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UM MUÇULMANO DESCONHECIDO, René GUÉNON...

O estudo sobre a gnose "tradicionalista" de Jean Borella, publicado no Boletim nº 9, mostrou que esse tipo de doutrina não era, de modo algum, obra de um pensador isolado. O autor de "A Caridade Profanada" assemelha-se, antes, à parte visível de um iceberg cuja parte imersa, os alicerces — por mais surpreendentes que pareçam à primeira vista —, não são tão misteriosos assim.

Quem deseja realmente conhecer os fundamentos e as implicações desta "escola nova" não está tão desamparado quanto se poderia crer; dedicamos hoje um primeiro artigo àquele que foi o seu iniciador na França, pois nada melhor do que acompanhar os diversos estágios de sua formação para compreender os aspectos conhecidos e desconhecidos desta família do neoespiritualismo. Eis o plano:

"As etapas de sua vida – A formação livresca – O périplo pelas seitas europeias – Sua posição em relação à Maçonaria – As iniciações orientais – A obra escrita de René GUÉNON – Estratégia e tática guenonianas."

AS ETAPAS DE SUA VIDA

René Guénon, nascido em Blois em 15 de novembro de 1886, foi batizado com os nomes de René Jean-Marie Joseph. Seus pais eram originários de Blois, onde seu pai trabalhava como arquiteto. De saúde delicada, René teve uma frequência escolar intermitente: foi, no entanto, um aluno brilhante, conquistando uma menção honrosa em física no Concours Général, bem como um prêmio de uma Sociedade Científica de Blois; cursou depois a classe de Matemática Elementar em Blois e, em 1904, partiu para Paris para preparar uma licenciatura em Matemática no "Colégio Rollin".

Eis que, dois anos mais tarde, ou seja, em 1906, ele renuncia à continuação dos estudos universitários; a partir de então, orientar-se-á para o ensino privado e tornar-se-á professor de escola livre. Por que essa reviravolta? Razões de saúde ou atração por estudos extrauniversitários?

É provavelmente esta segunda explicação a correta, pois é a partir dessa época que Guénon começa a frequentar os meios intelectuais apaixonados pelo que se chama de "conhecimento secreto", isto é: os neoespiritualistas, os teósofos, os ocultistas, os espíritas, os orientalistas, etc.

Até sua partida de Blois, René Guénon havia circulado sobretudo em um meio "católico". Seus biógrafos não relatam nenhuma hostilidade manifesta do jovem a esse ambiente e a essa influência "bem-pensante". Notam, contudo, por volta dos 14-15 anos, uma altercação com um de seus professores: após uma longa discussão de várias horas, o jovem René acamou-se com febre alta, e seu pai teve de mudá-lo de escola. Mas, no conjunto, não se encontra uma revolta contra sua religião materna até sua chegada a Paris.

Essa ausência de hostilidade, essa falta de combatividade, ele conservará sempre, e ela constituirá inclusive um dos pontos essenciais de sua doutrina. Ele não atacará o catolicismo violentamente; conservá-lo-á em bloco, mediante reservas e ajustes: contentar-se-á em englobá-lo em um sistema mais vasto, do qual o catolicismo será apenas um caso particular. Sua grande fórmula tática: sobrepor-se sem opor-se.

Em Paris, René Guénon habitava um apartamento situado na rua St-Louis en l'Ile, nº 51, em um belo edifício estilo Luís XV de passado histórico, que fora ocupado pelo arcebispado de Paris por volta de 1840 e para onde Dom Affre, morto nas barricadas de 1848, fora levado. Guénon manteria esse domicílio por bastante tempo, mesmo após sua partida da França.

Após abandonar os estudos universitários, nos quais, aliás, não parece ter tido muito êxito, assumira postos de professor em diversas instituições livres, lecionando ora matemática e física, ora filosofia. Sem nunca ter sido verdadeiramente pobre, também não levou uma "vida luxuosa"; era de temperamento estudioso e solitário, e essa vida modesta lhe convinha bem.

Essa vida solitária não era, contudo, isenta de iniciativas e de contatos pessoais. Mas, sobretudo, enquanto se beneficiava de seus primeiros contatos diretos com os mestres contemporâneos da ciência esotérica, ele se nutria de livros.

Em 1912, Guénon casa-se com uma jovem de Blois, Berthe Loury, originária de Chinon; o matrimônio ocorreu perto de Chinon, na propriedade da esposa, com uma dispensa de proclamas concedida pelo arcebispo de Tours em 11 de julho de 1912. É legítimo perguntar-se se o noivo ainda era católico naquele momento, pois o ano de 1912 é também o de sua iniciação sufista (esoterismo muçulmano); o que parece certo é que ele jamais revelou à esposa seu pertencimento ao Islã.

O jovem casal passou a residir em Paris, na Île Saint-Louis, enquanto Guénon continuava no magistério. Quando sobreveio a guerra de 1914, ele, que havia sido dispensado no conselho de revisão em 1906, foi mantido nessa situação e não foi mobilizado; permaneceu, portanto, no ensino livre, onde ocupou sucessivamente diversos cargos.

Em 1915-1916, foi substituto no Colégio de Saint-Germain-en-Laye; no ano seguinte, 1917, esteve em Blois como professor de Filosofia; depois, em 1918, foi enviado para Sétif, na Argélia, e, ao final da guerra, regressou a Blois. E, finalmente, retornou a Paris, reencontrando a Île Saint-Louis: é lá que começará a redigir seus primeiros livros, pois até então havia escrito apenas artigos.

Estamos em 1921. No plano mundial, na Rússia, é a NEP (Nova Política Econômica) que impedirá a debacle dos comunistas e atrairá os capitais americanos. Na China, é o momento das primeiras revoltas comunistas em Cantão e, aliás, a China está em pleno Kuomintang, portanto, em pleno modernismo. O congresso comunista de Baku acaba de decidir pela extensão da Revolução proletária aos impérios coloniais.

E em Paris, René Guénon, "muçulmano desconhecido", lança tranquilamente seu primeiro livro, intitulado: "Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hinduístas", enquanto todo um público — composto em parte por ocultistas e em parte por tradicionalistas, reacionários, antimodernistas e contemplativos — começa a ser seduzido por sua atitude, sua oscilação e seu vertigo. Entre 1921, 1922 e 1923, Guénon publica as três obras que constituem a fase preliminar preparatória de sua manobra doutrinária.

Pode-se notar que 1921 é o auge da Liga das Nações em Genebra, época em que a Alemanha emprega sua diplomacia para adiar o pagamento das reparações de guerra. 1922 é o ano do primeiro tratado germano-soviético de Rapallo, e também o ano do assassinato do ministro alemão Walter Rathenau por nacionalistas alemães. E 1923 é o ano da ocupação do Ruhr pelas tropas francesas.

De 1924 a 1929, Guénon foi professor de Filosofia no "Cours Saint Louis", onde também deu lições particulares de outras matérias. Era a instituição onde sua sobrinha estudava.

Em 1928, perdeu sua esposa Berthe Loury e, alguns meses depois, sua tia, Mme. Duru, que por muito tempo compartilhara a vida do casal; sua sobrinha, de quem ele já não podia cuidar, foi confiada a outras pessoas. Finalmente, no ano seguinte, ele deixou de lecionar e voltou-se para outro modo de subsistência.

Pois naquela época, em meados de 1929, René Guénon fez um encontro importante para seu futuro: no escritório da Livraria Chacornac, no Quai Saint-Michel em Paris, conheceu uma certa Madame DINA, americana e viúva de um engenheiro egípcio. Madame DINA morava em Bar-sur-Aube no inverno e em Cruseilles, na Alta Saboia, durante o verão.

Em setembro de 1929, Guénon e Madame DINA partiram para visitar a Alsácia por dois meses; depois, foram descansar em Cruseilles. Foi durante essa viagem que se decidiu o seguinte arranjo: Mme. DINA compraria dos editores parisienses os diversos livros de Guénon para reeditá-los posteriormente em uma nova editora, que publicaria também os livros seguintes que Guénon pretendia escrever.

Buscaram primeiro em Grenoble uma casa editorial apta a operar essa concertação. Finalmente, Mme. DINA cogitou a criação de uma livraria e de uma coleção de tendência "Tradicionalista". Depois, ambos embarcaram para o Egito a fim de lá recopiar textos do esoterismo sufista destinados a essa livraria e coleção.

