BREVE CRONOLOGIA CARTESIANA
Para conhecer uma doutrina é, certamente, importante examinar o encadeamento das ideias, mas é não menos necessário acompanhar a vida daqueles que a elaboraram. Após o estudo publicado no nº 9, eis em um breve quadro cronológico a vida de Descartes, bem como algumas datas post-mortem.
31 de maio de 1596 – Nascimento de René, em La Haye, na Touraine; filho de Joachim Descartes, conselheiro no Parlamento da Bretanha e de origem poitequina.
13 de maio de 1597 – Morte de Jeanne Brochard, mãe de René.
1597/1606 – René é criado pela avó materna.
1606/1614 – Estudos no colégio jesuíta de La Flèche, cujo superior, o Padre Charlet, é um de seus parentes; René gozará ali de um regime de favor devido à sua saúde frágil.
1614/1616 – Licenciatura em Direito na Universidade de Poitiers.
1617 – Atividades mundanas e esportivas sobre as quais se tem poucas informações.
Primavera de 1618 – Parte para Breda, na Holanda, e presta serviço no exército protestante de Maurício de Nassau, príncipe de Orange.
Abril de 1619 – Partida da Holanda para a Dinamarca e a Alemanha. Na Suábia, liga-se a um grupo de sábios Rosa-cruzes. Engaja-se no exército católico do Duque da Baviera.
10-11 de novembro – Encerrado em seu quarto, Descartes recebe, em uma série de três sonhos, uma iluminação gnóstica clássica.
1620/1622 – Rescinde seu compromisso militar e parte para uma série de viagens misteriosas pela Hungria, Silésia, Polônia e Pomerânia.
Março de 1622 – Retorna à França para uma estada de um ano e meio. Vende bens de família e aplica suas liquidez em bancos holandeses. Seria sua fortuna suficiente para lhe assegurar o conforto de que nunca deixou de desfrutar, ou teria se beneficiado de outras fontes de renda? Não se sabe.
1623/1625 – Viagem à Itália.
1625/1628 – Retorno à França. Durante sua estada em Paris em 1627/28, penetra na intimidade dos sábios da época: astrônomos, matemáticos, engenheiros e ópticos. Liga-se igualmente ao Padre Gibieuf, do Oratório e braço direito do Cardeal de Bérulle, e sobretudo ao Padre Mersenne, da Ordem dos Mínimos, que viria a ser seu mais íntimo amigo e confidente.
1628 – Redação em latim das Regras para a Direção do Espírito, que só seriam publicadas em 1701.
Novembro de 1628 – A reputação de Descartes como filósofo começava a se espalhar quando ele fez um encontro decisivo: o do Cardeal de Bérulle, fundador do Oratório. Em uma reunião na casa do Núncio Bagno, em novembro de 1628, um homem expôs suas ideias sobre a reforma da filosofia com muita arrogância; sendo Descartes o único a não parecer impressionado, Bérulle pediu-lhe que se explicasse. Descartes logo demonstrou que a filosofia daquele homem "não valia mais que a escolástica" e que, por outro lado, era possível estabelecer na filosofia princípios mais claros e mais certos. Bérulle, muito impressionado, convidou Descartes para visitá-lo: após um diálogo profundo, o cardeal instou-o a executar seu projeto, impondo-lhe até uma obrigação de consciência de dedicar a isso os dons que Deus lhe dera. E Descartes resolveu seguir um conselho que se ajustava tão perfeitamente aos seus planos; pouco depois, partia para a Holanda, onde permaneceria vinte anos, até sua morte.
Outono de 1628 – Partida para a Holanda, onde ficará por mais de vinte anos, mudando de residência com frequência: 1629 Franeker, 1630 Amsterdã, 1632 Deventer, 1633 Amsterdã, 1635 Utrecht, 1636 Leyde, 1637 Santpoort, 1640 Leyde, 1641 Endegeest e, finalmente, 1644 Egmond, onde permaneceu até 1649.
