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"OS ESSÊNIOS ERAM EBIONITAS?"

Uma tese subversiva já antiga pretende que o Cristianismo tenha surgido de uma seita judaica anterior ao próprio Cristo em pelo menos um século: a seita dos Essênios.

A descoberta dos manuscritos do Mar Morto foi a oportunidade para alguns rejuvenescerem essa hipótese por meio de um pseudo-aparato de provas históricas e exegéticas.

Um primeiro artigo, publicado no nº 8, mostrou a vacuidade dessa tentativa, apresentando os Essênios não como precursores, mas antes como discípulos de Cristo. Este segundo artigo reúne os elementos que podem ser apresentados em apoio a essa identificação.

Esforçamo-nos por pesquisar e agrupar os indícios que permitem identificar os Essênios descritos por Josefo e Filo com a Comunidade Judaico-Cristã dos Ebionitas (os "Pobres" de Jerusalém), à qual poderiam, então, ser atribuídos os Manuscritos de Qumran. Pois é preciso manter esta verdade muito simples: os testemunhos já expostos por esses autores apenas descrevem uma "comunidade de Santos e de Pobres" que vivia por volta de meados do século I depois de Jesus Cristo. Eles não afirmam nada além disso.

PRECISÕES SOBRE A ASCIA:

Vimos que o machado era o símbolo de Cristo. É preciso precisar ainda o seguinte: a ascia (machadinha), como símbolo funerário, foi encontrada em vários exemplares na catacumba cristã mais antiga, a de São Sebastião, onde se acredita terem sido sepultados, ao menos provisoriamente, os corpos de São Pedro e São Paulo. Encontrou-se nessa catacumba um hipogeu dos Innocentii, no qual vários túmulos judaico-cristãos portam o signo da ascia.

O simbolismo do machado deve sua origem ao Milagre do Machado. Diz-se, no livro dos Reis, que quando Elias foi arrebatado ao céu e lançou seu manto sobre Eliseu, os filhos dos profetas pediram a este último que construísse um edifício no local exato de seu arrebatamento. Eles partiram com machados para cortar lenha às margens do Jordão. Um deles deixou cair seu machado, que foi levado pela correnteza. Eliseu lançou seu cajado que, à maneira de um ímã, trouxe a ferramenta de volta à margem. Assim, o discípulo perdeu o instrumento de sua salvação, e este lhe foi devolvido pela madeira da cruz — aqui representada pelo cajado do profeta.

Quando João Batista começou a pregar, estabeleceu-se no local presumido do vau que o profeta Elias havia atravessado antes de ser arrebatado em um carro de fogo. Por isso lhe perguntaram: "És tu Elias?". Ele respondeu: "Não". Mas quando a mesma pergunta foi feita a Jesus por seus discípulos, ele respondeu: "Se quereis compreender, ele é o Elias que devia voltar. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". É por isso que João Batista se estabelecera às margens do rio, diante de Jericó.

Nos primeiros séculos da Igreja, esse lugar foi um centro de peregrinações. As multidões vinham venerar o local onde Jesus fora batizado. Ali ergueram-se santuários e mosteiros. Um deles, chamado Kasr-el-Yahud (castelo dos judeus), era chamado pelos cristãos de "Convento de São João Batista". Restam apenas ruínas. Os peregrinos iam banhar-se no vau do Jordão para renovar seu batismo, provavelmente em Betabara (lugar da passagem), onde João batizava. Um relato de peregrinação, a "Peregrinatio Aetheriae", conta que, no século VI, mostrava-se aos viajantes o lugar onde Elias fora arrebatado ao céu e onde os filhos dos profetas perderam seus machados.

Essa cena foi reproduzida em um painel da porta de madeira esculpida de Santa Sabina, em Roma. Um dos jovens que perdeu seu machado lança-se ao chão apavorado, cobrindo o rosto, próximo a Elias arrebatado em seu carro de fogo. Assim, o símbolo do machado era cristão e permitia associar a memória de Elias à de São João Batista.

Por fim, diz-se no "Documento de Damasco", encontrado em Qumran, para "imprimir uma marca na testa daqueles que suspiram e gemem". Essa passagem é tirada de Ezequiel, onde se especifica que essa marca tem a forma do Tau grego. Ora, nos túmulos com ascia, imprimia-se no frontispício essa marca: a ascia possuindo a forma de um tau minúsculo (τ). Ela é encontrada, inclusive, nos dois sentidos, como nestes exemplos em certos túmulos: D image.png e  M image.png  .

O que permite precisar ainda mais que se tratava de fato do signo do tau é que alguns túmulos "dedicados sob a ascia" portam o T (tau) maiúsculo grego. Eis um ponto interessante. Para ser salvo, era necessário que a marca na testa (frontispício) fosse manifesta, de onde se vê que a fórmula simbólica fora tomada ao pé da letra.

SÃO TIAGO, CHAMADO "O JUSTO", E A DISCIPLINA DO ARCANO.

Nos manuscritos de Qumran, o Mestre da Justiça, o Sacerdote Ímpio e o Homem da Mentira nunca são designados por seus nomes próprios, mas sempre por essas perífrases. No entanto, o conjunto do texto apresenta personagens que realmente existiram, enumerando seus feitos e gestos. Trata-se de textos históricos e não de um ensinamento figurado ou alegórico. Esse procedimento é, portanto, intencional. O objetivo é não revelar a identidade real desses personagens fora da comunidade.

