UMA CARTA DO SENHOR BORELLA
O senhor Borella não gostou do artigo publicado no boletim nº 9, que analisava a gnose "tradicionalista" que ele se esforça para introduzir nos meios católicos tradicionais. Ele enviou, portanto, uma carta retificativa e exige que a publiquemos.
Pior para ele; ei-la.
Seria difícil sonhar com um texto melhor, mais revelador do incômodo sentido por esse mestre da nova gnose ao ser pego em flagrante; e é sem o menor desprazer que o entregamos aos nossos leitores, fazendo-lhes apenas uma recomendação: a de relerem em sua totalidade o artigo incriminado. A comparação não deixará de instruí-los tanto sobre o fundo quanto sobre o método.
De resto, é evidente que um único artigo não seria capaz de esgotar a matéria da neognose contemporânea, seja aquela destinada aos católicos tradicionais ou as diversas variantes voltadas a outros meios. Teremos, pois, a oportunidade de retornar a este tema com frequência nos próximos boletins, como fazemos hoje a propósito de René Guénon: o "esoterismo cristão" é um assunto importante e urgente demais neste fim de século XX para que o abandonemos tão rápido...
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Sob a assinatura de J. V., foi publicado no nº 9 de vossa publicação um artigo intitulado: "A gnose 'tradicionalista' do professor Borella". Esse artigo exige de minha parte uma série de observações, que vos agradeceria levar ao conhecimento de vossos leitores em um próximo número de vosso Boletim, conforme vos obriga a lei de 29 de julho de 1881, artigo 13.
Não é minha intenção defender-me das acusações que julgaram por bem lançar contra mim: sua extravagância deveria bastar para ridicularizá-las. Além disso, não tenho de me justificar: expus o que entendia por "gnose", tanto em meu livro A Caridade Profanada (Ed. du Cèdre, pp. 387-389) quanto em meu artigo: Gnose cristã e gnose anticristã (La Pensée catholique, nº 193, julho-agosto de 1981, e Vu de Haut, Ed. Fideliter). Esses textos são claros. Posso apenas remeter o leitor a eles.
Tampouco poderia, por falta de tempo e de interesse, discutir todas as questões levantadas por J. V. ao longo de suas 22 páginas. Discussão vã, aliás, pois as opiniões ali expressas são essencialmente de ordem passional.
Gostaria apenas de chamar a atenção de vossos leitores para alguns pontos.
1° — Não "escolhi" as Editions du Cèdre e La Pensée catholique para difundir meu "pensamento" junto à "clientela" que eu desejaria "influenciar" com vistas a cumprir um "plano oculto" que só existe na imaginação de J. V. Enviei meu manuscrito a mais de 14 editores, da Gallimard à Seuil, passando pela Cerf e alguns senhores de menor importância. Após 4 anos de tentativas infrutíferas, encontrou-se finalmente um editor generoso e corajoso o suficiente para aceitar publicar um livro tão pouco comercial. A isso limitam-se os "apoios" (p. 23) que J. V. me credita. E todas as alusões (que ele prodigaliza) a uma manobra concertada de minha parte não passam de um mau folhetim. Acrescento que não tenho relação com nenhuma "maçonaria" e que represento apenas a mim mesmo.
2° — Na p. 6, a propósito do prefácio que redigi para os escritos do padre Henri Stéphane, J. V. faz-me dizer o contrário do que efetivamente expus. Eu teria afirmado que o padre Stéphane praticara uma "outra via" (que não a católica). Mas nada escrevi de tal gênero. Basta ler a frase que precede a citada por J. V. para compreender que a via da qual o padre Stéphane se afastou é precisamente a do comparatismo religioso (horizontal), que vê na obra guenoniana uma espécie de super-religião normativa. Atribui esse esforço do estrito guenonismo ao fato de o padre Stéphane ser, antes de tudo, um padre católico: assim, o que é mais "vertical" que o comparatismo é o aprofundamento da doutrina católica.
Quanto à questão "Guénon" em geral, direi apenas isto: São Tomás de Aquino, para elaborar a doutrina sagrada, apoiou-se quase unicamente em um filósofo pagão que negava o Deus-Providência, a criação do mundo e a imortalidade da alma (entre outras coisas). Não vejo por que, mutatis mutandis, eu não poderia por vezes me referir, com reservas e críticas, a um autor que afirma essas três verdades (e algumas outras que são perfeitamente católicas), mas que jamais foi meu mestre.