Guénon dizia aos amigos de Paris que partiria por cerca de três meses, mas, decorridos esses três meses, Mme. DINA voltou sozinha a Paris, enquanto Guénon continuava a trabalhar no Egito. Essa separação pôs fim ao projeto da livraria e da editora. Finalmente, após ter adiado mês a mês sua viagem de retorno à França, renunciou a ela por completo: ele nunca voltaria. Instalou-se no Cairo sob o nome de XEIQUE ABDEL WAHED YAHIA. Islamizou-se completamente e acabou por falar o árabe sem sotaque. Obteria a nacionalidade egípcia em 1947.

Continuou, todavia, a escrever em francês para editores parisienses e a enviar artigos para a revista "O Véu de Ísis", que se tornou, a partir de 1933, "Estudos Tradicionais".

Guénon conservou seu apartamento na Île Saint-Louis até 1935, e amigos enviaram-lhe então seus livros em caixotes para o Cairo. No Egito, hospedou-se primeiro em um hotel, depois alugou um apartamento na casa de um confeiteiro, situada perto da Universidade islâmica de Al-Azhar. Em julho de 1934, casou-se com uma jovem muçulmana egípcia e foi morar na casa de seu sogro; mas a chegada de seus caixotes de livros vindos de Paris obrigou-o a mudar-se e instalar-se em outra casa em companhia de sua esposa, de seu sogro e de sua cunhada, onde permaneceu até 1937, data em que seu sogro faleceu. Foi a ocasião para uma nova partida e uma instalação definitiva fora do Cairo, em um subúrbio calmo a oeste da cidade.

Foi nessa casa nos arredores do Cairo que Guénon morreu, por sua vez, em 7 de janeiro de 1951, aos sessenta e cinco anos de idade.

A FORMAÇÃO LIVRESCA

Nomearemos apenas os seus quatro principais inspiradores: Mestre ECKHART (Idade Média), Saint-Yves d’ALVEYDRE (Restauração), Fabre d’OLIVET (Restauração) e Éliphas LÉVI (Segundo Império).

MESTRE ECKHART — Teólogo e filósofo alemão da segunda metade do século XIII. Alma fervente e exaltada, erigiu suas ideias em um verdadeiro sistema místico. Um capítulo geral dos Dominicanos o suspendeu de suas funções de prior da província da Alemanha. Seu sistema é um PANTEÍSMO MÍSTICO repleto de uma intensa religiosidade natural. Para ele, há apenas um único SER: DEUS. As outras criaturas não são verdadeiramente "seres"; são apenas vãs sombras.

Para existirem de fato, as criaturas finitas devem despojar-se de suas formas contingentes e "entrar" em Deus, tornando-se Deus.

Até aqui, tudo corre mais ou menos bem, à parte um incontestável exagero quanto à vaidade da existência dos seres criados; pois, afinal, se sua existência é precária e transitória e se exige ser confirmada após uma prova, a existência dessas criaturas possui, ainda assim, um primeiro grau de realidade: elas foram tiradas do nada, portanto já não são mais o nada, não são apenas "vãs sombras".

O que comprometerá tudo definitivamente é que o sistema de Mestre ECKHART é, ao mesmo tempo, panteísta. É necessário, portanto, que essas vãs sombras que são as criaturas finitas, para se divinizarem, percam-se no GRANDE TODO que é DEUS. Percebe-se imediatamente o parentesco deste sistema com a metafísica das religiões da Índia.

René Guénon ficou extremamente impressionado com o sistema de Mestre ECKHART porque este era expresso por meio de uma terminologia perfeitamente cristã. Ora, sua formação familiar fora cristã. Ele continuava a frequentar alguns eclesiásticos. Em nenhum momento de sua carreira (e sobretudo não em seu início) manifestou a ideia de romper com sua religião materna. Simplesmente, buscará englobá-la em uma síntese mais vasta, no meio da qual ela pudesse conservar sua homogeneidade.

O orientalista cujos livros exerceram influência sobre René Guénon foi FABRE D’OLIVET (1767-1825). Trata-se de um autor dramático, romancista e, sobretudo, linguista. O dicionário biográfico observa que Fabre d’OLIVET mistura certa extravagância mística aos seus desenvolvimentos sobre os hieróglifos, sobre as línguas orientais e sobre as alegorias bíblicas.

Uma de suas principais obras intitula-se: "Do Estado Social do Homem", na qual fala em submeter a sociedade humana a uma soberania teocrática. Esta é precisamente uma das ideias que veremos retornar em René Guénon. Notaremos, com efeito, uma tendência guenoniana à HEGEMONIA SACERDOTAL; Guénon sempre dará a supremacia à AUTORIDADE ESPIRITUAL sobre o poder temporal. Esta noção, cuja primeira ideia obteve em Fabre d’OLIVET, ele a reencontrará no Bramanismo.

SAINT-YVES D’ALVEYDRE — é o terceiro inspirador. Suas obras eram muito lidas na época da juventude de R. Guénon, que se impregnou da substância contida em: "A Missão da Índia", "O Arqueômetro", "A Missão dos JUDEUS", "A Missão dos Operários", "A Missão dos Reis" e "A Missão dos Franceses", onde, com uma riqueza e flexibilidade de expressão extraordinárias, Saint-Yves d’Alveydre propõe e até projeta uma reorganização geral das religiões na face da Terra.

Ele retoma a ideia muito antiga, e muito maçônica, de uma super-religião esotérica (isto é, reservada a uma elite) e complementada, para a massa do povo, por um sincretismo mais ou menos uniformizado conforme as possibilidades locais.

Esta super-religião seria, naturalmente, a continuação da vasta e imemorial Tradição Universal, que se transmite de era em era de maneira esotérica como o micélio de um cogumelo. Temos aqui os principais elementos do que virá a ser a doutrina guenoniana e, sobretudo, sua distinção entre Esoterismo e Exoterismo. Apenas que Saint-Yves os expõe com o aparato arqueológico de seu tempo e após contatos com o Oriente que foram primordialmente livrescos.

O quarto inspirador livresco de Guénon foi ÉLIPHAS LÉVI, cujo nome real era Alphonse Louis CONSTANT, conhecido como Padre CONSTANT, embora não tenha recebido o sacerdócio. Éliphas LÉVI influenciou R. Guénon através de dois de seus livros: "A Chave dos Grandes Mistérios" e "Dogma e Ritual de Alta Magia", publicado em 1861; essas obras ainda estavam em voga em 1906, quando Guénon procedia à reunião de seus materiais.

Suas obras desenvolvem, também elas, designando-a sob o nome de FILOSOFIA OCULTA, a "noção da UNIDADE ESSENCIAL DE TODAS AS RELIGIÕES". Essa ideia não era nova, mas há algumas décadas havia cedido lugar, nos círculos intelectuais que gravitam em torno da Maçonaria, às NOÇÕES RACIONALISTAS que excluem qualquer ideia de religião. Já não se falava tanto da UNIDADE DAS RELIGIÕES porque já não se sentia necessidade de religião.

ÉLIPHAS LÉVI foi um daqueles que inverteram a tendência e voltaram a dar ênfase ao espiritualismo. Eis um texto extraído de "Dogma e Ritual de Alta Magia":

"Através do véu de todas as alegorias hierárquicas e misteriosas espalhadas nos antigos dogmas, através das trevas e das provas bizarras de todas as antigas instituições, sob o selo de todas as escrituras, nas ruínas de Nínive e de Tebas, sob as pedras roídas dos antigos templos e sobre a face enegrecida das esfinges da Assíria ou do Egito, nas pinturas monstruosas ou maravilhosas que traduzem as crenças da Índia e nas páginas sagradas dos Vedas, nos emblemas estranhos de nossos velhos livros de alquimia, nas cerimônias de recepção praticadas por todas as sociedades misteriosas... reencontram-se os traços de uma doutrina em toda parte a mesma e em toda parte cuidadosamente escondida. A FILOSOFIA OCULTA parece ter sido a ama ou a madrinha de todas as religiões, a alavanca secreta de todas as forças intelectuais, a chave de todas as obscuridades divinas e a rainha absoluta de todas as eras em que era exclusivamente reservada à educação dos sacerdotes e dos reis".

Resumamos os pensadores que trouxeram a René Guénon seus primeiros materiais:

  • MESTRE ECKHART, que o influencia por seu panteísmo místico e seu método de meditação para atingir o Deus Imanente.
  • SAINT-YVES D’ALVEYDRE, que lhe traz a ideia de super-religião esotérica e de vinculação ao Oriente.
  • FABRE D’OLIVET, com sua ideia de Soberania teocrática e Supremacia sacerdotal.
  • ÉLIPHAS LÉVI, com sua ideia de Filosofia Oculta e de UNIDADE essencial das religiões.