Flávio Josefo nos diz que os essênios nunca nomeavam seu legislador: "Depois do nome de Deus, o do Legislador é entre eles particularmente venerado; quem o blasfema é punido com a morte". Durante a guerra contra os romanos, em 70 d.C., eles não o revelaram nem mesmo sob tortura. O que Josefo diz dos essênios aplica-se perfeitamente aos discípulos do Mestre da Justiça, que nunca escreveram seu nome próprio, indicando — se houvesse necessidade — que o consideravam divino. Filo, ao falar dos essênios, diz: "Nosso Legislador"; ele se considera, portanto, membro da Comunidade. Mas o que é digno de nota é que nem um nem outro revelaram seu nome: o segredo foi bem guardado.

Se aproximarmos esse fato das afirmações de Flávio Josefo, segundo as quais os neófitos essênios eram mantidos afastados da refeição sagrada e só podiam participar dela após dois anos de noviciado e um juramento solene de não revelar o sentido oculto da cerimônia, vemos que essa comunidade praticava a "disciplina do arcano", própria das primeiras comunidades cristãs. Esta nunca foi uma regra explícita, mas um uso constante. Tratava-se, sobretudo, de evitar qualquer profanação dos Santos Mistérios. Se a refeição dos essênios fosse apenas uma reunião de oração ou uma refeição conventual, questiona-se a razão de ser de tais juramentos solenes de nunca revelar ao exterior o que ali se passava.

São Tiago Menor, "irmão do Senhor", era o bispo da comunidade cristã de Jerusalém. Era, portanto, também o chefe da comunidade dos "Pobres", os "Ebionitas". Após o assassinato de Santo Estêvão, os cristãos fugiram de Jerusalém. Passados os primeiros terrores, eles retornaram. Tiago, chamado "o Justo", pregava no Templo. Atraía multidões por suas invectivas contra os ricos. Ele e sua comunidade eram objeto de grande respeito por parte dos judeus de Jerusalém. Já não eram chamados com desprezo de "nazarenos", mas com respeito de "santos" ou "justos".

Por isso, a autoridade do Sinédrio não ousava tocar neles. Anano, o filho de Anás, tornado Sumo Sacerdote por sua vez, só faria São Tiago perecer aproveitando-se de uma ausência fortuita do procônsul romano, e seu crime provocaria tais protestos que ele seria deposto.

Os judeus-cristãos reuniam-se à noite no Cenáculo, mas não participavam do culto do Templo. A porta dita dos Essênios (Bab-Eschaium) abria-se para a estrada de Hebron e para os Montes de Judá. Ora, Flávio Josefo nos diz que os essênios permaneciam entre Jerusalém, Hebron e Engaddi, na montanha desértica onde, posteriormente, foram construídos mosteiros cristãos, como o de Mar Saba. Plínio, o Velho, diz que eles permaneciam acima de Engaddi — e não ao norte —, portanto, nessas montanhas.

São Tiago deixou uma Epístola na qual se encontram fórmulas qumranianas: o elogio da pobreza voluntária, a obrigação da prática das obras sem as quais a fé é vã, o dever de escrutar a lei incessantemente. Alguns exegetas pretenderam que essa carta era puramente judaica e que a dupla menção a Jesus era uma interpolação cristã...!!! Não é verossímil que esses piedosos ebionitas, ocupados durante dias e noites a escrutar as Escrituras, não tivessem deixado alguns textos de suas orações e meditações.

Mas, como se disse, não se encontrariam nos manuscritos do Mar Morto fórmulas especificamente cristãs que permitissem afirmar com segurança tratar-se de escritos ebionitas. A isso, pode-se dar duas respostas:

a) Colocamo-nos na perspectiva de judeus piedosos, discípulos de Jesus, que devem consagrar sua vida à oração e à meditação. Não existia então para eles uma cristologia, uma teologia ou uma liturgia especificamente cristãs. Para preencher as longas horas dedicadas a Deus, viam-se na necessidade de compor eles próprios os textos. Onde encontrar o fundo literário de suas fórmulas, senão no Antigo Testamento? Eles aplicarão a Jesus, aos diferentes episódios de Sua vida e ao Seu ensinamento tudo o que puderem encontrar de concordante na Escritura. Escrutar a Lei e os Profetas não era buscar, até nos menores detalhes, as aplicações que poderiam ser feitas a Jesus Cristo?

E o que se vê nos Manuscritos de Qumran?

Nada mais do que essa aplicação das Escrituras ao Mestre da Justiça; às vezes chegando ao contrassenso por uma preocupação excessiva em aderir ao pé da letra, como se vê no "Midrash de Habacuque".

b) Estamos tão certos de que esses documentos não contêm fórmulas especificamente cristãs? Em particular, os métodos de tradução podem ocultar essas fórmulas. Quando se decide, de uma vez por todas, que existiram essênios um século antes de Cristo, que o Mestre da Justiça era um judeu perseguido na época macabeia (por exemplo, Onias III) e que esses manuscritos eram seus manuais, torna-se tentador eliminar, na tradução, todo um vocabulário que lhes pudesse dar um aspecto cristão; ao menos se se quisesse evitar a "alucinação de uma espantosa reencarnação" de que falava o Sr. DUPONT-SOMMER.

Ao contrário, seria muito fácil dar, desses manuscritos, uma tradução que buscasse sistematicamente as fórmulas consagradas pelo uso cristão:

O Ungido de Deus: o Cristo; os filhos de Sadoque: os discípulos do Justo; "ele foi arrebatado de nosso meio" poderia muito bem aplicar-se à Ascensão. "Ele não era profeta, mas interpretava todos os profetas" — não é o que se diz de Jesus ao dirigir-se aos discípulos de Emaús? "Tudo isso ele deu a conhecer por seu ungido, por seu Espírito Santo": Por Cristo e pelo Espírito Santo?

