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TESTEMUNHO SOBRE AS ORIGENS DO CENTRO DE PASTORAL LITÚRGICA

Um artigo publicado no Boletim nº 4 analisou o testemunho de um beneditino alemão sobre a situação do movimento litúrgico na Alemanha e na Itália por volta da Primeira Guerra Mundial, durante o primeiro quartil do século XX.

Seguindo o mesmo procedimento, apresentamos hoje outro testemunho proveniente, desta vez, de um religioso francês, e que se refere ao período da Segunda Guerra Mundial; outra diferença importante reside no fato de o autor não ser mais um espectador mais ou menos marginal, mas um dos próprios protagonistas da operação durante o segundo quartil do século XX.

O R. P. [Reverendo Padre] Pie DUPLOYÉ, O. P., foi, de fato, o fundador do Centro de Pastoral Litúrgica (C.P.L.), cujos primeiros passos relatou em um livro intitulado: As Origens do C.P.L. — 1943/1949, escrito em 1967 e publicado em 1968 pelas Edições Salvator. As citações abaixo foram extraídas desta obra, que pode ser adquirida em livrarias e que contém, aliás, páginas muito belas. (1)

O Centro de Pastoral Litúrgica, que se tornou posteriormente Centro Nacional quando foi plenamente oficializado, nasceu no viveiro dominicano. Após uma longa preparação doutrinária, especialmente no seio da ordem beneditina, na Bélgica e na Alemanha, a revolução litúrgica recrutou seus homens na França dentro da Ordem Dominicana e, para compreendê-lo, é preciso levar em conta o ambiente da época.

Após a crise de 1926, os elementos tradicionais dentro da ordem foram reduzidos ao silêncio, enquanto um homem de grande talento, o P. CHENU, pôde apoderar-se livremente das mentes dos jovens frades, particularmente numerosos naquele momento, para lhes instilar seu vírus progressista: desta forma, por volta do ano de 1935, formou-se todo um meio humano onde se recrutaram as equipes necessárias para as operações de desvio.

A principal dessas operações, que serviu de suporte às outras, foi a criação das Éditions du Cerf em Juvisy, pelo P. BERNADOT; ali nasceria o semanário progressista Sept (2) e seu sucessor Temps Présent (3). Sobre esta origem humana e doutrinária, o P. Duployé não faz mais mistério ao escrever:

"Mas, enfim, foi no próprio Paris, desde 1935, que se ligou o 'Querigma' às 'ágapes'. A esses amigos que se questionavam em uma Paris deserta e faminta, e dos quais vários viriam a perecer na deportação, propor-se-ia novamente a atividade que os havia reunido por ocasião da fundação da Sept: a propaganda de um jornal." (páginas 262-283). (4)

O autor especifica, além disso, que se tratava de um plano de conjunto, cujos fios eram todos puxados pela mesma mão:

"O trabalho comumente designado pelo nome de movimento litúrgico não é um fenômeno isolado na vida da Igreja contemporânea. É apenas um dos aspectos desse questionamento geral, benfazejo, e que desejamos cada vez mais drástico, ao termo do qual as coisas e as palavras cristãs reencontrarão seu sentido. Nesta perspectiva, é altamente significativo que o CPL tenha nascido nas Éditions du Cerf." (página 332)

"A este respeito, o movimento litúrgico é estreitamente solidário ao trabalho de purificação e de educação empreendido com uma coragem admirável por meus irmãos e amigos, os Padres Couturier e Régamey, no domínio da arte sacra." (página 333)

O verdadeiro arranque do CPL ocorreu em 1941, por iniciativa do P. Maydieu, e consistiu em um álbum litúrgico coproduzido em ligação com as Éditions du Temps Présent e a J.A.C. [Juventude Agrária Católica]. Em junho de 1941, o P. Boisselot, diretor das Éditions du Cerf, lançava também o periódico Fêtes et Saisons, que publicou desde então tantas e tantas enormidades. Este era apenas um primeiro passo, e o P. Duployé prossegue:

"As Éditions du Cerf e as Éditions du Temps Présent estão decididas a prosseguir mais vigorosamente do que nunca o esforço que iniciaram com... Fêtes et Saisons. Cinco álbuns apareceram em um ano, constituindo um verdadeiro ano litúrgico ao alcance de todos... Fêtes et Saisons... 'um verdadeiro ano litúrgico'... quase chegamos lá." (página 283)

O P. Duployé mostra aqui a ponta da orelha: tratava-se de fingir estar no prolongamento de Dom Guéranger, mas para realizar algo totalmente diferente e para ir a outro lugar; eis um bom exemplo desse deslizamento sutil que se reencontra a cada passo na questão litúrgica.