1633 – Ao saber que Galileu acabara de ser condenado em junho de 1633, Descartes desiste de publicar seu Tratado do Mundo, escrito em francês e que só apareceria em 1664, assim como seu Tratado do Homem.
1635 – Nascimento de Francine, filha natural de Descartes com uma serva que estava a seu serviço.
Junho de 1637 – Publicação em Leyde do Discurso do Método, sem nome de autor, acompanhado de três ensaios científicos. Descartes teve de sustentar vivas polêmicas sobre suas teorias físicas e metafísicas com professores de Louvain e de outros lugares, nomeadamente Fermat e Roberval.
Novembro de 1639 – Março de 1640 – Uma vez livre dessas polêmicas, Descartes pensou em apresentar sob forma definitiva o pequeno tratado de metafísica esboçado em 1629. Redigiu-o durante o inverno de 1639/40 em Santpoort. Submeteu-o depois a diversos teólogos, nomeadamente Caterus, cônego de Haarlem e, por intermédio de Mersenne, aos doutores da Sorbona, de quem gostaria de obter aprovação. Mersenne transmitiu o livro aos filósofos mais proeminentes da época; assim, Descartes recebeu, junto com as objeções de Caterus, as de Hobbes, de Antoine Arnauld, de Gassendi e de um grupo de teólogos que se reuniam na casa de Mersenne.
Junho de 1640 – Morte de Francine, filha natural de Descartes.
Outubro de 1640 – Morte de Joachim, seu pai.
Janeiro de 1641 – Em uma carta de janeiro de 1641 sobre seu livro, Descartes explica-se muito claramente: "Provei mui expressamente que Deus é criador de todas as coisas... Estas são as coisas às quais desejo que se preste mais atenção. Mas penso ter colocado ali muitas outras coisas, e dir-vos-ei entre nós que estas seis meditações contêm todos os fundamentos da minha física. Mas não se deve dizer, por favor, pois aqueles que favorecem Aristóteles talvez fizessem mais dificuldade em aprová-las; e espero que aqueles que as lerem se acostumem insensivelmente aos meus princípios e lhes reconheçam a verdade antes de perceberem que eles destroem os de Aristóteles".
Agosto de 1641 – No entanto, a Sorbona ainda tardava em enviar sua aprovação, apesar das gestões incessantes dos padres do Oratório, entre os quais Descartes escolhera seu Diretor de consciência. Em agosto de 1641, ele decidiu publicar suas Meditações, precedidas de uma carta ao reitor e aos doutores da Sorbona (publicação em latim em Paris). A edição em francês, cuja tradução se deve ao duque de Luynes, apareceu apenas em 1647.
1641 – O Padre Bourdin, SJ, professor no colégio de Clermont em Paris, ataca a física e a metafísica de Descartes; este queixa-se em uma carta ao Pe. Dinet, seu antigo professor que se tornara Provincial da Companhia na França.
Dezembro de 1641 – Voetius, professor na Universidade de Utrecht, que combatia Descartes há vários anos, acusa-o publicamente de ateísmo.
Março de 1642 – A Universidade de Utrecht condena a nova filosofia (a de Descartes, embora ele não seja expressamente nomeado).
Maio de 1643 – Pela intervenção do embaixador do Rei da França, a polêmica se acalma.
1644 – Primeira viagem da Holanda à França.
Julho de 1644 – Publicação em Amsterdã, em latim, e na ausência de Descartes, dos Princípios da Filosofia. A tradução francesa, feita pelo Padre Picot, apareceu em Paris em 1647.
Junho de 1645 – A Universidade de Utrecht acaba por proibir qualquer pessoa de publicar a favor ou contra Descartes.
Inverno de 1645/1646 – Redação do Tratado das Paixões da Alma, a pedido da princesa Elizabeth.
Abril de 1647 – Descartes é acusado de pelagianismo por Regius, em Leyde. O embaixador da França intervém novamente em favor de Descartes.