Um dos biógrafos de Guénon, Jean Robin, em uma obra que faz parte de nossas fontes, "René Guénon, Testemunha da Tradição", coloca, porém, em dúvida a influência que tais leituras puderam ter na formação de Guénon. Ele sustenta ao longo de seu livro a ideia da Missão Providencial, missão não-humana de Guénon. Em tal hipótese, as leituras feitas por Guénon teriam tido apenas o efeito de mantê-lo a par do estado atual da questão, mas não de lhe ter ensinado, positivamente, o que quer que fosse.

O PÉRIPLO PELAS SEITAS EUROPEIAS

Embora fosse muito inclinado ao trabalho solitário — e já vimos quais foram as suas quatro principais fontes de inspiração livresca —, René Guénon não desdenhava os contatos pessoais. A partir de 1907, ele estabeleceu inúmeros contatos com organizações que o fariam percorrer um périplo muito instrutivo.

Certo dia, recebeu em seu apartamento parisiense na Île Saint-Louis a visita de dois cavalheiros que vinham vê-lo em nome de um "grupo" bastante restrito chamado: ESCOLA HERMÉTICA. Tratava-se de um grupo dirigido pelo Doutor Philippe Encausse, dito Papus, que o fundara em 1888. Em 1907, o movimento já funcionava, portanto, há cerca de vinte anos. Os dois cavalheiros eram os Srs. PHANEG e BARLET, sendo o principal deles Phaneg, com quem Guénon permaneceria ligado por um longo período.

Esta Escola Hermética era um grupo de estudos esotéricos que assumira a forma de uma "Pequena Universidade Livre", com sede na rua Séguier, nº 13, em Paris, onde as aulas eram ministradas por Papus, Barlet, Phaneg e Yvon Leloup (dito Sédir), este último ocupando-se sobretudo do sentido oculto das Escrituras.

Mas, acima de tudo, esta Escola Hermética era a "antessala" de uma ordem mais discreta que se autodenominava "ORDEM MARTINISTA" e que se dizia sucessora regular da ORDEM dos ELEITOS COHENS, fundada no século XVIII por Martinez de Pasqually. René Guénon não tardou a ingressar nesta Ordem Martinista, onde recebeu o primeiro, o segundo e o terceiro graus, tornando-se assim "SUPERIOR DESCONHECIDO".

Neste embalo, Guénon, que era tão ávido por conhecer quanto apto a assimilar, fez-se receber ainda em duas lojas maçônicas que ele sabia manterem relações de amizade com a Ordem Martinista de Papus. Estas duas lojas eram: 1) a "Loja Simbólica" Humanidad, do Rito Nacional Espanhol; 2) o "Capítulo e Templo INRI", do rito original Swedenborguiano. Foi neste capítulo swedenborguiano que ele recebeu o Cordão Negro de "Cavaleiro Kadosh" (sendo que a palavra Kadosh significa Santo).

Na mesma época, começou a colaborar com a revista Le Voile d'Isis ("O Véu de Ísis"). Aos poucos, assumiu uma importância crescente em sua redação e permaneceu-lhe extremamente fiel: pode-se dizer, inclusive, que foi ele quem fixou sua linha doutrinária, continuando a enviar artigos mesmo quando residia no Egito. Foi esta revista que mudou de nome em 1933 para tornar-se Études Traditionnelles ("Estudos Tradicionais").

Ora, foi precisamente esta revista, Le Voile d'Isis, a encarregada, em 1908, da parte administrativa do "Congresso Maçônico e Espiritualista" organizado em Paris, na Salle des Sociétés Savantes. René Guénon foi naturalmente designado como "Secretário do Congresso" e assento na Mesa Diretora. Foi assim que ele foi visto no estrado, condecorado com seu Cordão de seda negra de Cavaleiro Kadosh.

Contudo, este Congresso foi para Guénon a ocasião de uma reviravolta importante — digamos mesmo, determinante —, após um evento imprevisto. Certos conferencistas sustentaram, a respeito da "IDENTIDADE ESPIRITUAL" (um ponto da mística iniciática particularmente delicado e importante), raciocínios que o desagradaram profundamente. Embora não se conheçam os detalhes da querela, sabe-se que ele deixou o Congresso muito descontente e começou, a partir de então, a manifestar seu desacordo quanto à ORIENTAÇÃO RACIONALISTA DA MAÇONARIA ATUAL.

Este desacordo permaneceu, desde então, como um dos elementos fundamentais da Doutrina e da Estratégia Guenonianas. A bifurcação "para-maçônica" de Guénon, que constataremos a seguir, data daquele dia.

Foi nesse Congresso de 1908 que Guénon conheceu outro personagem importante do mundo esotérico: FABRE DES ESSARTS — que não deve ser confundido com Fabre d'Olivet —, muito mais conhecido pelo pseudônimo de SYNESIUS. Ele era patriarca da Igreja Gnóstica.

Guénon pediu, evidentemente, ao Patriarca Synesius para ser admitido nesta Igreja, o que foi feito; no ano seguinte, em 1909, tornou-se inclusive bispo gnóstico sob o nome de Palingenius (do grego-latino Palin-genius, nascido de novo, ou renascido). Seria sob este pseudônimo de Palingenius que ele escreveria, entre 1909 e 1912, um grande número de artigos na revista La Gnose.

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Resumindo a situação, constatamos que entre 1906 e 1909 — ou seja, entre os seus vinte e vinte e três anos —, Guénon avançou a passos de gigante na carreira maçônica e esotérica: ouvinte na Escola Hermética de Papus, membro da Ordem Martinista com o grau de Superior Desconhecido, afiliado à loja Humanidad, membro do Capítulo swedenborguiano INRI com o grau de Cavaleiro KADOSH, redator da revista Le Voile d'Isis, bispo gnóstico sob o pseudônimo de Palingenius e redator da revista La Gnose.

Resta saber se ele se sentia à vontade nesses diferentes agrupamentos; a resposta seria que ele estava apenas parcialmente satisfeito, pelas seguintes razões: ele constatava que todas as doutrinas que pretendia expor eram tão dessemelhantes que se tornava impossível coordená-las para formar um edifício único e estável, conforme a ambição comum de todos esses meios.

Sua primeira crítica era, portanto, esta: apresentavam-lhe doutrinas espiritualistas divergentes e inaptas para constituir um corpo doutrinário coerente. Mas ele lhes fazia também uma segunda crítica, muito mais grave e profunda, e foi nela que residiu, sem dúvida, o golpe de mestre que lhe permitiu tornar-se o verdadeiro guia da subversão espiritualista moderna nesta segunda metade do século XX.

Ele lhes dizia:

"É o espírito científico que vocês aplicam aos fenômenos espirituais. Vocês são observadores de fenômenos e aplicam a eles o método experimental".

Certamente, ele notara em seus amigos da Escola Hermética, da Ordem Martinista, etc., a preocupação em devolver o primado às "forças do Espírito", o desejo de romper com o racionalismo da época anticlerical. Mas notava também que esse espiritualismo ainda era experimental, científico, empírico, "fenomênico": esses senhores buscavam "poderes". Ora, ele tinha a intuição de que esta ciência das "forças espirituais", que é de ordem religiosa, não deve partir de baixo para elevar-se depois, por indução, até as leis.

Ele tinha a intuição de que existe uma antiqüíssima ciência espiritual, rica em postulados a priori, uma Tradição arcaica, imutável e infalível, que fora esquecida e que precisava ser restaurada.

Pode-se dizer que a reação de Guénon diante do espiritualismo praticado naquele momento na França marca a entrada em cena de uma mentalidade e de hábitos de espírito novos e autenticamente originais.

Eis, portanto, René Guénon em divergência e discussão com as organizações das quais fazia parte e, em particular, com a figura majestosa e pitoresca de Papus. Ele julgou chegado o momento de reagrupar ao seu redor as individualidades suficientemente livres de espírito para compreender sua nova posição — simultaneamente espiritualista, tradicional, metafísica, contemplativa e intuitiva.