Em 1942, as Éditions de l'Abeille, em Lyon, na zona livre, lançavam La Clarté-Dieu, revista na mesma linha ideológica e oriunda dos mesmos meios, sendo as mudanças de rótulo apenas uma consequência das condições políticas de então. Ainda na zona livre, o P. Duployé associou-se ao P. Roguet, cujos últimos anos antes da guerra haviam sido dedicados à liturgia radiofônica:

"O P. Roguet, por sua vez, havia lançado, em um setor de trabalho totalmente diferente, as bases de um verdadeiro movimento litúrgico antes mesmo do nome... O exílio de 1941, em Lyon e Marselha, aproximou-nos ainda mais. O P. Roguet começava então a tradução das obras magistrais de Dom Vonier que iriam, também elas, ter uma influência decisiva." (página 285)

Todos esses encontros, todo esse trabalho preparatório, fizeram com que, quando o projeto do CPL veio a público, ele não constituísse uma simples petição de princípios; aparecia, ao contrário, como a conclusão lógica de um longo esforço e podia, portanto, parecer natural:

"Com a 'homilia' reencontrada e o 'ano litúrgico em imagens', tínhamos agora que apresentar aos católicos franceses algo mais do que planos ou críticas. Um trabalho fora realizado que iniciava agora uma reflexão sistemática. Tudo estava pronto para a convocação de 20 de maio de 1943 nas Éditions du Cerf." (página 286).

Esta reunião de fundação ocorreu na primavera de 1943 na sede das Éditions du Cerf e reuniu cerca de quarenta participantes, entre os quais o padre Martimort, de Toulouse (futuro chefe do CPL), sendo os três relatores os dominicanos Roguet e Lajeunie e o beneditino de Ligugé, Dom Debar.

Um panfleto anunciando essa criação foi enviado em seguida para toda a Europa e, entre as numerosas adesões recebidas, deve-se notar a da abadia de Maria-Laach, há muito tempo foco de inovações litúrgicas e de onde provinha Dom Winzen, herói involuntário de nosso artigo litúrgico anterior.

Depois, os contatos multiplicaram-se durante o restante do ano de 1943 e pôde-se passar ao estágio seguinte no início do ano de 1944:

"Nos dias 26, 27 e 28 de janeiro de 1944, decidiu-se convocar, a portas fechadas, uma primeira reunião de trabalho. Escolheu-se para isso o ambiente do mosteiro das beneditinas de Vanves... No início da sessão, foram projetados os filmes do Padre Aupiais: as cerimônias fetichistas e as danças sagradas dos negros do Daomé. Abria-se assim, de forma muito ampla, a visão inicial de nossa comunidade de trabalho."

Oh! E tanto! E pensar que ainda existem pessoas que se surpreendem com o ponto a que chegou a liturgia atual!

Em outubro de 1944, é criada, nas Éditions du Cerf, a coleção "Lex Orandi", dedicada a estudos doutrinários em relação à liturgia: ela publicaria um grande número de obras, algumas excelentes, cujo conhecimento é indispensável para quem deseja se debruçar sobre a questão litúrgica.

Em janeiro de 1945, um novo colóquio em Vanves foi dedicado à pastoral litúrgica do Batismo.

Em março de 1945, o P. Chenu enviava ao CPL um satisfecit [atestado de aprovação] dos mais eloquentes: "É verdade que amo o que estais fazendo; como dizeis, o P. Congar e eu mesmo reconhecemos e reconheceremos os belos frutos amadurecidos sobre os rebentos selvagens que cresceram com petulância por volta de 1935". A confissão é de peso e jamais deve ser esquecida.