Eis um texto particularmente interessante: "E quando se reúnem e a mesa é posta para beber o vinho, que ninguém estenda a mão para partir o pão antes do Sacerdote, pois é ele quem deve abençoar o início do pão e do vinho e ser o primeiro a pôr a mão no pão. Em seguida, o Ungido de Israel estenderá sua mão para o pão (?)... e toda a Assembleia, cada um segundo sua dignidade..." (O Ungido de Israel? É o Mestre da Justiça. Ele foi "arrebatado de nosso meio"; como poderia estar presente no centro da comunidade em cada refeição?)

Poder-se-ia assim encontrar uma multidão de outras traduções de sabor totalmente cristão. E quem nos provará que tal não era a verdadeira intenção dos redatores desses textos?

Daí se vê que o próprio método da Tradução é arrastado pela hipótese de partida e a reforça no ponto de chegada: chama-se a isso um círculo vicioso.

OS JUDEUS CARAÍTAS

As considerações que nos parecem mais decisivas são extraídas de um exame muito particular sobre a História dos judeus caraítas.

Por volta dos anos 800 a 840 d.C., revelam-nos diversos autores árabes, surgiu uma seita judaica dita dos "Maghariya", assim chamados porque seus livros foram encontrados em uma gruta perto de Jericó. Entre esses livros, estava o do "Alexandrino", o livro de YDN e uma multidão de outros. Os "Magharitas" eram, portanto, a "gente da Gruta".

Alguns anos mais tarde, surge a comunidade dos Caraítas, que se concentra sobretudo em Jerusalém por volta de 840-850. Ora, esta nova seita judaica é, de forma quase indistinguível, aquela que herdou a biblioteca da Gruta. Reencontram-se nos textos caraítas, e até em sua liturgia, todas as fórmulas de Qumran.

Eles são os "Pobres de Javé", são "escrutadores da lei" dia e noite, são o "pequeno resto" que não "tropeçou", "respeitam os preceitos", são os "humildes" e os "piedosos" a quem a Salvação será reservada. Assim é dito na Regra da Comunidade de Qumran: "Vigiarão juntos um terço de todas as noites do ano para ler o livro, estudar o direito e orar juntos".

Mais ainda: em suas orações, os Caraítas aguardam o retorno do "Mestre da Justiça" (lemoré sedeq) "que reconduzirá o coração dos pais aos seus filhos, que abolirá a Mishná, o Talmud e a Halacá e ensinará os seus caminhos para que sigamos as suas veredas". Eles mesmos se chamam de "Sadukim" (os Justos) e "gente do Livro" (Caraítas).

Eles foram alvo de perseguições por parte dos rabinos talmudistas, que os tratavam como heréticos e como "Saduceus" — fórmulas que pretendiam ser injuriosas, mas que provavelmente eram irônicas. Esses judeus caraítas gozavam da proteção da autoridade muçulmana e escapavam, assim, das perseguições dos Rabinos. Eis um fato notável.

A literatura caraíta é emprestada quase textualmente dos manuscritos do Mar Morto.

Aproximemos os fatos: no ano 800, o patriarca TIMÓTEO soube que judeus piedosos haviam encontrado uma biblioteca em uma gruta, contendo muitos livros do Antigo Testamento, mais de 200 salmos de Davi, etc. Ele soube por seu correspondente que os textos do Antigo Testamento haviam sido "adaptados" e que neles se encontravam alusões à vida do Cristo, o "Nazareno", que não existem nas Bíblias clássicas judaicas nem nas cristãs.

Ora, esses livros "revistos e corrigidos" para serem adaptados às circunstâncias da vida de Jesus inspiraram os Caraítas. Foi em uma sinagoga caraíta do Cairo que se encontrou um exemplar do "Documento Sadocita", dito "de Damasco", recopiado por eles durante a Idade Média. O mesmo documento sadocita foi reencontrado em Qumran. Tratava-se, portanto, dos livros de uma mesma comunidade, da qual uma parte fora descoberta por volta do ano 800 e outra parte fora descoberta em 1947 em uma gruta vizinha.

Se aproximarmos desses textos o "Deuteronômio de Shapira", que também fora "revisto e corrigido" em função do Cristo, torna-se muito difícil negar que esta comunidade fosse judaico-cristã.

Por fim, um ponto mais específico nos conduzirá aos limites da certeza. Reencontram-se entre os Caraítas, professados a respeito do Mestre da Justiça, os mesmos erros que os judeus-cristãos cometiam sobre o Cristo e contra os quais os Apóstolos lutariam com energia: a natureza angélica do Verbo e a espera de um Messias duplo.

Entre as obras da Gruta, encontradas no ano 800, estava o "livro do Alexandrino", livro famoso e conhecido, o mais importante da gruta. Trata-se, muito provavelmente, de Filo de Alexandria. Por quê? Os Caraítas afirmam que o Criador criou apenas um anjo, e que foi esse anjo quem criou todo o universo, enviou os profetas e realizou os milagres. Ora, Filo afirma que o Logos foi o primeiro anjo (o protos angelos).

Foi em Filo que os Caraítas encontraram o seu anjo criador, juntamente com as outras fórmulas qumranianas. Além disso, para eles, o Mestre da Justiça é "Elias"; eles também aguardam, como em Qumran, dois Messias: um de Aarão e um de Israel; um rei e um sacerdote. "Mostra-nos o Teu Ungido e Elias, o Teu profeta". "O Sumo Sacerdote no trono sacerdotal, o Messias no Trono Real".

Eis dois erros que se espalharam na comunidade judaico-cristã e contra os quais os apóstolos lutariam.

São João, em seu prólogo do quarto Evangelho, explica claramente que o Verbo (O Logos) não é um anjo criado, mas o próprio Deus. Ele estava no princípio, e não entre Deus e a criação. Ele é o unigênito, e não um ser criado. Por que esse prólogo insistente, senão porque, no interior da comunidade cristã, havia se espalhado esse erro imputável a Filo?