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Para fazer essa escolha de individualidades, ele iria beber principalmente no pessoal da Escola Hermética e da Ordem Martinista. O projeto estava em preparação quando, no início de 1908, vários dos personagens interessantes e já sondados encontraram-se reunidos em um quarto de hotel na rua des Canettes, nº 17, perto de Saint-Sulpice, para discuti-lo. Ocorre que, estando reunidos e cogitando, receberam certas "Comunicações em Escrita Direta"; isto é, um deles começou a escrever em escrita automática sob o impulso de uma "Entidade". E esta Entidade, que assim se manifestava, ordenou aos presentes que fundassem uma nova ordem, a Ordem do Templo, designando nominalmente René Guénon como seu chefe e mestre. É preciso notar, detalhe importante, que Guénon não estava presente nesta reunião.

A reação de Guénon diante dessa proposta, que lhe foi imediatamente relatada, é perfeitamente característica do seu modo de agir e até da sua doutrina em formação. Ele recebeu a proposta com dúvida, mas não soube precisar se suspeitava que os presentes tivessem sido vítimas de seu subconsciente e de seu metapsiquismo, ou se a entidade pertencia ao que ele chamaria mais tarde de "Forças Intermediárias".

Fato é que ele se recusou a obedecer à sugestão da Entidade da rua des Canettes e não quis assumir a chefia dessa Ordem em formação nas condições propostas. Na realidade, a "Ordem do Templo" teve apenas uma existência efêmera, suficientemente longa, porém, para indispor Guénon com Papus, que ficou muito descontente por ver seus adeptos serem aliciados; seguiu-se uma verdadeira ruptura entre Guénon e a maioria das organizações que ele frequentara até então.

Apenas a revista Le Voile d'Isis foi exceção a essa ruptura geral, e foi graças aos artigos que nela passou a escrever regularmente que Guénon conseguiu reunir em torno de si uma equipe de fiéis — dever-se-ia dizer mesmo, de discípulos —, o que não é pouco para um homem de 24 anos.

Pouco depois deste episódio, que foi simultaneamente uma crise e uma experiência, Guénon aderiu a uma terceira loja, a loja Thébah, vinculada à Grande Loja de França. Sem dúvida, ele precisava dessa nova experiência, pois sua opinião sobre a Maçonaria ainda não estava definitivamente formada; foi ali, na loja Thébah, que seu julgamento sobre o verdadeiro valor iniciático da Maçonaria assumiria sua forma final. Foi nessa loja que ele proferiu, em 1913, uma conferência sobre o tema: "O Ensino Iniciático", cuja substância retomaria depois em vários números da revista Le Voile d'Isis.

Durante a guerra de 14-18, a loja Thébah foi posta em "adormecimento" e, quando foi reativada após a guerra, Guénon, absorvido pela redação de seus livros, já não a frequentava, embora mantivesse relações pessoais com seus membros.

A ideia de reunir ao seu redor uma equipe de amigos fiéis e colaboradores sempre o perseguia; o ensaio infrutífero da "Ordem do Templo", que aliás mereceria ser analisado, não o desencorajou. E ele deu um novo passo com a fundação da revista La Gnose, órgão oficial da Igreja Gnóstica Universal.

Esta revista circulou de 1909 a 1912, e René Guénon foi, de longe, seu principal redator; foi ali que ele sistematizou, sob a forma de artigos avulsos, alguns dos elementos de sua futura doutrina — pois, até aquela data, ele ainda não publicara nenhum livro (o primeiro sairia apenas em 1921).

Não se pode terminar este panorama das revistas com as quais Guénon colaborava na época sem falar da mais curiosa delas, a revista La France anti-maçonnique, dirigida por Clarin de la Rive. Sim! Guénon-Palingenius — muçulmano, membro de três lojas, bispo da Igreja Gnóstica, ex-membro da Escola Hermética, redator do Voile d'Isis, de La Gnose e outras — colaborava com a França Antimaçônica, e sob um pseudônimo que deveria ter chamado a atenção, visto que assinava como "O Esfinge" (Le Sphinx)!

De julho de 1913 a julho de 1914, ele publicou ali uma série de artigos sobre a Maçonaria, nos quais desenvolvia seus temas habituais.

Quem era esse Clarin de la Rive? Ele foi um daqueles que pressionaram Léo Taxil a fazer suas famosas confissões. Quando se observa a orientação de sua revista supostamente antimaçônica, tem-se o direito de perguntar que interesses ele realmente defendia.

SUA POSIÇÃO EM RELAÇÃO À MAÇONARIA

Esta aventura nos reconduz à nova posição de Guénon em relação à Maçonaria, pois, se ele pôde enganar tantos naquela época e posteriormente, foi porque seu pensamento era suficientemente original para ser mal compreendido — cada qual lendo, através de seus próprios filtros, o que desejava encontrar, a começar por certos antimaçons.

Antes de nos voltarmos às influências orientais que acabaram por se impor a Guénon, examinaremos sua opinião sobre a Maçonaria tal como a encontramos formulada em um artigo da revista Études Traditionnelles (novo nome da revista Le Voile d’Isis após 1935). Nesse artigo, publicado muito depois da guerra de 14-18, em junho de 1937, Guénon desenvolve as linhas mestras de sua conferência de 1913 na loja Thébah.

Esta opinião pode ser resumida em duas proposições:

  1. Ele estima que a Maçonaria transmite uma iniciação autêntica quanto à regularidade da "cadeia" da qual possui a sucessão.

  2. Mas estima também que a Maçonaria foi o palco de uma degenerescência na ordem doutrinária. Tal degenerescência coincidiu com a transformação da Maçonaria OPERATIVA — isto é, aquela que reunia os verdadeiros arquitetos de ofício na Idade Média — em Maçonaria ESPECULATIVA — ou seja, aquela que passou a reunir não mais arquitetos, mas ideólogos.

Ao final desse período de transformação, que se inicia com o Humanismo e termina em 1717 com as "Constituições de Anderson", a Maçonaria havia adotado a FILOSOFIA MODERNA e abandonado, se não a letra, ao menos o espírito da TRADIÇÃO.

Não obstante, René Guénon considera que a incompreensão metafísica dos "maçons especulativos modernos" não altera o valor próprio dos Ritos dos quais a Maçonaria ainda é DEPOSITÁRIA. Ele afirma que a Filiação Iniciática não foi interrompida e que, por conseguinte, a INICIAÇÃO MAÇÔNICA ainda é válida e transmite autenticamente a INFLUÊNCIA ESPIRITUAL almejada.

Acabamos de dizer que a degeneração doutrinária da Maçonaria ocorreu durante o período transcorrido entre o Renascimento e as Constituições de Anderson. Esta é, ao menos, a primeira opinião de Guénon, expressa em sua famosa conferência na loja Thébah em 1913 e publicada em 1937.

Tal opinião já revelava nele uma inclinação mental pré-humanista, anti-humanista e, para dizer tudo, medieval e contemplativa. Ora, essa inclinação pré-humanista ele a acentuou ainda mais, muito tempo depois, em seu livro Aperçus sur l’Initiation ("Considerações sobre a Iniciação"), publicado em 1945, ao declarar que, em sua visão, a degenerescência doutrinária — isto é, a perda do esoterismo tradicional — remontava a uma data mais remota: o século XIV, época em que os autênticos Rosa-Cruzes teriam deixado a Europa, desgostosos com o racionalismo invasor, para se refugiarem no Oriente.

Esta afirmação de Guénon, que não se apoia em nenhuma prova, é interessante por denotar uma estrutura de espírito fundamentalmente pré-humanista, mostrando que o autor não hesitava em vislumbrar uma reestruturação básica do pensamento ocidental e em preconizar o reatamento com a mentalidade da Idade Média.

O episódio da loja Thébah foi, portanto, uma experiência complementar e decisiva. Ele rompe com a mentalidade de PROGRESSO para se voltar a uma religiosidade de estilo nitidamente retrógrado e contemplativo.

Naturalmente, ao manifestar suas desilusões e críticas após suas "experiências maçônicas", Guénon atraiu algumas animosidades pessoais. No entanto, a Maçonaria jamais lhe demonstrou uma hostilidade sistemática, e essa ausência de hostilidade é compreensível quando se percebe que Guénon mantinha, apesar de suas críticas "doutrinárias", o essencial: a saber, a regularidade e a autenticidade da transmissão iniciática.

Diante desta constatação, pode-se perguntar, como faz um de seus biógrafos, Jean Robin, o que Guénon viera fazer nas Lojas: viera para instruir-se ou para inspecionar?

Jean Robin, um dos mais entusiastas discípulos de Guénon, levanta a questão e a responde afirmando que Guénon frequentara as Sociedades Iniciáticas Europeias para inspecioná-las e sondar nelas a regularidade e a autenticidade iniciática. Acrescenta que, ao agir assim, Guénon cumpria uma "Função" — mais do que isso, uma "Missão", e até uma missão de origem providencial, movido que era pela Divindade.