Em julho, uma equipe reduzida reuniu-se na Abadia de Ligugé, sob a proteção do Padre, Dom Passet, para preparar a continuação das operações. E, em setembro de 1945, o primeiro congresso do CPL ocorreu em St. Flour, graças ao apoio do bispo do local, Dom Pinson, e também graças ao cardeal Gerlier, que fez um discurso de encerramento muito elogioso.

Em abril/maio de 1946, as terceiras jornadas organizadas em Vanves, e dirigidas desta vez pelo padre Martimort, cuja influência era crescente, trataram da Missa e de sua catequese.

Em julho de 1946, a equipe diretiva reuniu-se pela segunda vez em Ligugé, e o P. Duployé apresentou um relatório sobre as primeiras atividades do CPL; trata-se de um texto muito importante, pois resume bem a ação e o pensamento do movimento naquele momento, bem como suas fontes; o autor destaca primeiramente a importância desse encontro nestes termos:

"Agradeço a Deus convosco por ter nos proporcionado, neste mosteiro tão amável, uma ocasião de vivermos juntos e, juntos, assumirmos responsabilidades que não é demasiado ambicioso, dado o que somos, dizer agora que elas empenham a responsabilidade da renovação litúrgica na França. E que uma primeira resolução saia deste encontro. Apeguemo-nos desesperadamente, nos anos que virão, a esta semana de Ligugé. Nela, tomamos decisões que comandam tudo." (página 307)

Em seguida, ele comenta a ampliação das relações do movimento:

"Este aprofundamento concretizou-se para nós, e especialmente para mim mesmo, no encontro com o pensamento litúrgico alemão. Não posso dizer o quanto devo ao padre Rauch e à descoberta do livro monumental de Karl Borgman. Temos poucas coisas a inventar na França; temos, primeiramente, que fazer o inventário da pastoral litúrgica alemã. A ligação estreita com nossos amigos da Alsácia, ao nos colocar em contato direto com essa experiência e ao decantá-la, poupa-nos dez anos de trabalho e tateios. Também estabelecemos contatos com representantes de diferentes Igrejas cristãs. Dom Beauduin ensinou-nos para sempre a não dissociar ecumenismo e liturgia." (página 308).

E para mostrar bem qual era sua convicção, escreve em outra passagem a propósito de suas relações germânicas:

"Nossos detratores, naquele tempo, chamavam-nos, na Alemanha e na Alsácia... de os maníacos litúrgicos, e é verdade, éramos uma seita, mas tínhamos a verdade conosco. Vê-se isso hoje." (página 62)

Vários elementos aparecem aqui: primeiro, a influência alemã, a do movimento litúrgico que já contava então com várias décadas de existência, e também, por trás, a de sua nova eclesiologia; depois, como consequência lógica, a referência ecumênica, tendo como avalista Dom Lambert Beauduin, o beneditino belga.

Doravante, ecumenismo e revolução litúrgica caminharão de mãos dadas: a liturgia será concebida em vista dos "irmãos separados" para que um dia, trinta anos mais tarde, os senhores de Taizé pudessem declarar não ver obstáculo à celebração do Novus Ordo montiniano. O P. Duployé tem razão: a questão litúrgica é uma só com as demais e não pode delas ser separada.

Esta convergência é uma das dobradiças do desenvolvimento subversivo, e outros artigos voltarão futuramente à questão ecumênica que, na mesma época, por volta de 1935, tomara um rumo decisivo após um longo período de estagnação.

Continuando sua análise, o P. Duployé chega aos resultados concretos desse ano de 1946: além do congresso de St. Flour, que permitiu estabelecer oficialmente o CPL aos olhos do clero francês, ele cita inúmeros contatos com os seminários, especialmente o da Missão da França (5), e a criação, no convento dominicano de Saulchoir, de um ensino litúrgico confiado ao P. Roguet:

"Assinalo a constituição espontânea de um grupo de estudos litúrgicos entre os jovens estudantes de Saulchoir, grupo particularmente fervoroso onde devemos encontrar os operários de amanhã." (página 309)

Esse ano de 1946 viu também a realização das primeiras sessões regionais, ancestrais das futuras "reciclagens": a de Rodez, que reuniu 120 padres, acolhendo o padre Marty, prometido, talvez por causa disso, a um alto futuro.