Na Epístola aos Hebreus, o autor explica aos seus destinatários que não se deve esperar dois Messias, um Rei e um Sacerdote, visto que Jesus é simultaneamente Rei e Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Esta epístola dirige-se com benevolência a judeus piedosos que estão no erro e os convida com mansidão a retornar à comunidade: "Não vos deixeis extraviar... Rogo-vos, acolhei estas exortações...".

Esta epístola especifica igualmente que Jesus não é um anjo: "A qual dos Anjos, de fato, disse Deus algum dia: 'Tu és meu filho, hoje eu te gerei'?". "Pois não foi a anjos que Ele sujeitou o mundo vindouro... etc.".

Estes dois textos dirigem-se a Cristãos que conhecem o Cristo Jesus, mas que se deixam arrastar por erros sobre a Sua natureza (Anjo? Deus? Rei? Sacerdote?). Se vemos esses mesmos erros espalhados na Biblioteca de Qumran, como se pode afirmar que a Comunidade à qual ela pertence não seja cristã? Visto que é precisamente às afirmações contidas em seus manuscritos que os Apóstolos respondem com tamanha insistência e súplica.

O COMENTÁRIO DE HABACUQUE E A RUÍNA DE JERUSALÉM

Vimos que os discípulos do Mestre da Justiça escrutinavam as Escrituras noite e dia para nelas reencontrar a história de seu fundador. Sabemos também por Josefo que eles se recusavam a nomear seu "legislador" porque o "consideravam divino", segundo o costume de todos os judeus piedosos.

Reencontramos dois comentários ou "Midrash": o de Habacuque e extratos do de Miqueias. O primeiro narra a apostasia de Israel: Deus colocou em Israel um sacerdote para interpretar os profetas e anunciar o que acontecerá ao Seu povo; mas este só compreenderá após os eventos. Por isso, o autor irá descrevê-los com precisão: uma invasão dos Kittim, hábeis na arte de sitiar cidades, mais poderosos que reis e príncipes, que dominam todos os povos, que prestam culto às suas armas e sacrificam às suas insígnias, que recolhem o espólio e fazem perecer pela espada todos os vencidos.

O comentário apresenta a história do Sacerdote Ímpio: ele acumulou riquezas, abandonou a Deus e traiu Seus mandamentos, perseguiu o Mestre da Justiça e seus discípulos, e planejou exterminar "Os Pobres". No dia da expiação, o Mestre da Justiça manifestou-se a ele para tragá-lo. O sacerdote ímpio sofreu então vinganças em seu corpo de carne, foi entregue aos seus adversários, sofreu ferimentos até o seu extermínio, após ter realizado obras de abominação no Templo de Deus em Jerusalém e de tê-lo maculado. Enfim, as riquezas que ali estavam acumuladas foram entregues às mãos dos Kittim.

O Sr. DUPONT-SOMMER demonstrou de maneira decisiva que os Kittim são os romanos. Ele se apoia essencialmente no culto prestado às insígnias, acompanhado de um sacrifício. Ora, esse culto é atestado com certeza nas legiões romanas da época imperial, talvez também na época republicana, mas os testemunhos invocados pelo Sr. DUPONT-SOMMER não são decisivos. Esse culto é, por outro lado, totalmente desconhecido entre outros povos.

O relato da invasão dos Kittim só pode aplicar-se aos romanos. Ele exclui a hipótese da perseguição dos Selêucidas, em particular de Antíoco Epifânio, e, portanto, também a hipótese de um Mestre da Justiça que tivesse vivido na época macabeia, como, por exemplo, Onias III.

Resta examinar as duas conquistas romanas da Palestina: a de Pompeu em 63 a.C. e a de Vespasiano e Tito em 70 d.C. O Sr. DUPONT-SOMMER e muitos outros especialistas na questão defendem a tomada de Jerusalém em 63 por Pompeu, porque ela se adapta melhor à ideia de uma seita essênia anterior ao Cristianismo.

Em 63 a.C., Pompeu, chamado à Palestina pelos dois irmãos rivais Aristóbulo e Hircano enquanto estava na Síria, sitiou Jerusalém, apoderou-se da cidade quase sem resistência, mas teve de tomar o Templo, onde os partidários se refugiaram; houve entre 6.000 e 12.000 judeus massacrados no recinto, segundo estimativas um tanto fantasiosas e provavelmente exageradas. Depois, Pompeu mandou purificar o Templo, confirmou Hircano II nas funções de sumo sacerdote, respeitou o culto judeu, manteve as instituições religiosas e judiciárias e concedeu aos judeus residentes nas principais cidades do Império Romano privilégios políticos e religiosos que foram mantidos por César.

M. A. MICHEL, em seu livro sobre "O Mestre da Justiça", observa a inverossimilhança de um panfleto antirromano em uma época em que os judeus só tinham a elogiar a atitude tão benevolente dos romanos para com eles. Quanto à história de um sacerdote ímpio morto, não se faz menção a isso.

Bem diferente foi a grande expedição militar empreendida por Vespasiano e Tito em 70 d.C. para destruir definitivamente a resistência judaica. Ali se verão realizados quase todos os eventos descritos no Comentário de Habacuque.

A campanha durou três anos, de 67 a 70. Consistiu primeiro na tomada das fortalezas ocupadas pelos Zelotes, na Galileia e na Judeia. O Comentário insiste muito na tomada das cidades da Judeia e na destreza notável dos Kittim na arte dos cercos. Depois, Vespasiano, proclamado imperador, retornou a Roma. Seu filho Tito, permanecendo à frente das legiões, agiu com moderação e ficou vários meses acampado diante da cidade santa, sem intervir, esperando que as facções se dilacerassem dentro dos muros ou que os evacuassem.