AS INICIAÇÕES ORIENTAIS

Além dos contatos que estabelecia nos meios ocultistas e maçônicos, René Guénon começou, com uma discrição surpreendente, a informar-se sobre as "Doutrinas Orientais".

Em um primeiro momento, contatou ORIENTALISTAS EUROPEUS e, em seguida, ORIENTAIS AUTÊNTICOS.

Entre os ORIENTALISTAS EUROPEUS, os dois principais foram: Léon CHAMPRENAUD e Albert de POUVOURVILLE.

Léon CHAMPRENAUD (1870-1925) – Conferencista na Escola Hermética de Papus quando Guénon o conheceu, era também redator de uma revista intitulada L'Initiation e, por fim, secretário-adjunto da Ordem Martinista. Mas o fato mais importante é que Champrenaud afastou-se progressivamente do ocultismo de Papus, que lhe parecia seguir por um beco sem saída, e voltou-se para as DOUTRINAS ORIENTAIS. Champrenaud escreveu então a obra Matgioï e as Sociedades Chinesas, seguida de um resumo sobre a Metafísica Taoista. Contudo, foi finalmente para o Islã que ele se dirigiu, acabando por ingressar nessa religião sob o nome de ABDUL-HAQQ, nome que significa: Servo da Verdade.

Albert de POUVOURVILLE (1862-1939) – Oficial e depois administrador no Tonquim. De bela presença e comportamento autoritário, deixou o Tonquim para ir à China meridional, onde passou a frequentar dois iniciados chineses: Tong-Sang N'Guyen e Duc-Luat, personagens importantes do Taoismo. Tanto que recebeu a iniciação taoista sob o nome de MATGIOI, nome que significa "Olho do Dia". De volta à França, Albert de Pouvourville ingressou no movimento ocultista, onde conheceu Champrenaud. Escreveu então, sob o nome de Matgioï, duas obras: A Via Metafísica e A Via Racional, que causaram a mais profunda impressão em René Guénon (daí as constantes reminiscências encontradas em seus próprios livros).

Durante sua formação, Guénon encontrava-se, portanto, em relações permanentes com o muçulmano Abdul-Haqq (Léon Champrenaud) e o taoista Matgioï (Albert de Pouvourville).

Mas Champrenaud e Pouvourville eram ainda apenas ORIENTALISTAS EUROPEUS. A curiosidade de Guénon só foi satisfeita quando ele tomou contato com ORIENTAIS de fato. Todos os biógrafos são categóricos quanto à realidade desses contatos orientais, mas tornam-se muito misteriosos quando se trata de fornecer detalhes.

O que é certo é que Guénon aprendeu sânscrito e árabe com orientais residentes em Paris, assim como foi instruído nas três religiões — hinduísta, taoista e islâmica — por "Mestres" dos países correspondentes que praticavam efetivamente essas religiões, mas que viviam em Paris.

Para o Hinduísmo, ele teve um ou vários mestres hindus e recebeu deles uma iniciação elevada. Foi inclusive essa iniciação (segundo Paul Chacornac) que deixou nele os vestígios mais profundos e que determinou o PLANO de todo o seu sistema, de toda a sua construção doutrinária.

Para o Taoismo, já bem instruído por Matgioï (Pouvourville) no plano teórico, Guénon recebeu também o ensino prático de um mestre chinês residente em Paris; teria havido ali também uma nova iniciação? Seus biógrafos não são muito claros sobre esse ponto.

Para o Islã, mais exatamente para o Sufismo, que é o esoterismo islâmico, a iniciação de Guénon é mais curiosa, pois foi realizada por um pintor sueco, ele próprio tornado muçulmano após um périplo incomum que vale a pena ser relatado.

O pintor John Gustaf AGELII era filho de um veterinário sueco; tendo terminado seus estudos secundários em Estocolmo, passou a pintar paisagens suecas, expondo em Paris em 1890 e conquistando certa notoriedade sob o pseudônimo de Ivan Aguéli. Frequentava sobretudo a "Sociedade Teosófica", meios anarquistas e a poetisa socialista Marie Huot; foi então preso por ter dado asilo a uma anarquista procurada pela polícia e passou alguns meses na prisão: aproveitou o tempo para trabalhar e, graças a um incrível dom para línguas, aprendeu hebreu, árabe e malaio; leu igualmente a Bíblia, Fabre d'Olivet e Swedenborg.

Ao ser libertado, partiu para o Egito, onde realizou esboços; depois, retornou a Paris e matriculou-se na "Escola de Línguas Orientais" para aperfeiçoar seus conhecimentos. Em 1897, tornou-se muçulmano; teria sido em Paris ou na Suécia? Não se sabe. Seus biógrafos confessam não conseguir esclarecer o mistério. Sua nova religião não o impediu de estudar o Budismo e de ir à Índia e ao Ceilão. Após alguns meses, voltou à França e, em Paris, conheceu um médico italiano, Enrico Insabato, animado pelo desejo de aproximar o Oriente e o Ocidente; ambos partiram para o Egito para trabalhar na realização desse vasto projeto.

Foi durante essa segunda viagem ao Egito que Aguéli conheceu e frequentou uma alta personalidade do Islã, versada tanto na ordem Exotérica quanto na Esotérica, o Sheikh ELISH. E esse grande personagem iniciou Aguéli, que já era muçulmano, no SUFISMO, tornando-o inclusive seu representante para a Europa sob o nome de ABDUL-Hâdi.

Foi, portanto, na qualidade de muçulmano sufista que Abdul-Hâdi retornou à França: após passar por Marselha e Genebra, chegou a Paris, onde conheceu Guénon e sua revista La Gnose. Estamos em 1910. Imediatamente começou uma estreita colaboração, e Aguéli passou a escrever na revista.

Tal é o personagem que dará, em 1912, a iniciação sufista a René Guénon: ele lhe transmite a "Baraka" da parte de seu mestre, o Sheikh Elish do Egito, e Guénon torna-se assim o Sheikh ABDEL WAHED YAHIA.

Muito mais do que seu iniciador Abdul-Hadi (Aguéli), Guénon levou a sério seu islamismo e, mesmo vivendo em Paris, fez dele, conforme a expressão de seus biógrafos, "Sua Via Pessoal": o Islã foi, portanto, a religião exotérica que ele decidiu praticar preferencialmente a todas as que conhecera anteriormente, nomeadamente o catolicismo.

Pode-se estranhar essa escolha, sobretudo quando se conhece o prestígio de que o hinduísmo gozava aos seus olhos; como explicá-la? Talvez por considerações concretas: de fato, a prática externa da observância hinduísta é materialmente complicada e normalmente subordinada ao pertencimento a uma casta, na qual só se entra pelo nascimento, o que não era o caso de Guénon. Mas talvez ele tivesse outras razões mais profundas, ligadas à natureza particular do esoterismo islâmico...

Em suma, eis Guénon muçulmano em 1912, e é nessa religião que ele morrerá no Cairo em 1951. Notemos, de passagem, que este ano é também o de seu casamento em Blois com Berthe Loury — um casamento católico, como vimos. Guénon já era muçulmano em 11 de julho de 1912? Não o sabemos e, no fundo, isso pouco importa, pois um mês antes ou depois sua escolha já estava feita in pectore. O que é certo é que ele jamais revelou sua nova religião à esposa, o que é verdadeiramente o ápice do esoterismo e demonstra um dom muito apurado para a camuflagem.

Eis, portanto, Guénon casado e de posse de sua bagagem doutrinária. Realizou em pouco tempo, apenas cinco ou seis anos, um vasto périplo através das Sociedades de Pensamento e das Congregações iniciáticas, das quais pôde avaliar a Regularidade iniciática e a Degenerescência doutrinária.

Teria sido ele inicialmente impulsionado a operar tal inspeção? Provavelmente não, mas o que parece certo é que, ao fim do périplo, ele foi cooptado por hinduístas orientais "conscientes e organizados"; a partir de então, é o hinduísmo que dominará seu espírito, e são todos os hábitos mentais do hinduísmo que ele repercutirá em seu ensino.

Qual é exatamente o estatuto dessa simbiose, quais são os termos do contrato entre Guénon, os hinduístas e o hinduísmo? Até hoje é impossível saber; mas o mais importante para nós — e isso é certo — é saber que, desde aquele momento, por volta de 1910, Guénon assume o papel não apenas de um agente de ligação entre Oriente e Ocidente, mas, sobretudo, o de agente de uma verdadeira penetração do Ocidente pelo Oriente: essa certeza transparece a cada instante e em cada linha de suas diversas obras.