Como se vê, o CPL trabalhou rápido e, em três anos de existência, avançou consideravelmente: essa velocidade corria o risco de ser perigosa, e o P. Duployé estava bem consciente disso; em seu relatório, ele é levado a acumular reflexões de prudência cuja formulação vale, por si só, seu peso em ouro:

"Os riscos existem e são temíveis... Constituímos uma ponta avançada do clero francês. Não falamos a mesma língua que a maioria dos párocos e, se a maior parte do episcopado acompanha nosso esforço com simpatia, não devemos esconder de nós mesmos que essa simpatia, da qual não duvido nem da sinceridade nem da eficácia, pode muito bem coincidir com uma ignorância quase total dos princípios que nos guiam." (página 310)

A confissão é suficientemente enorme para que se precise recuperar o fôlego, mas é sobretudo interessante por nos permitir captar, num momento preciso — julho de 1946 —, as forças presentes: uma rede ativista de qualidade, alguns bispos cúmplices e uma maioria do episcopado demasiado ignorante dessas questões para ter uma opinião pessoal e para permanecer lúcida diante da manobra.

Sem dúvida, também é preciso lembrar que os tempos eram ruins, um tanto tempestuosos, e que muitos bispos pensavam sobretudo em não serem notados: tanto mais que os membros do CPL encontravam-se em harmonia com os donos do poder da época, circunstância que deve ter pesado ali como em muitos outros domínios.

Mas e quanto a Roma? Como de costume, as tendências ali eram diversas; decerto, o pontífice reinante, Pio XII, era de espírito tradicional, mas, abaixo dele, nos diversos escalões, o pessoal era muito heterogêneo, como já vimos suficientemente no artigo sobre Dom Winzen (6): de sorte que as reticências romanas nunca se tornaram advertências francas, muito menos intimações cortantes.

No ano seguinte, em 1947, o Papa publicaria uma Encíclica, Mediator Dei, para recordar os princípios diretores em matéria litúrgica. Ao tomar o cuidado de deslizar por entre os parágrafos sabiamente equilibrados deste texto — tão sabiamente que às vezes dão a impressão de se anularem —, distingue-se algo como uma inquietação no pensamento pontifício que mostra que Pio XII estava bem a par da ação do CPL. Conhecia ele também as intenções profundas, os fundamentos, como esse relatório de Ligugé? Se sim, por que não foi mais claro, mais diretivo? Ou será que sabia que já era tarde demais e que não seria obedecido, como se constataria em 1958, no momento de sua morte?

Todas essas perguntas podem legitimamente ser feitas quando se vê que o Papa não se opôs realmente à empreitada do CPL e que, ao contrário, sua encíclica serviu, de fato, para avalizá-la aos olhos da opinião pública — não certamente por causa de seu conteúdo real, que era excelente, mas pelo simples fato de agitar a questão litúrgica no momento em que uma formidável equipe ocupava-se, concretamente e à sua maneira, de mudar o seu sentido.

Citemos apenas algumas linhas da encíclica "Mediator Dei" que dão uma pequena ideia do problema:

"Embora este apostolado litúrgico nos traga um grande conforto por causa dos frutos salutares que dele provêm, a consciência do nosso cargo impõe-nos, contudo, acompanhar com atenção esta renovação tal como é apresentada por alguns e zelar cuidadosamente para que as iniciativas não ultrapassem a justa medida nem caiam em verdadeiros excessos.

Ora, se, por um lado, constatamos com dor que em alguns países o conhecimento e o gosto pela sagrada liturgia são por vezes insuficientes e até quase inexistentes, por outro lado, notamos — não sem preocupação e sem receio — que alguns são demasiado ávidos de novidades e se extraviam fora dos caminhos da sagrada doutrina e da prudência. Pois, ao quererem renovar a sagrada liturgia, frequentemente fazem intervir princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta causa sagrada, e por vezes até a mancham com erros que atingem a fé católica.

... que os inertes e os tíbios não creiam, todavia, ter a nossa aprovação porque repreendemos os que se enganam ou porque refreamos os audazes; mas que os imprudentes não se imaginem cobertos de louvores pelo fato de corrigirmos os negligentes e os preguiçosos."