Foi então que os eventos se precipitaram. Os notáveis da cidade escolheram Anano, filho de Anás (o Sumo Sacerdote que condenara Jesus à morte), como chefe temporal da cidade para dirigir as operações de resistência contra os romanos. Foi ele quem, sendo sumo sacerdote em 62, mandara precipitar Tiago, chamado o Justo, do alto do Templo. É verdade que São Tiago se mostrara muito duro com os ricos saduceus, de quem ele era o chefe incontestado: "Vossas riquezas estão podres... vosso ouro e vossa prata estão enferrujados... Vivestes em delícias sobre a terra... estais cevados como vítimas para o sacrifício. Condenastes, matastes o justo que não vos resistia..."

Conhecem-se diversas imprecações contra as famílias dos sumos sacerdotes daquela época, preservadas no Talmud: "Que peste é a família de Anano! Ai de seus silvos de víboras!... Que peste é a família de Ismael! etc... Eles são sumos sacerdotes, seus filhos são tesoureiros... etc...!". Tais violências verbais só podiam exacerbar a cólera e o ódio dos últimos sumos sacerdotes contra uma seita considerada herética, que se recusava a participar do culto do Templo. Vê-se ainda por aí que São Tiago atribui ao filho o crime do pai, a morte do Justo, pela qual responsabiliza a casta sacerdotal como um todo.

Anano, tornado novamente Sumo Sacerdote e responsável pela cidade, chocou-se muito rápido com a desconfiança e depois com a hostilidade declarada dos Zelotes — desconfiança talvez justificada, pois ele se mostrava prudente e teria preferido uma capitulação negociada com os romanos, que a propunham. Os Zelotes, senhores do Templo, organizaram o saque da cidade. Anano, com as tropas judaicas que permaneceram fiéis, partiu ao assalto do Templo, travando ali combates duríssimos: os corpos dos mortos acumulavam-se nos pátios, uma verdadeira mácula para o Templo. Mas Anano teve de renunciar à sua empreitada e esconder-se para evitar a morte. Acabaram por encontrá-lo, degolaram-no, desnudaram-no e lançaram-no aos cães e aos abutres, sem sepultura: um ultraje inaudito em Israel.

Terminemos esta expedição com a ruína do Templo. Tito queria salvar o monumento; mas no momento em que penetrou no Santo dos Santos, um soldado da comitiva, "daimoníō hormē tini chrōmenos" (movido por um certo impulso divino), conforme especifica Josefo, lançou um tição inflamado e todo o edifício consumiu-se em um imenso braseiro. Depois, os oficiais romanos reuniram as insígnias de todas as legiões e ofereceram-lhes um sacrifício no pátio: "a abominação da desolação". Era o sinal pelo qual se reconheceria que Deus ou o Seu anjo haviam abandonado definitivamente o Templo. Um anjo, diz Josefo, guardava o Templo e o abandonou durante sua destruição por Tito. "Quando Deus abandonou o povo", diz a Didascalia, "deixou o seu templo deserto, rasgou o véu, retirou dele o Seu Espírito Santo e o derramou sobre os que creram entre os gentios...".

Assim, um exame atento do manuscrito de Habacuque mostra realizado na campanha de Tito todo o essencial desta profecia escrita após o evento: Deus abandona Israel e seu Templo; as fortalezas não podem resistir aos "construtores de muralhas" e é ridículo construí-las contra os Kittim; o Sumo Sacerdote é morto e esse é o castigo pelo seu crime, visto que perseguiu o Mestre Justo e seus discípulos; seu corpo é exposto às feras de rapina. O Templo é destruído, seu tesouro é repartido entre os soldados romanos vencedores, reservando Tito os objetos do culto para a cerimônia do triunfo em Roma. O Templo foi maculado por um sacrifício sacrílego às insígnias.

São detalhes concretos e precisos que certamente impressionaram a imaginação dos cristãos, testemunhas de tais catástrofes. Eles viram nisso o cumprimento da profecia de Jesus sobre Jerusalém. O Documento de Damasco acrescenta: "Desde o dia em que foi arrebatado o Mestre da Comunidade (Ascensão?) até o desaparecimento de todos os homens de guerra que marcharam com o homem da mentira, transcorreram cerca de quarenta anos". Sem dúvida este número é simbólico, mas era interessante poder verificar precisamente a data desse arrebatamento do Justo, ou seja, por volta do ano 30 d.C., e essa coincidência podia passar por um sinal preciso, como os que os judeus piedosos buscavam para consolidar sua fé.

Um outro detalhe curioso merece ser mencionado. Ele exercitou a sagacidade dos exegetas: "O sacerdote ímpio perseguiu o Mestre da Justiça para tragá-lo no ímpeto de sua fúria e, ao fim do tempo do repouso, manifestou-se a eles para tragá-los... etc...". Trata-se de uma teofania ou não? Josefo relata um fato digno de nota. Quando São Tiago foi morto, viu-se aparecer em Jerusalém um homem chamado Jesus, filho de Ananias, que começou a vociferar imprecações contra Jerusalém. Foi levado ao procurador romano, que o mandou açoitar e libertar como louco. Mas, novamente livre, não cessou de gritar suas ameaças contra a cidade até durante o cerco de Tito, no qual foi atingido por uma flecha. Era a resposta de um "iluminado" querendo manifestar por seus gritos que a vingança de Deus se exerceria sobre a Cidade pela morte do Justo.

Visto que o Comentário de Habacuque diz respeito aos romanos, não é preciso ser um grande mestre para perceber, à luz desses eventos, que ele se aplica mais adequadamente à tomada de Jerusalém por Tito do que à tomada da Cidade por Pompeu e, portanto, que o manuscrito é posterior a 70 d.C.