A OBRA ESCRITA DE RENÉ GUÉNON

Esta obra divide-se em vários períodos que marcam uma evolução no pensamento e na produção de Guénon: expô-la-emos aqui em ordem cronológica.

O primeiro período é o dos Artigos publicados em diversas revistas, como Le Voile d'Isis (que se tornou Études Traditionnelles) e La Gnose, estendendo-se de 1907 a 1914. Ali se encontra a base que seria utilizada mais tarde, seja pelo próprio Guénon, seja em suas obras póstumas.

O período parisiense compreende os anos de 1921 a 1929:

  • 1921 – "Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hinduístas": já citado por nós diversas vezes, este livro expressa a base do sistema.
  • 1922 – "O Teosofismo": história de uma falsa religião, sublinha as fraquezas da primeira grande empreitada de penetração oriental, nascida em 1875 no meio inglês hinduizante: a "Sociedade Teosófica" de Madame Blavatsky.
  • 1923 – "O Erro Espírita": livro alentado e com farta documentação. O autor faz o julgamento do Espiritismo com uma argumentação muito próxima à que um católico poderia ter: os espíritas entram em contato com INFLUÊNCIAS ERRANTES — nós diríamos "os demônios". Contudo, a diferença das expressões é significativa.

Não se deve esquecer que estes dois livros, O Teosofismo e O Erro Espírita, contribuíram poderosamente para fazer Guénon passar por um homem de ordem, um antisubversivo, um tradicionalista, um nacionalista: era o início de um longo equívoco, cuidadosamente mantido por todos aqueles que têm interesse em nos fazer tomar o falso pelo verdadeiro.

  • 1924 – "Oriente e Ocidente": Estuda as condições de uma aproximação possível e inevitável entre o Oriente e o Ocidente. Para isso, o Ocidente deve abandonar as ideologias do século XVI, de onde vieram todos os males: racionalismo, tecnicidade, Revolução. Mais ainda, deve abandonar o "preconceito clássico" greco-latino e essa mentalidade do legionário e do jurista romanos que tudo esclerosou. Deve, ao contrário, reencontrar as tradições profundas subjacentes ao Cristianismo e incluídas no Hinduísmo; é necessário que o Ocidente recupere "os princípios de uma metafísica" autêntica, ainda preservada no Oriente.
  • 1925 – "O Homem e seu Devir segundo o Vedanta": É o desenvolvimento da Introdução e de Oriente e Ocidente.
  • 1926 – "O Esoterismo de Dante": Guénon não é o único nem o primeiro a escrever sobre o tema, pois já existira um "Dante Herético". Guénon não diz que Dante é herético; ao contrário, para ele é essencial destacar que o Esoterismo se sobrepõe à Religião sem a ela se opor. Ele também elogia Dante por ser gibelino, isto é, partidário do Imperador contra o Papa. Desenvolverá tudo isso em breve em Autoridade Espiritual e Poder Temporal.
  • 1927 – "O Rei do Mundo" (reeditado em 1950): trata da famosa questão de AGARTHA, "Centro Espiritual" onde residiria o REI DO MUNDO. Guénon não é o primeiro a falar dessas noções: Saint-Yves d'Alveydre em A Missão da Índia, assim como Ossendowski em Bestas, Homens e Deuses, já haviam tratado do tema. Guénon fala disso em termos gerais e um tanto vagos: teoria dos "Centros Espirituais", dos "Centros Maiores", Agartha, Tibete. Parece, no entanto, que esta divulgação causou um desentendimento entre Guénon e seus informantes hindus, interrompendo suas relações.
  • 1927 – "A Crise do Mundo Moderno": retoma os temas de Oriente e Ocidente. Expõe primeiro a teoria hindu dos "Ciclos Cósmicos" e estima que nossa época pode ser identificada como o "último período do ciclo KALI-YUGA" (Era Sombria); estamos, portanto, no fim de um dos grandes ciclos que regem o desenvolvimento da humanidade. Em seguida, analisa as características da Civilização Moderna: prioridade da ação sobre o conhecimento, "erro profano" que laiciza a Ciência e a desvia para a Técnica. Indica, por fim, o remédio para este mal: constituir uma ELITE OCIDENTAL que tenha reencontrado o sentido profundo da Tradição. Não se trataria de orientalizar o Ocidente, mas de provocar o "despertar espontâneo de suas possibilidades latentes". Como se vê, os termos escolhidos são genéricos o suficiente para permitir várias interpretações e, assim, enganar aqueles que devem ser enganados. Pois Guénon acrescenta que a Igreja Católica é uma das Organizações Tradicionais que subsiste no Ocidente e que bastaria devolver à doutrina da Igreja o sentido profundo e oculto que ela contém em si mesma, mas que negligenciou desde o século XVI. Este trabalho de aprofundamento permitiria à Igreja retomar consciência de sua unidade com "as outras formas tradicionais". Não é preciso ser um grande mestre para ver despontar no horizonte o Ecumenismo — não por sincretismo, mas por pluralidade. No entanto, este livro, A Crise do Mundo Moderno, terminou de consagrar Guénon como um dos mestres de pensamento da Reação Nacional: não se buscou nada além da crítica ao mundo moderno, e viu-se Léon Daudet, Jacques Bainville e Gonzague Truc elogiá-lo nos círculos da Action Française. Contudo, deveriam ter percebido a armadilha destinada a nos desviar para a Tradição pagã, sob o pretexto de nos fazer reencontrar um suposto alicerce profundo da tradição cristã. Os únicos a não serem ludibriados foram o jornal Gringoire e, sobretudo, a Revue Internationale des Sociétés Secrètes (RISS), com Charles Nicoullaud.
  • 1929 – "Autoridade Espiritual e Poder Temporal": Inspirado pela condenação da Action Française por Roma em 20 de dezembro de 1926, este livro forma um conjunto com as obras anteriores. A tese da obra é que, no Ocidente e na Igreja, essas duas potências estão separadas, enquanto no Oriente a tendência é a sacralização do Temporal.

No início de 1930, René Guénon instalou-se no Cairo para não mais retornar à Europa, e sua islamização pôde ser revelada abertamente. No entanto, a série de livros que produz então não trata do Islã, mas do esoterismo cristão e do hinduísmo:

  • 1931 – "O Simbolismo da Cruz": composto no Cairo, mas editado na França, é, na verdade, o desenvolvimento de um artigo publicado em 1911 na revista La Gnose. A obra é dedicada na primeira página: "À memória venerada de ES-SHEIKH ABDER RAHMAN ELISH EL-KEBIR (o servo do Deus Grande), a quem se deve a ideia inicial deste livro. Cairo 1329-1349 H.". Eis, portanto, o "Simbolismo da Cruz" colocado sob a égide do Crescente — ora, crescente pode ser interpretado como: Sem Cruz... O simbolismo católico da Cruz é clássico e claro em toda parte: o braço vertical significa a paternidade divina de N.S.J.C. do alto para baixo, do céu para a terra, enquanto o braço horizontal representa a fraternidade humana de N.S.J.C.; a junção, o cruzamento, sendo a união hipostática. Além disso, a parte visível da cruz é a Igreja e reproduz a forma do corpo físico de N.S.J.C. — é a sua sombra projetada, o Corpo Místico —, enquanto a parte oculta que está na terra é a Igreja dos não batizados que serão salvos pelo "batismo de desejo".
  • 1932 – "Os Estados Múltiplos do Ser": este livro forma um conjunto com outros dois publicados anteriormente: O Homem e seu Devir segundo o Vedanta e O Simbolismo da Cruz. Guénon nos explica que a Tradição Hindu à qual se refere incessantemente, e sempre com muita imprecisão, é formulada por quatro coletâneas fundamentais, os Vedas, cuja origem seria supra-individual e não humana.
  • 1945 – "O Reinado da Quantidade e os Sinais dos Tempos": é a continuação de A Crise do Mundo Moderno, caracterizado por uma crítica à civilização técnica. Esta obra confirmou Guénon em sua posição de doutrinador da Reação.
  • 1945 – "Considerações sobre a Iniciação": onde expõe os meios de passar do conhecimento teórico e livresco para o que ele chama de REALIZAÇÃO ESPIRITUAL. Diz que A INICIAÇÃO é a transmissão de uma influência espiritual. O iniciado encontrar-se-ia, assim, em um estado edênico; depois, poderia elevar-se aos estados superiores do Ser e chegar a um estado chamado indistintamente de Libertação ou Identidade Suprema. Reitera sua afirmação de que a Maçonaria é a única organização ocidental que possui uma origem TRADICIONAL autêntica, mas não se deve esquecer que ele diz o mesmo da Igreja Católica.
  • 1945 – "Os Princípios do Cálculo Infinitesimal": um tema que lhe era caro há muito tempo e no qual retoma a distinção entre o Infinito e o Indefinido.
  • 1946 – "A Grande Tríade" é o seu último livro: nele refere-se à Tradição Chinesa, por reminiscência do Taoismo no qual foi iniciado. A Grande Tríade (Céu, Homem, Terra) é uma cosmologia ternária. É também o nome de uma grande sociedade secreta chinesa, comparável à Maçonaria na Europa.