Retomemos o texto do P. Duployé, que desenvolve os riscos de uma ação rápida, em circuito fechado, cortada da base (dir-se-ia em linguagem marxista):

"... Entre esta ponta avançada e o grosso do clero francês, devemos, segundo uma tática que foi muito bem valorizada pelo P. Doncoeur (7), zelar para não permitir que se criem intervalos... Os intervalos temidos ocorrerão se não procedermos a uma dispensação econômica e pedagógica da verdade descoberta por nós... Devemos saber calar-nos e saber esperar... Em Ligugé ou em Vanves, trata-se apenas de uma etapa de nosso trabalho... Mas seria terrivelmente perigoso e seria simplesmente estúpido lançar tais aporias à cabeça do clero francês. Só podemos, publicamente, levar-lhe o pão bem assado... Desde o início do nosso esforço, falamos de evolução e adaptação litúrgicas. Pergunto-me às vezes se não somos vítimas dessas palavras." (página 311)

"Estamos em uma máquina lançada a grande velocidade. Seremos ainda capazes de conduzi-la? Confesso-vos, para terminar, meu cansaço e meus receios." (página 312)

É certo que, desde aquele momento, problemas se colocavam aos promotores do movimento, surpresos pela própria amplitude de seu sucesso; na verdade, eles colhiam então os frutos do profundo trabalho de preparação das mentalidades realizado nomeadamente pelo movimento escoteiro e pela Ação Católica há cerca de vinte anos.

Os primeiros pioneiros revelam-se insuficientes em número e divergências inevitáveis vêm à tona: o resultado é que o CPL mudará de estatuto para tornar-se autônomo em relação às Éditions du Cerf, em 1º de julho de 1946.

Esta mudança coincide com a influência crescente do padre Martimort no seio do CPL e, talvez, com uma certa radicalização das teses em nível prático, como deixa entender o P. Duployé:

"Nossa sessão de Ligugé foi dedicada à elaboração de um importante memorial sobre a natureza e os objetivos do CPL, do qual o Sr. Martimort era o autor, e que deveria receber a adesão imediata de sua Excelência Dom Feltin, arcebispo de Bordéus. Este memorial não foi publicado; constituía uma admirável carta do que se poderia realmente chamar de a segunda formação do CPL". (página 313)

Após esta reunião de Ligugé e as mudanças de estrutura que ocorreram durante o verão de 1946 — portanto, após três anos de existência oficial —, o CPL estendeu ainda mais o círculo de suas influências e, em setembro de 1946, uma sessão ocorreu em Thieulin, perto de Chartres, reunindo quarenta superiores e diretores de seminários, sob a presidência de Dom Barsouët, bispo do local (e habitualmente melhor inspirado). As exposições foram feitas pelo padre Perrot, diretor do Seminário da Missão da França, Dom Lambert Beauduin, o R.P. Régamey, da Art Sacré, o padre Martimort, o R.P. Duployé, o R.P. Féret do Saulchoir e o R.P. Congar: em suma, as principais cabeças do movimento.

Um detalhe bastará para dar o espírito desta reunião onde foram "reciclados" os mestres da formação do clero francês:

"Alguns dias antes da reunião de Thieulin, recebi a visita de um lazarista italiano que me pedira para ser convidado, o P. Bugnini. O Padre escutou muito atentamente, sem dizer uma palavra, durante quatro dias. Quando voltávamos para Paris, e o trem passava à altura do espelho d'água dos Suíços, em Versalhes, ele me disse: 'Admiro o que fazeis, mas o maior serviço que vos posso prestar é nunca dizer em Roma uma palavra de tudo o que acabo de ouvir'. Para o maior bem do Concílio Vaticano II, do qual foi um dos mais inteligentes operários, o P. Bugnini não deveria, felizmente, manter sua palavra". (página 31, em nota)

Para apreciar todo o sarcasmo desta observação, é bom lembrar que este texto foi redigido em 1967, e que o Bugnini em questão é o "pai da nova Missa"...