Esta destruição de Jerusalém, atribuída pelos habitantes de Qumran à vingança de Deus para fazer os judeus — e principalmente o Sumo Sacerdote — expiarem a perseguição exercida contra o Mestre da Justiça, é aplicada pelos cristãos ao castigo de um povo que rejeitou seu Messias. Eis mais um ponto importante que pode ser levado em conta para a identificação Jesus Cristo / Mestre da Justiça.

OS CEMITÉRIOS CRISTÃOS E A CENSURA ECLESIÁSTICA NOS PRIMEIROS SÉCULOS DA IGREJA.

O sítio de Qumran é o local de um cemitério, e não de um mosteiro. Pergunta-se como tal hipótese — a do mosteiro — pôde resistir a algumas objeções fundamentais: a ideia de uma congregação religiosa com um mosteiro central ou "casa-mãe" e sucursais ou "priorados" é medieval; ela é desconhecida na antiguidade cristã e entre os judeus. Da mesma forma, os manuscritos descobertos nas grutas apresentam uma seita distribuída em pequenas comunidades, por grupos de ao menos uma dezena de pessoas; eles ignoram a existência de monges vivendo em cavernas.

A disposição dos túmulos, regularmente alinhados, e do edifício a eles anexo reproduz fielmente a dos cemitérios cristãos a céu aberto, tais como existiam nos primeiros séculos da Igreja.

Os judeus enterravam seus mortos em túmulos cavados no solo ou em rochas preparadas com várias câmaras para os membros de uma mesma família. Eles não possuíam vastas necrópoles onde os homens eram dispostos em uma ordem uniforme.

A ideia da tumba era, antes da revelação cristã, a de uma morada dos mortos onde eles deveriam continuar uma vida que a imaginação representava, aproximadamente, como um prolongamento mais feliz da vida anterior.

A revelação cristã, ao insistir na ressurreição dos corpos, modificará a concepção que se tinha da tumba. Esta já não é o lugar de uma permanência definitiva, mas apenas de uma espera provisória pela ressurreição: os mortos, diz São Paulo, são "aqueles que dormem", e Santo Agostinho acrescenta "que eles devem um dia ser devolvidos à vida".

Por isso, os fiéis devem deitar o morto na posição de sono, sem objetos funerários, que se tornaram inúteis. Todos são iguais nesta morada: é um dormitório, um "dormitorium", em grego "koimeterion" (cemitério). Os cristãos foram os primeiros a alinhar com tamanha regularidade imensas superfícies de túmulos, as "areae", ou as catacumbas, quando não podiam enterrar a céu aberto. Eles adjuntavam as "cellae", edifícios e salas para o alojamento dos coveiros, os "fossores", dedicados à manutenção dos túmulos e ao sepultamento dos mortos, formando como que corporações religiosas, frequentemente representados nas primeiras tumbas cristãs com trajes eclesiásticos.

Não se considerou a hipótese de que este cemitério pudesse ser judaico-cristão, por exemplo, o dos "ebionitas"— aqueles entre os cristãos de Jerusalém que haviam praticado a pobreza voluntária em uma vida de comunidade, tal como descrita no "Manual de Disciplina". Por quê?

Resta, enfim, o problema da origem desses manuscritos. A primeira hipótese enunciada foi a de uma "genizah", um depósito de manuscritos antigos, relegados ali por terem sido declarados "impuros" e, portanto, inutilizáveis pela autoridade rabínica. Era a hipótese mais razoável, pois correspondia a fatos conhecidos e devidamente constatados. Del Medico sustentou-a com pertinência.

Por que foi abandonada? Substituíram-na rapidamente pela tese de uma biblioteca essênia enterrada em 70 d.C. para escapar da destruição pelos romanos, com a intenção de recuperá-la após a tormenta.

Esta tese choca-se com inverossimilhanças enormes. A conquista romana durou três anos, de 67 a 70. Quando os romanos se apoderaram de Jerusalém, ainda não haviam ocupado as margens do Mar Morto, pois haviam construído uma contravalação em direção ao Leste para se protegerem de ataques judeus vindos daquela região. Os membros da seita de Qumran tiveram tempo de sobra para transportar seus manuscritos para além do Jordão. Além disso, pergunta-se por que não teriam vindo recuperar documentos tão preciosos após a tormenta e o retorno da calma na Palestina. Teriam sido exterminados pelos romanos? No entanto, os defensores da tese sustentam que os essênios continuaram a se desenvolver, e em lugar algum se escreveu que a seita fora massacrada em 70.

Mas há uma terceira hipótese possível e de modo algum imaginária, pois foi verificada em outros lugares. Os manuscritos gnósticos coptas de Nag Hammadi foram fechados em uma jarra e depositados no túmulo de um antigo cemitério cristão abandonado.

Quis-se ver nesse fato a ideia de uma biblioteca depositada por seitas gnósticas para ser preservada e recuperada mais tarde. Depois, a inverossimilhança da coisa apareceu após uma série de observações perfeitamente pertinentes (caráter heteróclito dos manuscritos, ausência de rituais da seita, desaparecimento dos gnósticos na época do depósito, presença dos monges de São Pacômio nos arredores imediatos), e chegou-se à conclusão de que os manuscritos haviam sido recolhidos, triados, postos de lado e enterrados para serem subtraídos à leitura dos fiéis.

É exatamente este o sentido da palavra "apócrifo": uma obra que deve ser retirada, posta de lado (apó) para ser escondida (kryptein). Sabemos que, ao longo dos séculos II e III, os monges cristãos ortodoxos do Egito ocuparam-se em recolher os manuais heréticos para destruí-los, seja pelo fogo, seja enterrando-os em local inacessível, protegido pelo caráter inviolável dos cemitérios.