A esta lista devem ser acrescentadas duas obras póstumas:

  • 1952 – "Iniciação e Realização Espiritual": que resume artigos publicados na Études Traditionnelles e é a continuação de Considerações sobre a Iniciação.
  • 1954 – "Considerações sobre o Esoterismo Cristão": também uma coletânea de artigos da mesma revista, constituindo a continuação de O Esoterismo de Dante.
ESTRATÉGIA E TÁTICA GUENONIANAS

Entre 1910 e 1920, Guénon amadureceu lentamente seu pensamento e tornou-se um verdadeiro chefe de escola.

Ele realizou uma rápida inspeção das "congregações iniciáticas" e distinguiu a Iniciação regular — com a qual aceita colaborar mediante fortes reservas no plano doutrinário — das Pseudo e das Contrainiciações.

Entrou em contato com orientais, converteu-se ao Islã e instruiu-se nos esoterismos hindus e chineses.

Por outro lado, limpou o terreno de duas ideologias de tipo orientalista que dificultavam a propagação do Orientalismo Autêntico.

Em seguida, instruiu seus discípulos, e restaria-nos estudar sua doutrina tal como ela ressalta de suas numerosas obras. Mas, antes disso, convém tomar contato com a estratégia e a tática guenonianas, pois isso é indispensável para compreender bem o desenvolvimento da doutrina.

Esta estratégia e esta tática depreendem-se de duas fontes: os livros e os fatos. Cada fonte possui seus próprios limites e interesse: sem coincidirem exatamente, elas se sobrepõem em grande parte, de modo que, ao conjugá-las, consegue-se ver com clareza suficiente as intenções guenonianas.

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ESTRATÉGIA

A ESTRATÉGIA guenoniana é amplamente desenvolvida em sua primeira grande obra, "Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hinduístas", publicada em 1921.

Nesta obra, Guénon preconiza a formação de uma ELITE OCIDENTAL que se instruiria nas disciplinas da TRADIÇÃO ORIENTAL. Com que objetivo?

Com o objetivo de preparar o RETORNO DO OCIDENTE AO ORIENTE, retorno que não poderá deixar de ocorrer um dia. Em que condições se pode imaginar que esse retorno do Ocidente ao Oriente aconteça? Guénon propõe três hipóteses:

1ª Hipótese: Colapso do Ocidente por excesso de materialismo. Ele diz que houve, ao longo da História, civilizações brilhantes que desapareceram. A hipótese de um colapso não seria, portanto, de se descartar. Ele vê a Barbárie instalando-se no Ocidente, mas não diz por qual mecanismo — se por excesso de autoridade ou por anarquia. Nesta hipótese, o Mal não teria mais cura.

2ª Hipótese: Os orientais invadem o Ocidente para salvá-lo da decadência. Hipótese singular no plano histórico e político, difícil de imaginar, mas que deve ser admitida em teoria para acompanhar o autor. Nesta hipótese, Guénon pensa em amortecer o Choque psicológico que representaria essa invasão do Ocidente por orientais e, para isso, vislumbra e preconiza, desde já e por precaução, a constituição de um Núcleo Intelectual, de uma Elite espiritual, "imprimindo uma direção que não teria, aliás, necessidade alguma de ser consciente para a massa" (Introdução ao Estudo das Doutrinas Hinduístas).

Será, portanto, uma ELITE ESOTÉRICA, oculta, entregue a uma ação ENCOBERTA, discreta e secreta, com o objetivo de fazer os ocidentais aceitarem a Hegemonia Espiritual das Congregações iniciáticas orientais quando chegar o momento da invasão.

3ª Hipótese: O Ocidente organiza espontaneamente seu retorno à Tradição Oriental, retorno que é fatal. Neste caso, também é necessária uma Elite Espiritual, um núcleo intelectual, para preparar, promover e facilitar essa Orientalização do Ocidente.

Ouçamos como o próprio Guénon vê a questão:

"A Idade Média oferece-nos o exemplo de um desenvolvimento tradicional propriamente ocidental. Se existe uma Tradição Ocidental, é ali que ela se encontra; essa Tradição era então concebida sob o modo religioso, mas não vemos que o Ocidente esteja apto a recebê-la de outra forma, hoje menos do que nunca. Bastaria que apenas alguns espíritos tivessem consciência da UNIDADE ESSENCIAL de todas as Doutrinas Tradicionais em seu Princípio". (Introdução às Doutrinas Hinduístas - p. 338).

Em termos claros, isso significa: uma Elite que retome o CRISTIANISMO MEDIEVAL e o triture até fazê-lo exprimir sua quintessência simbólica, esotérica, metafísica e oriental. Pois não se trata, para Guénon, de lançar-se em uma Restauração religiosa pura e simples; com efeito:

"É de METAFÍSICA que se trata essencialmente. Para a ELITE de que falamos, a Tradição não foi concebida no modo especificamente religioso. O que deve desempenhar o papel principal é a compreensão das questões de princípio. E essa compreensão implica a assimilação dos modos essenciais do pensamento oriental; aquilo de que se trata já pode ser pressentido pelo pouco que dissemos a respeito da Realização Metafísica. Mas indicamos, ao mesmo tempo, as razões pelas quais não nos era possível insistir mais. É aqui que se deve sempre recordar que, segundo a fórmula extremo-oriental, 'aquele que sabe DEZ deve ensinar apenas NOVE'". (Introdução às Doutrinas Hinduístas - p. 342).

Tal será, portanto, na hipótese de o Ocidente decidir organizar espontaneamente seu Retorno à Tradição Oriental, o Trabalho da Elite guenoniana.

Convém, enfim, perguntar-se por que Guénon busca aproximar assim o Oriente e o Ocidente? Ele próprio nos dá duas razões: primeiro, para o benefício recíproco do Oriente e do Ocidente; mas também "por certas outras razões que não nos é possível abordar e que se prendem sobretudo ao sentido profundo dessas leis cíclicas cuja existência nos limitamos a mencionar". (Introdução às Doutrinas Hinduístas - p. 341).

Em sua obra "Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hinduístas", Guénon nos informa assim sobre sua estratégia doutrinária; sua obra doutrinária é ditada pela ideia de realizar a simbiose "Oriente-Ocidente", mas, naturalmente, em proveito de uma DIREÇÃO ORIENTAL que se impõe por duas razões: primeiro, devido à superioridade dos métodos orientais de meditação, nomeadamente a superioridade da Via Metafísica sobre a Via Mística; segundo, devido à maior fidelidade do Oriente à "Grande Tradição Primordial".

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TÁTICA

A TÁTICA — os meandros do pensamento e da ação para realizar a ideia estratégica — é menos evidente à primeira vista, mas apenas à primeira vista: para quem certa prática tornou familiarizado com a história guenoniana, a linha seguida é, ao contrário, muito segura; e, se não é simples, é complexa como a vida; no entanto, sua direção é única e firme.

Para além dos livros, que inventariamos em capítulo anterior, é na ação guenoniana que buscaremos, doravante, essa direção.

Previamente, seria necessário estabelecer um dos pontos mais controversos: o da inspiração de René Guénon. Trata-se de uma tarefa difícil, sobre a qual os próprios discípulos discordam.

Duas teses confrontam-se:

  • Ou Guénon foi formado por iniciadores orientais que lhe ensinaram tudo e, nesse caso, sua obra teria sido apenas uma transmissão adaptada;
  • Ou, por meio de um trabalho pessoal ferrenho, ele realizou uma compilação magistral que tentou impor ao espírito de seus contemporâneos como uma doutrina simultaneamente antiga e original.

O exame desta questão, por si só, exigiria um boletim inteiro, e é cedo demais para que nos empenhemos nele — o que não significa, de modo algum, que não tenhamos uma opinião sobre o assunto.