No outono de 1947, ocorreu em Lyon, com o apoio do cardeal Gerlier, o terceiro congresso do CPL, cujo trabalho acentuou seu caráter oficial e pôde, por esse fato, difundir-se com ainda mais autoridade em um grande número de dioceses.

Em 1948, instaurou-se uma colaboração concreta entre o CPL francês e os organismos alemães similares, o Comitê Litúrgico de Fulda e o Secretariado Litúrgico de Tréveris, marcando esta aliança, nos fatos, a forte influência doutrinária da Abadia de Maria-Laach sobre o CPL. Mais uma vez, o P. Duployé nos presta o serviço de uma citação das mais reveladoras, que confirma o fato de que esses senhores sabiam perfeitamente o que estavam fazendo:

"Não deixarei a Renânia sem ter evocado um encontro que, este sim, seria mais decisivo que todos os outros porque, a longo prazo, inscreveria a história do CPL na história da Igreja e do Concílio Vaticano II. Em julho de 1948, fôramos, o P. Doncoeur e eu mesmo, a uma sessão de estudos organizada por Maria-Laach... Terminada a sessão, ele não parecia mais apressado do que o razoável para retornar à sua 'jesuítagem' da rua Monsieur, e aceitou de olhos fechados o convite para irmos a Tréveris, feito por dois padres que também haviam participado da sessão: eram Johannes Wagner, secretário do Liturgisches Institut de Tréveris, e o professor Balthasar Fischer. Trocamos nossas impressões e nossas ideias sobre o futuro do movimento litúrgico e sentíamo-nos incrivelmente felizes por estarmos os quatro juntos e por querermos exatamente as mesmas coisas.

De repente, disse a Fischer, dando-lhe um vigoroso encontrão: 'Sabe, poderíamos fazer muitas coisas juntos e, se soubessem em Roma que Paris e Tréveris marcham juntas, a hegemonia da Congregação dos Ritos estaria acabada'. Olhamo-nos os quatro em silêncio, como que espantados com a enormidade da pretensão, e para ver se ninguém nos ouvira no corredor do vagão. Eu tinha, porém, a certeza de que meus dois interlocutores alemães, que — como se diz entre nós — haviam esquecido de ser estúpidos, tinham compreendido muito bem para onde aquele trem nos levaria doravante"... (página 31)

Para mostrar bem que não se trata de uma simples bravata, e que tudo isso se concretizou, o P. Duployé escreve em outra parte:

"Os movimentos litúrgicos estão cada vez mais coordenados: seus historiadores, seus teólogos, seus pastores estão a postos. Para nos limitarmos à liturgia da missa, pode-se, desde já, prever todo um conjunto de reformas possíveis, em torno do qual um lento trabalho de opinião criará cada vez mais unanimidade. Virá um dia em que não haverá mais movimento litúrgico porque os cristãos terão sido conduzidos para onde desejavam os promotores do movimento litúrgico. Virá um dia em que não haverá mais reformas possíveis porque tudo terá sido reformado". (página 281)

Não deixa de ser interessante notar que estas linhas foram escritas em 1967 e extraídas de um parágrafo intitulado: "após as reformas, tudo começa"...

Ao fazermos alusão à atitude do Papa, duas páginas acima, perguntávamo-nos o que Roma sabia: a observação de Bugnini e a de Duployé incitar-nos-iam prontamente a pensar que Roma via apenas as aparências — algumas boas e outras menos, daí os termos da encíclica Mediator Dei —, mas não possuía uma percepção suficiente das raízes reais da empreitada litúrgica, isto é, das ideias e das relações de seus promotores. Ora, estes começavam então, em 1948, a cobrir a Europa com uma rede semelhante à que haviam montado na França há dez anos; e foi esta rede que, desenvolvida durante os dez anos seguintes, até 1958, prepararia e depois imporia a nova liturgia conciliar e pós-conciliar.

Esta observação não pretende de modo algum encerrar o debate de forma definitiva, pois esta questão do "saber" e do "poder" da Roma de Pio XII face à Revolução ascendente não é exclusiva do domínio litúrgico; ela se impõe, pelo contrário, em relação a toda a evolução da Igreja moderna: o que significa, aliás, que ela não concerne apenas ao período "1938-1958", mas que deveria ser estendida a pelo menos boa parte do século XIX. Não há tempo separado, nem domínio separado; todas as questões se influenciam e se entrelaçam na sobreposição das épocas.