Ocorre que as mesmas observações podem ser feitas a respeito de Qumran.

a) Os manuscritos foram depositados em grutas cavadas no próprio cemitério (gruta 4, por exemplo), e depois em buracos inacessíveis nos arredores imediatos do cemitério. Não se encontrou um único manuscrito nas ruínas do edifício que deveria servir de alojamento para os "fossores" encarregados da manutenção do cemitério.

b) Os manuscritos também apresentam um caráter heteróclito: extratos do Antigo Testamento, escritos apócrifos variados, manuais de direito (Manual de Disciplina) ou de regras religiosas, e até escritos de Filo, como os encontrados pelos caraítas no século IX, etc.

c) Deve-se notar, a partir do século III, a presença de um mosteiro cristão nos montes de Judá, distante cerca de dez quilômetros do cemitério de Qumran (distância muito semelhante à que separa as ruínas da basílica de São Pacômio do antigo cemitério onde foram descobertos os gnósticos): o mosteiro de "Mar Saba". Beduínos trouxeram alguns fragmentos de manuscritos retirados dos escombros de um mosteiro próximo, Khirbet Mird, entre os quais foram encontrados extratos dos evangelhos.

É preciso também acrescentar uma precisão sobre os apócrifos do Antigo Testamento: Livro dos Jubileus, Livro de Enoque, Testamentos dos 12 Patriarcas, Salmos de Salomão, Hodayots diversos, etc. Eles não eram reconhecidos pelas autoridades rabínicas.

Foram conhecidos inicialmente por versões siríacas, armênias, coptas e etíopes utilizadas nas igrejas cristãs locais, em uma época em que estas não seguiam rigorosamente um "cânone" de livros reconhecidos como inspirados. Os fragmentos de Qumran são os seus textos mais antigos conhecidos. Alguns apresentam caraterísticas nitidamente cristãs, como os Testamentos dos 12 Patriarcas e o Livro de Enoque.

Seria inverossímil conceber que monges cristãos tivessem reunido velhos manuscritos declarados apócrifos pelas autoridades religiosas durante os primeiros séculos da Igreja e os tivessem depositado nessas grutas à medida que os encontravam, mantendo em segredo o local do depósito para não dar aos heréticos curiosos a ideia de ir buscá-los? Uma contraprova poderia ser feita: nunca se encontrou em Qumran o menor extrato de uma obra canônica do Novo Testamento; por outro lado, foram encontrados em Khirbet Mird — não em um cemitério, mas nas ruínas de um edifício monástico vizinho.

CONCLUSÕES

Podemos resumir nosso estudo desta forma:

1 — Certezas: a) Os poucos textos conhecidos sobre os essênios aplicam-se a uma comunidade que vivia no século I d.C. Nada permite afirmar a existência de um essenismo antes do Cristianismo. O depósito dos manuscritos ocorreu no século I d.C. ou nos séculos seguintes, mas não antes.

b) A existência de um essenismo é totalmente ignorada por todas as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, pelos textos rabínicos, pelos Padres da Igreja e pelos historiadores eclesiásticos até o século IV, sendo São Jerônimo o primeiro a mencioná-los; a ponto de o Sr. DEL MEDICO ter escrito uma obra muito documentada sobre o "Mito dos Essênios".

c) Todas as tentativas feitas para identificar o Mestre da Justiça resultaram em fracasso. Este homem permanece desconhecido e não se encontra o menor indício sério que possa nos dar um modelo semelhante ao personagem entre os judeus piedosos da época macabeia.

2 — Hipóteses inverossímeis e puramente gratuitas: a) Um mosteiro em Qumran com priorados pelo país ou monges eremitas em cavernas. b) Uma biblioteca escondida para ser recuperada.

3 — Uma convergência notável de indícios permitindo sustentar a hipótese de que a maioria desses manuscritos são judaico-cristãos, escritos pelos "ebionitas", os "pobres" da Comunidade de Jerusalém.

a) Notamos que o machado era o símbolo de Cristo entre os judaico-cristãos, na Igreja primitiva e particularmente em Santo Ireneu. Ora, distribuía-se uma machadinha a cada neófito essênio.

b) Encontram-se espalhados nos manuscritos de Qumran dois erros: a natureza angélica do Verbo e a espera de um Messias duplo. Ora, esses erros eram professados pelos judaico-cristãos, visto que foi contra eles que se levantaram a Epístola aos Hebreus e o Prólogo de São João.

c) Por fim, os manuscritos de Qumran apresentam a ruína do povo judeu e a invasão dos KITTIM, bem como todos os infortúnios ocorridos com o sacerdote ímpio "e os últimos sacerdotes", como um castigo divino por terem perseguido o Mestre da Justiça e seus discípulos. Ora, é exatamente isso que afirma a Igreja cristã, mas ela aplica esse castigo à recusa em reconhecer Jesus como o Messias anunciado.

E. C.


Nota 1.

Em seu estudo sobre as origens cristãs, o Padre DANIELOU apresenta assim os ebionitas: "Judeu-cristãos observantes (isto é, fiéis à lei de Moisés), mas que praticavam, além disso, banhos diários de purificação, usavam para a Eucaristia pães ázimos e água, rejeitavam o uso do vinho, professavam uma doutrina dualista e viam no Cristo o verdadeiro profeta assimilado a um Arcanjo. Estamos aqui na presença de judeu-cristãos, mas que procedem de um judaísmo próximo ao dos sadoquitas". DANIELOU especifica que não havia nada de gnóstico neles.

Ora, todos os detalhes relatados aqui podem perfeitamente ser aplicados aos manuscritos descobertos em Qumran. Trata-se, portanto, de uma comunidade cristã, "Os Pobres", vivendo segundo uma regra de caráter monástico. O "Manual de Disciplina" apresenta-nos tal regra.

