PRECURSORES ESQUECIDOS
Nesta galeria de precursores iniciada na última edição, conhecemos Adolphe Retté. Continuemos com este autor que, após "Le Sillon" [O Sulco], introduz-nos no mundo dos "Liberais", do qual nos mostra as diversas variantes.
QUANDO UM NOVO CONVERTIDO OBSERVA OS "LIBERAIS"
Um artigo anterior expôs em que circunstâncias o poeta Adolphe Retté, vindo "Do Diabo a Deus", encontrou o Sillon e Marc Sangnier, e reproduziu o julgamento que, com conhecimento de causa, ele fazia sobre esse movimento.
Hoje, ele vai descobrir os "Liberais".
Ao ingressar no Catolicismo, Coppée, Huysmans e Dumont o alertaram: "Você verá o que são os liberais!..." Durante os vinte anos que se seguiram à sua conversão, Adolphe Retté pôde, efetivamente, constatar e deplorar o comportamento deles.
"Eu preferiria não ter de criticar irmãos na fé que, apesar de sua aberração democrática, são quase sempre irrepreensíveis quanto à submissão aos dogmas.
Mas isso não é possível. Tive demasiadas ocasiões de observar a forma como os liberais pactuam com o regime, essencialmente anticristão, que, desde 1789, caminha contra a tradição francesa. Constatei, repetidas vezes, quanta hospitalidade dissimulada eles demonstravam para com todos aqueles que não partilham do seu erro político e que reprovam as alianças às quais eles se deixam levar". (1)
Adolphe Retté adota a definição dada por Paul Bourget:
"Um católico liberal é um católico que gosta muito dos liberais e muito pouco dos católicos. Ah! Que estranha distorção da consciência! Ela consiste em servir sob a sua própria bandeira detestando e criticando as pessoas que servem sob a mesma bandeira, e em reservar toda a sua admiração e simpatia para 'o inimigo'". (2)
Ele recorda também os termos de que se serviu Louis Veuillot para estigmatizar o Liberalismo:
"O liberalismo é uma doença que se manifesta por uma ausência de horror pela heresia, por uma complacência perpétua para com o erro, ou por um certo gosto pelas armadilhas que este arma e, frequentemente, por uma certa pressa em se deixar apanhar por elas". (3)
Antes de examinar as diferentes categorias de "liberais" que pôde observar, Adolphe Retté propõe a definição pessoal que extraiu de sua experiência:
"A característica principal dos liberais é que eles parecem esquecer incessantemente que o seu privilégio de católicos — isto é, de homens a quem Deus outorgou o enorme benefício de possuir a verdade — implica deveres imperiosos. Dir-se-ia que essas obrigações os incomodam. Dir-se-ia também que se envergonham de atestar sua fé perante a incredulidade reinante. É por isso que usam o equívoco como um expediente para se convencerem de que 'servir a dois senhores' não constitui uma falta grave para com Nosso Senhor. Em vez de admiti-lo, recorrem a sutilezas para justificar suas aproximações aos inimigos de Deus. Flertam com eles sob o pretexto do 'mal menor', como se houvesse graus no ato de negar a Revelação. Em suma, caem em todas as armadilhas preparadas para eles pelo ateísmo no poder, tamanha é a pressa que têm de se conformar o máximo possível aos seus costumes e práticas. Ocorre-lhes, contudo, de tempos em tempos, alguns escrúpulos. Mas logo se tranquilizam repetindo a si mesmos que fortalecem a Igreja porque deixam de lado os princípios sobre os quais Deus a fundou. Esta ilusão os envolve em miragens a tal ponto que se tornam amantes apaixonados da quimera e merecem que se lhes aplique a sentença de Bossuet: 'É um grande desregramento do espírito ver as coisas como se deseja que sejam, e não como realmente são'". (4)
Entre os liberais, Retté distingue os otimistas, que consideram que tudo vai bem, que tudo está pelo melhor no melhor dos mundos possíveis e que, em última análise, não há motivo para preocupação. Tudo se resolverá porque Deus prometeu. Esse otimismo beato levaria, na prática, à recusa do esforço. O advento do reino de Deus exige nossa colaboração assídua.
