios constituintes de todos os seres eram ‘espécie’ e ‘número específico’, que ele chamava de específico no sentido de ser constituído a partir de ‘espécies’. E ele reduzia o próprio número à unidade e à dualidade como seus elementos fundamentais; pois, como nada pode proceder de um só, deve haver, pensava ele, alguma natureza, subordinada à unidade, de onde a multiplicidade possa proceder; e essa natureza ele chamava de dualidade.

§ 50. Assim, Platão concebia três classes de seres, graduadas segundo sua conexão com a matéria. Como os objetos sensíveis são mais materiais que os objetos considerados na matemática, e estes últimos mais que as ideias universais, ele colocou os objetos sensíveis no nível mais baixo, e acima deles os objetos matemáticos, e acima destes os universais e ideias existentes separadamente. Os universais diferem dos objetos matemáticos nisso: estes últimos incluem diferenças numéricas dentro da mesma espécie, enquanto as ideias e substâncias separadas não exibem diferenças numéricas na mesma espécie; há apenas uma ideia para cada espécie. Essas ideias, dizia ele, são de natureza numérica, e delas derivam tais qualidades numéricas das coisas sensíveis como comprimento, largura e profundidade. Daí ele dizia que a ideia de comprimento era a primeira dualidade, pois comprimento é de unidade a unidade, de ponto a ponto; e a de largura era a primeira trindade, pois o triângulo é a primeira das figuras planas; e a de profundidade, que inclui tanto comprimento quanto largura, era a primeira quaternidade, pois a primeira figura sólida é a pirâmide, que é construída com quatro ângulos. Assim também a alma sensitiva, no sistema de Platão, implicava uma Alma existindo separadamente como sua causa, e constituída, como as outras coisas e ideias ‘separadas’, pelo número, isto é, pela unidade e dualidade que para ele eram fundamentais nas coisas.

§ 51. Então, em ‘Novamente, de modo um tanto diferente’, Aristóteles alude ao terceiro texto aduzido para mostrar que para Platão a alma era composta de elementos ou princípios. Como dissemos, era visão de Platão que as formas específicas e os princípios das coisas eram números; assim, quando ele passou a tratar da alma, baseou seu conhecimento das coisas em sua composição fundamentalmente numérica; todas as suas atividades, sustentava ele, brotavam dessa fonte. Tomemos, por exemplo, as diversas funções apreensivas da alma: entendimento simples, ciência, opinião e sensação. O entendimento simples Platão conectava com a ideia de Um; ele tem a natureza da Unidade; pois em um ato apreende uma unidade. Novamente, a ciência para ele relaciona-se à Dualidade, uma vez que procede de um a um, i.e., de princípios a conclusões. E a opinião relaciona-se à primeira Trindade, procedendo de um a dois, i.e., de princípios a uma conclusão que é acompanhada pelo receio de que uma conclusão diferente possa ser verdadeira; formando assim uma tríade a partir de um princípio e uma conclusão admitida e uma temida. Finalmente, a sensação deriva da primeira Quaternidade, i.e., da noção de um corpo sólido construído (como dissemos) a partir de quatro ângulos; pois os corpos são o objeto da sensação. Uma vez que todo conhecimento está contido nesses quatro, i.e., em entendimento simples, ciência, opinião e sensação, todos os quais, dizia Platão, estão na alma em virtude de sua participação na natureza da Unidade, Dualidade, Trindade e Quaternidade, segue-se obviamente que para Platão a Alma separada, a ‘ideia’, como ele a chamava, das almas particulares, era constituída por números, que são os elementos ou princípios da realidade. Até aqui para mostrar que Platão considerava a alma como composta de princípios.

§ 52. Em seguida, em ‘Mas uma vez que a alma parece’, Aristóteles observa que alguns filósofos definiram a alma, e chegaram a conhecer algo sobre ela, através tanto do movimento quanto da sensação ou conhecimento. Ele diz que, como a alma lhes parecia ser tanto automotora quanto cognitiva, eles juntaram os dois aspectos em sua definição e a chamaram de ‘número automotor’. ‘Número’ refere-se ao poder cognitivo porque pensavam, de acordo com o que já foi dito, que a alma era capaz de conhecer em virtude de sua participação na natureza do número específico (opinião de Platão). ‘Automotor’ refere-se ao poder motor da alma.