Fato é que o desenvolvimento da ação guenoniana manifesta uma evolução evidente, uma evolução "em dentes de serra", com avanços e recuos. Simples aparência ou realidade? Não nos cabe decidir aqui, e nos ateremos apenas à "manifestação".

Esta constatação de evolução não é, aliás, uma crítica estéril; ela sublinha o pragmatismo que permitia a Guénon privar com os meios mais diversos, inclusive os mais opostos. Naturalmente, para ter êxito, era necessária certa dose de duplicidade, mas todo esoterista dela é, por definição, amplamente provido: com efeito, o relativismo inerente ao esoterismo reduz todas as posições à unidade e fundamenta, de certa forma, essa duplicidade para uso externo.

Para simplificar as coisas, podemos distinguir algumas etapas, mais ou menos cronológicas, nesta evolução:

1. A primeira etapa é a de seus anos de formação, grosso modo até a guerra de 1914, onde o vemos misturar-se aos meios ocultistas situados na fronteira da Maçonaria e, depois, entrar em loja. Pode-se dizer que ele percorre todo o leque subversivo, do espiritualismo ao racionalismo, não hesitando sequer em tornar-se bispo gnóstico.

Neste estágio, já se distinguem seu olhar crítico e suas hesitações sobre a melhor via, a mais eficaz: quando seus amigos, seus primeiros discípulos, quiseram fundar uma nova "Ordem do Templo" que supostamente faria a síntese de todas as correntes, ele não se mostra muito empolgado, sentindo bem que tal iniciativa apenas somaria mais um grupo à multidão de todos os que surgiram nos últimos trinta anos.

Sem dúvida — e sobre este ponto seria interessante ter seu testemunho direto —, ele compreendeu muito rápido que esse meio ocultista era, por natureza, um mundo marginal que jamais poderia propagar-se como uma mancha de óleo no grande público, tanto mais que, naquela época, há 70 anos, a descristianização não era tão visível quanto em nossos dias.

2. A segunda etapa: ele entra então em relação com o meio católico e, não um qualquer, mas o dos jovens intelectuais do Instituto Católico de Paris, com Maritain — aquele do primeiro período, antes de sua adesão à Revolução: meio do renascimento filosófico e, mais amplamente, do renascimento doutrinário.

Compreende-se que Guénon, com suas teses de crítica ao mundo moderno e de referência constante à Tradição, tenha podido iludir pessoas que ignoravam tudo sobre suas fontes, a ponto de alguns desses jovens intelectuais católicos terem tido muita dificuldade em se defender delas; pode-se mesmo perguntar se alguns jamais se libertaram... mas sobre isso falaremos mais tarde.

3. A terceira etapa, que se sobrepõe cronologicamente à anterior, é a das relações de Guénon com os meios antimaçônicos. Questão difícil de tratar ao dirigir-se a leitores que não são necessariamente esclarecidos sobre tais matérias.

Basta dizer que Guénon soube jogar muito habilmente com a dupla face maçônica, racionalista e espiritualista, e que, em suas relações com os antimaçons da época, buscou constantemente "confundir as águas", apoiando-se nas divisões de seus interlocutores — divisões ligadas a pessoas e, mais profundamente ainda, a doutrinas.

Pois, entre os antimaçons daquele tempo, a oposição era nítida entre os que faziam uma crítica puramente racionalista e política da Maçonaria — e que, por isso, tornavam-se cegos para a sua realidade profunda — e aqueles que, possuindo uma visão muito mais ampla, sabiam distinguir as diversas faces da Seita e uni-las em uma mesma síntese crítica.

Lá também faltou pouco para que Guénon não conseguisse passar por um antimaçom verdadeiro, e parece que apenas a guerra de 1914 o impediu de tornar-se diretor da revista "La France Antimaçonnique"! Mas as análises impiedosas da RISS (de Dom JOUIN) foram suficientes para abrir os olhos daqueles que assim o quiseram; que alguns possam ter sido enganados é outra questão.

4. Afastado dos meios intelectuais católicos, "queimado" junto aos antimaçons verdadeiros, Guénon voltara seus esforços também para outra direção: a de um certo misticismo cristão.

Por mais escandalosa que possa parecer, não se deve estranhar essa manobra, pois a mística, por natureza, presta-se a tais desvios; é, aliás, por esta razão que a Igreja, mãe previdente e experiente, sempre foi tão prudente — digamos mesmo, desconfiada — em relação às manifestações místicas.

Com efeito, desenvolveu-se entre as duas guerras, sempre no âmbito do renascimento católico, toda uma pesquisa mística centrada no tema do Sagrado Coração e muito voltada ao simbolismo. Foi o que permitiu a Guénon infiltrar-se nela a ponto de poder publicar inúmeros artigos nas revistas dessa corrente. A Hierarquia teve, inclusive, de intervir para pôr fim a essas iniciativas muito contestáveis.

5. Quando, em 1930, Guénon decide partir para o Egito e, finalmente, lá permanecer, ele já percorreu todas as possibilidades de difusão de seu pensamento e percebeu que, fora do círculo de seus discípulos diretos, não conseguiu penetrar eficazmente.

Ainda que permanecendo aberto a outras vias eventuais, decide-se então a tomar uma via mais direta — a sua própria há vinte anos: a do orientalismo prático. Dizemos bem "prático", pois no plano teórico isso já fora realizado há muito tempo.

É interessante notar que não é para as místicas extremo-orientais que ele se volta e orienta seus discípulos, como se poderia pensar, já que ensinava publicamente o Vedanta e as doutrinas hindus; a via mística recomendada é o Islã — ele próprio já era muçulmano há vinte anos e partia para estabelecer-se em um país muçulmano no qual deveria fundir-se.

Um de seus discípulos, Frithjof Schuon, um jovem alsaciano de 25 anos, partiu para a Argélia para ser iniciado em uma confraria mística muçulmana; depois, retornou no fim de 1933 e passou a iniciar, por sua vez e por delegação, cerca de uma centena de outros guenonianos, fundando filiais em diversas cidades da França e da Suíça. Segundo sua própria admissão, Guénon via nesta direção a melhor fórmula, mas pretendia não fechar outras vias.

Foi assim que outro de seus discípulos, Marcel Clavelle (Jean Reyor), dedicou-se antes a investigar a linha do Esoterismo Cristão, tentando inclusive vivificar uma hipotética "Fraternidade do Paráclito"; o que não o impedia de ser iniciado também no Islã esotérico, talvez sem crer muito nisso.

Por outro lado, os vínculos maçônicos não foram rompidos e, no quadro do renascimento espiritualista da Maçonaria do pós-guerra, uma loja especial, "A Grande Tríade" — agrupando unicamente guenonianos —, foi criada em 1947 no âmbito da Grande Loja de França, com a bênção especial do próprio Guénon; essa organização ainda está em atividade atualmente...

Esta diversidade, da qual demos apenas uma pálida imagem, mostra que, após a partida do Mestre para o Próximo Oriente, os discípulos exploraram em paralelo diversas vias, entre as quais não faltavam numerosas pontes.

Como interpretar esse pluralismo? De duas formas complementares:

  • Esta multiplicidade de formas permite satisfazer temperamentos diferentes, assegurando ao mesmo tempo a unidade de fundo, trate-se do Islã místico, do Cristianismo esotérico ou do Simbolismo maçônico. É certo, por exemplo, que um bom número dos primeiros iniciados de Schuon não suportaram o Islã por muito tempo e passaram para outras vias esotéricas.
  • Este pluralismo permite, sobretudo, "trabalhar" meios diversos, inclusive opostos, podendo cada um penetrar onde seus outros irmãos em guenonismo não poderiam fazê-lo. Foi assim que Jean Reyor pôde levar ao meio clerical suas pesquisas sobre o esoterismo cristão — démarche que reencontramos hoje com o Padre Stéphane e Jean Borella...

De fato, é certo que Guénon e seus discípulos depois dele jamais renunciaram à sua tríplice empreitada: orientalizar o Ocidente, revivificar a Maçonaria e perverter o Cristianismo pelo interior sob a aparência de espiritualismo — tudo isso em nome e sob a capa da luta contra o materialismo e o racionalismo.

Como não ver que, há alguns anos, sob a influência de numerosos fatores e graças a múltiplas cumplicidades eclesiásticas, eles percorreram muito caminho nesta direção? É o que nos restará examinar nos próximos números.

 

J. V. / P. R.