3° — A maneira como J. V. compreende os textos é quase sempre muito surpreendente. Assim, jamais escrevi nem pensei que Deus fosse parte do mundo espiritual (p. 12); sendo Deus para além de todos os mundos (e presente em cada um deles). Mas há algo ainda pior.
Ignorando — evidentemente — que o termo Hypertheos ("Sobre-Deus" ou "Mais-do-que-Deus") é de origem dionisiana (Nomes Divinos 648 D), ele vê ali uma denominação própria do gnosticismo "stefano-guenoniano" (pp. 9, 10, 15, etc.), designando um Princípio superior ao Deus Cristão. Propõe-se então (p. 15) a explicar a seguinte frase de A Caridade Profanada (p. 364): "Eis o Triságio eterno que sobe em direção à Tearquia sobre-essencial", e escreve candidamente: "O Triságio é evidentemente o 'Três vezes Santo' (...) isto é, a Trindade. Ora, eis que esta Trindade, não se bastando mais a si mesma, sobe em direção a algo mais do que ela. E para onde ela sobe? Para a 'Tearquia sobre-essencial'. (...) Tal é o Absoluto metafísico do professor Borella, que não está contido em Deus, que está situado 'além de Deus'".
Mas se J. V. tivesse aberto um simples dicionário, teria aprendido que Triságio designa não a Trindade, mas o canto do Sanctus, que a corte celeste canta em uma liturgia propriamente divina, e que sobe em direção à Tearquia sobre-essencial, isto é, o Deus único em Três Pessoas, como mostra o contexto ("Eis a Terra e o Céu convidados a celebrar o esplendor do Pai... Eis a imensidão dos homens e das coisas (...) em torno do Cordeiro místico (...) Eis o Triságio eterno que sobe...").
Quanto a "Tearquia sobre-essencial", é igualmente uma expressão de São Dionísio Areopagita, conforme a notável transcrição que M. de Gandillac propôs do sintagma grego, hyperousios Thearchia (por ex. Hier. Cél. 140 C). É uma das expressões favoritas do corpus dionisiano, que o mesmo sábio explica assim: "Princípio mesmo da Deidade" (Obras Completas, p. 372). Ela esforça-se por designar Deus no que Ele tem de mais transcendente, lá onde Ele é "Mais do que Deus", ou seja: para além de tudo o que pensamos e conhecemos ordinariamente quando falamos de "Deus".
Agora, é ortodoxo distinguir entre a Essência divina una e a trindade das Pessoas (embora não seja justamente o caso da passagem visada por J. V.)? Evidentemente sim. Não apenas São Tomás de Aquino escreveu primeiro um tratado De Deo uno e depois um tratado De Deo trino, mas o IV Concílio de Latrão (1215) declara: "A natureza divina sozinha é o princípio de todas as coisas; fora dela não há nada mais. Esta Realidade não engendra, não é engendrada, não procede; mas é o Pai quem engendra, o Filho quem é engendrado e o Espírito Santo quem procede". (Dumeige, 224).
4° — Não podendo apontar aqui todas as confusões ou as imprecisões de J. V., chego, para terminar, à questão essencial da gnose. Admito que não se possa pronunciar esse termo sem que funcione um reflexo de rejeição; admito que se lamente — em última análise — o emprego dessa palavra devido às confusões que pode gerar, e que me julguem imprudente; mas não poderia ir além, nem me reconhecer nas intenções tenebrosas que me são atribuídas. Se eu quisesse enganar meus leitores sobre "a mercadoria" (para manter o tom de J. V., que neles vê apenas uma "clientela"), teria começado por esconder a bandeira.
Dito isso, recordarei alguns fatos:
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Contrariamente ao que diz J. V. (p. 20), existem em grego outros termos além de gnosis para dizer "ciência" ou "conhecimento". Esse é, de fato, seu argumento maior, pelo qual explica que esse termo se encontra tanto no Novo Testamento quanto nos Padres gregos. Mas isso é falso. Um simples olhar em um dicionário ou concordância mostra que não é assim. Gnosis designa primeiramente o conhecimento no sentido mais amplo e emprega-se quase sempre com um complemento: o conhecimento de... Distingue-se então de episteme, que significa sempre: "ciência". É o caso, frequentemente, em Platão e Aristóteles, que empregam também gnome, techne, nous, sophia, sunesis, phronesis, logos, dianoia, mathema, mathesis, etc. A gnosis, no sentido absoluto do termo, o "conhecimento" (por excelência), raramente se encontra fora da Septuaginta, que utilizou esse termo para designar a adesão de todo o ser ao verdadeiro Deus. É por isso que no N.T. existe apenas um único emprego profano desse termo em 26 ocorrências (1 Pe III, 7). Mas ali se encontram também, ao lado do verbo gignoskô (221 vezes), os verbos oida (326 vezes) ou epistamai (14 vezes).