Ele denuncia, em seguida, aqueles que chama de híbridos. São estéreis porque praticam o compromisso entre os dogmas da Igreja e os falsos dogmas da Revolução, subordinando frequentemente os direitos de Deus aos direitos do homem. Acreditam — com singular ingenuidade — que podem, se não conciliar seus adversários, ao menos atenuar a maleficência de sua ação política. Os híbridos lamentam qualquer proclamação ou decisão da Igreja que seja enfática demais. A proclamação do dogma da Imaculada Conceição, do Syllabus, da Infalibilidade Pontifícia, sempre os encontrou reticentes e, por vezes, dissimuladamente hostis. Querem agradar a Deus, mas sem ofender o Diabo. (5)
A terceira categoria, segundo Retté, é a dos anarquistas inconscientes. Em sua época, orbitavam as cercanias do Sillon, indo frequentemente além para desembocar no relativismo doutrinário e nas piores alianças ideológicas e políticas.
Por fim, um lugar de destaque deve ser reservado aos Cortesãos da Finança. São discretos, mas numerosos, esses liberais servos de Mamom. Sua dureza de coração, sua avareza e seu egoísmo vestem-se de considerações especiosas, ou mesmo de hipocrisia, para justificar sua avidez pelo lucro e seu desprezo pelo pobre.
Sem dúvida, desde que esta análise foi feita, inúmeras mutações ocorreram. As relações entre a Igreja e o mundo político evoluíram. As mentalidades mudaram; as situações sociais também. O mundo do último quartel do século XX não é mais, de forma alguma, o dos anos 1920/1930.
No entanto, um observador atento não terá dificuldade em reencontrar em certos católicos de hoje (para quem o termo "liberal" já não significa muita coisa) as tendências de seus antecessores, terrivelmente acentuadas (penso, em particular, no liberalismo doutrinário, no laxismo dos costumes nas melhores famílias, no abandono das tradições, na ignorância dos direitos de Deus). Uma grande infidelidade é sempre precedida por inúmeras pequenas infidelidades. Por não tê-las denunciado e combatido suficientemente em tempo útil, fomos precipitados em uma catástrofe sem precedentes. Os jovens que nos seguem e que estão conscientes da situação pressentem a magnitude da tarefa que os espera.
Adolphe Retté clamou no deserto, e tantos outros profetas com ele, sepultados hoje em um profundo esquecimento. Seu ensinamento é de uma atualidade evidente. É significativo que as últimas linhas que escreveu, três dias antes de sua morte (8 de dezembro de 1930), apresentem-se como a conclusão de sua mensagem. Ei-las:
"5 de dezembro — Louis Veuillot escreveu: 'Católicos, dizei à sociedade que ela está no erro e que perecerá... Dizei-lhe que Jesus Cristo é o criador, o distribuidor e o ordenador da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Dizei-lhe que, fora de Jesus Cristo, estas palavras deixam de exprimir coisas verdadeiras e passam a ser apenas passaportes falsificados do erro sangrento, credenciais da morte'.
Isto é profundamente justo e é uma alusão cortante às ilusões de certos católicos que sentem a estranha necessidade de prestar culto à Revolução. Essas pobres pessoas não conseguem perceber que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, concebidas segundo os supostos Direitos do Homem, geraram a negação dos únicos direitos reais: os Direitos de Deus, que têm como corolário os deveres dos homens..." (6)
F. M. d'A.
(1) Adolphe Retté - La Maison en ordre, p. 228.
(2) Paul Bourget - Le Démon du Midi (Tomo I, p. 282).
(3) Louis Veuillot - Mélanges (3ª série, tomo 3).
(4) Adolphe Retté - Jusqu'à la Fin du Monde (p. 95/96).
(5) A raça dos "híbridos" não está extinta. São Pio X continua sendo a "besta negra" do clã. "Não sou desta paróquia", ironizava François Mauriac. Pessoalmente, ouvi um padre, professor de Faculdade Católica, lamentar a proclamação do dogma da Assunção como inoportuna.
(6) Adolphe Retté - En attendant la Fin - Journal posthume (p. 177).