Posteriormente, os ebionitas passaram a ser considerados heréticos. Eis o que nos diz São Jerônimo: "A heresia de Corinto e de Ébion, que criam no Cristo, e que só foram anatematizados pelos pais por terem misturado ao Evangelho do Cristo as cerimônias legais e que, embora professassem a doutrina nova, obstinavam-se em guardar os antigos ritos (os da lei de Moisés). Que direi dos ebionitas que se pretendem cristãos? Eles se perpetuaram até hoje em todas as sinagogas do Oriente, seita de mineus (termo que significa heréticos para os rabinos) que os próprios fariseus condenam, conhecidos sob o nome de nazarenos; creem no mesmo Cristo que nós, Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, que sofreu sob Pôncio Pilatos, que ressuscitou; mas, querendo ser simultaneamente cristãos e judeus, não são nem judeus nem cristãos".

É, portanto, falso continuar tratando os ebionitas como heréticos, visto que, segundo a definição atual desta palavra, eles não cometem erros quanto à fé. Distinguem-se apenas pelas práticas mosaicas.

Em outro lugar, São Jerônimo conta que teve a oportunidade de ler o Evangelho deles, dito "dos Hebreus" ou "dos Nazarenos": "Mihi quoque a Nazareis qui in Berae urbe Syriae hoc volumine utuntur, describendi facultas fuit". (Também tive a oportunidade de transcrever este volume dos nazarenos que usam esta obra na cidade de Bereia, na Síria...). "No Evangelho de que se servem os nazarenos e ebionitas, que transcrevemos recentemente da língua hebraica para o grego e que é chamado por muitos de o autêntico de Mateus... que se encontra na biblioteca de Cesareia". São Jerônimo recomenda a sua leitura e não encontrou nele erros.

São Jerônimo relata ainda que "é tradição dos judeus (dos ebionitas) que o Cristo virá no meio da noite. Será como no Egito, quando foi celebrada a primeira Páscoa, que o anjo exterminador apareceu, que o Senhor passou pelas moradas de Israel e que as portas foram consagradas pelo sangue do Cordeiro. Daí veio, creio eu, uma tradição apostólica que proíbe dispensar o povo antes da meia-noite, na véspera da Páscoa, porque se espera o Cristo até esta hora...".

Eis um conjunto notável de coincidências:

O Padre DANIELOU especifica que as primeiras comunidades cristãs esperavam em um futuro próximo o retorno do Messias e que, entre elas, o gênero literário mais praticado era o do Apocalipse. O nosso povo de Qumran vive na expectativa permanente do retorno do Mestre da Justiça e, na comunidade caraíta, espera-se também o retorno do mestre da justiça identificado por eles como Elias (com alguma incerteza); para os judeu-cristãos, trata-se de Jesus Cristo!!!

Nota 2. A propósito dos Testamentos dos 12 patriarcas.

Em 1953, M. de Monge publicou um estudo para demonstrar que os "Testamentos dos 12 Patriarcas", dos quais possuíamos textos gregos e siríacos, eram um escrito cristão que utilizava fontes judaicas. Algumas expressões são notáveis: "Quando Deus visitar a terra, Ele mesmo vindo como um homem entre os homens, salvará Israel e todas as Nações, Deus portando figura de homem...". Mas em 31 de março de 1953, M. Harding declarou que foram encontrados fragmentos desses Testamentos, uma versão aramaica do Testamento de Levi, com pontos de contato com os fragmentos que possuímos. Em consequência disso, M. de Monge modificou sua conclusão e decidiu que, uma vez que fragmentos desses Testamentos haviam sido encontrados em Qumran, eles não poderiam ser cristãos. Ele poderia, com a mesma razão, ter tirado outra conclusão: a de que os documentos encontrados lá são, de fato, judeu-cristãos. Não o fez para se conformar à tese dominante: a dos essênios pré-cristãos.

Assim, encontram-se incoerências: uns afirmam que esses "Testamentos dos 12 Patriarcas" não são cristãos e que se encontraram fragmentos em Qumran; outros, como o Padre DANIELOU, afirmam, ao contrário, que são manifestamente cristãos, mas que não se encontraram extratos em Qumran. Uma solução facilitadora permanece possível: a das interpolações cristãs em um texto pré-cristão; solução difícil de justificar, na medida em que esses Testamentos eram muito lidos nas primeiras comunidades cristãs e na medida em que nunca se encontraram fragmentos aramaicos deles, exceto em Qumran. Ora, o fato de este caso ser único deveria ter aproximado os achados do Mar Morto das outras descobertas de manuscritos paleocristãos.

Costuma-se distinguir entre Apócrifos do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Esta distinção baseia-se no conteúdo dos relatos, pondo em cena ora personagens da Bíblia, ora os do Evangelho; mas é uma distinção puramente interna, que não prejulga nem a data de composição, nem os seus autores. Ora, é digno de consideração que essas obras apócrifas não pertençam à literatura judaica ou rabínica anterior ao Cristianismo, nem à literatura rabínica posterior à queda de Jerusalém. Os extratos que encontramos aqui e ali são todos de origem paleocristã, em geral recolhidos em comunidades cristãs siríacas, armênias, coptas ou etíopes. A hipótese de escritos judeus aos quais os cristãos teriam acrescentado passagens interpoladas — por exemplo, para ilustrar o ensinamento da Igreja aplicando esses textos a Jesus Cristo — é plausível, mas não necessária; e não se considerou a hipótese muito mais simples de uma comunidade judeu-cristã que expressava em aramaico ou em hebraico uma fé religiosa, ainda impregnada de Mosaísmo, mas já cristã. Nela, a mistura das duas inspirações nos parece heteróclita e, por isso, é muito fácil apontar disparidades ou oposições, ao menos aparentes, que nos chocam hoje porque temos atrás de nós vinte séculos de cultura propriamente cristã; mas estas deviam fatalmente ocorrer em judeus ainda não completamente despojados das práticas e do espírito do Mosaísmo, como foram os judeu-cristãos.