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Contrariamente ao que afirma J. V., os Padres gregos dispunham, portanto, de outros termos além de gnosis para designar o conhecimento. Em Clemente de Alexandria, que não ignora episteme (II Str, 4, 13, 3), pode-se inclusive estimar que o emprego da palavra "gnose" ou o de "gnóstico" para designar o cristão perfeito "são coisas bastante novas" (Méhat, Études sur les Stromates de Clément d’Alexandrie, Seuil, p. 419). Quanto a Orígenes, somente no Contra Celso, ele emprega de forma quase equivalente dogmata, didaskalia, episteme, sophia, logos, theologia, ao lado de gnosis, e apesar da existência de um gnosticismo herético, o que leva uma eminente patróloga a dizer que "Os cristãos não temeram empregar o mesmo vocabulário que os gnósticos" (M. Harl, Origène et la fonction révélatrice du Verbe Incarné, Seuil, p. 80). Seria isso também para aplicar o princípio maçônico cuja existência J. V. nos revela na p. 24?
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Enfim, contrariamente à asserção geral de J. V., a gnose não foi de modo algum rejeitada pelo cristianismo latim — refiro-me à gnose verdadeira, aquela que consiste no conhecimento sobrenatural de Deus em Jesus Cristo. Tanto quanto sei, não existe nenhuma condenação desse termo nas definições magisteriais da fé católica. O "Denzinger" contém apenas uma menção aos Gnostici a propósito de uma heresia dos Priscilianistas relativa à terminologia trinitária. Refletindo-se sobre isso, é algo surpreendente. Uma boa testemunha do respeito que nossa religião concede a esse termo é o mui ortodoxo Dicionário de Teologia Católica (Vacant-Mangenot), pouco suspeito de liberalismo e que dedica, sem a menor crítica, um excelente artigo à palavra gnose, a qual distingue cuidadosamente de gnosticismo. Remeto igualmente ao estudo aprofundado do P. Camelot sobre a Gnose cristã (ortodoxa) no Dicionário de Espiritualidade, no artigo "Gnose e Gnosticismo", sem falar da magistral obra de Dom J. Dupont, Gnosis. O conhecimento religioso nas epístolas de São Paulo, ou dos artigos do P. Bouyer sobre essa questão. Tratar-se-ia também de maçons disfarçados?
É preciso concluir. Creio, com São Clemente de Alexandria, que a gnose foi, primeiramente, uma tradição secreta: "A Tiago, o Justo, a João e a Pedro, após a ressurreição, o Senhor deu a gnose; estes a deram aos outros apóstolos; os outros apóstolos a deram aos setenta, dos quais um era Barnabé" (Hypot. fg. 13).
Mas creio também que essa doutrina suprema, para a qual muitos são chamados, mas que poucos apreendem, está contida no Credo ou Símbolo da Fé, que, ainda na época de Santo Ambrósio, só podia ser transmitido oralmente, ao abrigo dos profanos. Por isso posso dizer, com Bossuet: "Não vejo que se deva entender outra sutileza, nem, sob o nome de gnose, outro mistério senão o grande mistério do cristianismo, bem conhecido pela fé, bem entendido pelos perfeitos, devido ao dom da inteligência, sinceramente praticado e transformado em hábito". (Tradição dos novos místicos, cap. III, seção I).
Eis que há quase um século os "integristas", isto é, os cristãos integrais, suspeitam e denunciam um modernismo e um gnosticismo ocultos em toda parte. Isso evidentemente dá um certo tempero à existência, e até um simulacro de justificativa. Diante dos resultados, tem-se o legítimo direito de perguntar se o método é eficaz. A obsessão por infiltrações maçônicas (ou outras) — que não nego — só pode alegrar nossos adversários. Enquanto os cristãos fiéis gastam seu tempo excomungando-se reciprocamente, Satã, de rosto descoberto, age como soberano nos escritórios episcopais e destrói a religião católica.
No mais, como disse nosso Mestre: "A árvore será julgada pelos seus frutos".
Queira aceitar, Senhor, a expressão de minhas melhores saudações.
Jean BORELLA
[1] ou melhor: gignoskô