Para confirmar este propósito, encerraremos esta série de citações do P. Duployé com algumas linhas onde o autor recorda as fontes onde se saciou o espírito da Revolução litúrgica:

"Conceder-se-á uma importância especial, a este respeito, aos movimentos literários, mesmo os aberrantes ou francamente heterodoxos, que devolveram ao homem o sentido do mistério natural das coisas: o romantismo alemão, o segundo romantismo francês, o simbolismo, o surrealismo. Este apelo exclusivo à literatura, que trai as preocupações do autor, não deveria fazer esquecer os apelos semelhantes feitos à música, à pintura, ao cinema"... (página 382)

Esta conclusão é interessante por vários motivos; destacaremos apenas dois, podendo cada um fornecer matéria para outro artigo:

O primeiro é que esses neoliturgistas foram formados, ao menos parcialmente, pelo espiritualismo revolucionário, o espiritualismo anticristão, do qual os diversos movimentos indicados acima não são senão as múltiplas facetas. É, no mínimo, constrangedor...

O segundo é que esses movimentos puderam ocupar, e ocuparam efetivamente, junto a uma parte da elite, um lugar que estava vago. Segundo a expressão de Duployé, "devolveram ao homem o sentido do mistério natural das coisas": obviamente, não há nada disso na realidade, mas, como de costume nas investidas do demônio, há uma certa aparência disso, uma aparência que camufla um desvio.

O racionalismo surgido no século XV e que culminou no século XVIII, completado e reforçado pelo materialismo do século XIX, não podia satisfazer um grande número de almas nas quais um resto de sentimento religioso se acomodava mal ao quadro estreito e seco do pensamento moderno. Toda a história do século XIX é, entre outras, a da reconquista desta dimensão para além do homem que se costuma chamar de "o Sagrado": a infelicidade é que a expressão é ambígua, designando duas coisas diferentes e, por fim, opostas, o que era o próprio objetivo do Demônio.

Para compreendê-lo bem, é preciso conhecer as correntes de pensamento às quais se faz alusão aqui, e conhecê-las de outra forma que não por algumas referências de manual de literatura, mais apegado à palha das fórmulas do que ao grão das doutrinas.

Por exemplo, tratando-se do Romantismo, seja ele alemão ou francês, é preciso estar familiarizado com o fundo demoníaco, satânico ou luciferiano, conforme o caso; e, quanto ao Surrealismo, como esquecer, além do anticristianismo visceral de seus fundadores, o apelo que faziam ao delírio coletivo, à hipnose e à droga, dos quais foram os primeiros arautos na Europa entre 1920 e 1940?

Há ali toda uma atitude à qual já fizemos alusão em um artigo anterior (8), um neoespiritualismo antirracionalista, mas também anticristão, que se afirmou nas diversas disciplinas: literatura, pintura, filosofia, etc.; e assistimos atualmente a um fenômeno semelhante, que é, aliás, seu prolongamento, com o "retorno à natureza", quer se trate da alimentação, do Yoga ou do regionalismo.

Sim, o P. Duployé tem, mais uma vez, toda a razão: é impossível compreender as engrenagens do movimento litúrgico que conduziu à Revolução conciliar se não se tiver, ao menos, uma certa noção do movimento das ideias durante o período que vai de 1830 a 1930.

Eis trabalho em perspectiva.

P. R.


(1) Estas citações já foram publicadas, há cinco anos, pelo autor deste artigo, em um estudo intitulado "Liturgia e qualidade na Defesa da Tradição católica": sua pequena tiragem e sua densidade atual fazem com que a maioria de nossos leitores não tenha tido conhecimento delas, justificando, assim, a retomada destes extratos.

(2) Cf. a obra publicada em 1961 na coleção Rencontres das Éditions du Cerf: "Uma corrente do pensamento católico, o semanário Sept (março de 1934 – agosto de 1937)". Este estudo de Aline Coutrot, prefaciado por René Rémond, que foi seu inspirador, é uma tese de doutorado realizada no âmbito da Fundação Nacional de Ciências Políticas: apresenta o duplo interesse de ter sido feita por alguém favorável às teses do Sept e que não teme expor as tendências mais litigiosas. Este livro é, por si só, um excelente testemunho sobre o pensamento e a mentalidade progressista do pré-guerra.

