Lição 13: A matéria, mesmo tal como a concebem os platônicos, não pode carecer de grandeza e ser o sujeito do crescimento
91. Acima [na lição anterior] o Filósofo mostrou que não é possível que o sujeito do crescimento seja algo que não tenha quantidade em ato, mas apenas em potência, como no caso da matéria. E, visto que alguns filósofos puseram a matéria dos corpos como algo matemático, o Filósofo mostra aqui que nada que careça de grandeza pode ser o sujeito do crescimento.
Ora, no gênero das coisas matemáticas, o ponto carece absolutamente de quantidade; a linha carece dela segundo as dimensões de largura e profundidade; a superfície, segundo a profundidade. O corpo, porém, tem grandeza em todas as dimensões: por isso é uma grandeza perfeita, como se diz no livro I Do Céu. Mostra, portanto, de três modos, que nenhuma das coisas carentes de grandeza, de qualquer maneira que seja, pode ser tomada como a matéria que é sujeito do crescimento.
Primeiro, pelas razões dadas acima. Por isso diz [92] que nem os pontos, que carecem inteiramente de tamanho, devem ser postos como matéria do corpo, isto é, como sujeito do crescimento, nem as linhas, que carecem de tamanho em algum aspecto. E isso pelas "mesmas razões", isto é, as razões apresentadas acima, pois os pontos e as linhas ou teriam de existir separadamente por si mesmos, ou estar em algum corpo. Por conseguinte, seguir-se-iam as mesmas coisas que antes.
92. Segundo [93], refuta isso pela própria posição dos platônicos, que afirmavam serem as coisas matemáticas a substância dos corpos naturais. E, como os pontos e as linhas são os termos das dimensões, assim como a forma é o termo da matéria, eles puseram que aquilo que fosse delimitado por coisas desse tipo seria a matéria dos corpos, ao passo que os próprios termos estariam mais na ordem da forma. E é isto que ele diz, a saber, que "aquilo", isto é, a dimensão ou grandeza, de que "estes", isto é, os pontos e as linhas, são os extremos, era a matéria segundo os platônicos.
93. Terceiro [94], mostra em comum que nenhuma destas coisas pode ser a matéria dos corpos: a saber, porque, segundo eles, as coisas matemáticas existem separadas das formas naturais e das paixões sensíveis; como são segundo o intelecto, assim são segundo a realidade. Mas a matéria não pode estar separada das formas naturais e das paixões sensíveis. Logo, é impossível que alguma daquelas coisas matemáticas seja a matéria dos corpos naturais.
Primeiro, portanto, apresenta o termo médio de seu argumento, quando diz que "ela", isto é, a matéria, não pode ser sem "paixão", isto é, qualidade passível, nem sem forma, ou "morphe" (o que é o mesmo), sem as quais, porém, segundo os platônicos, as coisas matemáticas existem.
94. Segundo, prova o que havia suposto: primeiro, que a matéria não pode ser sem forma; segundo, que não pode ser sem paixão, em 95.
Diz, portanto, primeiro [95], que, como foi determinado em outros livros, por exemplo, no livro I da Física, uma coisa é gerada absolutamente a partir de outras. Pois cada coisa vem a ser a partir de um sujeito, que é a matéria. Além disso, aquilo que é gerado deve ser gerado por algum agente em ato, que seja "homogêneo", isto é, de uma só forma ou espécie (e dá o exemplo de que o fogo é gerado pelo fogo, como por um agente da mesma espécie, e o homem pelo homem). Ou então se requer ao menos que algo seja gerado por algo existente em ato, ou pela ação de algo existente em ato, ainda que o agente não seja aparentado à coisa gerada em gênero ou espécie, como quando algo duro é gerado por algo não duro, por exemplo, quando o leite é solidificado pelo fogo.
Ora, acontece que o produzido não é aparentado ao agente quanto à forma, de um primeiro modo, porque a coisa produzida não corresponde ao agente primariamente e per se, mas per accidens, ou de modo consequente. Tem-se geração per accidens, por exemplo, quando o músico causa a saúde, não enquanto músico, mas enquanto médico, pois a semelhança da saúde não pertence ao músico enquanto músico, mas enquanto médico, que, mediante a forma da saúde que tem em sua mente, produz a saúde num corpo.