Agosto de 1647 – A Universidade de Leyde proíbe que se fale a favor ou contra Descartes.
Verão de 1647 – Reconciliação, após desavença, com Hobbes e Gassendi.
Outono de 1647 – 2ª viagem da Holanda à França, durante a qual o Rei da França lhe concede uma pensão de 3000 libras e lhe propõe muitas outras vantagens caso viesse a se estabelecer na França.
Setembro de 1648 – A Universidade de Leyde nomeia um cartesiano como professor para uma cátedra vaga. Morte do Padre Mersenne, amigo de juventude de Descartes, que o conhecera no colégio de La Flèche (embora houvesse 8 anos de diferença entre eles) e de quem se tornara íntimo por volta de 1622. Durante a estada de Descartes na Holanda, ele foi seu correspondente e informador oficial. Redação do Tratado do Homem, que seria publicado apenas em 1664.
1648 – 3ª e última viagem da Holanda à França, coincidindo com o início da Fronda: decide retornar a Egmond e "ali deter-se até que o céu da França esteja mais sereno".
Fevereiro de 1649 – A rainha Cristina da Suécia convida Descartes para visitá-la.
Setembro de 1649 – Descartes parte para Estocolmo, onde se instala.
Novembro de 1649 – Publicação em Paris, em francês, do Tratado das Paixões da Alma.
11 de fevereiro de 1650 – Morte de Descartes em Estocolmo.
Algumas datas... post-mortem
1661 – O célebre Pe. de la Chaise, SJ, ensina a filosofia de Descartes no colégio da Trindade, em Lyon.
1663 – As obras de Descartes são postas no Index por Roma "donec corrigatur".
1664 – Primeiras publicações do Tratado do Mundo e do Tratado do Homem.
1665 – Artigo do Pe. Channerelle, SJ: "A doutrina cartesiana difere da doutrina aristotélica como a poesia da realidade, como a imaginação da inteligência."
1674 – O Pe. Lamy ensina Descartes em Angers. Artigo do Pe. de Valois, SJ: "Os sentimentos de Descartes opostos aos da Igreja e conformes aos de Calvino".
1690 – O Pe. Gabriel, SJ, constata que quase todas as obras de Filosofia escritas naquele momento são de inspiração cartesiana.
1696/1697 – A 14ª Congregação Geral da Companhia de Jesus, reunida em Roma, publica 30 proposições proscritas, contra Leibniz e Descartes.
1706 – O Padre André, SJ, no colégio de La Flèche, ensina Descartes e Malebranche — e seu curso é tão apreciado que se espalha rapidamente pelos principais colégios da Companhia.
1706 – O Journal de Trévoux, dos Padres Jesuítas, expõe a influência perniciosa da nova filosofia na formação religiosa dos jovens: a Inteligência é negligenciada e o ensino da religião baseia-se apenas na vontade.
1715 – A maioria dos professores da Companhia de Jesus ensina Descartes.
1730/1731 – A 16ª Congregação Geral da Companhia renova as mesmas advertências de 1697.
1732 – O Padre Geral, SJ, proscreve 10 proposições extraídas de Descartes.
Muitas outras datas e fatos seriam, sem dúvida, interessantes de assinalar; limitemo-nos a sublinhar dois pontos:
- Descartes estava muito consciente da heterodoxia de sua doutrina, bem como da duplicidade de que fazia prova para impô-la, e não temia testemunhar isso junto a alguns de seus correspondentes.
- As Ordens religiosas intelectuais não resistiram à penetração subversiva: os Oratorianos cederam de imediato já no primeiro terço do século XVII e tornaram-se cúmplices ativos de Descartes. Os Jesuítas resistiram um pouco melhor e, se uma parte da Companhia foi contaminada desde meados do século XVII, outra parte permaneceu lúcida contra o novo Idealismo. Infelizmente, no século XVIII, a Companhia passou para o inimigo na França, e restou apenas Roma para protestar... sem ser obedecida!
P. R.