(3) Durante sua curta carreira, o Sept destacou-se por um filomarxismo constante, especialmente no que diz respeito à guerra espanhola e à Frente Popular, e por seus ataques virulentos contra a Igreja e a Hierarquia, sobretudo romana. Como seus oito principais redatores eram religiosos dominicanos, o escândalo levou ao desaparecimento do jornal em agosto de 1937. Mas, apenas dois meses depois, foi-lhe dado um sucessor, o Temps Présent, onde já não aparecia o rótulo dominicano, mas cuja inspiração profunda permanecia inalterada: a permanência do mesmo secretário de redação, Joseph Folliet, basta para demonstrá-lo, assim como a seguinte afirmação de François Mauriac, autor do primeiro editorial do novo periódico: "Corte uma árvore viva, o tronco se encherá de brotos. Com o Sept desaparecido em plena vida, o Temps Présent nasce inflado com a mesma seiva".

(4) Todas as citações feitas em itálico e cuja página está indicada entre parênteses foram extraídas da mesma obra: a do P. Duployé, indicada na introdução deste artigo.

(5) A criação da Missão da França, na mesma época, durante a guerra, em 1943, foi uma operação semelhante, tanto por suas raízes quanto por seu projeto, à do CPL; este organismo, que foi um poderoso catalisador da Revolução na Igreja da França, será objeto de um estudo posterior.

(6) Cf. "Testemunho sobre as origens da revolução litúrgica", publicado no Boletim nº 4.

(7) O P. Doncoeur, SJ, é conhecido sobretudo como um dos mestres do Escotismo. Muitas pessoas muito distantes do progressismo têm por este religioso e por este movimento uma grande admiração e gratidão. Isso é um fato que não pode ser apagado, mas não se pode negar igualmente que tanto um quanto o outro se encontram na origem de organismos heterodoxos como o CPL ou o Vie Nouvelle; essa mistura, precisamente, de elementos contraditórios é uma das chaves do problema: dizíamo-lo no artigo sobre Dom Winzen, e repetimo-lo aqui, pois nunca se enfatizará o suficiente.

O livro do P. Duployé, sempre precioso, traz-nos duas informações que, sem esgotar o assunto, o esclarecem o suficiente para que não reste dúvida; num primeiro texto, vemos o P. Doncoeur como um neoliturgista antes do tempo e, no segundo, assistimos à conexão deste neoliturgismo com os movimentos de juventude: a referência é, aliás, extremamente rica e mereceria um artigo inteiro para aprofundar essas origens distantes:

"... nas Études de 20 de fevereiro de 1938... a missa ideal que ele ali descreve é exatamente aquela que se pode viver hoje, em 1961, em St-Séverin, em St-Sulpice e em tantas outras igrejas. Ela já não nos surpreende. Mas este texto foi escrito em 1938. Ora, naquele momento, qual era o estado litúrgico nas grandes igrejas de Paris? O homem que escreveu esta página, nesta data, bem mereceu do futuro Concílio, é o mínimo que se pode dizer..." (página 341)

"Foi em setembro de 1923 que o P. Doncoeur subiu a grande escadaria de pedra que leva ao Burg de Rothenfels... Guardini acabara de ali reunir os silesianos, fundadores do Quickborn... Mas, em minha opinião, ele recebeu de Rothenfels muito mais do que uma indicação litúrgica. A história de Rothenfels... é a história de uma geração e — não tenhamos medo da palavra — de uma revolução... Para o tema que nos ocupa, ele compreendeu em Rothenfels que a causa do movimento litúrgico estava doravante ligada à de um movimento de juventude... No entanto, essa foi a sua intuição básica e, sem a Route dos Scouts de France, que lhe forneceu um terreno de experimentação apropriado ao seu gênio, ele não teria sido o criador litúrgico que foi." (página 338)

(8) "Cristianismo e Revolução, primeiras abordagens", no Boletim nº 3.