Tem-se geração "consequente", por exemplo, quando a qualidade produzida decorre de uma das qualidades primárias, como quando a saúde é causada por algum medicamento quente, mediante o calor que ele produz no corpo, embora a forma da saúde não esteja no próprio medicamento.
De um segundo modo, esta [ausência de semelhança] ocorre porque o agente age por meio de instrumentos. Com efeito, o instrumento não age em virtude de sua própria forma, mas enquanto é movido pelo agente principal, que age por meio de sua própria forma. Daí que o efeito seja aparentado em forma não ao instrumento, mas ao agente principal, como a casa que é produzida na matéria é assimilada à casa que está na mente do construtor, e não ao machado ou à machadinha, e como o homem que é gerado é assimilado em espécie ao pai que gera, e não ao sêmen.
Tem-se um terceiro modo, quando a matéria do paciente, por causa da excelência da forma do agente, não é proporcionada para recebê-la, mas recebe algo menor, como é evidente no caso dos animais gerados sem sêmen pela força do sol. Por isso também o efeito não é assimilado em espécie ao agente remoto, mas ao próximo, como o homem é assimilado ao homem, mas não ao sol, embora "o homem seja gerado pelo homem e também pelo sol", como se diz na Física II.
Ora, assim como cada coisa é gerada por um agente de algum modo semelhante quanto à forma, assim também algo é corrompido por um agente contrário. E, porque uma coisa é gerada a partir do que foi corrompido, como se disse acima, a matéria da qual algo é gerado e na qual algo é corrompido deve ter sempre alguma forma, pela qual seja semelhante ou contrária àquilo que gera ou corrompe.
95. Então [96] mostra que a matéria não é sem alguma paixão. Pois a matéria pertence apenas à substância corpórea, sendo as substâncias incorpóreas imateriais. Daí se segue que toda matéria pertence a um corpo "tal", isto é, a um corpo individual; pois não pode haver um corpo comum que não esteja determinado a alguma espécie e a algum indivíduo. Mas todo corpo tal deve ter alguma paixão, seja seguindo-se à sua forma específica, como no caso de uma paixão própria, seja ocorrendo de qualquer outro modo, como no caso dos acidentes individuais. Portanto, a mesma matéria que é sujeito da grandeza deve ser também sujeito da paixão, de tal modo, porém, que a matéria que é sujeito da grandeza se distingue conceitualmente da paixão (como a noção de "homem" difere da de "branco"), ao passo que não se distinguem "localmente", isto é, quanto ao sujeito, a menos que se sustentasse que as paixões são separáveis das substâncias, o que é impossível.
E, como o Filósofo parecia ter se afastado um pouco de seu propósito, recolhe-o de tudo o que precede e diz que é claro, por tudo o que foi investigado, que o crescimento não é uma mudança produzida a partir de algo que esteja em potência à grandeza, de tal modo que não tenha grandeza em ato. Pois seguir-se-ia que o sujeito comum, a saber, a matéria prima, existiria separado per se, sem forma alguma. E isso foi provado impossível tanto agora quanto antes, em outros livros, como, por exemplo, no livro I da Física.
96. Então [97] mostra seu propósito com um argumento baseado no crescimento. E diz que tal mudança, isto é, uma que fosse produzida a partir daquilo que estivesse apenas em potência à grandeza, não pertenceria propriamente ao crescimento, mas antes à geração. Pois é da própria natureza do crescimento que se faça uma adição a uma grandeza preexistente: com efeito, diz-se que uma coisa cresce porque adquire maior grandeza, o que não seria o caso se ela não tivesse antes grandeza. Por outro lado, é da natureza da diminuição que ocorra um decréscimo de uma grandeza preexistente. Logo, é claro que o que cresce deve ter alguma grandeza. Consequentemente, quando se dá o crescimento, não pode ser de tal modo que a matéria, tendo antes nenhuma grandeza em ato, chegue agora a ter grandeza em ato, pois isso seria não crescimento de um corpo, mas geração, a cuja noção pertence que se produza em ato algo que antes estava em potência.